O Movimento pela Democratização de Gwangju de 18 de maio, também conhecido como Massacre de Gwangju, ocorrido entre 18 e 27 de maio de 1980, foi um dos episódios mais marcantes da luta pela democracia na Coreia do Sul. Após a ascensão do general Chun Doo-hwan ao poder e a ampliação da lei marcial, milhares de cidadãos foram às ruas para reivindicar direitos democráticos, liberdade de imprensa e o fim da ditadura. Em Gwangju, a repressão militar foi particularmente brutal, resultando em mortes, torturas, estupros e desaparecimentos. Apesar da violência, a resistência da população transformou o movimento em um símbolo da luta contra o autoritarismo e contribuiu para o processo de redemocratização do país. Esse momento histórico do país ganhou grande espaço nas representações artísticas, como na literatura, com o livro Atos Humanos (2014), de Han Kang, e no cinema, com o filme A Taxi Driver (2017), que levou essa história ao grande público ao acompanhar a trajetória do taxista Kim Man Seob e do jornalista alemão Jürgen Hinzpeter durante os acontecimentos em Gwangju. Inspirada em fatos reais, a obra busca destacar o protagonismo dos cidadãos diante da repressão e desempenha papel importante na preservação da memória do Movimento. No entanto, a narrativa construída pelo filme também revela limitações significativas na forma como representa os sujeitos envolvidos nesse processo histórico. Embora as mulheres tenham participado ativamente das manifestações, suas experiências são amplamente silenciadas no filme. Enquanto os personagens masculinos ocupam o centro da narrativa como heróis, trabalhadores, estudantes e agentes políticos, as personagens femininas aparecem de forma secundária, frequentemente sem nome próprio e definidas apenas por sua relação com figuras masculinas, como mães ou esposas. Essa escolha narrativa contribui para a construção de uma memória masculinizada do Movimento pela Democratização de Gwangju de 18 de maio. Ao privilegiar histórias de solidariedade e heroísmo entre homens, o filme marginaliza a atuação política das mulheres e reforça estereótipos de gênero que as afastam do protagonismo histórico. Diversas pesquisadoras apontam que esse apagamento não ocorre apenas no cinema, mas também em parte das narrativas oficiais sobre o movimento democrático sul-coreano. Por exemplo, Kang Hyunah, especialmente no artigo “Women’s Experiences in the Gwangju Uprising: Participation and Exclusion”, pontua a importância do papel das mulheres no Movimento. Segundo a autora, as mulheres atuaram na organização da resistência, na circulação de informações, no atendimento aos feridos e na preservação da memória dos mortos (Kang, 2010), demonstrando que essa exclusão que ocorre nas narrativas hegemônicas não é um resultado da ausência de participação política, mas sim de processos de construção da memória que privilegiam experiências masculinas. De modo semelhante, as trabalhadoras sexuais de Gwangju, que ficavam na rua conhecida como “Call Box Street” (Rhee, 2019), desempenharam um papel fundamental ao doar sangue para os feridos e ao ajudar a esconder jovens perseguidos pelos militares. Apesar dessa contribuição significativa, suas identidades e trajetórias permaneceram amplamente desconhecidas. Além disso, diversos hospitais recusaram suas doações de sangue por considerá-las mulheres envolvidas em uma profissão tida como impura, evidenciando o estigma social que enfrentavam (Rhee, 2019). Esse apagamento das experiências femininas em processos históricos pode ser compreendido à luz das proposições de Nira Yuval-Davis em Gender and Nation, obra na qual a autora destaca a maneira com que as mulheres tendem a ocupar posições periféricas nas narrativas sobre a construção da nação, mesmo quando sua participação é fundamental para os acontecimentos políticos. Como consequência, esse apagamento também se manifesta nas representações culturais, incluindo o cinema, que frequentemente reproduz visões masculinizadas da história e limita a visibilidade da atuação feminina. Dessa forma, embora A Taxi Driver seja uma obra relevante para a divulgação da história de Gwangju, sua representação evidencia como a memória coletiva pode reproduzir exclusões. Ao deixar em segundo plano as mulheres que participaram ativamente da resistência, o filme contribui para o silenciamento de experiências fundamentais para a compreensão do Movimento e da própria luta pela democracia na Coreia do Sul. Com isso, percebemos como as disputas que envolvem a memória de Gwangju demonstram que a identidade nacional não é uma característica fixa e estática, mas uma construção social e política. Nesse processo, definir quem é lembrado como protagonista da história também significa definir quem é reconhecido como representante da própria nação.
KANG, Hyun-ah. Women’s Experiences in the Gwangju Uprising: Participationand Exclusion. New Political Science, UK, v. 25, n. 2, p. 193-206, ago. 2010. Disponível em: https://www.tandfonline.com/doi/abs/10.1080/07393140307194. Acesso em: 09 jun. 2026.
LEE, Jae-eui. Gwangju diary: beyond death, beyond the darkness of the age. Los Angeles: University of California, UCLA Asian Pacific Monograph Series, 1999.
LEE, Myung-sik. The History of Democratization Movement in Korea. Seul: Korea Democracy Foundation(KDF), The May 18 Memorial Foundation, 2010.
LEWIS, Linda Sue. Laying Claim to the Memory of May: A look back at the 1980Kwangju Uprising. Estados Unidos da América: Hwai’i Studies on Korea, 2002.
RHEE, Jooyeon. Beyond victims and heroes: The 5.18 cinema across genderboundary. Introduction: The problem of representing historical trauma incultural productions. Korean Studies, v. 43, p. 68-95, 2019. Disponível em: https://pennstate.pure.elsevier.com/en/publications/beyond-victims-and-heroes-the-518-cinema-across-gender-boundary-i. Acesso em: 03 jun. 2026.
SHIM, David. Cinematic Representations of the Gwangju Uprising: Visualizingthe “New” South Korea in A Taxi Driver. Asian Studies Review, v. 45, n. 3, p. 454-470, 26 de out. 2020.
2022/12121-6, Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP). As opiniões, hipóteses e conclusões ou recomendações expressas neste material são de responsabilidade da autora e não necessariamente refletem a visão da FAPESP.
Sobre a autora
Júlia Santos
Mestranda em Ciências Sociais na Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP), integrante da Curadoria de Estudos Coreanos (CEÁSIA/CEA/UFPE). Se interessa por sociologia do cinema e estudos de gênero, pensando como essa questão reflete nas produções fílmicas.
Lançado em 2021 pela SBS e distribuído globalmente pela Netflix, Nosso Eterno Verão destacou-se entre os dramas sul-coreanos lançados naquele período por sua abordagem sensível e intimista. Dirigida por Kim Yoon-jin e escrita por Lee Na-eun, a série reúne Choi Woo-shik e Kim Da-mi nos papéis principais, marcando o reencontro da dupla após o sucesso do filme The Witch: Part 1 – The Subversion (2018). A química construída pelos atores naquela produção reaparece, aqui, de forma ainda mais madura e contribui para a força emocional de uma narrativa que ultrapassa os limites do romance convencional. Ao contar a história de um casal que se reencontra após anos de separação, a série propõe uma reflexão delicada sobre memória, juventude e amadurecimento.
A trama acompanha Choi Woong e Kook Yeon-soo, ex-namorados que voltam a se encontrar dez anos após um término doloroso. Esse reencontro acontece quando um documentário gravado durante a adolescência dos dois volta a despertar interesse do público, levando-os a participar de uma nova produção. A partir desse ponto, a narrativa transita entre passado e presente, revelando como as experiências da juventude continuam moldando sentimentos e escolhas muito tempo depois de terem acontecido.
Um dos pontos altos de Nosso Eterno Verão está justamente em sua construção narrativa. Diferentemente de dramas que privilegiam grandes reviravoltas ou conflitos externos, a série desenvolve seus dilemas de forma gradual e intimista, permitindo que o espectador compreenda, pouco a pouco, as razões que levaram os protagonistas à separação. Ao revisitar imagens produzidas durante a adolescência no documentário, os personagens são confrontados com sonhos, inseguranças e expectativas que carregavam naquele período. Assim, o drama sugere que crescer não significa abandonar o passado, mas aprender a conviver com ele e reinterpretá-lo à luz das experiências acumuladas ao longo dos anos.
Nesse sentido, a trajetória de Kook Yeon-soo merece destaque. Sua personalidade competitiva e perfeccionista é apresentada como resultado das dificuldades econômicas e das responsabilidades familiares que assumiu desde cedo. Em contrapartida, Choi Woong, apesar de aparentar despreocupação, convive com profundas inseguranças relacionadas ao próprio valor e ao reconhecimento de seu trabalho. O amadurecimento de ambos ocorre através do reconhecimento de suas fragilidades e da capacidade de aceitar aspectos de si mesmos que anteriormente tentavam esconder. Isso dialoga bastante com a análise proposta por Yurizka, Simanjuntak e Sihombing (2022), que identificam na série um processo contínuo de autoaceitação e reconciliação com as próprias limitações.
Além da qualidade narrativa, o K-drama chama a atenção por sua estética visual cuidadosamente construída. A fotografia privilegia tons quentes e suaves, criando uma atmosfera nostálgica que acompanha as lembranças dos personagens e reforça a dimensão afetiva da história. Da mesma forma, a valorização de momentos cotidianos transforma situações aparentemente simples em experiências emocionalmente significativas.
Em síntese, Nosso Eterno Verão destaca-se não apenas como uma história de amor, mas como uma reflexão sensível sobre memória, juventude e amadurecimento. Ao combinar uma narrativa cuidadosamente construída, personagens complexos, uma estética visual marcante e atuações memoráveis de Choi Woo-shik e Kim Da-mi, o K-drama convida o espectador a revisitar suas próprias lembranças e a refletir sobre as diferentes versões de si que permanecem vivas ao longo do tempo.
Referências
Yurizka, Q.; Simanjuntak, M. B.; Sihombing, J. Self-acceptance study in the korean drama series our beloved summer (intrinsic analysis of the main character’s character). Prosiding Seminar Nasional Inovasi Pendidikan, 2022. Disponível em: https://e-proceedings.iain-palangkaraya.ac.id/PSNIP/article/view/799. Acesso em: 10 jun. 2026.
NOSSO eterno verão. Direção: Kim Yoon-jin. Roteiro: Lee Na-eun. Seul: SBS TV, 2021. Série televisiva (16 episódios). Disponível em: Netflix. Acesso em: 10 jun. 2026.
Sobre a autora
Caroline Moreno Botelho Pereira
Mestranda em Linguística pela Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (UESB) e integrante da Curadoria de Estudos Coreanos do Centro de Estudos Asiáticos (CEÁSIA/CEA/UFPE). Desenvolve pesquisas voltadas para a literatura da diáspora coreana e questões de gêneros discursivos, com interesse especial na obra Pachinko, de Min Jin Lee.
Publicada pela editora HarperCollins em 2023, a graphic novel “Vozes Amarelas”, do ilustrador amarelo-brasileiro Monge Han, mobiliza uma abordagem sensível para tratar de questões centrais ao debate sobre a construção da experiência de pessoas amarelas no Brasil. A partir de suas vivências como descendente de coreanos no país, Han reúne cinco narrativas em quadrinhos que atravessam temas como memória familiar, identidade, racialização e pertencimento.
Ao abordar experiências atravessadas por memória familiar, deslocamento e racialização, a obra se insere em um debate ainda pouco visibilizado no Brasil. Segundo Komino, Yamamoto e Ichikawa (2024), com base no Censo do IBGE de 2022, apenas 0,4% da população brasileira se autodeclara amarela. Embora numericamente reduzido, esse contingente suscita questões fundamentais sobre pertencimento, identidade e sobre os modos pelos quais sujeitos amarelos se percebem e são percebidos em relação à branquitude.
A presença amarela no Brasil remonta ao século XIX, quando os primeiros chineses desembarcaram no país em navios portugueses, em um contexto marcado pela atuação colonial portuguesa em territórios como Macau. Ao longo do tempo, porém, os amarelos foram frequentemente percebidos como populações imigrantes menos desejáveis do que os imigrantes europeus, especialmente a partir da ótica de políticas eugenistas voltadas ao branqueamento da população brasileira. Durante a Era Vargas, esse imaginário foi reforçado pela circulação da teoria do “perigo amarelo”, que passou a incidir de maneira mais explícita sobre a vida das comunidades asiáticas no país.
A imagem dos povos amarelos foi historicamente construída a partir do olhar da branquitude, que os reduziu a uma série de estereótipos e representações homogeneizantes. Nesse processo, traços físicos, modos de falar, costumes e comportamentos associados a pessoas amarelas são frequentemente transformados em objeto de piada, reforçando formas de violência simbólica e apagamento identitário.
Como efeito, diferentes identidades culturais asiáticas acabam condensadas em categorias genéricas e pejorativas, como “japa”. Nas histórias “Criança Amarela” e “Criança Colorida”, Monge Han problematiza esse imaginário ao articular a experiência da racialização amarela a outras camadas, como a fetichização e as especificidades de ser uma pessoa amarela LGBTQIAPN+. Esta problemática aparece de forma explícita em um trecho de “Criança Amarela” (p. 75), no qual o narrador questiona a homogeneização imposta às crianças asiáticas:
“Com o tempo percebi que eu e outras crianças asiáticas éramos chamados do mesmo jeito: JAPA. Éramos mesmo todos iguais? Por que não tínhamos direito de ter um nome cada um?”
Komino, Yamamoto e Ichikawa (2024) chamam a atenção para a forma como a branquitude opera a manutenção de seus privilégios mobilizando, entre outros mecanismos, o imaginário da “minoria modelo”. O conceito refere-se ao estereótipo que atribui a grupos amarelos características supostamente naturais, como disciplina, inteligência, obediência, dedicação ao trabalho e sucesso. Embora, à primeira vista, essa representação possa parecer positiva, ela reduz sujeitos amarelos a traços fixos, apaga a diversidade de suas experiências e, ao estabelecer a figura de uma “minoria exemplar”, também pode ser instrumentalizada para reforçar hierarquias raciais e justificar o racismo dirigido a outros grupos racializados, como negros e indígenas.
Nesse sentido, “Vozes Amarelas” se revela uma obra importante tanto para leitores amarelos quanto para não amarelos, ao convidar à reflexão sobre a racialização amarela e sobre o lugar que essas discussões ocupam na luta antirracista no Brasil. Ao articular memória, identidade, violência simbólica e pertencimento, Monge Han produz uma narrativa que não apenas nomeia experiências frequentemente silenciadas, mas também reivindica para sujeitos amarelos um lugar de fala e de reconhecimento no debate racial brasileiro. Assim como cita Monge Han (p. 19):
“[…] espero que este trabalho ajude um pouquinho você, pessoa amarela, a se enxergar e, concordando ou não com meu ponto de vista, entender a realidade de que, se você é amarelo, você é, sim, racializado. E se entender como tal é o primeiro passo para entender melhor nosso lugar na sociedade e no nosso papel na luta antirracista, tão necessária no nosso país, bem como em nós mesmos.”
REFERÊNCIAS
KOMINO, Aline Chima; YAMAMOTO, Gabriel do Carmo; ICHIKAWA, Elisa Yoshie. QUEM PARTICIPA DO JOGO DA BRANQUITUDE? Do perigo ao privilégio amarelo. Caos, [S. l.], v. 2, n. 33, p. 175-198, 18 jun. 2024. Disponível em: https://periodicos.ufpb.br/index.php/caos/article/view/70480. Acesso em: 19 jun. 2026.
HAN, Monge. Vozes Amarelas. Rio de Janeiro: HarperCollins, 2023. 159 p.
Sobre a autora
Bruna Meneghetti Inoue
Graduada em Licenciatura em Letras pela Universidade Estadual de Campinas (2024), atualmente pesquisa o teatro coreano de danças de máscaras e também o teatro coreano contemporâneo.
Foto de parte da instalação do Inside Out Project na cidade de Gwangju. Crédito: Inside Out Project.
A cidade de Gwangju se tornou, nas últimas décadas, um dos principais palcos da memória na Coreia do Sul. Projetos artísticos participativos, como é o caso do Inside Out Project, bem como eventos globais, a exemplo da Bienal de Gwangju, projetam-se em um gesto coletivo: lembrar. Ainda assim, essa insistência não indica necessariamente uma memória estabilizada, mas revela um processo contínuo de disputa e reconstrução. Afinal, por que ainda é preciso revisitar aquilo que não deveria ter sido esquecido?
O levante de maio de 1980, conhecido como 오일팔 민주화 운동(em coreano) e Gwangju Uprising (em inglês), permanece como uma das feridas mais significativas da história sul-coreana. Durante a ditadura militar, civis foram mortos por forças do Estado ao reivindicarem democracia. Cerca de 200 vítimas são oficialmente reconhecidas, embora estimativas independentes apontem números mais elevados, prática recorrente nesses atos violentos. Se, nas décadas seguintes, o episódio passou de objeto de silenciamento a símbolo da luta democrática, isso não eliminou as tensões que atravessam sua memória.
Hoje, Gwangju ocupa um lugar consolidado no imaginário nacional como marco da redemocratização. No entanto, a institucionalização dessa memória não encerra o problema, mas o transforma. Quando o trauma é incorporado a uma narrativa nacional de progresso, corre-se o risco de reorganizar o horror em termos mais palatáveis, ajustando-o a uma lógica de coesão e continuidade histórica.
Nesse contexto, a arte desempenha um papel ambivalente. Iniciativas como o Inside Out Project devolvem rostos e histórias a sujeitos historicamente silenciados, democratizando a produção da memória e tensionando versões oficiais. Ao mesmo tempo, não estão imunes às dinâmicas contemporâneas de circulação de imagens, nas quais o sofrimento pode ser transformado em uma experiência estética consumível. A potência e o risco coexistem (in)felizmente.
O mesmo vale para a Bienal de Gwangju. Criada no contexto da abertura democrática, a Bienal se consolidou como um dos principais eventos de arte contemporânea da Ásia, frequentemente engajada em debates políticos. Ainda assim, sua inserção no circuito global levanta uma questão incômoda: até que ponto a memória, ao circular internacionalmente, precisa se adaptar às expectativas de um público global? Mais do que “exorcizar” o passado, a arte parece operar em um campo de tensões entre crítica, mercado e visibilidade.
Essa instabilidade não é acidental. Como apontam os estudos do trauma, em autores como Cathy Caruth (1996) e Márcio Seligmann-Silva (2003), experiências extremas resistem à representação plena, retornando de forma fragmentada e insistente. Lembrar, nesse sentido, não é recuperar o passado tal como foi, mas reconstruí-lo a partir de lacunas, silêncios e disputas.
É nesse ponto que a literatura, dentro do campo artístico, ocupa um lugar tão decisivo. Em Atos humanos, da escritora sul-coreana Han Kang, o levante de Gwangju não é apresentado como uma narrativa linear ou fechada, mas como uma constelação de vozes interrompidas, corpos ausentes e memórias fragmentadas. Ao recusar a totalização, a literatura não apenas representa o trauma, mas o revisita como aquilo que permanece irredutível às versões oficiais.
No entanto, toda política da memória implica escolhas. O que lembrar, como lembrar e, sobretudo, quem tem o direito de lembrar são questões inseparáveis de relações de poder. Como sugere Marianne Hirsch (1997, 2012), a memória não pertence apenas a quem viveu o evento, mas também às gerações posteriores que o herdaram — o que amplia, mas também complexifica, seus modos de transmissão.
Há ainda uma dimensão global incontornável. Enquanto certos eventos históricos, como o Holocausto, ocupam posição central no imaginário internacional, outros, como o levante de Gwangju, permanecem relativamente periféricos. Isso revela que a memória não é apenas preservação, mas também hierarquia: nem toda dor alcança o mesmo grau de reconhecimento.
Diante disso, talvez a questão mais urgente vá além do que a Coreia do Sul escolhe lembrar, concentrando-se no que ainda resiste à lembrança plena: seja por incômodo político, seja por inadequação às formas dominantes de narrar o passado.
Gwangju não é apenas um símbolo da democracia. É também um lembrete de que toda memória é instável, construída e disputada. Entre monumentos, imagens e narrativas, o passado não se fixa, mas sim continua sendo negociado. Nesse sentido, lembrar não é um gesto neutro: é inevitavelmente um ato político.
SELIGMANN-SILVA, M. (Org.) História, memória, literatura: o Testemunho na Era das Catástrofes. Campinas, SP: Unicamp, 2003.
SOBRE A AUTORA
Maria Gabriela Pedrosa
Doutoranda em Estudos Literários na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), integrante da Curadoria de Estudos Coreanos (CEÁSIA/CEA/UFPE). Interessa-se pela relação entre os estudos literários, a intermidialidade e a memória.
A obra The Cultural Diplomacy of South Korea: Exhibiting the National in International Museums, de Sumi Kim, apresenta uma análise aprofundada sobre a utilização dos museus e das exposições internacionais como instrumentos de diplomacia cultural e construção da imagem nacional sul-coreana. Publicado pela Routledge, o livro caracteriza-se como um estudo teórico-analítico interdisciplinar, no qual a autora articula pesquisa arquivística, história cultural e análise museológica para compreender como os museus atuam na formação de narrativas nacionais e de estratégias de projeção internacional da Coreia do Sul (Kim, 2026).
Baseando-se em ampla pesquisa arquivística realizada na Coreia do Sul, nos Estados Unidos e no Reino Unido, Kim analisa exposições comoMasterpieces of Korean Art (1957-1962) e 5000 Years of Korean Art (1976-1985) e a implementação da Korea Foundation Gallery no British Museum. Ao longo da obra, a autora demonstra que essas iniciativas não podem ser compreendidas apenas como eventos culturais, mas como estratégias diplomáticas diretamente articuladas aos interesses políticos e simbólicos do Estado sul-coreano.
Um dos principais méritos do livro está em compreender o museu como espaço de construção narrativa e de projeção internacional. Kim evidencia que exposições internacionais participam ativamente da elaboração de imagens nacionais, especialmente em contextos marcados por disputas geopolíticas e necessidades de legitimação simbólica. Neste sentido, a obra aproxima-se das discussões sobre soft power desenvolvidas por Joseph Nye (2004), ao demonstrar como a cultura pode atuar como mecanismo de influência internacional.
Embora a autora não dialogue diretamente com a museologia brasileira, a leitura da obra possibilita importantes aproximações com esse campo teórico, especialmente com autores como Mário Chagas, Waldisa Rússio e Maria Célia Teixeira Moura Santos. A partir dessas interlocuções, torna-se possível aprofundar criticamente algumas das questões levantadas por Kim, sobretudo no que diz respeito às relações entre memória, poder e patrimônio.
Ao analisar as exposições internacionais de arte coreana, percebe-se claramente aquilo que Mário Chagas (2002) define como o caráter político da memória nos museus. Para o autor, os museus não apenas preservam objetos, mas também produzem discursos e legitimam determinadas narrativas sobre o passado. Essa reflexão contribui significativamente para compreender como as exposições analisadas por Kim participam da construção simbólica da própria ideia de “Coreia”.
A seleção de cerâmicas celadon, pinturas budistas, esculturas e objetos arqueológicos evidencia esse processo. Os objetos apresentados internacionalmente são organizados de maneira a construir uma narrativa contínua, sofisticada e civilizacional sobre a história coreana, frequentemente minimizando conflitos internos, traumas coloniais ou tensões políticas contemporâneas. Nesse aspecto, a obra também dialoga com Benedict Anderson (2008), para quem a nação é uma construção simbólica produzida através de narrativas compartilhadas.
A interlocução com Waldisa Rússio também permite ampliar a leitura crítica da obra. Segundo Rússio (2010), o fato museal não se limita ao objeto preservado, mas envolve as relações sociais e culturais construídas em torno dele. A partir dessa perspectiva, os objetos coreanos exibidos em museus ocidentais deixam de ser compreendidos apenas como peças artísticas ou patrimoniais e passam a ser entendidos como elementos inseridos em disputas simbólicas e diplomáticas.
Assim, a presença da arte coreana em instituições como o British Museum ou o Metropolitan Museum of Art (MoMa) não representa somente reconhecimento estético. Trata-se de uma operação política de inserção internacional da Coreia do Sul em circuitos globais de legitimidade cultural. O museu transforma-se, portanto, em instrumento diplomático e espaço de produção de autoridade simbólica.
Esta leitura aproxima-se ainda das formulações de Tony Bennett (1995), que compreende o museu moderno como um dispositivo produtor de narrativas nacionais. Contudo, no caso analisado por Kim, essa lógica assume dimensão transnacional. O museu deixa de atuar exclusivamente para o público interno e passa a funcionar como vitrine internacional da identidade nacional coreana.
Outro ponto importante desenvolvido pela autora refere-se às transformações da diplomacia cultural sul-coreana ao longo do tempo. Kim demonstra que, durante a Guerra Fria, as exposições internacionais estavam fortemente ligadas à disputa ideológica entre Coreia do Sul e Coreia do Norte. A promoção da cultura tradicional coreana funcionava como estratégia de legitimação do Estado sul-coreano aliado aos Estados Unidos.
Posteriormente, sobretudo a partir da década de 1990, observa-se uma mudança significativa. Com a democratização do país e o crescimento econômico acelerado, a diplomacia cultural passa a relacionar-se cada vez mais à globalização e ao branding nacional. Nesse contexto, instituições como a Korea Foundation assumem papel central na expansão cultural sul-coreana.
A criação da Korea Foundation Gallery no British Museum simboliza essa nova etapa da diplomacia cultural. Mais do que um espaço expositivo, a galeria opera como território da presença coreana em uma das instituições museológicas mais influentes do mundo. A cultura passa a funcionar não apenas como elemento identitário, mas também como recurso estratégico de inserção global.
Nesse ponto, as reflexões de Maria Célia Teixeira Moura Santos (2001) contribuem para ampliar criticamente a análise da obra. Ao compreender os museus como instituições atravessadas pelas relações de poder e pelas dinâmicas sociais de seu tempo, Santos permite perceber como as exposições internacionais analisadas por Kim estão inseridas em processos mais amplos de disputa política, econômica e simbólica.
Apesar da densidade analítica da obra, algumas limitações podem ser observadas. A principal delas refere-se ao foco predominantemente institucional da pesquisa. Kim dedica grande atenção às políticas culturais estatais e às estratégias diplomáticas oficiais, mas discute menos as experiências do público e as formas de recepção dessas exposições.
Além disso, embora a autora mencione a colonização japonesa como elemento importante para a formação da identidade sul-coreana contemporânea, essa questão poderia ser desenvolvida de maneira mais aprofundada. A memória colonial aparece frequentemente como pano de fundo, mas sem ocupar centralidade analítica proporcional à sua relevância histórica.
Também seria possível aprofundar a crítica às próprias instituições ocidentais que recebem essas exposições. Museus como o British Museum carregam históricas relações com colonialismo, imperialismo e apropriação patrimonial. Um diálogo mais aprofundado com autores como James Clifford (1997) e Ariella Azoulay (2024) enriqueceria a discussão sobre os limites e as contradições dos chamados “museus universais”.
Ainda assim, The Cultural Diplomacy of South Korea constitui uma contribuição extremamente relevante para os estudos de museologia, patrimônio cultural e história global. O livro demonstra de maneira consistente como museus e exposições operam como espaços de construção simbólica da nação e instrumentos estratégicos de diplomacia cultural.
A partir do diálogo crítico com autores da museologia brasileira feito a partir da leitura do livro, tornou-se ainda mais evidente que os museus analisados por Kim não funcionam apenas como espaços de preservação cultural, mas como arenas de disputa política, memória e poder. Desse modo, a obra evidencia que o patrimônio não é neutro: ele é continuamente mobilizado para construir narrativas, legitimar identidades e projetar imaginários nacionais no cenário internacional.
Referências
ANDERSON, Benedict. Comunidades imaginadas: reflexões sobre a origem e a difusão do nacionalismo. São Paulo: Companhia das Letras, 2008.
AZOULAY, Ariella Aïsha. História potencial: desaprender o imperialismo. Tradução de Fernando Santos. São Paulo: Ubu Editora, 2024.
BENNETT, Tony. The birth of the museum: history, theory, politics. Londres: Routledge, 1995.
CHAGAS, Mário. Memória e poder: dois movimentos. Cadernos de Sociomuseologia, Lisboa, v. 19, n. 19, 2002.
CLIFFORD, James. Routes: travel and translation in the late twentieth century. Cambridge: Harvard University Press, 1997.
KIM, Sumi. The Cultural Diplomacy of South Korea: Exhibiting the Nation in International Museums. Londres: Routledge, 2026.
NYE, Joseph S. Soft power: the means to success in world politics. New York: Public Affairs, 2004.
RÚSSIO, Waldisa. Texto III: processo museológico e educação. In: BRUNO, Maria Cristina Oliveira (org.). Waldisa Rússio Camargo Guarnieri: textos e contextos de uma trajetória profissional. São Paulo: Pinacoteca do Estado; Secretaria de Estado da Cultura, 2010. v. 1.
SANTOS, Maria Célia Teixeira Moura. Museu, educação e comunidade. Salvador: UNEB, 2001.
Sobre a Autora
Cecília Bruno de Carvalho
Graduada em Museologia pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Desenvolve pesquisas nas áreas de museologia, patrimônio cultural, memória, arte contemporânea e as relações entre museus, identidade nacional e política cultural.
A Única Saída, de Park Chan-wook, parte de uma premissa aparentemente simples, um homem que é demitido após dedicar anos ao trabalho, para construir uma crítica a respeito do capitalismo predatório e a fragilidade da identidade que é atrelada ao sucesso profissional. Nessa narrativa, acompanhamos Man-soo (Lee Byung-hun), que, depois de 25 anos trabalhando em uma fábrica de papel, vê sua carreira desmoronar após uma reestruturação da empresa que afetou diversos funcionários. Entretanto, muito mais do que a perda do emprego, o filme trata da destruição simbólica de tudo aquilo que o personagem acreditava ter conquistado, isto é, status, estabilidade e reconhecimento social. O que torna a narrativa inquietante e envolvente é a maneira como Park Chan-wook transforma o desespero econômico em paranoia moral. Levando isso em consideração, Man-soo não é apresentado como uma vítima absoluta, tendo em vista que ele mantém certos privilégios materiais, mas como alguém incapaz de existir fora de uma lógica produtiva que moldou grande parte da sua identidade. O diretor evidencia como o capitalismo não apenas explora o trabalhador, mas também o condiciona a acreditar que sua dignidade depende da utilidade que tem no mercado. No filme, quando essa utilidade desaparece para Man-soo, resta um vazio e dele nasce a violência. Ao longo da narrativa, Man-soo mergulha em um processo de questionamento da própria ética. A partir disso, sua tentativa de “salvar” a família deixa de soar nobre e passa a revelar um egoísmo desesperado, que é mascarado por um discurso de responsabilidade. Um ponto que se destaca nesse contexto é que Park Chan-wook evita transformá-lo em um vilão caricato, como um serial killer ou algo que se aproxima dos filmes de terror. Mesmo enquanto planeja atos brutais, Man-soo continua sendo um homem comum, atrapalhado e emocionalmente contido, o que torna suas ações ainda mais desorganizadas, contendo leves toques de comédia. A violência não é colocada como uma explosão de raiva, mas como consequência “lógica” de uma sociedade competitiva que transforma pessoas em obstáculos que precisam ser descartados por um bem maior. Essa ideia de preservação do status também é conhecida como “chemyeon” (체면), que é definido como “[…] princípios a seguir, obrigações a cumprir, ou uma ‘imagem’ a preservar para se apresentar diante dos outros com dignidade, sem um sentimento de vergonha” (Choi; Kim, 2004, p. 33 apud Ahn, 2018, p. 23, tradução nossa). Man-soo busca a todo custo manter a imagem fundamentada no prestígio do trabalho, se recusando a abrir mão de seus privilégios e da imagem passada pela família. Dessa forma, o personagem tenta se convencer de que não há outra saída além da eliminação de cada um de seus concorrentes para que ele possa manter sua imagem. A escolha pelo humor sombrio é essencial para esse impacto construído pela obra. Ao longo do desenvolvimento da história, Park Chan-wook manipula a tensão com maestria, alternando momentos de absurdo e crueldade com espaços de alívio cômico, nos quais o espectador pode questionar as decisões tomadas pelo protagonista. O riso provocado pelo filme nasce do constrangimento e da percepção de que a situação retratada não se distancia tanto da realidade de Man-soo, e é justamente essa abordagem que impede que a narrativa se torne apenas um thriller social convencional e reforça o caráter satírico da crítica contida na narrativa. Os personagens secundários ajudam a ampliar ainda mais essa dimensão. Mi-ri (Son Ye-jin), esposa de Man-soo, funciona como o retrato silencioso da dificuldade causada pela insegurança financeira. Suas tentativas de reorganizar os gastos da casa e compreender o comportamento do marido revelam como o desemprego afeta não apenas quem perde o trabalho, mas toda a estrutura familiar. Já os filhos, Ri-won (Choi So-yul) e Si-won (Kim Woo-seung), representam diferentes respostas ao colapso estrutural da família. Enquanto a trilha musical associada ao violoncelo de Ri-won intensifica a melancolia da narrativa, Si-won incorpora a ansiedade de uma geração que aprende cedo demais o peso das dificuldades econômicas. Visualmente, o filme também reforça sua crítica social através de uma direção estilizada, que relembra outros trabalhos de Park Chan-wook. A fotografia aposta em tons frios e composições sufocantes para refletir o isolamento psicológico de Man-soo, diversificando os ângulos para criar a sensação de tensão. Os enquadramentos frequentemente o retratam em ambientes com baixa iluminação, agitado e angustiado, sugerindo que o protagonista está preso não apenas às consequências de suas escolhas, mas também à lógica do sistema que o afetou. A trilha sonora e as transições contribuem para uma sensação constante de instabilidade, como se a qualquer momento tudo pudesse desmoronar de vez. Adaptando o romance “The Ax”, de Donald E. Westlake, anteriormente levado ao cinema por Costa-Gavras, Park Chan-wook atualiza a história para um contexto em que a competitividade profissional se tornou ainda mais brutal. Embora comparações com Parasita sejam inevitáveis, A Única Saída segue um caminho diferente, tendo em vista que ao invés de focar exclusivamente na desigualdade de classes, o filme investiga a obsessão por manter privilégios e aparências dentro de um sistema que reduz indivíduos ao próprio desempenho econômico. A grande força do longa está justamente em não oferecer respostas fáceis. Park Chan-wook recusa qualquer moralização simplista e conduz o espectador a um dilema desconfortável, no qual é impossível ignorar tanto a brutalidade das ações de Man-soo quanto as pressões que o empurram em direção a elas. No fim, A Única Saída transforma sua sátira em uma pergunta que vale a reflexão: em uma sociedade que mede o valor humano pela produtividade, até onde alguém estaria disposto a ir para continuar sendo considerado necessário?
Referências
AHN, Sarah. Am I Good Enough? Dealing Pastorally with the Shame of Women in the Amalgam of Korean Confucian and Christian Culture. 2018. 70f. Tese (Mestrado em Estudos Teológicos) – George Fox University, Newberg, Oregon, 2018.
A ÚNICA saída (Eojjeolsuga eobsda). Direção: Park Chan-wook. Roteiro: Park Chan-wook e Lee Kyoung-mi. Coreia do Sul: KG Productions; Moho Film, 2025. 1 filme (139 min).
Sobre a autora
Júlia Santos
Mestranda em Ciências Sociais na Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP), integrante da Curadoria de Estudos Coreanos (CEÁSIA/CEA/UFPE). Se interessa por sociologia do cinema e estudos de gênero, pensando como essa questão reflete nas produções fílmicas.