Notícia: The Korea Times
Tradução: Beatriz Santos Simões
Fotografia: The Korea Times. Link: https://www.koreatimes.co.kr/southkorea/society/20250527/south-koreas-high-senior-employment-rate-masks-low-job-quality
Conforme conta o jornal on-line The Korea Times (em maio de 2025), sul-coreanos sêniores estão recorrendo a empregos de baixos salários devido a uma desconexão com suas funções iniciais. A autora da notícia, repórter Jun (2025), relata a situação de um homem de 65 anos, o senhor Kim, que se aposentou três anos atrás de uma função no setor de contabilidade em uma empresa de porte médio. Recentemente, o senhor está empregado como estoquista em um supermercado de bairro e com dificuldades em conseguir outro emprego.
O senhor Kim acreditava que, por ter trabalho 30 anos na área de administração financeira, seu conhecimento garantiria outro emprego similar após aposentar-se. Porém, as empresas, de uma forma geral, não mostram interesse em contratar pessoas mais velhas, e essa parcela da população acaba muitas vezes limitada a empregos de segurança ou limpeza mal pagos. Nesse sentido, para Kim, empregos em armazéns e gerenciamento de inventário seriam posições relativamente melhores.
O senhor Kim assim declarou: “Pensei que eu poderia fazer bom uso da minha experiência, mas a realidade foi diferente. Agora eu carrego caixas durante quatro horas por dia por um salário-mínimo. Não tenho escolha porque minha pensão não é o bastante para pagar as contas”.
De acordo com o relatório OECD Reviews of Pension Systems: Korea da OCDE1 (2022), a maioria dos trabalhadores na Coreia do Sul se aposenta relativamente cedo, o que acontece devido à cultura de empresas privadas em estabelecer idades limites para uma aposentadoria obrigatória. Por lei, é prevista a possibilidade de aposentadoria a partir de 60 anos, porém, muitos estabelecimentos incentivam seus funcionários a aposentarem antes dessa idade limite através de acordos, devido ao sistema de promoção salarial com base na senioridade. Outro fator que influencia esse tipo de política é a competitividade, pois pessoas mais velhas muitas vezes não recebem treinamentos para acompanharem o avanço tecnológico (OECD, 2022).
As aposentadorias do setor privado são cobertas pelo Sistema Nacional de Pensão (National Pension Scheme – NPS). Os ganhos dos aposentados desse sistema são calculados da seguinte forma: metade do valor é baseado nos ganhos individuais e a outra metade é baseada na média dos ganhos de todos os que contribuem (OECD, 2022). Dessa forma, aqueles que contribuíram por menos tempo, como é o caso dos que se aposentam mais cedo ou não podem contribuir regularmente por questões financeiras, recebem um valor menor. Para o setor público, professores particulares, militares e trabalhadores do correio, outros sistemas de pensões são aplicados (OECD, 2022).
A Coreia do Sul é um caso particular por ter altas taxas de pobreza e de emprego na faixa de idosos, estando entre as maiores do mundo, afirma a repórter Jun (2025). De acordo com o relatório Pensions at a Glance 2023, publicado pela OCDE em 2024, a taxa de pobreza dentre os sul-coreanos mais velhos alcançou 40,4% – a maior entre os países da OCDE, cuja média é de apenas 14,2%. Por outro lado, a taxa de empregos dentre as pessoas de 65 anos ou mais também é uma das maiores. O Gabinete de Orçamento da Assembleia Nacional (National Assembly Budget Office – NABO) relatou que a contratação deste grupo etário estaria nos 37,3% em 2023.
Como afirma Jun (2025), esses dados refletem a baixa qualidade dos empregos disponíveis para adultos mais velhos, não só em termos de baixo salário, mas também de baixo status. Ainda, o relatório mais recente da NABO mostrou que muitos desses seniores trabalham em funções irregulares em pequenos negócios, atuando em funções de baixa qualificação. Dentre os assalariados de 65 anos ou mais, 61,2% estão em funções não fixas e 49,4% estão empregados em pequenas empresas com menos de 10 funcionários. Em termos de tipo de emprego, trabalhos simples são cerca de 35,4%, enquanto operadores de máquinas constam como 15%.
Dessa forma, Jun (2025) aponta que o declínio da qualidade do trabalho leva a uma queda nos salários em relação ao que ganhavam antes de se aposentarem. Segundo o relatório mencionado acima, a média de salário para trabalhadores com quase 60 anos, antes da aposentadoria, era de 3.5mi wons (cerca de 2.550 dólares). Contudo, essa quantia diminui para 2.8mi wons para aqueles na faixa dos 60 anos que estão voltando para o mercado de trabalho após aposentarem, sendo assim uma baixa de 20,5% na sua renda. Essa deterioração nos salários e nas condições de trabalho é atribuída a desconexão entre a expertise acumulada desses trabalhadores e a sua nova função.
Dentre os assalariados mais velhos, dos que se empregaram novamente após a aposentadoria, 53,2% afirmaram que seu trabalho atual é “nem um pouco” ou “apenas um pouco” relacionado a suas ocupações anteriores. Esse relatório apela para que os formuladores de políticas desenvolvam medidas que apoiem os idosos deslocados de sua função inicial, de forma a permanecerem ativos economicamente. O relatório, segundo Jun (2025), teria apontado que “a população mais velha da Coreia [do Sul] mostra uma forte vontade de continuar trabalhando mesmo após a aposentadoria. […]. Ajudar essa população a permanecer em seus campos iniciais ou relacionados possivelmente exercerá um papel chave na diminuição da desigualdade de renda na idade avançada e fará melhor uso das suas habilidades acumuladas e experiência”.
A Coreia do Sul enfrenta um rápido envelhecimento populacional, com a diminuição do número de pessoas em idade de trabalho, devido à constante diminuição da taxa de natalidade, assim como um aumento do número de pessoas idosas. Espera-se que, no ano de 2060, tenha-se uma relação de três pessoas com 65+ para cada uma pessoa jovem de menos de 20 anos (OECD, 2022). A pressão sobre os sistemas de pensão, principalmente no NPS, é prevista como insustentável ao longo prazo.
Com as eleições deste ano, 2025, os candidatos se dirigiram a essa questão durante as campanhas (Lee, 2025). Após uma primeira reforma estrutural, que aumentou a contribuição de 9% para 13%, os jovens mostram frustração por terem que contribuir mais, mas ao mesmo tempo receber menos futuramente (Lee, 2025). A partir dessa crise demográfica sul-coreana, é possível se questionar até que ponto todo o sistema de produção do país, que envolve o regime trabalhista, os esquemas de aposentadoria e a desigualdade de gênero, se sustentará .
REFERÊNCIAS
JUN, Ji Hye. Korea’s high senior employment rate masks low job quality. The Korea Times, 27 maio. 2025. Disponível em: https://www.koreatimes.co.kr/southkorea/society/20250527/south-koreas-high-senior-employment-rate-masks-low-job-quality. Acesso em: 12 de jun. 2025.
LEE, Yeonwoo. Targeting young voters, pension reform emerges as major policy issue. The Korea Times, 19 maio 2025. https://www.koreatimes.co.kr/economy/20250519/targeting-young-voters-pension-reform-emerges-as-major-policy-issue-in-south-korea. Acesso em: 25 jun. 2025.
OECD. OECD Reviews of Pension Systems: Korea. OECD Reviews of Pension Systems. Paris: OECD Publishing, 2022. DOI: https://doi.org/10.1787/2f1643f9-en. Acesso: em 25 jun. 2025.
SOBRE A AUTORA

Beatriz Santos Simões é graduanda em Relações Internacionais pela Universidade Federal de Sergipe. Integrante do Grupo de Estudo Leste-Asiático (GELA/UFS). Integrante da Curadoria de Estudos Coreanos (CEÁSIA/CEA/UFPE).
E-mail: biassimoes12@gmail.com
- Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico, uma organização internacional fundada em 1961. ↩︎