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Resolvemos começar os trabalhos da newsletter falando um pouquinho de história. Nosso primeiro texto fala um pouco sobre um movimento de repressão bastante presente no período ditatorial da Coreia do Sul, o Baekgoldan, que neste ano foi rememorado em uma coletiva de imprensa na Assembleia Nacional sul-coreana organizada por uma representante do Partido Poder do Povo chamada Kim Min-Jeon.

No próximo tópico estão os textos produzidos pelos integrantes da Curadoria nas semanas anteriores. Nesta edição temos um verbete contando a história de Na Hye-sok produzido por Larissa Mikaely de Farias e Eduarda Christine Souza Pucci e uma notícia sobre as relações entre as Coreias traduzida por Thaisa Viana.

Ainda nesta seção trazemos a divulgação do nosso evento que ocorrerá agora no final de outubro, a Semana da Coreia. Teremos dois workshops ministrados pelas integrantes Camila Bolini e Maria Larissa de Brito e a discussão de dois filmes, Harbin e I can speak.
Esperamos te ver por lá!

Achamos interessante também trazer algumas indicações do que vimos nas últimas semanas para trocar um pouco com você que está lendo agora.

Aproveite e nos conte o que achou.

Baekgoldan (백골단), símbolo de violência e repressão

por Clara Moraes e Vitória Ferreira Doretto
Originalmente, Baekgoldan (백골단) era o apelido de uma gangue política organizada fora da Assembleia Nacional pelo Partido Liberal durante o governo de Syngman Rhee, nos anos 1950 (antes da Guerra da Coreia), para inflar manifestações populares a favor de Rhee e seu governo e dar a impressão de que ele era mais popular que seu opositor, Kim Il-Sung. Eles formaram uma organização civil chamada Liga de Autodefesa do Povo e organizaram diversas movimentações, dentre elas: manifestações de cidadãos locais, manifestações para denunciar legisladores antinacionais, para condenar legisladores antinacionais e para declarar autodeterminação nacional.

Décadas depois, no governo de Chun Doo-hwan, o nome foi usado novamente para se referir à unidade de policiais à paisana de repressão policial enviados para praticar violência contra ativistas pró-democracia em 1980 e 1990. Sendo assim, o Baekgoldan (백골단), ou White Skull Corps (Esquadrão Osso Branco), se tornou um grupo militar estabelecido pelo governo de Chun Doo-hwan na Agência da Polícia Metropolitana de Seul em 1985, durante a ditadura militar da Coreia do Sul.

Os membros do Baekgoldan eram policiais à paisana, ex-membros das forças especiais e mestres de artes marciais (BBC News, 2025), normalmente vestindo jeans azuis, jaquetas e capacetes brancos, organizados especificamente para reprimir e prender manifestantes em universidades nas décadas de 1980 e 1990. O Baekgoldan foi notório pela forma especial de repressão aos protestos, como estar armado com um porrete curto e um escudo de pequeno porte, atropelando e dispersando rapidamente os manifestantes. Devido à sua brutalidade, o Baekgoldan é considerado um símbolo da repressão temerosa, opressora e brutal contra manifestantes durante a ditadura sul-coreana — e, apesar disso, foi reorganizado como Força-Tarefa Policial não à paisana (Ahn, 2024). Eles se tornaram uma "assinatura" da violência policial.

Diferente de outros grupos militares, o Baekgoldan não dispersava as manifestações nos protestos antiditatoriais, como a tropa de choque, mas agia enquanto os manifestantes se dispersavam: o grupo perseguia manifestantes pelas ruas, espancando quem alcançava. Os membros do grupo “não viam os protestantes como pessoas que deveriam ser protegidas, mas como criminosos que resistiam à autoridade do Estado. [...] eles tinham a disposição de cometer violência estatal de maneira implacável” (Wang, 2025, tradução nossa).

Acredita-se que a unidade esteja envolvida na morte de um estudante do primeiro ano da Universidade Myongi, Kang Kyung-dae, que foi espancado até a morte em uma manifestação em 1991.

Segundo Ahn (2024, p. 69), um protesto estudantil era considerado um “espaço ideologicamente tendencioso, transbordando sentimentos ‘anti-EUA’, e um lugar arriscado no qual era preciso estar ciente do perigo”, principalmente durante a “era de brutalidade", “em meio à crescente tensão entre o estado e os grupos ativistas estudantis no final da década de 1990” (p. 69), que não chegou ao fim mesmo após a democratização.

Em agosto de 1996, um confronto estrondoso irrompeu depois que a polícia bloqueou um campus inteiro da Universidade Yonsei, onde a Hanchongryeon (Federação Nacional de Associações de Estudantes Universitários) realizaria o ‘Festival Pan-nacional de Manifestação e Unificação’, pedindo ‘um acordo de paz entre a Coreia do Norte e os EUA’, ‘a retirada da USFK (forças dos EUA, Coreia)’ e ‘unificação federal’ (C. Park, 2016). Os estudantes, que haviam organizado sua manifestação militante atirando pedras e coquetéis molotov, acabaram ocupando os prédios da universidade. Após um confronto violento de cinco dias, aproximadamente 25.000 policiais, com Baekgoldan à frente, conseguiram reprimir os manifestantes em uma operação repressiva com helicópteros. O Incidente de Hanchongryeon, que resultou no maior número de prisões, 5.858 detidos (resultando em 462 prisões), é considerado um ponto de virada no qual o movimento estudantil militante perdeu terreno e se isolou do público (J. Ahn, 2016) (Ahn, 2024, p. 70, grifos originais, tradução nossa).
Baekgoldan na década de 1990 (Choi Yun-seok via Lee, 2020)
Baekgoldan na década de 1990 (Choi Yun-seok via Lee, 2020)
Baekgoldan em ação (Korea Democracy Foundation via Kim, 2025)
Baekgoldan em ação (Korea Democracy Foundation via Kim, 2025)
Baekgoldan uniformizados (Korea Democracy Foundation, disponível em: https://archives.kdemo.or.kr/file-img/vol02/009/071/00907123/00907123_0001.jpg)
Baekgoldan uniformizados (Korea Democracy Foundation, disponível em: https://archives.kdemo.or.kr/file-img/vol02/009/071/00907123/00907123_0001.jpg)
O Baekgoldan não se desfez e desapareceu em um momento específico, mas sim foi se transformando e se adaptando gradualmente, à medida que as diferenças em aparência e função em relação à unidade de supressão geral diminuíram devido às mudanças no contexto. É por isso que a unidade à paisana não foi dissolvida separadamente e continuou a ser uma tropa de choque regular.

Após o “incidente” na Universidade Yonsei em 1996, um novo uniforme melhorado e acolchoado em forma de colete à prova de balas, azul marinho e com ombreiras adicionadas, foi adotado e tanto as unidades uniformizadas quanto as à paisana começaram a usar esse novo uniforme. À medida que todos começaram a usar o novo uniforme acolchoado, mais leve, o significado da companhia à paisana começou a desvanecer; além disso, o ambiente dos protestos mudou e os métodos de repressão acompanharam as mudanças. E após a declaração de proibição do gás lacrimogêneo em 1999, os papéis das unidades uniformizadas e à paisana tornaram-se quase idênticos.

Por volta dos anos 2000, as companhias à paisana existentes pararam de usar jaquetas e calças jeans, e seus capacetes característicos foram pintados de preto, tornando-os difíceis de distinguir dos capacetes comuns. O motivo pelo qual a Unidade à Paisana não é mais chamada de Baekgoldan provavelmente se deve, em grande parte, à sua aparência externa.

Baekgoldan, repercussões em 2025


Às vezes precisamos olhar para o passado para entender alguns desdobramentos do presente, e este é o caso para entendermos o surgimento da organização juvenil de extrema direita que se autodenomina Baekgoldan, em uma inspiração clara ao 백골단 do século passado.
Kim Min-Jeon em coletiva de imprensa com membros do grupo moderno Baekgoldan (Kim, 2025)
Kim Min-Jeon em coletiva de imprensa com membros do grupo moderno Baekgoldan (Kim, 2025)
Em janeiro de 2025, em coletiva de imprensa na Assembleia Nacional sul-coreana organizada por Kim Min-jeon, do Partido Poder do Povo (PPP), partido do presidente impeachmado Yoon Suk Yeol, o grupo se lançou como uma Liga da Juventude Anticomunista, e seu líder, Kim Jung-hyun (42), disse que o grupo moderno Baekgoldan continuará a existir como uma organização subordinada que funcionará como um "grupo de vigilantes" oferecendo vigilância e proteção ao ex-presidente.

Na ocasião, o grupo exigiu o fim das investigações sobre Yoon e tinha como um de seus objetivos impedir a prisão do ex-presidente. Essa coletiva gerou reações de várias alas do governo e da sociedade civil ao trazer à tona um momento histórico extremamente violento e repressivo na Coreia do Sul.

O nome Liga da Juventude Anticomunista também é idêntico ao de uma rede de jovens organizada e que desempenhou um papel fundamental na fraude eleitoral de 1960 para o então presidente Syngman Rhee, o primeiro presidente da Coreia que renunciou em meio à indignação pública por sua fraude eleitoral, governo autocrático e repressão violenta da oposição.

Para o ChosunBiz (2025), Kim Jung-hyun declarou que nomear o grupo em apoio ao presidente Yoon como "White Skull Corps" não implica a necessidade de uma organização violenta, dizendo: "No atual estado de emergência nacional, um nome de grupo com uma imagem forte como White Skull Corps não é uma má ideia".

Hoje, o grupo de extrema direita faz toda a sua movimentação de forma on-line, principalmente através de grandes salas de bate-papo com senha/secretas no KakaoTalk (o aplicativo de mensagens mais utilizado na Coreia do Sul). O seu possível envolvimento com grupos incel e reacionários ainda está sendo investigado. É importante também notar que o grupo moderno se descreve como uma "juventude", mas seus membros claramente têm entre 35 e 40 anos. A ideia é se contrapor aos manifestantes pró-impeachment, que em sua maioria são mulheres de 20 a 30 anos (Lee, 2025).

Este contraste que exacerba a valorização do homem e do que é masculino aparece socialmente nessa performance da violência e da repressão, principalmente com a ascensão da extrema direita. A negação às manifestações pró-impeachment e a releitura de um grupo repressivo com o apoio do Estado geraram um movimento de revolta e temor no país por se tratar da retomada de um momento histórico “vergonhoso” para muitos cidadãos sul-coreanos.

Apesar do grupo institucionalizado no governo de Chun Doo-hwan não existir mais, não houve sua dissolução e as pessoas responsáveis ainda exercem suas funções na sociedade como se aquele momento nunca tivesse existido. A maneira como as notícias são encontradas dá a sensação de que o grupo foi se dissolvendo no ar até não mais existir. Mas a violência e a repressão ainda são uma lembrança sólida na memória da população sul-coreana.

Indicação Audiovisual sobre o tema
1987 - When the Day Comes


Sob o regime militar de Chun Doo Hwan em 1987, o ativista Park Jong Chul é torturado e morto por participar de protestos pró-democracia. Quando o diretor de investigação anticomunista Park Cheo Won (Kim Yoon Seok) ordena a cremação do corpo para encobrir as evidências, o promotor Choi Hwan (Ha Jung Woo) se recusa a aprovar a ordem. Assim que a autópsia revela a verdade, Choi Hwan é demitido, mas consegue vazar a informação para o jornalista Yoon Sang Sam (Lee Hee Joon). Para abafar o caso, o diretor Park força alguns detetives a assumirem a culpa. Na prisão, o detetive Jo Han Kyung (Park Hee Soon) compartilha a verdade com o guarda Han Byung Yong (Yoo Hai Jin), que tenta convencer sua sobrinha Yeon Hee (Kim Tae Ri) a transmitir as informações à oposição. Este filme foi baseado nos eventos que culminaram na Luta Democrática de Junho de 1987.
Trailer: https://www.youtube.com/watch?v=19hvVaeJ4tI
(atualmente disponível no Viki)

Referências


AHN, Ji-Eun. How Candlelight Vigils Matter in Post-democratic South Korea? Routinisation, Emotional Dynamics, and Organisational Practices of Protest Activism. 2024. Tese (Doutorado em Sociologia) - University of Edinburgh, 2024. Disponível em: https://era.ed.ac.uk/handle/1842/42157. Acesso em: 08 out. 2025.

백골단 [Baekgoldan]. Namu Wiki [S. d.]. Disponível em: https://namu.wiki/w/%EB%B0%B1%EA%B3%A8%EB%8B%A8. Acesso em: 08 out. 2025.

백골단 (동음이의어) [Baekgoldan (homonym)]. Namu Wiki [S. d.]. Disponível em: https://namu.wiki/w/%EB%B0%B1%EA%B3%A8%EB%8B%A8%28%EB%8F%99%EC%9D%8C%EC%9D%B4%EC%9D%98%EC%96%B4%29. Acesso em: 08 out. 2025.

BALHORN, Max. How South Korea’s Pro-Democracy Movement Fought to Ban “Murderous Tear Gas”. Jacobin, 2020. Disponível em: https://jacobin.com/2020/06/south-korea-democracy-movement-protests-tear-gas. Acesso em: 08 out. 2025.

BBC NEWS. '백골단'이 뭐길래...하얀 헬멧 등장에 논란이 된 국회. BBC, 2025. Disponível em: https://www.bbc.com/korean/articles/cd0j5gxmnr3o. Acesso em: 10 out. 2025.

CHOI, Jung-suk. Yoon supporters warn of civil war over possible arrest, launch 'White Skull Corps'. ChosunBiz, 2025. Disponível em: https://biz.chosun.com/en/en-society/2025/01/09/ISFIYDHUS5GPLNHIC6FPZBZ67I/. Acesso em: 08 out. 2025.

KIM, Min-Young. PPP lawmaker platforms right-wing 'White Skull Corps' vowing to stop Yoon's 'illegal' arrest. Korea JoongAng Daily, 2025. Disponível em: https://koreajoongangdaily.joins.com/news/2025-01-09/national/politics/PPP-lawmaker-platforms-rightwing-White-Skull-Corps-vowing-to-stop-Yoons-illegal-arrest/2219090. Acesso em: 08 out. 2025.

LEE, Eun-woo. Angry Young Men Amid South Korea’s Impeachment Turmoil. The Diplomat, 2025. Disponível em: https://thediplomat.com/2025/02/angry-young-men-amid-south-koreas-impeachment-turmoil. Acesso em: 10 out. 2025.

LEE, Hyo-jin. Ruling party lawmaker faces backlash for supporting 'anti-communist' youth group. The Korea Times, 2025. Disponível em: https://www.koreatimes.co.kr/southkorea/politics/20250110/ruling-party-lawmaker-faces-backlash-for-supporting-anti-communist-youth-group. Acesso em: 30 set. 2025.

LEE, Jun-ho. 30년 전 고대에서 함께 춤춘 백골단, 잘 지내시나요? [Como vai você, Baekgoldan, que dançou junto nos tempos antigos há 30 anos?] Oh My News, 2020. Disponível em: https://www.ohmynews.com/NWS_Web/View/at_pg.aspx?CNTN_CD=A0002614809. Acesso em: 08 out. 2025.

SONG, Seung-hyun. ‘White skull squad’: die-hard Yoon supporters spark backlash for resurrecting dark era. The Korea Herald, 2025. Disponível em: https://www.koreaherald.com/article/10387654. Acesso em: 07 out. 2025.

WANG, Son-taek. [Wang Son-taek] A brief history of 'white skull squads'. The Korea Herald, 2025. Disponível em: www.koreaherald.com/article/10391231. Acesso em: 27 ago. 2025.

1987: quando chega o dia. Viki. 2017, 129 minutos. Disponível em: https://www.viki.com/movies/40886c-1987-when-the-day-comes?qId=61bed1485c26738e48186cc2be032435.

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