por: Beatriz Santos Simões
Imagem: The Korea Times. Publicado em 19 jun. 2025. Disponível em: https://www.koreatimes.co.kr/economy/others/20250619/koreas-gender-pay-gap-is-the-worlds-worst-will-transparency-fix-it.
Não é novidade que a Coreia do Sul é o país membro da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) com a maior disparidade salarial entre gêneros. Para a OCDE, essa disparidade é definida e calculada a partir da diferença entre os rendimentos médios de homens e mulheres, em relação aos rendimentos médios dos homens (OECD, Gender Wage Gap).
Fórmula do Cálculo da Disparidade de Gênero segundo a OCDE
O presente artigo de opinião busca abordar a persistência nos dias de hoje da desigualdade salarial entre homens e mulheres em território sul-coreano, algo que desencadeia em uma desigualdade de gênero nos recebimentos de pensão na velhice. Há, então, uma necessidade de melhor recolhimento de dados e publicização desses, em relação às rendas de homens e mulheres, assim como um olhar conectado para melhor desenvolvimento de políticas públicas efetivas. Nesse sentido, pelos dados obtidos pela Organização até 2023, a Coreia do Sul configura uma disparidade salarial de 29,3%, a maior dentre seus membros e mais que o dobro da média geral dos membros de 11,3% (OECD, Gender Wage Gap). Isso quer dizer que as mulheres sul-coreanas recebem cerca de 29,3% menos em termos de salários que seus colegas homens. De acordo com o The Korea Times (Lee, 2025), para cada 1 milhão de wons recebidos por um homem, uma mulher recebe 707.000 wons.
Esses dados mostram um tímido avanço em relação ao ano de 2022, quando a diferença estava em 31,2% (Lee, 2024). Porém, a falta de dados governamentais e enquadramentos estatísticos claramente definidos dificultam o rastreamento das causas profundas dessa disparidade (Lee, 2025). Dessa forma, como foi reportado pela jornalista Lee (2025), o deputado Shin Changsik (do Reconstruindo a Coreia, um pequeno partido liberal) propôs no dia 18 de março uma emenda para a introdução de um sistema de transparência de informações sobre gênero e remuneração. O plano exigiria que as empresas com mais de 300 funcionários tornassem públicos seus dados relacionados aos seus empregos, categorizando-os por gênero, cargo e função, tempo de serviço e situação empregatícia (regular, temporário, afins). O projeto ainda previa que o Ministério do Trabalho divulgasse relatórios nos quais avaliaria a disparidade salarial com base em gênero, levando em consideração cargo e posição, e formulasse planos anuais de combate a essa diferença que seriam submetidos à Assembleia Nacional. O argumento de defesa dessa proposta afirma que é difícil para as mulheres perceberem que seu salário é menor que o de seus colegas homens, já que não há dados específicos disponíveis, e, quando percebem essa disparidade, não conseguem provar que é uma discriminação.
Infelizmente, a jornalista Lee também nos conta sobre a resistência a esse tipo de medida pela Associação Coreana de Empresas Listada (Korea Listed Companies Association – KLCA), pois estaria indo contra o propósito da Lei de Mercados de Capitais. Um representante da instituição afirmou que essa lei tem como objetivo melhorar a eficiência do mercado através da proteção dos investidores, então, a divulgação de dados deve ser restringida a fatores vinculados à tomada de decisões financeiras (governança corporativa, fatores de risco e desempenho financeiro). Contudo, o deputado Shin rebate essas alegações, com o argumento de que a divulgação das informações pretendidas contribui para um padrão básico de ESG (Environmental, Social, and Governance) nos mercados. Afinal, para o deputado, o que prejudica a reputação das corporações – principalmente entre investidores estrangeiros – é a própria disparidade salarial entre gêneros, e não a divulgação desses dados.
O título da notícia da jornalista Lee (A disparidade salarial entre gêneros na Coreia é a pior do mundo. A transparência resolverá isso?) nos faz questionar até onde a publicização desses dados pode ser capaz de alterar o quadro de desigualdade salarial no país. Para deixar claro, não estamos questionando a necessidade desses dados serem devidamente coletados, categorizados e tornados públicos, pois são essenciais para que se planejem e executem políticas públicas mais eficazes. A reflexão aqui proposta é a de acrescentarmos algo a se pensar no quadro de desigualdade de gênero sul-coreano, no caso, como a diferença entre homens e mulheres na sua trajetória no mercado de trabalho vai além dos salários.
Como nos informa a professora Lee Yoonkyung (2015), 54% das mulheres, em relação a 46% dos homens, ocupam os chamados trabalhos contingentes, isto é, empregos de contratos temporários e/ou de meio período, os quais podem ser considerados inseguros devido à facilidade com que as pessoas são contratadas e demitidas e aos baixos salários em relação aos trabalhos regulares. Além disso, 61,9% das mulheres trabalhadoras estariam em empregos precários (Lee, 2015), e quando se adiciona o fator de status de relacionamento, mulheres casadas que trabalham ocupam 66,3% de empregos irregulares, enquanto homens casados ocupam 36,2% (Lee, 2015).
Ou seja, as políticas de divergência salarial por gênero precisam considerar não só a diferença salarial no exercício da mesma função por homens e mulheres, mas também o fato de que muitas mulheres estão ocupando trabalhos irregulares. Isso se dá muitas vezes, como é possível averiguar através do relatório Rejuvenating Korea (OECD, 2019), devido à cultura de ausentar-se do mercado nos anos em que as mulheres – que decidem ser mães – engravidam e criam seus filhos na primeira infância e, posteriormente, não conseguem empregos regulares. Dessa forma, jovens e idosos de 60+ anos configuraram como os mais prováveis em trabalhar em empregos precários, mas, considerando-se a mesma faixa etária, a disparidade de gênero é mais acentuada para trabalhadores dos 35 aos 60 anos, o que para a professora Lee (2011) confirma a noção de que mulheres trabalhadoras casadas dificilmente conseguem empregos regulares.
E como isso afeta a vida no processo de envelhecimento? A partir de dados da OCDE (2022), considerando a experiência de diversos países, os níveis de pobreza são maiores entre as mulheres com 75+ do que entre os homens. Isso se deve a alguns fatores, como homens terem historicamente um número de empregos maior e a expectativa de vida feminina ser maior. Assim, muitas mulheres acabam dependendo de pensões públicas, das pensões de seus parceiros e de pensões por morte de um parente. Em termos de consequência dos ganhos no mercado de trabalho, espera-se que mulheres que contribuíram menos – seja por não trabalharem de forma contínua ou por não poderem contribuir por baixos ganhos – tenham sua pensão pelo menos um pouco menor; como metade do cálculo da NPS é de rendimentos gerais, o impacto por gênero tem alguma atenuação (OECD, 2022). Para a OCDE, com uma melhoria histórica na ocupação de empregos por mulheres e a conquista de direitos previdenciários, há uma expectativa por maior diminuição da diferença de rendimentos nas pensões entre homens e mulheres.
Contudo, a partir de dados coletados pela Statistics Korea e da OCDE em 2013, Lee e Yeung (2020) apontam que:
– Apenas 37,6% da população sul-coreana de 65 anos ou mais recebe os benefícios da pensão nacional;
– A porcentagem de mulheres acobertadas pelas pensões por idade era de apenas 30,8%, em relação a 69,2% dos homens, com uma alta taxa de pobreza entre as mulheres;
– Adultos sul-coreanos mais velhos afirmam que apenas 16% da sua renda vem de pensão e segurança social.
Em síntese, este artigo buscou discutir a disparidade de ganhos entre gêneros, na Coreia do Sul, inicialmente apontando a persistência da questão no país e a necessidade de dados apropriadamente coletados e publicizados. Em seguida, tentou-se ampliar a discussão para uma reflexão acerca da desigualdade de gênero na velhice, um desenvolvimento da desigualdade que existia desde sempre – pelos papéis de gênero, pela dificuldade em exercer trabalhos regulares e devidamente remunerados e pela menor contribuição ao sistema de pensões. Por fim, o objetivo geral consistiu em conectar mais de uma faceta da disparidade de ganhos, indicando a questão como algo que se manifesta para além do período trabalhado e que seria interessante ter um amplo olhar na elaboração de políticas públicas.
REFERÊNCIAS
LEE, Jaeeun. South Korean workers’ average annual salary hit high of $48,922 in 2022, nearing OECD average, but women earn only 68.8 percent of what men do. The Korea Herald, 23 maio. 2024. Disponível em: https://www.koreaherald.com/article/3400350. Acesso em 25 jun. 2025.
LEE, Yeonjin, YEUNG, Wei-Jun Jean. The Country that Never Retires: The Gendered Pathways to Retirement in South Korea. The Journals of Gerontology: Series B, 2020. DOI:10.1093/geronb/gbaa016.
LEE, Yoonkyung. Labor after Neoliberalism: The Bierth of the Insecure Class in South Korea. Globalizations, v. 12, n. 2, p. 184-202, 2015. DOI: 10.1080/14747731.2014.935087
LEE, Yeonwoo. Korea’s gender pay gap is the world’s worst. Will transparency fix it? The Korea Times, 19 jun. 2025. Disponível em: https://www.koreatimes.co.kr/economy/others/20250619/koreas-gender-pay-gap-is-the-worlds-worst-will-transparency-fix-it. Acesso em 25 jun. 2025.
OECD. Gender Wage Gap. [202-]. Disponível em: https://www.oecd.org/en/data/indicators/gender-wage-gap.html. Acesso em 25 jun. 2025.
OECD. Rejuvenating Korea: Policies for a Changing Society. Paris: OECD Publishing, 2019. DOI: https://doi.org/10.1787/c5eed747-en. Acesso em 27 jun. 2025.
SOBRE A AUTORA

Beatriz Santos Simões
Graduanda em Relações Internacionais pela Universidade Federal de Sergipe. Integrante do Grupo de Estudo Leste-Asiático (GELA/UFS). Integrante da Curadoria de Estudos Coreanos (CEÁSIA/CEA/UFPE).
E-mail: biassimoes12@gmail.com