“Pavana” e o amor que surge entre as brechas da solidão

“Pavana” e o amor que surge entre as brechas da solidão

Por Clara Menezes

Créditos da imagem: Netflix e The Korea Times

Antes de assistir ao filme “Pavana”, dirigido por Lee Jong-pil e disponível na Netflix, preciso confessar que eu não sabia o que o título significava. O longa-metragem explica, mas aqui também apresento uma breve elucidação para quem conhece pouco — ou nada — sobre música e dança clássica.

“Pavana” é uma dança aristocrática surgida entre os séculos XVI e XVII na Espanha, marcada por um ritmo majestoso, solene, austero e quase sombrio (Horst, 1987). Para essas apresentações, compositores produziam uma música própria que seguia um compasso específico e que evocava uma pomposidade típica da corte espanhola renascentista (Horst, 1987).

Apesar de ser uma arte antiga, uma das composições mais famosas do gênero foi escrita em 1899 pelo pianista Maurice Ravel, com o nome “Pavana para uma princesa morta”, em francês, Pavane pour une infant défunt (Orquestra Metropolitana de Lisboa, [s.d.]). A obra é melancólica e nostálgica, quase como um lamento, que homenageia uma princesa espanhola fictícia dançando em um palácio (Orquestra Metropolitana de Lisboa, [s.d.]).

O longa-metragem compartilha características semelhantes à música de piano do maestro francês: ambos são lentos e nostálgicos, com uma elegância inerente à própria obra. Enquanto tantas produções audiovisuais produzidas para o streaming parecem cada vez mais aceleradas e simples, na intenção de prender a atenção dos espectadores (realidade que a revista N+1 já revelou em reportagem de 2025 sobre a Netflix), “Pavana” não tem medo de demorar e usar o silêncio a seu favor.

O filme começa com a história do relacionamento dos pais do protagonista, Kyung-rok (Moon Sang-min). O homem trabalhava como ator e alcançou o estrelato enquanto a mulher ficava em casa cuidando do lar. Eventualmente eles se separaram, porque o astro decidiu formar uma família com uma jovem herdeira e nunca assumiu a paternidade do primeiro filho. Assim cresceu Kyung-rok, nas sombras do estrelato e mediante as consequências de um amor fraturado. Por isso sempre se sentiu solitário e, assim como aqueles que precisam amadurecer cedo para lidar com os problemas do mundo, passou a sobreviver dia após dia.

Muito tempo se passa até que ele revele que deixou um grande sonho de lado por nenhum motivo aparente — apenas porque queria juntar dinheiro para realizar uma viagem e pagar as contas. Essa apatia do personagem se transforma em movimento quando ele conhece Mi-jung (Ko A-sung).

Ela é uma antiga funcionária da loja de departamentos onde Kyung-rok começou a trabalhar recentemente. Tímida, sem amigos e fora do padrão de beleza ideal, a jovem se tornou alvo fácil de histórias mirabolantes e bullying. Mas permanece ali, com a mesma rotina de sempre, porque precisa. Acostumada a abaixar a cabeça e não emitir opiniões para passar despercebida, ela é uma figura solitária e misteriosa.

É essa solidão que atrai Kyung-rok à Mi-jung. Apesar de chamar a atenção de diversos funcionários por ser bonito, o jovem se aproxima da garota que ninguém nunca se importou em conhecer. Aos poucos, os dois compartilham suas vulnerabilidades e se apaixonam, encontrando um no outro um espaço para existir. Depois de tantos anos vivendo à margem da sociedade, eles descobrem um amor que os centraliza no mundo.

Os dois trazem um debate profundo sobre a solidão da vida contemporânea, já extensamente analisada por autores como Zygmunt Bauman (2000), que descreve as relações frágeis e superficiais causadas por uma sociedade capitalista e individualista, e Byung-chul Han (2019, 2021), que busca compreender a dor e o crescente isolamento experienciados pelas pessoas na atualidade.

Entretanto, a história poderia ter se tornado um melodrama comum se não fosse pela presença de Yo-han (Byun Yo-han). Às vezes um narrador onisciente, às vezes um personagem, Yo-han é a chave da trama. Com uma personalidade animada que, em um primeiro momento, parece destoar da melancolia do filme, ele é o responsável por unir o casal e por conduzi-los durante toda a narrativa. A primeira introdução, o primeiro encontro e a primeira declaração — tudo perpassa por Yo-han de alguma forma. Porém, o personagem não serve apenas de cupido. Por trás de seu humor entusiasmado, Yo-han esconde a dor e a tristeza que o acompanham e que inevitavelmente transbordam depois de tanto serem reprimidas.

Ele é, também, um narrador não confiável. Os espectadores não sabem se as histórias que conta são verdadeiras ou em quais momentos elas estão entrelaçadas ao seu olhar fantasioso. Isso se intensifica ainda mais ao final do longa-metragem, porque é o próprio Yo-han o escritor de um livro sobre o relacionamento entre Kyung-rok e Mi-jung, mas o namoro deles na publicação termina de uma maneira diferente, com um toque de esperança que parece não existir de fato.

Essa distorção deliberada da realidade é apresentada ao espectador desde o início, porque parte da maneira como o próprio Yo-han compreende o amor. De acordo com ele: “o amor é uma ilusão. Uma ilusão de que a pessoa amada é diferente das outras. Uma ilusão de que esse sentimento durará para sempre”. E parece ser dentro dessa ilusão, na liminaridade com a realidade, que o filme acontece.

Mesmo com tantas qualidades, a obra audiovisual repete alguns estereótipos de beleza que já se tornaram cansativos (mas que talvez façam sentido se compreendermos que a obra é uma adaptação do livro “Pavane for a dead princess”, de Park Min-gyu, lançado originalmente em 2009 e publicado em inglês em 2014). O filme parece destacar de forma excessiva a estranheza da relação entre Kyung-rok e Mi-jung apenas porque ele é bonito e ela não. Isso traz uma certa superficialidade para a trama, principalmente para as mulheres que cresceram assistindo a histórias semelhantes.

Pelo menos a narrativa não reforça o clichê do homem que salva a mulher de uma vida triste (tão comum em obras de romance) — aqui, os dois se ajudam e se transformam mutuamente. Além disso, a dinâmica entre Kyung-rok e Mi-jung é tão profunda que esse problema não impede os espectadores de se afeiçoarem à relação deles.

Entre erros e acertos, a originalidade de “Pavana” está em captar a eterna busca humana por conexão, apesar do mundo capitalista isolar as pessoas (como Marx Weber já havia percebido no início do século passado em “A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo”, muito antes de termos como neoliberalismo e pós-modernidade terem sequer sido popularizados).

Ainda que os dias sejam cansativos, a rotina seja exaustiva, o trabalho drene as energias e o futuro pareça desanimador, todos continuam seguindo em frente, com a esperança de encontrarem um espaço para si. E “Pavana” mostra que, talvez, esse lugar de pertencimento esteja na conexão com o outro, no amor que teima em existir apesar da solidão.

Referências

BAUMAN, Zygmunt. Modernidade líquida. Rio de Janeiro: Zahar, 2021.

HAN, Byung-Chul. Sociedade do cansaço. Petrópolis: Editora Vozes, 2015.

HAN, Byung-Chul. Sociedade paliativa: a dor hoje. Petrópolis: Editora Vozes, 2021.

HORST, Louis. Pre-Classic Dance Forms. Princeton: Princeton Book Company, 1987.

LEITÃO, Rui Campos. Uma Pavana Defunta? Metropolitana, [s.d.]. Disponível em: https://www.metropolitana.pt/musicalia/uma-pavana-defunta/. Acesso em: 08 mar. 2026.

PARK, Min-gyu. Pavane for a Dead Princess: A Novel. Dallas: Dalkey Archive Press, 2014.

TAVLIN, Will. Casual Viewing: Why Netflix looks like that. N+1, mar. 2026. Disponível em: https://www.nplusonemag.com/issue-49/essays/casual-viewing/. Acesso em: 08 mar. 2026.

WEBER, Max. A ética protestante e o espírito do capitalismo. São Paulo: Martin Claret, 2023.

Sobre a autora

Clara Menezes

Mestranda em Ciências Sociais pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e integrante da Curadoria de Estudos Coreanos. Pesquisa na área de sociologia da literatura, com foco na obra de Han Kang.

E-mail: mclaracmenezes@gmail.com.

De repente humana e a representação da figura da raposa de nove caudas (gumiho / 구미호)

De repente humana e a representação da figura da raposa de nove caudas (gumiho / 구미호)

Giovana Canez Valerão

imagem: https://www.reddit.com/r/KDRAMA/comments/1py8br8/sbs_no_tail_to_tell_couple_poster_premieres/?tl=pt-br

O K-drama De repente humana é um romance de fantasia que estreou em janeiro de 2026 na Netflix. Protagonizada por Lomon (de All of us are dead) e Kim Hye Yoon (de Adorável corredora), a produção tem 16 episódios e narra o destino de Eunho, uma raposa de nove caudas, que se envolve com o jogador de futebol Kang Si Yeol (Ezeji, 2026). 

Para além de se constituir como uma história de romance, repleta de momentos cômicos, o enredo inspira-se no folclore coreano ao incorporar não apenas a gumiho (구미호), mas também elementos xamanísticos e até mesmo a personificação da costelação “Ursa maior”, denominada “Pagun” ou “Pagunseongun” no K-drama.

Cabe destacar que, embora a raposa de nove caudas seja amplamente representada no entretenimento sul-coreano, trata-se de uma figura que surgiu inicialmente na mitologia chinesa, sob o nome de Huli Jing (Mitologia em Português, 2021), e que igualmente se manifesta no Japão, onde é conhecida como Kyuubi no Kitsune (Mitologia em Português, 2020), personagem que se popularizou na mídia ocidental através do anime Naruto.

No K-drama, a gumiho Eunho é a protagonista astuta (como qualquer raposa de nove caudas) que se vale dos seus poderes espirituais para enfeitiçar os seres humanos e ganhar dinheiro à custa de contratos com chaebols1. Ela assume a forma de uma mulher elegante que evita realizar pedidos que gerem “muita bondade” ou “muita maldade”, a fim de manter equilibrada a balança que mede suas habilidades espirituais e, assim, evitar tornar-se humana (o que para muitas gumihos seria um sonho). Além disso, demonstra uma atitude desdenhosa em relação aos humanos e tende a valorizar bens materiais. 

Ainda que essa descrição se assemelhe, em certa medida, à figura da raposa de nove caudas tradicionalmente representada na mitologia coreana, os roteiristas Park Chan-young e Jo Ah-young foram responsáveis por modernizar a personagem e torná-la mais palatável ao contexto da Coreia do Sul contemporânea, um país desenvolvido que ostenta uma cultura de luxo e enfrenta outros tipos de ameaça, como a impunidade daqueles que detêm o poder, por vezes mais alarmante do que uma figura mitológica. 

Dessa maneira, este K-drama, assim como muitos outros, faz referência à gumiho ao mesmo tempo em que ressignifica sua trajetória na mitologia tradicional coreana, chegando, inclusive, a ironizar a forma como essa figura era concebida na antiguidade. 

Se nos voltarmos ao folclore coreano, a raposa de nove caudas difere significativamente de suas contrapartes nos países vizinhos, onde é frequentemente associada a um símbolo de bom presságio, passando a representar uma criatura sedenta por carne humana na tradição coreana (Myth and Folklore Wiki, 2012). Tal representação aproxima-se de figuras recorrentes nas lendas ocidentais, como os vampiros, marcados pelo desejo incessante por sangue, e os zumbis, mortos-vivos que se alimentariam de cérebros humanos. Em contrapartida a esses equivalentes ocidentais, a gumiho se alimentaria do fígado ou do coração das suas vítimas, aspecto que a protagonista de De repente humana parece satirizar sempre que a sua identidade é revelada.

Além disso, assim como é representada no K-drama, a gumiho possuiria uma “conta de raposa” (여우구슬), utilizada para absorver poder espiritual (Ministry of Culture, Sports and Tourism, 2022). Contudo, diferentemente do folclore tradicional, esse poder não é adquirido por meio de um beijo, mas sim por grandes ações, como sacrifícios. No enredo, cultivar a espiritualidade (isto é, praticar boas ações) pode, ainda, transformar uma raposa de oito caudas, chamada carinhosamente de palmiho (팔미호), em uma raposa de nove caudas, processo que geralmente levaria séculos para se concretizar. 

Novamente desafiando a mitologia, a narrativa apresenta o desequilíbrio da balança espiritual como o fator responsável por transformar uma gumiho em humana, transformação que, na tradição, ocorreria após 1000 dias sem o consumo de carne humana.

Há também outros pequenos ajustes cômicos no K-drama. Por exemplo, em vez de viver na floresta (USC Digital Folklore Archives, 2022), a protagonista reside em uma mansão luxuosa no Monte Myohang, na Coreia do Norte, local que só pode acessar com seus poderes de comutação. Tal habilidade é perdida quando ela se torna humana e, portanto, não consegue retornar para casa, passando a viver com o protagonista masculino em um pequeno quarto na cobertura. 

De modo geral, observa-se que, assim como em grande parte dos K-dramas que mobilizam a figura da raposa de nove caudas — como My Girlfriend Is a Gumiho, no qual a personagem é libertada de uma pintura pelo protagonista, e My Roommate Is a Gumiho, em que a figura é representada por um homem que se torna colega de casa de uma estudante universitária após ela engolir acidentalmente a sua conta de raposa —, há um esforço em adaptar um elemento central do folclore coreano, tão importante para a identidade das Coreias, a um formato compatível com K-dramas de romance. Tal adaptação permite que essas narrativas sejam apreciadas tanto pelos sul-coreanos quanto pela audiência ocidental, o que ajuda a explicar o grande sucesso da produção no Brasil, onde permaneceu no Top 10 da Netflix por dias após o seu término.

Imagem: https://i.namu.wiki/i/9pDeUX8Q04C_I-i-qq3c4xpIix1EZPX7a7yg1AS9GZBomWbwdoe14Kp6Wh3J3fYy3D0ISh2vqqZFrbzgE6uULtLQOHqwRYrro1WQsrGxvBZHi0c8nBV3KAtOwCDZDL89QO-mmVlkQos3SgzHx-fZW836MIhajAP0aIVBN4spEps.webp

Imagem: https://en.wikipedia.org/wiki/My_Roommate_Is_a_Gumiho#/media/File:My_Roommate_Is_a_Gumiho.jpg

Atribuo o charme do K-drama não apenas à existência de uma gumiho narrativa, mas também ao fato de ela ser uma representante da chamada “Geração Z”, capaz de se adaptar tanto à era Joseon quanto à Seul contemporânea. 

Portanto, se você não é uma pessoa que preza pela verossimilhança entre mito e representação, esta é uma produção divertida para mergulhar no folclore coreano e, quem sabe, posteriormente aventurar-se por outros K-dramas com gumihos. Como entusiasta da mitologia coreana, espero que o sucesso dos filmes e K-dramas de fantasia se mantenha por muito tempo.

Referências

E., EZEJI. Kim Hye Yoon And “No Tail To Tell” Creators Discuss The Drama’s Theme, Inspiration, And More. Soompi, 06 jan. 2026. Disponível em:
https://www.soompi.com/article/1810195wpp/kim-hye-yoon-and-no-tail-to-tell-creators-discuss-the-dramas-theme-inspiration-and-more Acesso em: 02 mar. 2026.
HULI Jing, a raposa mística chinesa (e a Gumiho). Mitologia em português, 03 nov. 2021. Disponível em: https://www.mitologia.pt/huli-jing-a-raposa-mistica-chinesa-498826. Acesso em: 02 mar. 2026.
KITSUNE, ou a Lenda da Raposa de Nove Caudas. Mitologia em português, 13 out. 2020. Disponível em: https://www.mitologia.pt/huli-jing-a-raposa-mistica-chinesa-498826. Acesso em: 02 mar. 2026.
KUMIHO. Myth and Folklore Wiki, 20 ago. 2012. Disponível em: https://mythus.fandom.com/wiki/Kumiho. Acesso em: 02 mar. 2026.

LEE, J. Gumiho. USC Digital Folklore Archives, 17 mai. 2022. Disponível em:https://folklore.usc.edu/gumiho-2/. Acesso em: 02 mar. 2026.

WHAT is a gumiho? Korea Here & Now. Ministry of Culture, Sports and Tourism. 27 jun. 2022. Disponível em: https://www.mcst.go.kr/english/policy/kocis/newsView.jsp?pSeq=102. Acesso em: 02 mar. 2026.

Sobre a autora

Giovana Canez Valerão

Mestranda em Aquisição, Variação e Ensino na Universidade Federal de Pelotas (UFPEL), integrante da Curadoria de Estudos Coreanos (CEÁSIA/CEA/UFPE). Se interessa pela língua coreana, K-pop e K-dramas.

E-mail: givalerao14@gmail.com.

  1. Em coreano,재벌, termo que se refere a indivíduos oriundos de famílias proprietárias de conglomerados. ↩︎
A Complexidade Humana em “O Bom Filho”, de Jeong Yu-Jeong

A Complexidade Humana em “O Bom Filho”, de Jeong Yu-Jeong

Por Mariana Mello Alves de Souza

Fonte: https://martinsfontespaulista.vteximg.com.br/arquivos/ids/1724426-800-800/881893_3.jpg?v=638914004736400000

“O Bom Filho” (종의 기원) é um romance de suspense psicológico narrado em primeira pessoa pelo protagonista Han Yu-jin, um jovem que teve seu futuro promissor como nadador interrompido pela epilepsia. Publicado originalmente na Coreia do Sul em 2016 pela editora 은행나무 e traduzido para o português por Jae Hyung Woo e publicado no Brasil pela editora Todavia em 2019, a narrativa da autora Jeong Yu-Jeong tem início com Yu-jin acordando em meio a um mistério inquietante: ele encontra sua mãe morta na casa onde vivem, mas sua memória do ocorrido está destruída, possivelmente pela própria condição neurológica. A partir daí, a autora desenvolve um enredo complexo que alterna entre o presente e os flashbacks da infância de Yu-jin, explorando os traumas familiares, sua relação com o irmão adotivo Kim Hae-jin, as manipulações mentais e a psicopatia do personagem. Segundo Osborne (2018, p. 1)1, “este é um livro de perguntas. É também um livro de mistério, mas boa parte dele consiste em Yu-jin falando consigo mesmo, tentando descobrir o que está acontecendo”.

A construção do protagonista é destacada na obra pela sua intrincada personalidade, cuja aparente normalidade esconde um comportamento predatório e psicótico. A autora usa a fragmentação da memória e os flashbacks não só para desvendar o mistério do crime, mas para proporcionar uma análise profunda da mente perturbada de Yu-jin, tornando o livro um exercício focado na psicologia humana, especialmente nos impactos do controle opressivo materno e das relações familiares tóxicas. O leitor é levado a uma ambiguidade moral, questionando a confiabilidade da narrativa, pois Yu-jin manipula suas próprias memórias e sua versão dos fatos. Para Varma (2019, p. 1)2:

Ao mergulharmos na toca do coelho, virando as páginas sombrias de sua mente e do diário de sua mãe, que nos leva de sua infância à idade adulta, quando ele está prestes a ingressar na faculdade de direito, nos deparamos com sua ‘verdadeira natureza’.

O livro também é apreciado por público e crítica por seu ritmo intenso e sua habilidade em manter a tensão narrativa, apesar de algumas críticas quanto ao detalhamento excessivo em certas partes. É um thriller que alia suspense com drama humano, revelando os mecanismos internos de uma família marcada por complicações psicológicas e sociais, em um contexto sul-coreano contemporâneo discutido sutilmente no pano de fundo da história. A ambientação cultural, ainda que não seja o foco central da narrativa, contribui para a construção de um cenário que reforça os dilemas individuais e coletivos, permitindo ao leitor compreender como fatores sociais e familiares se entrelaçam na formação da subjetividade dos personagens.

A autora, Jeong Yu-Jeong, demonstra grande habilidade em explorar os limites entre realidade e percepção, utilizando recursos narrativos que intensificam a dúvida e a ambiguidade. O protagonista é construído de forma complexa, revelando gradualmente suas fragilidades, traumas e contradições, o que confere à obra uma dimensão psicológica que ultrapassa o mero enredo policial. Neste sentido, o romance pode ser interpretado como uma investigação não apenas de um crime, mas da própria mente humana, expondo os mecanismos da memória, da repressão e da culpa.

Além disso, a narrativa dialoga com questões universais, como a herança familiar, a pressão social e os efeitos da violência psicológica, ao mesmo tempo em que mantém o leitor em constante estado de alerta. O uso de descrições minuciosas, embora alvo de críticas por leitores e críticos literários, pode ser visto como uma estratégia literária para intensificar a atmosfera claustrofóbica e a sensação de aprisionamento que permeia a obra. Essa escolha estilística reforça a ideia de que o verdadeiro suspense não reside apenas na resolução do mistério, mas na revelação gradual das camadas emocionais e cognitivas que compõem os personagens.

Em síntese, “O Bom Filho” é uma obra que transcende o simples mistério policial para apresentar um estudo psicológico profundo, com uma escrita que prende o leitor e convida à reflexão sobre a natureza da mente, a memória e os laços familiares problemáticos. Trata-se de um romance que, ao mesmo tempo em que entretém pelo suspense, também provoca inquietação intelectual ao expor os limites da racionalidade e da moralidade em situações extremas. Desta forma, a obra de Jeong Yu-Jeong consolida-se como uma contribuição significativa para o gênero thriller psicológico contemporâneo, oferecendo ao público não apenas uma narrativa envolvente, mas também uma oportunidade de reflexão crítica sobre os dilemas humanos universais.

Referências

JEONG, Yu-Jeong. O Bom Filho. Tradução: Jae Hyung Woo. São Paulo: Todavia, 2019.

OSBORNE, J. David. The Good Son by You-Jeong Jeong. World Literature Today, 2018. Disponível em: https://www.worldliteraturetoday.org/2018/july/good-son-you-jeong-jeong. Acesso em: 24 nov. 2025.

VARMA, Anuradha. Book review: The Good Son by You Jeong Jeong. The Indian Express, 26 maio. 2019. Disponível em: https://indianexpress.com/article/lifestyle/books/book-review-good-son-you-jeong-jeong-5747877. Acesso em: 24 nov. 2025.

SOBRE A AUTORA

Mariana Mello Alves de Souza

Doutoranda em Estudos Literários pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) e integrante da Curadoria de Estudos Coreanos. Pesquisa na área de tradução literária, com foco na poesiacanto coreana clássica.

E-mail: mello.mariana@live.com.

  1. Tradução da autora. No original: “This is a book of questions. It’s a book of mystery, too, but a good portion of it consists of Yu-jin talking to himself, trying to figure out what’s going on”. ↩︎
  2. Tradução da autora. No original: “As you go down the rabbit hole, turning the dark pages of his mind and his mother’s journal, which takes us from his childhood to adulthood as he stands at the threshold of law school, we come face to face with his ‘true nature’”. ↩︎
A Frozen Flower: Uma tradução visual de Gasiri e Ssanghwajeom

A Frozen Flower: Uma tradução visual de Gasiri e Ssanghwajeom

por Denise Nobre

Fonte: Wikipedia https://it.wikipedia.org/wiki/Ssanghwajeom

A produção cinematográfica sul-coreana contemporânea frequentemente revisita o passado dinástico para reinterpretar a identidade nacional. Neste contexto, o filme A Frozen Flower (Ssanghwajeom, 2008), dirigido por Yu Ha, destaca-se não apenas como um drama histórico, mas como um exercício de tradução visual das Goryeo Gayo (Canções de Goryeo).

As Goryeo Gayo, uma coleção de poemas e canções folclóricas da Dinastia Goryeo, representam um dos corpus mais famosos e intrigantes da história da literatura coreana clássica. Estas canções, oriundas da tradição oral e posteriormente registradas durante a Dinastia Joseon em compilações como o Akhak Gwebeom1 (cânone Musical), destacam-se pela sua franqueza emocional e temática vulgar. Tais obras capturam a essência humana sem os filtros moralizantes posteriores, abordando o amor, a separação e o prazer com uma crueza linguística única (Lee, 2003). O filme não utiliza as canções Ssanghwajeom e Gasiri meramente como trilha sonora diegética (que faz parte da cena), mas estrutura seu roteiro como uma interpretação visual e simbólica de suas letras.

Ambientada no final da Dinastia Goryeo, um período de subjugação política ao Império Yuan e crise de identidade nacional, a trama desenvolve-se em torno de um triângulo amoroso trágico. O Rei, impossibilitado de gerar um herdeiro e sob pressão política, solicita ao seu amante e chefe da Guarda Real, Hong-rim, que engravide a Rainha. O que inicia como um cumprimento de dever transforma-se em uma paixão avassaladora entre a Rainha e o guarda, desencadeando uma série de eventos marcados por ciúme, traição e vingança, culminando na dissolução sangrenta da corte.

A canção que intitula o filme, Ssanghwajeom (“A Loja de Dumplings”), introduz a tensão erótica e a inevitabilidade do escândalo. Historicamente censurada por seu conteúdo explícito, a canção narra encontros (ou abusos) sexuais em locais inusitados. No filme, o eu lírico encontra correspondência em Hong-rim, o chefe da guarda real, que se torna o sujeito passivo “tomado” pelas figuras de poder (o Rei e a Rainha), transformando a corte num palco de rumores.

Um dos pontos mais sofisticados da obra é a incorporação da pluralidade de leituras do termo “ssanghwa”. O filme não escolhe uma única tradução, mas representa visualmente algumas das hipóteses de tradução. A interpretação tradicionalmente mais aceita para os dois primeiros versos da canção — “Ssanghwajeome ssanghwa sareo gasseonneunde / Hoehoeabi nae sonmogeul jwieotseumnida” — seria: “Vou à loja turca (ou árabe), compro um pãozinho (dumpling) / Um velho turco me segura/toma pela mão” (Lee, 1981, 2003). Desta forma, é possível interpretar que o ssanghwa na canção é um tipo de mandu feito por comerciantes estrangeiros da época. No longa, esse “bolinho” aparece em cena quando a Rainha oferece mandu de arroz a Hong-rim como forma de confessar seu amor, dizendo que é uma tradição de sua terra natal, simbolizando a aceitação do afeto proibido e a corrupção da identidade nacional pelos costumes estrangeiros. Outra leitura possível é do ssanghwa como referência ao Ssanghwatang, um tipo de chá medicinal de madressilva que Hong-rim serve a ambos os monarcas, reforçando sua posição de subserviência e cuidado.

Uma discussão mais recente sobre a palavra ssanghwa na canção foi feita pelo professor Park Deok-yu, do Departamento de Educação em Língua Coreana da Universidade Inha, em seu estudo “A Study on the Rhyme and Syntactic Structure of <Ssanghwajeom>” (2001). Baseando-se no Dicionário Sino-Coreano de 1989, o professor aponta que o termo 霜花 shuāng huā (“flor de gelo” ou “flor de geada”) designa um “trabalho fino em forma de gelo” (細工).  Consequentemente, ele conclui que ssanghwa refere-se a um artesanato delicado ou joia, e que Ssanghwajeom seria, portanto, uma “loja de artesanato” ou loja de joias de comerciantes estrangeiros, e não uma loja de mandu. 

Sendo assim, esta última é a interpretação que melhor dialoga com o título internacional do filme (A Frozen Flower), e com a tragédia dos personagens, desafiando a tradicional interpretação relacionada à culinária. Isso valida a importância narrativa do colar de Yuan no filme. A joia, que a Rainha trouxe consigo e perde em um ataque, é reposta secretamente por Hong-rim (porém, ela diz ao rei ter ganhado uma nova joia parecida trazida por seu irmão), e torna-se a materialização física desse ssanghwa (artesanato delicado). Outra interpretação para o título do filme seria “flor congelada” e poderia remeter à cena final do filme em que a imagem da pintura feita pelo rei, retratando-o com seu amante, é congelada na tela, simbolizando o amor entre ele e Hong-rim como uma flor que nunca desabrochou.

Já a canção Gasiri (“Você vai?”), em contraste com a promiscuidade e assédio de Ssanghwajeom, estrutura o arco dramático do Rei repleto de um profundo sentimentalismo. O monarca encarna o eu lírico que observa a partida emocional de seu amado, paralisado pelo dilema expresso na letra: o medo de que, ao tentar deter o amante à força, este nunca mais retorne. A violência do Rei — incluindo a castração de Hong-rim — deve ser lida sob a ótica desta canção. Não é apenas uma punição, mas uma tentativa desesperada de impedir a “partida” física do guarda para a Rainha, visando, através do impedimento de concretizar o desejo sexual, restaurar uma lealdade de “coração”. O Rei suplica pelo retorno do amante até o último instante, pois para ele a posse física é inútil sem o afeto, assim como o próprio reino deixa de importar perante a perda de seu grande amor.

A Frozen Flower opera como uma tradução visual que transcende a adaptação literal. Ao personificar as vozes líricas das Goryeo Gayo em seus protagonistas, o diretor Yu Ha resgata a humanidade crua e impulsiva (o desejo, o ciúme, a transgressão, a corrupção) que a ética e a hierarquia confucionistas tentaram suprimir na sociedade coreana. O filme encena essa vitória da emoção sobre a regra, provando que o legado mais duradouro da literatura coreana reside na coragem de sentir e expressar.

REFERÊNCIAS

A FROZEN Flower. Direção: Yoo Ha. Produção: Opus Pictures. Intérpretes: Jo In-sung; Joo Jin-mo; Song Ji-hyo e outros. Seul: Showbox, 2008. 1 filme (133 min), son., color.  

A FROZEN Flower. In: Wikipedia: the free encyclopedia. [S.l.], 2025. Disponível em: https://en.wikipedia.org/wiki/A_Frozen_Flower. Acesso em: 8 dez. 2025. 

ACADEMY OF KOREAN STUDIES. Akhak Gwebeom (악학궤범). Encyclopedia of Korean Culture. s.d. Disponível em:https://encykorea.aks.ac.kr/Article/E0034481. Acesso em: 30 jan 2026.

JUNG, Sang-young. Goryeosogyo ‘Ssanghwajeom’ui mandugageneun wigureuin sawon? [고려속요 ‘쌍화점’의 만두가게는 위구르인 사원?]. The Hankyoreh, Seul, 9 jan. 2009. Disponível em: https://www.hani.co.kr/arti/culture/culture_general/329817.html. Acesso em: 8 dez. 2025. 

LEE, Peter H. Anthology of Korean Literature. From Early Times to the Nineteenth Century. Honolulu: University of Hawaii Press. 1981. p. 43 

LEE, Peter H. (Ed.). A history of Korean literature. Cambridge: Cambridge University Press, 2003. p. 99-117. 

SSANGHWA. In: Namu Wiki. [S. l.], [20–?]. https://namu.wiki/w/%EC%8C%8D%ED%99%94. Acesso em: 8 dez. 2025.

SOBRE A AUTORA

Denise Nobre

Bacharela em Letras Português e Coreano na Universidade de São Paulo, idealizadora e co-fundadora do podcast e portal de notícias Sarangbang. Integrante da Curadoria de Estudos Coreanos (CEÁSIA/CEA/UFPE). Se interessa por literatura coreana.

E-mail: denisenobre@sarangbang.com.br

  1. O Akhak Gwebeom (악학궤범 / 樂學軌範) é um tratado fundamental sobre música tradicional coreana compilado em 1493, durante o reinado do Rei Seongjong na Dinastia Joseon. A obra funciona como um manual abrangente que documenta a teoria musical, os instrumentos da época, as coreografias das danças e os arranjos para rituais e banquetes da corte. Sua importância para o estudo da literatura coreana clássica reside no fato de que o tratado revisou e corrigiu erros de tratados anteriores e preservou as letras de diversas canções populares, inclusive da Dinastia Goryeo. Embora algumas letras tenham sido censuradas pelos magistrados confucionistas que compilaram a obra, o cânone, composto por 9 volumes e 3 livros, foi recuperado mesmo após diversas guerras e permanece como importante documento da música tradicional coreana (Academy of Korean Studies, s.d.). ↩︎
As mulheres coreanas e o patriarcado neoconfucionista: como uma revisão do confucionismo poderia ajudar na emancipação feminina?

As mulheres coreanas e o patriarcado neoconfucionista: como uma revisão do confucionismo poderia ajudar na emancipação feminina?

por: Yasmim Coutinho

imagem: https://asiasociety.org/korea/history-korean-beauty-part-4-gisaeng-forgotten-artists

Durante a Dinastia Joseon (1393-1910), o neoconfuncionismo1 se tornou a ideologia de Estado oficial. Para tanto, os cidadãos de Joseon foram obrigados a implementar os princípios neoconfucionistas no seu cotidiano, como os que estavam relacionados a lealdade e a autoridade, já que a filosofia servia como uma forma de organizar a sociedade e moldar o comportamento. Os coreanos engajavam bastante nessa natureza hierárquica e respeitosa do confucionismo, especialmente nos “Três Laços Fundamentais”, um dos principais pilares do pensamento. Os três laços são: “[…] a lealdade de um súdito ao seu líder; a veneração de uma criança aos seus pais e ancestrais; a dedicação de uma mulher ao seu marido e à sua família” (Jayasuriya, 2024, p. 11).

Com seu caráter hierárquico abraçado pela população da época, a ideologia neoconfucionista passou a desempenhar função fundamental na vida das mulheres coreanas, dado que a subordinação feminina se tornou uma de suas bases. Sob tal lógica, os papéis das mulheres na sociedade eram bastante limitados: todas deveriam ser filhas, esposas e mães e desempenhar perfeitamente as funções ligadas à vida doméstica. Embora a Coreia do Sul hoje seja um país moderno e industrializado, esta perspectiva prevalece na mentalidade dos sul-coreanos, tornando o sistema patriarcal neoconfucionista uma forte herança cultural da Dinastia Joseon, sendo um obstáculo para as mulheres sul-coreanas do tempo presente e, concomitantemente, para o movimento feminista, visto que ainda coloca as mulheres como subordinadas e inferiores aos homens. 

Jayasuriya (2024, p. 14) afirma que os ideais neoconfucionistas influenciam diretamente várias situações do cotidiano das mulheres, como o modo com que elas lidam com seus corpos e sua aparência, os padrões de beleza da sociedade e a distribuição de tarefas (ainda são as mulheres as principais responsáveis pelas tarefas da casa, por exemplo). Além disso, as sul-coreanas também se tornaram alvos na esfera on-line, sofrendo diariamente com diversos tipos de ataques na internet, como a propagação de deepfakes e a própria criação da machosfera2 (Jung; Moon, 2024), acontecimentos que evidenciam a condição subalterna a que essas mulheres estão expostas.

Apesar desta forma de pensamento estar internalizada na cultura sul-coreana e sua abolição ou reestruturação ser uma tarefa complexa, muitos autores como Juliana Batista e Tabitha Jayasuriya defendem que é possível uma reformulação. Visto que o neoconfucionismo é uma reinterpretação do confucionismo, as autoras partem da ideia de que é possível reinterpretar a filosofia confucionista para entender o papel feminino na filosofia “original” e, dessa maneira, entender o que é invenção do neoconfucionismo e o que não é. Em outras palavras, é necessário realizar uma reinterpretação da ideologia confucionista a fim de entender o papel da mulher na filosofia confuciana para entender o papel da mulher no neoconfucionismo e analisar se o confucionismo e o feminismo são realmente duas ideologias opostas. Segundo Jayasuriya (2024), a ideia de que as mulheres são inferiores aos homens no confucionismo é um erro de interpretação. Sob tal perspectiva, não seria a filosofia confucionista intrinsecamente misógina e sexista, mas sim a forma com que ela é interpretada, ensinada e colocada em prática pelas pessoas desde a Dinastia Joseon, a qual se reflete nos dias atuais.

Por exemplo, Hsü Daulin (1970) afirma que os neoconfucionistas interpretaram de forma errônea “Os Três Laços Fundamentais” do confucionismo ao torná-los um princípio cosmológico: a partir dessa interpretação, a lógica da hierarquia foi consagrada no lugar da reciprocidade dos relacionamentos pregada pela filosofia de Confúcio; essa interpretação errada poderia ser uma das causas da subordinação feminina, pois o homem estaria acima na hierarquia. Além disso, Jayasuriya (2024) e Batista (2017) ainda afirmam que há pontos de intersecção entre o feminismo e o confucionismo, pois o primeiro consegue aplicar as Cinco Virtudes Constantes do Confucionismo (Benevolência, Retidão, Propriedade, Sabedoria e Confiabilidade)3 com facilidade e simplicidade às suas agendas, porque “o Confucionismo é uma filosofia dedicada ao cuidado, ao respeito e à harmonia, e o feminismo é uma ideologia que busca a mesma qualidade de sociedade” (Jayasuriya, 2024, p. 32). Diante desta perspectiva, pode ser enriquecedor para as mulheres sul-coreanas se elas utilizarem o confucionismo em prol da luta mulheril. Jayasuriya (2024, p. 34) admite que não é algo tão simples a se fazer, mas ainda assim é póssivel: “com alguma melhoria na educação e maior conscientização em torno da libertação das mulheres no contexto cultural confucionista, a Coreia poderia aceitar a agenda feminista em suas estruturas sociais e políticas […]” . 

É inegável que os valores neoconfucionistas contribuíram para reprimir as mulheres, da mesma forma que são utilizados como justificativa até hoje para tal repressão. Porém, como muitos estudiosos afirmam, existe a possibilidade de que a filosofia confucionista não possua raízes sexistas. Assim, seria o modo que a filosofia foi interpretada e ensinada que tornou o neoconfucionismo sexista e misógino. Nas palavras de Batista (2017), “a ausência de literatura poderosa e de apoio dos primeiros filósofos confucionistas, incluindo o próprio Confúcio, produziu um vácuo que poderia ser preenchido com interpretações negativas das mulheres”. Desta forma, utilizar pontos de convergência entre o confucionismo e o feminismo e realizar uma revisão da filosofia confuciana pode ser um caminho para que a emancipação das mulheres sul-coreanas continue florescendo.

REFERÊNCIAS

BATISTA, Juliana. The Confucianism-Feminism Conflict: Why a New Understanding is Necessary.  Schwarzman Scholars, 2017. Disponível em: https://www.schwarzmanscholars.org/events-and-news/confucianism-feminism-conflict-new-understanding-necessary/. Acesso em: 20 fev 2026.

HUANG, Xiuji. Essentials of Neo-Confucianism: eight major philosophers of the Song and Ming periods. Westport, Conn.: Greenwood Press, 1999. Disponível em: https://philpapers.org/rec/HUAEON. Acesso em: 20 fev 2026.

HSÜ, Dau-lin. The myth of the “Five Human Relations” of Confucius. Monumenta Serica, v. 29, p. 27– 37, 1970. Disponível em: dx.doi.org/10.1080/02549948.1970.11744983. Acesso em: 20 fev 2026.

JAYASURIYA, Tabitha. Can you be a feminist in South Korea? Investigating the compatibility of Confucianism and feminism in a Korean context. 2024. Tese (Doutorado em Antropologia) – University of Exeter, 2024. Disponível em: 10.13140/RG.2.2.33264.06408. Acesso em: 20 fev 2026.

JUNG, Gowoon; MOON, Minyoung. “I Am A Feminist, But . . .” Practicing Quiet Feminism in the Era of Everyday Backlash in South Korea. Gender & Society, v. 38, n. 2, p. 216-243. 2024. Disponível em: https://doi.org/10.1177/08912432241230557. Acesso em: 20 fev 2026.

YAO, Xinzhong. An Introduction to Confucianism. Cambridge University Press, 2000. Disponível em: https://www.cambridge.org/core/books/an-introduction-to-confucianism/23905CF8F1A2EAF0160AF18B1D8A8DD5. Acesso em: 20 fev 2026.

SOBRE A AUTORA

Yasmim Kettermann Coutinho

Graduada em Relações Internacionais pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), integrante da Curadoria de Estudos Coreanos (CEÁSIA/CEA/UFPE). Se interessa por estudos de gênero, literatura asiática feminina e cultura coreana. E-mail: yasmim.kc@gmail.com

  1. O neoconfucionismo é uma reinterpretação do confucionismo: ambos são um sistema de crenças que regem e organizam a sociedade. No que diz respeito à ligação desses sistemas, deixo as palavras de Huang (1999, p. xi) “A era Song-Ming tem sido apropriadamente referida como o maior período criativo da história da filosofia chinesa desde a dinastia Zhou (1122?–256 a.C.). Mas, ao contrário da época antiga, durante a qual o confucionismo era uma das escolas mais influentes entre as chamadas cem escolas, durante as dinastias Song e Ming, o neoconfucionismo foi a única força filosófica predominante a desafiar a influência gradualmente decrescente do budismo e, em certa medida, do taoísmo religioso”. Nesse sentido, o confucionismo e o neoconfucionismo nasceram e floresceram em momentos e dinastias chinesas diferentes. Segundo o autor, os filósofos neoconfucionistas tornaram a filosofia mais ortodoxa. Yao (2000, p. 97) afirma que “O verdadeiro valor do neoconfucionismo não reside apenas em seu ‘retorno’ ao confucionismo clássico, mas em sua transformação fundamental das doutrinas confucionistas, que permitiu aos neoconfucionistas construir um sistema doutrinário abrangente e complexo, contendo uma cosmologia evolucionista, uma ética humanista e uma epistemologia racionalista”. ↩︎
  2. Machosfera, segundo Jung e Moon (2024, p. 220), é “um espaço onde as comunidades digitais propagam visões misóginas e rejeitam a masculinidade inclusiva”. ↩︎
  3. As Cinco Virtudes Constantes do Confucionismo são benevolência (ren 仁), retidão (yi 義), prosperidade (li 礼), sabedoria (zhi 智) e confiabilidade (xin 信). Knapp (2009, p. 2253) ao citar Baihutong (um dos textos confucianos) diz: “Benevolência significa não suportar o sofrimento alheio, amar o próximo e auxiliar todos os seres vivos. Retidão significa agir corretamente. Significa acertar no julgamento. Propriedade significa praticar o bem, ou seja, compreender o caminho e aperfeiçoar o que é refinado. Sabedoria significa conhecimento. Significa ter uma compreensão especial e poder saber das coisas antes mesmo de ouvi-las. Significa não se confundir com as circunstâncias e discernir as sutilezas. Confiabilidade significa sinceridade. Significa não se deixar desviar de seu propósito”. Em outras palavras, para o confucionismo as Cinco Virtudes Constantes são os valores/virtudes necessários para viver uma vida moral. Vale ressaltar que o neoconfucionismo se baseia nos conceitos de “qi (originalmente significando ar, vapor, respiração e depois a força vital da vida, traduzido de várias maneiras como força material, energia primária, éter ou matéria), li (princípio ou razão), xin (o coração/mente) e xing (natureza ou natureza humana)” (Yao, 2000). ↩︎
O imaginário nuclear e da reunificação coreana em Tempest/Polaris

O imaginário nuclear e da reunificação coreana em Tempest/Polaris

por Luisa de Mesquita

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fonte: Disney/Reprodução

[este ensaio contém SPOILERS para o k-drama Tempest/Polaris]

Desde o bombardeio de Hiroshima e Nagasaki em 1945, o mundo tem vivido debaixo do medo de um possível apocalipse nuclear, encabeçado pelas maiores potências do mundo ou por atores inesperados que conseguiram desbloquear o complexo processo de produção de armamentos nucleares. Muitas das tensões durante a Guerra Fria se basearam no fato de que ambos EUA e URSS eram países nucleares, e muitos acreditavam que apenas a realidade de Destruição Mútua Assegurada (ou MAD, na sigla em inglês) impedia que os diferentes polos entrassem numa guerra nuclear (Editores da Enciclopédia Britânica, 2024). Portanto, não é de se espantar que as consequências de tal conflito tenham estimulado a imaginação de diversos artistas e contadores de história no último século. Com produções de extremo sucesso como o filme Oppenheimer e a série Chernobyl, a humanidade continua a retratar suas ansiedades e expor sua curiosidade sobre as consequências da nuclearização global.

Enquanto historicamente os soviéticos/russos aparecem como antagonistas em histórias de tragédia ou de potencial nuclear, este ensaio almeja debater brevemente o papel que a República Popular Democrática da Coreia (a chamada Coreia do Norte) tem ocupado em produções mais recentes que abordam a ameaça nuclear. A Coreia do Norte retirou-se em 2003 do TNP, o Tratado da Não-Proliferação de Armas Nucleares, sendo atualmente um dos poucos países com arsenal bélico militar confirmado, e tal fato tem sido explorado por roteiristas de grandes séries televisivas.

Em Tempest/Polaris1, k-drama exibido pelo Disney+ e que estrela Jun Jihyun como a protagonista Seo Munju e Gang Dongwon como seu guarda-costas e par romântico Paik Sanho, o problema nuclear da Coreia do Norte ocupa o plano principal da narrativa. Kim Jong-un, presidente factual da Coreia do Norte, é ficcionalizado como Kim Hansang, interpretado por Uhm Taegoo, e aparece em momentos climáticos e tensos da trama como um dos principais antagonistas, ainda que frequentemente nos bastidores. Tempest/Polaris foi ao ar entre setembro e outubro de 2025, contando com 9 episódios e nota 6,7 no IMDb, sendo distribuído globalmente pela Disney, ainda que no selo Hulu, que produziu o k-drama (Polaris: Conspiração Política, 2025).

A trama segue Munju, ex-embaixadora sul-coreana na ONU, que deixa sua carreira diplomática para acompanhar a candidatura do marido, Jang Junik, à presidência da Coreia do Sul. No entanto, Junik é assassinado durante um compromisso de campanha, e Munju começa a desvelar uma trama de conspiração por detrás da morte do marido. Ela descobre que Junik iria anunciar um plano de reunificação pacífica entre o Norte e o Sul da península coreana, e que ele tinha contato direto com Anderson, dirigente estadunidense para assuntos coreanos nos EUA. Anderson, por sua vez, suspeitava que a Coreia do Norte havia vendido um submarino nuclear para Idisha, um país fictício que sofre com invasões estadunidenses e, a série sugere, está localizado em algum lugar do Oriente Médio. Através desse submarino, a Coreia do Norte estaria diretamente conectada a um futuro bombardeio nuclear em território estadunidense.

A questão da reunificação coreana é também central para o enredo do k-drama, especialmente porque Sanho, o protagonista masculino, é um desertor da Coreia do Norte que trabalha como mercenário. Sua fascinação por Munju, que defendia a proximidade entre as Coreias em seus discursos na ONU, leva-o a buscar protegê-la das tentativas de assassinato que ela sofre quando decide, ela mesma, concorrer à presidência. No meio de uma tempestade que envolve corrupção no governo sul-coreano, animosidade entre Coreia do Sul e China, adultério e dramas familiares, Munju é a responsável por conectar os pontos de uma tentativa de provocação de guerra nuclear na península coreana.

É importante ressaltar que o k-drama coloca a frágil relação entre EUA e Coreia do Sul no centro do enredo. Frágil porque, com bases militares estadunidenses instaladas em seu território, a produção aponta para o fato de que a Coreia do Sul fica à mercê dos interesses particulares e do comprometimento com a détente nuclear estadunidenses para a manutenção de sua própria segurança. Durante o enredo, o alto escalão de dirigentes dos EUA está disposto a sacrificar a Coreia do Sul se isso significar a destruição da Coreia do Norte e de seus armamentos nucleares; o k-drama retrata até um código secreto compartilhado entre as bases militares estadunidenses para a retirada de seus membros da península em caso de futuro bombardeio nuclear.

É através da atuação corajosa de Munju e Sanho que se impede um bombardeio de mísseis nucleares norte-coreanos nos EUA, que ocasionaria a eclosão de uma guerra de proporções mundiais. Arquitetado por uma traficante de armas e espiã que almejava ganhar muito dinheiro com o início de uma guerra violenta, a grande vilã secreta do k-drama é derrotada pelos dois protagonistas e o bombardeio é impedido em conjunto com os líderes fictícios da Coreia do Norte e de Idisha, que fornecem os códigos necessários para cancelar o disparo das ogivas.

O que Tempest/Polaris demonstra é que a Coreia do Sul ainda é uma sociedade marcada de forma singular pela ansiedade nuclear e pela desconfiança de sua irmã nortenha. No entanto, o k-drama não retrata os norte-coreanos como vilões cartunescos, muito pelo contrário: a narrativa aponta para as similaridades entre os países, especialmente no que toca seus relacionamentos conturbados com os EUA. É somente com a colaboração norte-coreana que Munju consegue desarmar as bombas nucleares que estavam direcionadas para os EUA. Munju é uma figura polêmica por conta de sua posição favorável à reunificação coreana, e ela é conhecida por todo país por sua atuação na ONU, falando a favor da paz e contra os conflitos nucleares.

Dessa maneira, Tempest/Polaris procura demonstrar como é complexa a posição sul-coreana em sua localização geopolítica. O k-drama é certeiro ao evidenciar como é desigual o relacionamento entre Coreia do Sul e EUA, demonstrando como os interesses estadunidenses podem comprometer a segurança sul-coreana e destruir quaisquer laços de solidariedade que existam entre ela e a sua irmã do norte. A posição crítica em relação aos EUA não é óbvia para um país que ainda depende não apenas do poderio militar estadunidense como também de laços econômicos com a potência norte-americana. As exportações da Coreia do Sul para os EUA têm apenas crescido, e a ameaça do Presidente Trump de taxá-las em 25% no início de 2025 preocupou profundamente autoridades sul-coreanas (PODER360, 2025).

Além disso, tendo como ponto central o poderio nuclear norte-coreano, Tempest/Polaris retrata como a paranoia nuclear pode cegar dirigentes, levando-os à corrupção (acusando falsamente cidadãos de espionagem, por exemplo) ou a medidas incrivelmente drásticas. O k-drama retrata como a ansiedade nuclear ainda orienta muito das decisões políticas tomadas pela Coreia do Sul e também ao entorno dela, por Coreia do Norte, China e EUA, demonstrando que essa questão ainda é extremamente atual. O problema das armas nucleares não ficou no século XX, com os retratos caricatos de soviéticos em filmes de espionagem. Pelo contrário, a Coreia do Norte, por ser considerada um ator imprevisível, ainda causa extrema desconfiança em dirigentes pelo mundo todo.

A solução apontada pelo k-drama é uma que certamente é considerada utópica por muitos: a reunificação pacífica da península coreana. Apesar das críticas empreendidas tanto ao governo sul-coreano quanto ao estadunidense, o k-drama entende que é apenas com um convívio unificado e transparente que haverá paz duradoura na península. Mas o k-drama não hesita em apontar as dificuldades que tal empreendimento enfrenta, tanto dentro da própria Coreia do Sul, quanto pelos EUA, que têm interesse em manter seu posicionamento na região.

Tempest/Polaris se aproveita da base cultural compartilhada da ansiedade nuclear para construir um enredo tenso, politicamente complexo. Colocando a Coreia do Sul como protagonista, o enredo explora de forma bem sucedida o que a ameaça nuclear norte-coreana significa para a península, redirecionando o foco de tal tipo de narrativa, que geralmente é centrada nas consequências para Europa e EUA.

REFERÊNCIAS

EDITORES DA ENCICLOPÉDIA BRITÂNICA. Mutual assured destruction (MAD). 2024. Disponível em: https://www.britannica.com/topic/mutual-assured-destruction. Acesso em: 6 dez. 2025. 

PODER360. Coreia do Sul prepara pacote de contramedidas após tarifaço de Trump. 2025. Disponível em: https://www.poder360.com.br/poder-economia/coreia-do-sul-prepara-pacote-de-contramedidas-apos-tarifaco-de-trump/. Acesso em: 6 dez. 2025. 

POLARIS: CONSPIRAÇÃO POLÍTICA. 2025. Disponível em: https://www.imdb.com/pt/title/tt27368147/. 

SOBRE A AUTORA

Luisa de Mesquita

Doutora em Relações Internacionais pela PUC-Rio, e pesquisadora associada da Curadoria de Estudos Coreanos (CEA/UFPE) e do Laboratório Cultpop (CNPq/UFF). Sua tese de doutorado procurou entender como fandoms de k-pop são lugares de formação política e por isso mesmo ela está sempre hiperanalisando peças de cultura pop.

  1. O k-drama é exibido no Brasil com o título Polaris, mas internacionalmente é conhecido como Tempest, por isso a opção pela barra. ↩︎