AMIZADE E COMPANHEIRISMO: O QUE A REELEIÇÃO DE LULA REPRESENTA PARA A RELAÇÃO BRASIL-COREIA DO SUL?

AMIZADE E COMPANHEIRISMO: O QUE A REELEIÇÃO DE LULA REPRESENTA PARA A RELAÇÃO BRASIL-COREIA DO SUL?

Autora: Yasmim Kettermann Coutinho

Foto: https://tmc.com.br/politica/brasil-e-coreia-do-sul-firmam-parceria-estrategica-com-acordos-bilaterais/

A celebração do presidente sul-coreano Lee Jae-Myung diante da reeleição do presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no domingo, 25 de outubro, chamou a atenção pelo grau de intimidade sugerido pela declaração de Lee, postada no X (antigo Twitter): “Meu querido amigo e companheiro, Presidente Lula, é com imensa alegria, mais do que ninguém, que transmito-lhe minhas felicitações pela sua eleição. Acredito que, com base na confiança e nas expectativas depositadas pelo povo brasileiro, o senhor continuará desempenhando um papel importante. Torço sinceramente para que siga avançando com determinação rumo ao futuro do Brasil que sempre idealizou. Guardo com carinho as conversas e os momentos de alegria que compartilhamos e aguardo com expectativa o dia em que nos reencontraremos. Mais uma vez, meus sinceros parabéns!” (Poder360, 2026).

A admiração de Lee por Lula, no entanto, não é novidade e vem do fato de ambos os presidentes terem uma jornada de vida muito semelhante: os dois vieram de famílias humildes, se dedicaram ao trabalho desde jovens e atuaram em causas trabalhistas. Enquanto Lula foi operário metalúrgico e sofreu um acidente no trabalho que causou a perda de seu dedo mindinho, Lee trabalhou em fábricas e também sofreu acidentes de trabalho a ponto de possuir o antebraço esquerdo permanentemente comprometido. Além disso, antes de se tornarem presidentes, lutaram pelo movimento laboral: Lula se tornou líder sindical e criou o Partido dos Trabalhadores (PT) e Lee atuou como advogado trabalhista e de direitos humanos (Guimarães, 2025). 

Tal proximidade e identificação entre os dois presidentes pode ser vista quando o sul-coreano visitou o Brasil em fevereiro de 2026 e postou em suas redes sociais um vídeo gerado por inteligência artificial que mostra ele e o presidente brasileiro abraçados quando crianças, com a seguinte legenda: “Dois trabalhadores que foram meninos se tornaram presidentes e se encontraram. Eles carregam feridas, mas não são cicatrizes. Do trabalho tiraram a sabedoria da vida, enfrentaram dificuldades, mas o povo os salvou. É por isso que somos irmãos. Ao meu irmão, presidente Lula, apresentamos este vídeo como presente” (Congresso em Foco, 2026).

Esse foi o primeiro encontro entre os dois presidentes e, como pode ser observado na Declaração Conjunta lançada pelo Ministério das Relações Exteriores brasileiro, foi marcado pela elevação das relações bilaterais entre Brasil e Coreia do Sul para uma Parceria Estratégica; foi adotado o Plano de Ação 2026–2029 e foram assinados diversos acordos em áreas importantes para as duas nações: tecnologia, inovação, cooperação cultural, economia, ciência, saúde, energia, agropecuária, entre outras (Nakamura, 2026). O segundo e mais recente encontro aconteceu em julho de 2026, quando Lee veio ao Brasil. Nessa visita, o Brasil tinha como objetivo ampliar seus mercados para reduzir as tarifas impostas pelos Estados Unidos. Diante desse cenário, Lula e Lee assinaram memorandos sobre terras raras e minerais críticos e outros acordos, que abordavam temas culturais e até um possível acordo comercial entre a Coreia do Sul e o Mercosul (Barreto, Calzolari, 2026; Rede PT de Comunicação, 2026).

Tendo isso em mente, o que a reeleição de Lula representa para a relação Brasil-Coreia do Sul? A tendência é que o governo de Lula continue investindo fortemente no multilateralismo, estratégia muito praticada no último mandato. Com a pressão estadunidense cada vez mais forte na América Latina, é possível que o Brasil busque outros mercados, assim como buscou durante o tarifaço. Portanto, ao possuir cooperação estratégica com a Coreia do Sul em algumas áreas, a nação de Lee se torna uma ótima aliada não só para diversificar o mercado brasileiro, mas também para fortalecer ainda mais a cooperação entre os dois países. Assim, a cooperação estratégica poderá ser expandida para outros setores e é possível visualizar um futuro para o acordo comercial entre Coreia do Sul e Mercosul.

Referências

BARRETO, Kellen; CALZOLARI, Isabella. Lula cita doramas e ‘Guerreiras do K-Pop’ em declaração ao lado do presidente da Coreia do Sul. G1, 2026. Disponível em: https://g1.globo.com/politica/noticia/2026/07/27/lula-cita-doramas-e-guerreiras-do-k-pop-em-declaracao-ao-lado-do-presidente-da-coreia-do-sul.ghtml. Acesso em: 26 out. 2026.

BRASIL. Ministério das Relações Exteriores. Declaração Conjunta por ocasião da Visita de Estado do Presidente da República da Coreia ao Brasil – Brasília, 26 a 29 de julho de 2026. Brasília, 28 jul. 2026. Disponível em: https://www.gov.br/mre/pt-br/canais_atendimento/imprensa/notas-a-imprensa/declaracao-conjunta-por-ocasiao-da-visita-de-estado-do-presidente-da-republica-da-coreia-ao-brasil-brasilia-26-a-29-de-julho-de-2026. Acesso em: 27 out. 2026.

CONGRESSO EM FOCO. Presidente da Coreia do Sul posta vídeo de IA com Lula e o chama de “irmão”. Congresso em Foco, 2026. Disponível em: https://www.congressoemfoco.com.br/noticia/116614/presidente-da-coreia-do-sul-posta-video-com-lula-e-o-chama-de-irmao. Acesso em: 26 out. 2026.

GUIMARÃES, Ana Cláudia. Das fábricas à presidência: as semelhanças entre Lula e Lee Jae-myung. VEJA, 2025. Disponível em: https://veja.abril.com.br/coluna/giro-pelo-oriente/das-fabricas-a-presidencia-as-semelhancas-entre-lula-e-lee-jae-myung/. Acesso em: 26 out. 2026.

LEE, Jaemyung. Meu querido amigo e companheiro, Presidente Lula. Local: 26 out 2026. X: [@Jaemyung_Lee]. Disponível em: https://x.com/Jaemyung_Lee/status/2114582823877431421. Acesso em: 26 out. 2026.

NAKAMURA, João. Brasil e Coreia do Sul firmam parceria para áreas estratégicas. CNN Brasil, 2026. Disponível em: https://www.cnnbrasil.com.br/economia/money/macroeconomia/brasil-e-coreia-do-sul-firmam-parceria-para-areas-estrategicas/

PODER360. Líderes internacionais dão parabéns a Lula pela vitória. Poder360, 2026. Disponível em: https://www.poder360.com.br/poder-eleicoes-2026/lideres-internacionais-dao-parabens-a-lula-pela-vitoria/

REDE PT DE COMUNICAÇÃO. Lula firma parcerias em tecnologia, defesa e educação com presidente da Coreia do Sul. Partido dos Trabalhadores, 26 out. 2026. Disponível em: https://pt.org.br/lula-firma-parcerias-em-tecnologia-defesa-e-educacao-com-presidente-da-coreia-do-sul/

Sobre a Autora

Yasmim Kettermann Coutinho

Graduada em Relações Internacionais pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), pós-graduada em Comércio Exterior e Marketing Internacional e integrante da Curadoria de Estudos Coreanos (CEÁSIA/CEA/UFPE). Se interessa por história e cultura coreana.

E-mail: yasmim.kc@gmail.com

Quem disse que K-pop e política não se misturam?

Quem disse que K-pop e política não se misturam?

Clara Moraes e Vitória Ferreira Doretto

*texto enviado na edição número 12 da Mangwanbu.

Neste mês é praticamente impossível não falar de eleições e, desde que vários fãs e fandoms começaram a expressar seu apoio ao candidato a reeleição Luis Inácio Lula da Silva, de espectro político progressista, temos visto muitos fãs de espectros contrários falarem nas redes sociais que “não se deve misturar K-pop com política”, porque “os idols não apoiariam dado político brasileiro”, porque “a Coreia do Sul é de direita”, porque “os idols não deixam usar suas músicas para isso” e várias outras supostas razões que, por falta de palavra melhor, beiram a inocência de tão rasas. E como K-pop é cultura sul-coreana, cá estamos.

O conceito de cultura varia com a abordagem teórica adotada, por isso, podemos considerar cultura tudo o que vai além das necessidades básicas de sobrevivência ou, como conceito ampliado, “artes em abrangência mais larga, patrimônio material e imaterial, modos de vida, concepções de mundo, valores, pensamentos, culturas populares, identidades culturais, culturas digitais e diversas outras modalidades de cultura” (Rubim; Tavares, 2021, p. 330).

Então, K-pop é cultura.

E se K-pop é cultura e a cultura abrange concepções de mundo e modos de vida, então a cultura é política e, consequentemente, o K-pop também é política.

Uma pessoa pode ignorar o lado político do K-pop e só “ouvir música para se alienar”, mas isso não quer dizer que não haja política envolvida na música, desde sua composição e produção até sua circulação.

Mas já que falaram em idols e agências não deixando suas músicas se envolverem em questões políticas, vamos voltar uns anos na história e falar de K-pop e política na Coreia do Sul.

Vamos começar com a música de debut do SNSD que se tornou um hino de resistência e foi a trilha sonora dos principais movimentos juvenis na Coreia do Sul, incluindo os protestos na Universidade Feminina Ewha, os protestos à luz de velas que derrubaram a presidente Park Geun-hye, os protestos na Universidade Dongduk, os protestos feministas e do #MeToo e as manifestações pró-democracia e a favor do impeachment do presidente Yoon Suk Yeol. Nenhum protesto em busca de mudanças no país estaria completo sem “Into The New World” do Girls’ Generation.

Em 2016, estudantes da Universidade Feminina Ewha ocuparam o campus para protestar contra a decisão unilateral da administração de criar um programa universitário controverso, chamado de Light Up Your Future in Ewha (LiFE) College, visto como uma tentativa de “vender diplomas” para obter financiamento governamental. Durante o protesto, quando a polícia entrou no prédio ocupado, as centenas de estudantes cantaram “Into the New World”, do Girls’ Generation, e o momento viralizou nas redes sociais juntamente com o que aconteceu logo em seguida: estudantes sendo arrastados à força pela polícia em meio a gritos de dor. A mensagem de união no meio da incerteza repercutiu para além dos muros da universidade.

Após os protestos em Ewha, a presidente da Universidade, Choi Kyung-hee, anunciou o cancelamento do plano, mas as estudantes continuaram a exigir sua renúncia. Os protestos culminaram na revelação de uma peça crucial do escândalo político que eventualmente derrubou a presidente Park Geun-hye: o favoritismo da instituição em relação a uma atleta de hipismo, Chung Yoo-ra, filha de Choi Soon-sil, confidente secreta de Park Geun-hye.

A extensão dos favores concedidos por Ewha à filha de Choi foi investigada pelo parlamento sul-coreano e por uma equipe especial de promotores. Sete funcionários da universidade foram indiciados, e a admissão da aluna na universidade foi cancelada. O episódio tocou numa ferida sensível no país, pois muitos jovens se esforçam para ingressar numa universidade de prestígio, e desencadeou um enorme movimento popular que ajudou a destituir Park, que sofreu um processo de impeachment no parlamento. Os manifestantes que pediam o impeachment da presidente Park Geun-hye também usaram “Into the New World” nos protestos à luz de velas. Os protestos cantavam a música para transmitir a ideia de solidariedade, de que todos estavam juntos, independentemente da adversidade em que estavam naquele momento.

Assim, a música passou a ser associada à cultura de protesto sul-coreana, especialmente entre jovens de mentalidade liberal que clamam por mudanças. E o movimento dos manifestantes mostrou que havia surgido uma nova cultura de protesto: a cultura de uma geração que cresceu após o fim do regime autoritário em 1987 e foi influenciada pelo K-pop.

E para quem acha que as integrantes do SNSD foram contra o uso da música: em uma entrevista para a W Korea em 2017, Yuri disse que ficou emocionada e chorou depois de assistir ao vídeo das estudantes da Ewha e que foi um momento de orgulho para ela como cantora.

Anos depois, em 2019, estudantes sul-coreanos colocaram “Into the New World” durante uma manifestação em apoio aos protestos pró-democracia de Hong Kong.

A música também é considerada o hino não oficial do orgulho LGBTQIAPN+ sul-coreano. Nas Paradas do Orgulho de Incheon e de Seul e no Festival de Cultura Queer de Seul é comum ouvir a canção entoada a plenos pulmões pelos participantes. Em 2021, Tiffany, outra integrante do Girls’ Generation, apareceu em um vídeo com membros da comunidade LGBTQIAPN+ dublando e dançando ao som da música.

Em 12 de fevereiro de 2022, grupos como o Centro Coreano de Resposta à Violência Sexual Cibernética e a Associação Coreana de Trabalhadoras organizaram um protesto e homens e mulheres marcharam pelas ruas de Seul contra a “política misógina” fomentada pelos candidatos à presidência antes das eleições daquele ano e entoavam “Into the New World”. A mensagem dos cartazes com “Igualdade, não ódio” e “Feministas mudarão o mundo” era clara: queriam igualdade de gênero e que parassem com o ódio e a discriminação.

E finalmente, em 2024, depois que o então presidente Yoon Suk Yeol decretou a lei marcial na Coreia do Sul e mobilizou as forças militares para impedir atividades políticas e parlamentares, incluindo a votação que cancelaria a medida, a população, incluindo milhares de fãs de diversos grupos de K-pop, se uniu nas ruas para protestar contra Yoon e pedir o impeachment do presidente. As ruas foram tomadas por manifestantes, em sua maioria jovens mulheres, que empunhavam lightsticks de K-pop. Enquanto os manifestantes cantavam e balançavam seus lightsticks no protesto, os parlamentares literalmente correram e até mesmo pularam o muro da Assembleia Nacional para votar e impedir a tentativa de golpe — entre eles estava Lee Jae-myung, atual presidente do país, que, como líder da oposição, transmitiu ao vivo o seu deslocamento até a Assembleia.

imagem: Yonhap News

O protesto da população foi imenso, a presença dos fandoms foi massiva, e passou a incluir grupos de mulheres e ativistas LGBTQIAPN+, que criticaram a política de ódio perpetuada pelo governo Yoon. E até mesmo os políticos usaram lightsticks. Todas as noites, milhares de lightsticks eram agitados do lado de fora da Assembleia Nacional, como se fossem uma visualização daquela “luz fraca” de que a letra de “Into the New World” fala. Muitos jovens com lightsticks de K-pop protestaram perto da Assembleia Nacional e da sede do Partido do Poder Popular, pedindo o impeachment de Yoon e a dissolução do PPP.

Na época, nem os idols nem as empresas de K-pop se pronunciaram contra a participação dos fandoms nos protestos; pelo contrário, alguns artistas apoiaram os fãs e distribuíram comida para os participantes.

Dois exemplos que podemos citar são Yuri, do Girls’ Generation, e IU.

Para o protesto que ocorreu em 14 de dezembro em frente à Assembleia Nacional em Seul, pedindo o impeachment do ex-presidente, Yuri providenciou kimbap para ser distribuído às pessoas e pediu que elas se certificassem de encherem o estômago com kimbap, cuidarem da saúde e cantarem “Into the New World” bem. Já IU financiou refeições, café e bolsas térmicas para os manifestantes (a ação foi aberta a todos os manifestantes, não apenas aos membros do fã-clube). Na época, a EDAM, agência dela, afirmou que a intenção era “aquecer as mãos congeladas” dos que “iluminam seus arredores com bastões luminosos no frio”.

No dia da aprovação da moção de impeachment do Yoon, as pessoas estavam reunidas esperando o resultado e, enquanto anunciavam, tocaram “Genie” do Girls’ Generation junto com gritos de “impeachment da YSY!” durante a parte do “tell me your wish” (diga-me o seu desejo). Segundos depois, quando anunciaram que a moção havia sido aprovada, imediatamente trocaram a música para “Into the New World”.

Em 2025, a posse presidencial de Lee Jae-myoung também contou com “Into the New World”, considerada a canção de protesto definitiva, especialmente durante o caos da lei marcial.

Se em 2016 ficou claro que uma nova cultura de manifestação tinha surgido e “Into the New World” é a “música de protesto” desta geração, os manifestos de 2024 provaram que agitar lightsticks é uma forma contemporânea de expressão do poder popular. Desta forma, é impossível não perceber que, sim, o K-pop faz parte de um novo movimento de mobilização política e solidariedade dos povos em defesa da democracia.

Os lightsticks, outrora utilizados para demonstrar apoio a artistas durante shows, passaram a iluminar manifestações em defesa da democracia. As fronteiras de cada fandom foram ultrapassadas e as luzes passaram a compor uma imagem pública de solidariedade entre os povos. Dessa maneira, quando os lightsticks deixam os shows e passam a iluminar manifestações em defesa da democracia, fica difícil sustentar que o K-pop existe fora da política.

Não só na Coreia do Sul, mas por todo o mundo, fandoms dos mais diversos grupos, solistas, celebridades, escritores, esportes, filmes, séries etc. fazem ações sociais e políticas que ultrapassam a ideia de que gostar de algo é sinônimo de apenas consumir sem ter pensamento crítico. Para citarmos apenas algumas ações no Brasil, já vimos atitudes como a criação de um fundo de arrecadação para ajudar a Brigada Alto Pantanal do EXOLs Support Pantanal, a criação do movimento social Army Help The Planet (AHTP) e campanhas de doação de sangue e de emissão de título eleitoral… estes são poucos exemplos do muito que é feito pelas comunidades de fãs.

Por isso, falar que K-pop e política não se misturam… não faz sentido.

E é aqui que podemos falar da ação mais recente de fandoms, incluindo os de K-pop, defendendo a democracia e lutando pela manutenção de direitos básicos da sociedade: o Fandoms com Lula.

Quando falamos em fandom, estamos nos referindo às estruturas e práticas que são formadas em torno de peças de cultura popular — o fandom é pré-digital, mas a internet possibilitou que os fãs, ou seja, as pessoas que se identificam com alguma coisa tenham cada vez mais acesso fácil e frequente às coisas de que gostam e suas atividades envolvem criação de conteúdo, evangelização e liderança a serviço do objeto de fã (Fraade-Blanar; Glazer, 2018).

Criada no X (antigo Twitter) pelos perfis @Central_Fresno, @acesaintsatine, @PortalAdelaBr, @acervymariah, @jaywonacervo_, @lulacervo, @PrettyJiBrasil e @BrasilMOO, e posteriormente aderida por muitos outros perfis, a ação conjunta dos fandoms é, segundo a organização, a maior que já existiu no Brasil em prol da democracia e reúne mais de mil fã-clubes e páginas de diferentes artistas e estados brasileiros em uma mobilização voluntária pela eleição de Lula.

Esse coletivo de fãs está expandindo sua experiência e usando a força de suas comunidades para a participação política, criando canais de diálogo, produzindo materiais de informação para circulação dentro e fora dos fandoms, tirando dúvidas, reunindo denúncias, ameaças e relatos de situações de risco (incluindo ameaças de bomba ou explosão, possíveis atentados, ameaças de violência, divulgação de planos de ataques e outras ocorrências preocupantes tanto na internet quanto fora dela) para documentação e encaminhamento aos agentes de segurança responsáveis e mapeamento de contas em redes sociais que foram suspensas, banidas ou sofreram algum tipo de restrição.

O movimento dos fandoms incentivou seus seguidores a divulgar informações nas mais diversas plataformas sociais e a subir hashtags para colocar a pauta no topo dos assuntos do momento e também articulou ações em apoio à campanha pela reeleição do presidente que foram além do digital: ocuparam ruas de diversos estados brasileiros.

Além do movimento geral do Fandoms com Lula, em 17 de outubro, diversos fandoms conhecidos por serem rivais nas redes sociais se uniram e lançaram a campanha EU VOU +1, que incentiva a participação eleitoral e a valorização da democracia, convidando as pessoas a comparecerem às urnas e a incentivarem mais alguém a votar.

São ações que despertam o sentimento de comunidade entre as pessoas e trazem à tona o melhor da cultura de fãs.

Quer outro exemplo contemporâneo que envolve cultura e política? Na França estão ocorrendo diversos protestos desde setembro (inicialmente devido às condições das escolas e à escassez de professores nos subúrbios da classe trabalhadora, o que evoluiu para um movimento contra a desigualdade, os cortes nos gastos públicos e o aumento do custo de vida) — já foram realizadas 110 marchas, reunindo entre 550 mil e 800 mil manifestantes pelo país — e há alguns dias, durante um protesto em Paris, uma orquestra se uniu aos estudantes manifestantes e tocou “The Hanging Tree”, da saga cinematográfica e literária Jogos Vorazes, de Suzanne Collins.

E para quem fala que a Coreia do Sul é de direita… direita pero no mucho. O atual presidente é, para os parâmetros da sociedade sul-coreana, de esquerda — recortando a longa história coreana para observar apenas a partir da fundação da República da Coreia em 1948, podemos dizer que quatro de seus presidentes foram de esquerda, o presidente em exercício, Lee Jae Myung; Moon Jae-in (2017-2022); Kim Dae-jung (1998-2003), que recebeu um Nobel da Paz em 2000; e Roh Moo Hyun (2003-2008). E mais da metade dos parlamentares na Assembleia Nacional atual é liberal ou progressista. Assim como no Brasil, na Coreia há partidos conservadores e progressistas, não se pode dizer que um país é somente de direita.

Se você se identifica com músicas criticando a superficialidade das relações ou falando sobre questões de identidade, juventude, educação, pertencimento, qualidade de vida ou pressão social, ou se fica feliz e compartilha notícias quando vê seus idols favoritos fazendo doações, sendo embaixadores ou atuando em favor de causas sociais, ambientais e humanitárias… surpresa: eles estão se envolvendo em questões políticas e você está engajando com essas questões.

Quando os direitos de todos estão em jogo, é hora de colocar em prática as lições de empatia, amor e resiliência que aprendemos como fãs. Vamos ajudar a criar um mundo novo juntos?

Referências

AFP. ‘Into the New World’: the K-pop song that became South Korea’s protest anthem. France24, 13 dez. 2024. Disponível em: https://www.france24.com/en/live-news/20241213-into-the-new-world-the-k-pop-song-that-became-south-korea-s-protest-anthem.

CHUNG, Esther; HONG, Sang-Ji. After Ewha president announces cancellation of continuing education program, protesters respond. Korea JoongAng Daily, 3 ago. 2016. Disponível em: https://www.koreajoongangdaily.com/korea/after-ewha-president-announces-cancellation-of-continuing-education-program-protesters-respond/10126692.

DE LA HAMAIDE, Sybille. Tensões voltam a crescer; França contabiliza custos de protestos. Reportagem adicional de Natasa Bansagi, Janis Laizans, Abdul Saboor e Clotaire Achi. Agência Brasil, 18 out. 2026. Disponível em: https://agenciabrasil.ebc.com.br/internacional/noticia/2026-10/tensoes-voltam-crescer-franca-contabiliza-custos-de-protestos.

ESTADÃO CONTEÚDO. Protestos da França se espalham para a Itália, Portugal e Albânia; Meloni convoca reunião. Folha de Pernambuco, 19 out. 2026. Disponível em: https://www.folhape.com.br/noticias/protestos-da-franca-se-espalham-para-a-italia-portugal-e-albania/519203/.

FANDOMS COM LULA. O Fandoms com Lula surgiu espontaneamente no Twitter… X, 11 out. 2026. Disponível em: https://x.com/fandomscomlula/status/2109237579274989897.

FANDOMS de diferentes artistas… Mídia NINJA. Instagram, 17 out. 2026. Disponível em: https://www.instagram.com/p/DeneCKCkSoA.

FRAADE-BLANAR, Zoe; GLAZER, Aaron M. Superfandom: como nossas obsessões estão mudando o que compramos e quem somos. Tradução: Guilherme Kroll. Rio de Janeiro: Anfiteatro, 2018.

LEE, Tae-so. 아이유, 尹 탄핵 집회 참가 팬에게 빵·국밥 등 쏜다 [Agência: “Esperando que as mãos frias que iluminam o ambiente se tornem um pouco mais quentes.”]. Yonhap News, 13 dez. 2024. Disponível em: https://www.yna.co.kr/view/AKR20241213148100005?input=1195m.

LEGENDARY show of solidarity – via brutofficiel. More Perfect Union, 14 out. 2026. Disponível em: https://www.instagram.com/p/DeezGbKDBEh/.

MIN, Seon-yu. [POP이슈]”언 손 따뜻해지길” 역시 아이유, 집회 참석 유애나 위해 통큰 선결제 [[Edição POP] “Esperando que as mãos congeladas se aqueçam” — Como esperado, a IU faz um generoso adiantamento para que Uaena compareça à manifestação]. Herald Muse, 13 dez. 2024. Disponível em: https://m.entertain.naver.com/home/article/112/0003736945.

PAIK, Rocio. Das redes sociais para as ruas: como fandoms de K-pop impulsionam campanha para reeleger Lula. Opera Mundi, 15 out. 2026. Disponível em: https://operamundi.uol.com.br/eleicoes-2026-brasil/do-meio-digital-para-as-ruas-como-fandoms-de-k-pop-impulsionam-campanha-para-reeleger-lula/.

PARK, Min-ji. 소녀시대 유리, 탄핵 집회에 김밥 제공…“다만세 잘 불러” [Yuri, do Girls’ Generation, oferece gimbap em comício de impeachment… e “cante ‘damanse’ [Into the New Word] muito bem”]. Sports World, 13 dez. 2024. Disponível em: https://m.entertain.naver.com/home/article/396/0000695939.

RASHID, Raphael. South Korea deploys K-pop light sticks and dance in protests against president. The Guardian, 11 dez. 2024. Disponível em: https://www.theguardian.com/world/2024/dec/12/south-korea-martial-law-protests-k-pop-and-glow-sticks.

RUBIM, Antonio Albino Canelas; TAVARES, Márcio (org.). Cultura política no Brasil atual. São Paulo: Fundação Perseu Abramo, 2021. Disponível em: https://fpabramo.org.br/wp-content/uploads/2021/05/17-Cultura-politica-no-Brasil-atual-WEB.pdf.

THE ASSOCIATED PRESS. How protests at a South Korean university led to the downfall of President Park Geun-hye. The Associated Press, 14 mar. 2017. Disponível em: https://www.cbc.ca/news/world/south-korea-downfall-of-president-park-geun-hye-1.4023811.

WIKIPEDIA. List of members of the National Assembly (South Korea), 2024–2028. Disponível em: https://en.wikipedia.org/wiki/List_of_members_of_the_National_Assembly_(South_Korea),_2024%E2%80%932028.

YIM, Hyun-su. ‘Into the New World’: Girls’ Generation’s debut song lives on as Millennials’ anthem of solidarity. The Korea Herald, 14 abr. 2022. Disponível em: https://www.koreaherald.com/article/2842607.

Tradição e resistência: a ressignificação das máscaras do teatro coreano pelo movimento Minjung

Tradição e resistência: a ressignificação das máscaras do teatro coreano pelo movimento Minjung

por Bruna Meneghetti Inoue
Imagem: UNESCO Intangible Cultural Heritage
Disponível em: https://ich.unesco.org/en/photo-pop-up-00973?photoID=16149

O teatro é na essência uma ferramenta de transformação social e um espaço para o pensamento crítico. Na Coreia antiga, o teatro de danças de máscaras assumiu um papel relevante, pois, além de estar relacionado aos rituais xamânicos, também assumia uma importante função crítica da época ao satirizar grupos dominantes da sociedade.
Com a oficialização da anexação japonesa do território coreano a partir de 1910, o teatro coreano de danças de máscaras sofreu um processo de apagamento, assim como outros elementos que fortaleciam o senso de identidade e coletividade do povo coreano. Com a instauração das Repúblicas na Coreia do Sul a partir de 19481, é possível observar um movimento de retomada de elementos simbólicos da cultura coreana que se viabilizou por meio de políticas verticais promovidas pelo Estado. 

Aqui, destaca-se o período da Terceira e da Quarta República, em que o general Park Chung Hee implementou um conjunto de estratégias baseadas em teorias neoliberais para       promover a modernização da economia da Coreia do Sul, durante a década de 1970. Esse conjunto de medidas ficou conhecido como Saemaeul Undong e, sobre os impactos dessas medidas no teatro de danças de máscaras, Kang, Peregrín e Domenech (2023, p. 253, tradução nossa), concluem que:

O governo, por meio do Movimento dos Novos Povos (Saemaul Undong), buscou reconstruir a cultura rural do país, mas, ao mesmo tempo, promoveu a destruição de elementos considerados mera superstição, por serem vistos como obstáculos ao desenvolvimento econômico do país. Esse movimento contrariava crenças tradicionais, como o xamanismo, ou mesmo o teatro de máscaras, devido aos seus componentes religiosos e ritualísticos.

Mais do que retomar a tradição, as políticas verticais adotadas pelo Estado buscaram controlar quais aspectos do teatro de danças de máscaras poderiam ser recuperados e difundidos. Segundo Kang, Peregrín e Domenech (2023, p.253-254), as máscaras do teatro tradicional coreano foram estrategicamente selecionadas e empregadas com fins políticos, situação na qual apenas sua natureza festiva e lúdica foi ressaltada em detrimento dos aspectos críticos desse teatro essencialmente popular. 

Diante desse contexto, surgiu nas universidades um movimento de recuperação do teatro de danças de máscaras na sua integridade. Esse movimento foi liderado por grupos de estudantes que se organizavam como grupos teatrais e recuperavam os elementos antes ignorados pelo Estado, dessa forma ressignificando essas máscaras e utilizando esse teatro como uma ferramenta de crítica ao regime político da época. Esses grupos se organizavam de forma independente e o conhecimento sobre o teatro de danças de máscaras era transmitido de um grupo para outro de forma oral, com um grupo ensinando outro grupo de outra universidade. Dessa maneira, o teatro de danças de máscaras se tornou um fenômeno social que marcou a vida universitária sul-coreana na década de 1970.

Segundo Kang, Peregrín e Domenech (2023, p. 259), as primeiras modalidades recuperadas por esses grupos foram a Bongsan Talchum e a Yangju Byeolsandae, que são duas das modalidades que Lee (2025) enquadra no grupo de danças que surgiram no século XVIII EC, quando o teatro de danças de máscaras se semiprofissionalizou e migrou do campo para as cidades.

Por se tratar de um teatro popular que historicamente dialogava com a crítica às classes dominantes da sociedade, o teatro coreano de danças de máscaras recuperado pelo movimento estudantil foi ressignificado no madanggeuk, gênero teatral que começou a se delinear nos anos finais da década de 1960, ganhando força a partir das décadas de 1970 e 1980, períodos marcados pelo regime militar. Sobre isso, Kang, Peregrín e Domenech (2023, p. 260, tradução nossa) comentam que:

À medida que o projeto do movimento estudantil se espalhava pela sociedade, deu origem ao que ficou conhecido como minjung undong (movimento da cultura popular), um dos elementos centrais do qual era o madang (a tradução literal seria “jardim”, mas se refere a um espaço aberto onde as pessoas se reúnem para celebrar), que buscava resgatar o espaço tradicional da performance teatral onde o público e os atores interagiam. O teatro de máscaras, apresentado no madang, foi revivido para transmitir suas reivindicações políticas contra o governo militar. A mensagem social que originalmente carregava foi recuperada, mas desta vez como uma crítica ao poder ditatorial e uma expressão das aspirações pró-democráticas do povo. Dessa tradição, desenvolveu-se um novo movimento criativo, recebendo nomes diferentes dependendo da situação política da época: teatro madang, teatro popular, teatro universitário e teatro operário. Finalmente, todas essas formas foram agrupadas sob o nome geral de teatro madang, sem dúvida o gênero mais representativo dos anos oitenta.

O madanggeuk foi um teatro que surgiu como forma de resistência ao regime autoritário e uma forma de trazer a público as críticas em relação às desigualdades e injustiças sociais e políticas, se configurando em um espaço de debate e diálogo com a população. Segundo Lee (2018), o madanggeuk pode ser dividido em três categorias: o teatro baseado nas danças de máscaras, o teatro centrado na denúncia social e o teatro voltado para o ambiente universitário.

É importante ressaltar que, independentemente da vertente, o madanggeuk estava inserido dentro do Minjung Undong, que foi um movimento popular pela redemocratização que marcou as décadas de 1970 e 1980 e que foi decisivo para a remodelação da cena teatral coreana que vinha sendo inundada de referências europeias a partir da década de 1910, em decorrência da anexação japonesa.

Figura 1: registro de performance de madanggeuk fazendo uso de máscaras 
Fonte: 경향신문 (Jornal Gyeonghyang). Disponível em: https://www.khan.co.kr/article/2004 10211554251      Acesso em: 03 maio. 2026

Segundo Lee (2007), o Minjung Undong foi um movimento que buscou estabelecer uma aliança entre intelectuais e o movimento operário, envolvendo também o apoio de estudantes universitários e várias organizações que lutavam pelas questões trabalhistas. Esse aspecto veio a influenciar diretamente o teatro madanggeuk, no qual, como conclui Lee (2007, p. 11, tradução nossa): 

Os praticantes de madanggeuk visavam derrubar as barreiras usuais entre trabalho e lazer, produtor e consumidor, trabalhador e intelectual. Operários, agricultores, mulheres, indivíduos de camadas menos abastadas do meio urbano e intelectuais deveriam ser tanto produtores quanto consumidores de madanggeuk, expressando as aspirações e preocupações de suas vidas diárias em uma teia perfeita de trabalho e diversão.

Enquanto o Estado retomou as máscaras tradicionais por meio de políticas verticais e controladas, sua recuperação pela luta estudantil consolidou-se a partir de medidas horizontais, da força da coletividade e da reapropriação crítica dessas práticas. Desta forma, é possível concluir a importância dos grupos de teatro estudantil e sua luta contra o regime ditatorial na ressignificação das máscaras do teatro coreano na contemporaneidade. 

Referências

KANG, Eun Kyung; PEREGRÍN, F. Manuel Montalbán; DOMENECH, Antonio J. Teatro de máscaras coreano – Korean Mask Theater. Estudios de Asia y Africa, [S. l.], v. 58, n. 2, p. 243-272, maio-agosto 2023

LEE, Meewon. Madangguk: The Contemporary Theatrical Genre with the Traditional Heritages: Study on the conditions for ‘the recognition’ in the Korean Theatre in 1980’s. 한국예술연구 2018 영문특집호 제1호, [S. l.], p. 105 – 141, fevereiro 2018. 

LEE, Meewon. Modernization of Korean theatre in the 20th century. Nova York: Routledge, 2025. 238 p.

LEE, Namhee. The Making of Minjung: Democracy and the Politics of Representation in South Korea. [S. l.]: Cornell University Press, 2007. 368 p. 

SOBRE A AUTORA

Bruna Meneghetti Inoue

Graduada em Licenciatura em Letras pela Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP), possui formação técnica em Teatro e foi selecionada para o programa de verão da The Academy of Korean Studies (AKS), na Coreia do Sul. É membro do Grupo de Estudos Cena Teatral (USP), integrante da Curadoria de Estudos Coreanos (CEÁSIA/CEA/UFPE) e pesquisa teatro coreano tradicional e contemporâneo, performance e cultura pop coreana.

E-mail: clubedecoreano@gmail.com

  1. Com o fim da anexação japonesa, em 15 de agosto de 1945, a península da Coreia foi dividida na altura do paralelo 38º, ficando a porção norte sob a ocupação da então União Soviética e a porção sul sob a ocupação dos Estados Unidos. O período que se seguiu foi marcado por intensa agitação política na península coreana. Em 15 de agosto de 1948, foi estabelecida, na porção sul, a República da Coreia, dando início à Primeira República, sob a presidência de Syngman Rhee (1875-1965). Poucos dias depois, em 9 de setembro de 1948, a porção norte estabeleceu oficialmente a República Popular Democrática da Coreia, sob a liderança de Kim Il Sung (1912-1994). ↩︎
Ho Jong-suk (허정숙) (16 de julho de 1902? ou 16 de julho de 1908 – 5 de junho de 1991)

Ho Jong-suk (허정숙) (16 de julho de 1902? ou 16 de julho de 1908 – 5 de junho de 1991)

por Maria Gabriela Pedrosa

Crédito: Picryl. 

Link da imagem: https://picryl.com/media/heo-jong-suk-910c23

Ho Jong-suk (허정숙), nascida Ho Jeong-ja (허정자; 許貞子), foi jornalista, escritora, feminista, militante comunista e dirigente política coreana. Reconhecida como uma das mais importantes representantes do feminismo socialista na Coreia, na época em que estava sob domínio japonês, sua trajetória atravessa alguns dos principais acontecimentos da história coreana do século XX: a ocupação japonesa (1910-1945), os movimentos de independência, a emergência do feminismo moderno nas décadas de 1920 e 1930, a reorganização do movimento comunista no Leste Asiático e a formação da República Popular Democrática da Coreia (RPDC), em 1948. Sua vida se tornou objeto de interpretações divergentes após a divisão da península coreana, sendo celebrada na RPDC como revolucionária e dirigente do Estado socialista, enquanto, durante décadas, na Coreia do Sul foi frequentemente lembrada sob a perspectiva do anticomunismo. A historiografia recente, contudo, tem procurado compreender sua trajetória em sua complexidade, enfatizando seu papel como intelectual, ativista e uma das primeiras mulheres a ocupar posições de liderança política na história moderna da Coreia.
A data de seu nascimento permanece controversa. A historiadora Shin Young-suk (apud Barraclough, 2014) indica o ano de 1902, enquanto obituários publicados tanto na RPDC quanto na Coreia do Sul registram a data de 16 de julho de 1908, diferença interpretada por Barraclough (2014) como resultado da construção posterior de sua imagem pública. Filha do advogado Ho Heon (허헌), importante defensor de nacionalistas e comunistas perseguidos pelo governo colonial japonês, Ho Jong-suk nasceu em Seul, em uma família economicamente privilegiada, originária da província de Hamgyeong. Seu pai se formou na Universidade Meiji, no Japão, dominava alemão e inglês e se tornou uma das principais figuras do nacionalismo coreano nas primeiras décadas da ocupação japonesa, exercendo forte influência sobre sua formação intelectual.

Formação intelectual e aproximação com o feminismo

Ho Jong-suk estudou inicialmente na Coreia e, posteriormente, no Japão e na China. Em Xangai, entrou em contato com estudantes e exilados coreanos ligados aos movimentos socialistas e anticoloniais, experiência decisiva para sua formação política. Ao regressar à Coreia, aproximou-se do movimento feminista e do recém-formado Partido Comunista Coreano (조선공산당) (1925-1943), passando a atuar simultaneamente em organizações de mulheres e em grupos de esquerda comprometidos com a independência nacional.
Durante a década de 1920, integrou uma geração de mulheres que passou a questionar publicamente as normas patriarcais da sociedade colonial coreana. Em uma época marcada pela forte influência do confucionismo e por rígidos padrões de comportamento feminino, Ho Jong-suk adotou cabelos curtos, utilizou roupas consideradas modernas e participou de atividades públicas ao lado de outras jovens ativistas, como Ju Se-juk e Go Myung-ja, tornando-se símbolo das chamadas New Women (Sin Yŏsŏng) (ou em tradução literal para o português, Novas mulheres), mulheres que defendiam educação, autonomia intelectual e maior participação feminina na vida pública. Segundo relatos da época, as três chegaram a brincar em riachos no centro de Seul em plena luz do dia, gesto interpretado como desafio às convenções sociais então vigentes.

Ho Jong-suk, Go Myung-ja e Ju Se-juk. Crédito: Wikimedia Commons.
Link da imagem: https://commons.wikimedia.org/wiki/Ho_Jong-suk#/media/File:Go_M.j_and_Ju_S.j_and_Heo_J.s.jpg

Sua atuação, entretanto, distinguia-se da de parte das chamadas New Women por articular as reivindicações femininas à crítica do capitalismo e do colonialismo japonês. Influenciada pelo pensamento socialista, Ho Jong-suk defendia que a emancipação das mulheres deveria ocorrer simultaneamente à transformação das estruturas econômicas e políticas da sociedade. Essa perspectiva se aproximava do que posteriormente seria denominado “amor vermelho” (red love), corrente do feminismo comunista que procurava redefinir as relações afetivas, o casamento e a sexualidade a partir da igualdade entre homens e mulheres, rompendo com a lógica patriarcal da família tradicional.

Jornalismo, movimento de mulheres e militância política

Além da atuação política, Ho Jong-suk se destacou como jornalista. Trabalhou no Dong-A Ilbo, um dos principais jornais da Coreia naquela época, sendo considerada uma das primeiras mulheres repórteres do periódico. Escreveu artigos sobre educação, trabalho feminino, organização das mulheres e política internacional, participando da construção de um espaço público de debate em um contexto em que a presença feminina na imprensa ainda era bastante limitada.

Também participou da fundação da Geunwoohoe (Associação Geunwoo) (근우회) em 1927, considerada a principal organização feminina de orientação nacionalista e progressista da Coreia naquele período. Paralelamente, atuou na Singanhoe (신간회), organização que reunia nacionalistas e socialistas em torno da luta contra o domínio japonês. Nessas entidades, defendeu a ampliação da educação feminina, melhores condições de trabalho para as mulheres e sua participação nas mobilizações políticas em favor da independência coreana.

Ao mesmo tempo, Ho Jong-suk se tornou conhecida por suas posições sobre casamento, sexualidade e autonomia feminina. Criticava o padrão moral que exigia castidade apenas das mulheres e defendia que elas deveriam ter liberdade para escolher seus parceiros e conduzir suas próprias vidas afetivas. Essas posições provocaram intenso debate na imprensa e despertaram críticas tanto de setores conservadores quanto de parte dos próprios militantes nacionalistas e comunistas. Sua vida privada passou a ser amplamente comentada pela imprensa colonial, evidenciando como mulheres que ocupavam posições públicas eram frequentemente julgadas por critérios diferentes daqueles aplicados aos homens. A historiografia recente interpreta esses episódios não apenas como escândalos pessoais, mas como parte das disputas em torno da redefinição do papel feminino na Coreia moderna.
Entre seus textos mais conhecidos está a reflexão na qual imagina um mundo composto apenas por mulheres. Longe de constituir uma proposta literal, o argumento utilizava uma hipótese extrema para denunciar a naturalização da dominação masculina e evidenciar como as estruturas sociais e econômicas favoreciam sistematicamente os homens. Esse tipo de escrita revela o caráter inovador de suas reflexões sobre desigualdade de gênero nas primeiras décadas do século XX.

Resistência anti-japonesa e atuação na República Popular Democrática da Coreia

Com o aumento da repressão colonial aos movimentos de esquerda, Ho Jong-suk deixou a Coreia em 1936 e se estabeleceu na China. Ali passou a integrar o Partido Revolucionário Nacional Coreano (조선민족혁명당) e, posteriormente, a Aliança para a Independência da Coreia, organizações envolvidas na resistência contra a ocupação japonesa. Sua atuação ocorreu em um ambiente transnacional, ao lado de exilados coreanos e revolucionários chineses, reforçando sua inserção nas redes comunistas do Leste Asiático.

Após a libertação da Coreia, em 1945, retornou inicialmente a Seul. Entretanto, diante da crescente polarização política e da violência dirigida contra militantes de esquerda, transferiu-se para a região norte da península, onde participou da organização do novo Estado socialista. Em 1946, tornou-se dirigente da Liga Democrática das Mulheres e, posteriormente, ocupou diversos cargos de destaque, entre eles os de ministra da Cultura (1948-1957), ministra da Justiça (1957-1959) e presidente da Suprema Corte da República Popular Democrática da Coreia (1959-1960). Diferentemente de muitos dirigentes da primeira geração revolucionária, permaneceu politicamente ativa durante décadas, sem sofrer expurgos ou afastamentos significativos.

Memória e legado

A memória de Ho Jong-suk foi profundamente marcada pela divisão da península coreana. Na República Popular Democrática da Coreia, foi incorporada à narrativa oficial como uma das principais revolucionárias da construção do Estado socialista e frequentemente apresentada como exemplo da participação feminina na política. Na Coreia do Sul, sobretudo durante o período de forte anticomunismo, sua trajetória foi reduzida, em muitos casos, à colaboração com o regime norte-coreano e à sua vida pessoal, frequentemente utilizada para desqualificar sua atuação política.

Desde o início do século XXI, entretanto, pesquisadores têm reavaliado sua trajetória sob novas perspectivas. Estudos recentes destacam sua participação na história do feminismo coreano, do jornalismo, do movimento socialista e das redes transnacionais de mulheres no Leste Asiático. Em vez de compreendê-la exclusivamente como dirigente norte-coreana ou como personagem controversa da Guerra Fria, essa historiografia procura situá-la no contexto das profundas transformações políticas, sociais e culturais vividas pela Coreia durante a primeira metade do século XX.

Ho Jong-suk faleceu em 5 de junho de 1991, em Pyongyang. Seu obituário publicado pelo Nodong Sinmun ressaltou sobretudo sua atuação como dirigente da RPDC, dedicando apenas breve referência à sua militância anterior à fundação do Estado norte-coreano. 

Referências

BARRACLOUGH, Ruth. Red Love and Betrayal in the Making of North Korea: Comrade Hŏ Jŏng-suk. History Workshop Journal, p. 86-102, 2014. 

BARRACLOUGH, Ruth. Red Love in Korea: Rethinking Communism, Feminism, Sexuality. In: BARRACLOUGH, Ruth; BOWEN-STRUYK, Heather; RABINOWITZ, Paula (ed.). Red Love Across the Pacific: Political and Sexual Revolutions of the Twentieth Century. New York City: Palgrave Macmillan, 2015. 

KIM, Hannah. Romantic Love in Colonial Korea: Feminist Attempts at Liberation. Yonsei Journal of International Studies, 2022.

WINSTANLEY-CHESTERS, Robert. Red Love Across the Pacific: Political and Sexual Revolutions of the Twentieth Century. S/N Korean Humanities, v. 3, n. 1, p. 125-133, mar. 2017. 

Sobre a autora

Maria Gabriela Pedrosa

Doutoranda em Estudos Literários na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), integrante da Curadoria de Estudos Coreanos (CEÁSIA/CEA/UFPE). Interessa-se pela relação entre os estudos literários, a intermidialidade e a memória.

E-mail: mariagpedrosa@gmail.com. 

O fim definitivo da desnuclearização da Península Coreana? O projeto de submarino nuclear na Coreia do Sul e suas consequências

O fim definitivo da desnuclearização da Península Coreana? O projeto de submarino nuclear na Coreia do Sul e suas consequências

por: Thaisa Viana

Imagem: DAPA 

Link:https://thedefensepost.com/2026/05/26/south-korea-nuclear-powered-submarines-plan/

Em encontro com a presença do presidente Lee Jae-myung, o Ministro da Defesa Ahn Gyu-back afirmou que “a Coreia do Sul será capaz de desenvolver e construir submarinos nucleares e a própria tecnologia de lançamento de mísseis até metade dos anos de 2030”, marcando o que pode ser classificado como uma nova era na defesa sul-coreana. O sinal de confirmação para a iniciativa veio do aval concedido pelo governo dos Estados Unidos em novembro de 2025, quando o  presidente Donald Trump aprovou um tratado comercial e securitário que deixava abertura para a Coreia do Sul iniciar os processos de construção dos submarinos, reprocessamento de combustível e enriquecimento de urânio. Mas, diante do cenário positivo estabelecido, quais são as consequências práticas das decisões? Quais os impactos da medida no processo de desnuclearização da península e nas relações intercoreanas? 

A iniciativa de nuclearização da Coreia do Sul não é um projeto novo. Durante a década de 1970, com a administração de Park Chung-hee temendo o desenvolvimento nuclear do Norte, o governo sul-coreano tentou iniciar um programa voltado ao desenvolvimento de uma indústria nuclear mais autônoma em parceria com a França. O projeto, contudo, foi suprimido por pressão dos EUA, que condicionaram sua política de segurança à adesão da Coreia do Sul ao Tratado de Não Proliferação Nuclear (TNP) e à sua incorporação ao guarda-chuva de proteção nuclear estadunidense. A adesão da Coreia do Sul à proteção dos EUA ocasionou uma dificuldade em estabelecer maior autonomia do país frente às suas políticas nucleares e um silenciamento da questão ao longo dos anos.  

Contudo, com o desenvolvimento do programa nuclear da Coreia do Norte ao longo dos anos 2000 e com as prioridades estratégicas estadunidenses voltando-se para o Oriente Médio, a Coreia do Sul via-se diante da necessidade de ampliar sua autonomia e assumir maior protagonismo na definição de sua própria segurança, sobretudo nas temáticas nucleares. É nesse contexto que se intensificaram os esforços de lobby junto aos EUA, em uma busca por maior flexibilização das restrições ao desenvolvimento de tecnologias estratégicas consideradas essenciais para ampliar sua capacidade de dissuasão diante da Coreia do Norte e dos desafios impostos pela questão nuclear. Assim como ocorreu no debate sobre a transferência do Controle Operacional em Tempo de Guerra (OPCON) para Seul, lideranças de diferentes espectros políticos empenharam-se ao longo dos anos para manter essas negociações em andamento, garantindo canais abertos para a reavaliação de uma política de defesa menos tutelada pelos EUA.

Embora os esforços tenham se voltado principalmente para o desenvolvimento da propulsão nuclear de submarinos — enquanto a produção de mísseis nucleares permanecia pouco explorada devido às circunstâncias regionais —, foi apenas em 2021 que as demandas de Seul passaram a obter resultados concretos. O relacionamento com o ex-presidente dos EUA, Joe Biden, garantiu a assinatura da Declaração de Washington, que estabeleceu um comitê de planejamento nuclear conjunto, o Grupo Consultivo Nuclear (NCG) e o envio periódico de submarinos nucleares estadunidenses à península coreana. Mesmo com a renovação do comprometimento da Coreia do Sul com o TNP na declaração e a permanência dos EUA como base das políticas de segurança sul-coreanas, o acordo destacava a eliminação de restrições impostas ao desenvolvimento de mísseis sul-coreanos e o retorno das negociações para a transferência da OPCON para a administração da Coreia do Sul. As iniciativas de maior autonomia da Coreia do Sul frente aos EUA pareciam finalmente ter dado frutos e a independência securitária da Coreia do Sul parecia garantida, com o avanço nos diálogos para a transferência do OPCON, a Coreia do Sul se via confiante para buscar o apoio para o desenvolvimento de tecnologias nucleares. 

O aval de Trump para o desenvolvimento de submarinos de propulsão nuclear pela Coreia do Sul parece constituir um movimento relativamente orgânico e, em certa medida, esperado tanto por lideranças sul-coreanas quanto estadunidenses, surgindo como consequência de um esforço contínuo de Seul para consolidar e ampliar sua autonomia estratégica. Em um cenário internacional cada vez mais complexo para a liderança sistêmica dos EUA, a Coreia do Sul vê uma oportunidade de finalmente se consolidar como protagonista e responder a seus próprios anseios em relação à Coreia do Norte. 

O movimento de buscar mais autonomia em temáticas de segurança por meio do uso da energia nuclear, contudo, também apresenta implicações significativas, especialmente sob a ótica das relações intercoreanas e das dinâmicas de segurança regional. A adoção de políticas mais hostis em relação ao Norte durante o governo de Yoon Suk Yeol, somada ao progressivo afastamento da Coreia do Norte dos mecanismos de diálogo intercoreano — incluindo as discussões sobre reunificação, cada vez menos presentes nas iniciativas e narrativas norte-coreanas —, contribui para um ambiente de crescente desconfiança entre os dois países. Neste contexto, o desenvolvimento de tecnologias nucleares para fins militares pela Coreia do Sul pode ser interpretado por Pyongyang como uma medida hostil. O distanciamento da Coreia do Sul em relação ao Norte, não apenas manifestado nas políticas governamentais diretas, mas também em transformações do próprio cenário político doméstico sul-coreano que têm favorecido a disseminação de narrativas que impulsionam o confronto com o Norte, soma-se ao debate sobre o desenvolvimento nuclear e pode reforçar a percepção norte-coreana de que tais iniciativas constituem uma provocação direta ao país vizinho.  

Ademais, há ainda o risco de legitimação da manutenção e do fortalecimento do programa nuclear norte-coreano, uma vez que a consolidação da Coreia do Sul como uma potencial ameaça nuclear concreta, ainda que amparada por sua aliança com os EUA, pode ser utilizada pela Coreia do Norte para justificar a continuidade de sua própria estratégia nuclear. Esse cenário contribui para a perpetuação de uma península cada vez mais nuclearizada, reduzindo as perspectivas de acordos duradouros voltados à desnuclearização efetiva da região e à resolução definitiva das questões remanescentes da Guerra da Coreia.  

A relação com os demais países na região e a balança de poder local também é um dos pontos a serem considerados em consequências diretas do desenvolvimento nuclear da Coreia do Sul. Com a perspectiva de uma península desnuclearizada tornando-se cada vez mais distante, as relações com a China — que projeta seu poder na região e mantém vínculos estratégicos com a Coreia do Norte como forma de preservar um equilíbrio de poder regional — e com o Japão — que também se insere no grupo de países potencialmente ameaçados por essa conjuntura e que pode passar a considerar o desenvolvimento autônomo de capacidades nucleares como instrumento de garantia de sua posição estratégica — tendem a tornar-se mais tensas e marcadas pela insegurança. 

O cenário, ainda que positivo para a Coreia do Sul no curto prazo, mostra-se incerto e pouco promissor para a região. A paz e a desnuclearização da península parecem, agora, cada vez mais distantes, sendo gradualmente substituídas por projetos de segurança orientados para respostas de curto prazo. 

Referências 

SHARMA, Abhishek; RAWAT, Rahul. South Korea’s Nuclear Submarines: Deterrence and Risk in Northeast Asia. Observer Research Foundation, 5 fev. 2026. Disponível em: https://www.orfonline.org/expert-speak/so/uth-korea-s-nuclear-submarines-deterrence-and-risk-in-northeast-asia. Acesso em: 28 Mai. 2026.

SINGH, Lakhvinder. S Korea’s nuclear sub made in USA: It’s complicated. Asia Times, 5 nov. 2025. Disponível em: https://asiatimes.com/2025/11/us-based-construction-of-south-koreas-n-sub-its-complicated/. Acesso em: 6 maio. 2026. 

ROEHRIG, Terence. The U.S. Nuclear Umbrella over South Korea: Nuclear Weapons and Extended Deterrence. Political Science Quarterly, [S. l.], v. 132, n. 4, p. 651–684, Winter 2017. DOI: 10.1002/polq.12702. Disponível em: https://doi.org/10.1002/polq.12702. Acesso em: 3 jun. 2026. 

AFP. South Korea Says It Will Build Nuclear-Powered Submarines at Home. The Defense Post, 26 maio 2026. Disponível em: https://thedefensepost.com/2026/05/26/south-korea-nuclear-powered-submarines-plan/. Acesso em: 5 jun. 2026. 

Sobre a autora

Thaisa da Silva Viana

Doutoranda e Mestre em Relações Internacionais pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ).  Especialista em Direito Internacional pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC-Minas).  Pesquisadora do LabÁSIA (UERJ), no DataMundi (UERJ) e no LETA – Laboratório de Estudos Transasiáticos, da Universidade Federal do Espírito Santo. Integrante da Curadoria de Estudos Coreanos (CEÁSIA/CEA/UFPE).

Email: thaisa.viana298@gmail.com.

 

O apagamento das mulheres nas representações do Movimento pela Democratização de Gwangju de 18 de maio no filme “A Taxi Driver”

O apagamento das mulheres nas representações do Movimento pela Democratização de Gwangju de 18 de maio no filme “A Taxi Driver”

por Júlia Santos

imagem: https://www.nytimes.com/2024/06/21/world/asia/south-korea-photos-gwangju-crackdown.html

O Movimento pela Democratização de Gwangju de 18 de maio, também conhecido como Massacre de Gwangju, ocorrido entre 18 e 27 de maio de 1980, foi um dos episódios mais marcantes da luta pela democracia na Coreia do Sul. Após a ascensão do general Chun Doo-hwan ao poder e a ampliação da lei marcial, milhares de cidadãos foram às ruas para reivindicar direitos democráticos, liberdade de imprensa e o fim da ditadura. Em Gwangju, a repressão militar foi particularmente brutal, resultando em mortes, torturas, estupros e desaparecimentos. Apesar da violência, a resistência da população transformou o movimento em um símbolo da luta contra o autoritarismo e contribuiu para o processo de redemocratização do país.
Esse momento histórico do país ganhou grande espaço nas representações artísticas, como na literatura, com o livro Atos Humanos (2014), de Han Kang, e no cinema, com o filme A Taxi Driver (2017), que levou essa história ao grande público ao acompanhar a trajetória do taxista Kim Man Seob e do jornalista alemão Jürgen Hinzpeter durante os acontecimentos em Gwangju. Inspirada em fatos reais, a obra busca destacar o protagonismo dos cidadãos diante da repressão e desempenha  papel importante na preservação da memória do Movimento. No entanto, a narrativa construída pelo filme também revela limitações significativas na forma como representa os sujeitos envolvidos nesse processo histórico.
Embora as mulheres tenham participado ativamente das manifestações, suas experiências são amplamente silenciadas no filme. Enquanto os personagens masculinos ocupam o centro da narrativa como heróis, trabalhadores, estudantes e agentes políticos, as personagens femininas aparecem de forma secundária, frequentemente sem nome próprio e definidas apenas por sua relação com figuras masculinas, como mães ou esposas.
Essa escolha narrativa contribui para a construção de uma memória masculinizada do Movimento pela Democratização de Gwangju de 18 de maio. Ao privilegiar histórias de solidariedade e heroísmo entre homens, o filme marginaliza a atuação política das mulheres e reforça estereótipos de gênero que as afastam do protagonismo histórico. Diversas pesquisadoras apontam que esse apagamento não ocorre apenas no cinema, mas também em parte das narrativas oficiais sobre o movimento democrático sul-coreano. Por exemplo, Kang Hyunah, especialmente no artigo “Women’s Experiences in the Gwangju Uprising: Participation and Exclusion”, pontua a importância do papel das mulheres no Movimento. Segundo a autora, as mulheres atuaram na organização da resistência, na circulação de informações, no atendimento aos feridos e na preservação da memória dos mortos (Kang, 2010), demonstrando que essa exclusão que ocorre nas narrativas hegemônicas não é um resultado da ausência de participação política, mas sim de processos de construção da memória que privilegiam experiências masculinas.
De modo semelhante, as trabalhadoras sexuais de Gwangju, que ficavam na rua conhecida como “Call Box Street” (Rhee, 2019), desempenharam um papel fundamental ao doar sangue para os feridos e ao ajudar a esconder jovens perseguidos pelos militares. Apesar dessa contribuição significativa, suas identidades e trajetórias permaneceram amplamente desconhecidas. Além disso, diversos hospitais recusaram suas doações de sangue por considerá-las mulheres envolvidas em uma profissão tida como impura, evidenciando o estigma social que enfrentavam (Rhee, 2019).
Esse apagamento das experiências femininas em processos históricos pode ser compreendido à luz das proposições de Nira Yuval-Davis em Gender and Nation, obra na qual a autora destaca a maneira com que as mulheres tendem a ocupar posições periféricas nas narrativas sobre a construção da nação, mesmo quando sua participação é fundamental para os acontecimentos políticos. Como consequência, esse apagamento também se manifesta nas representações culturais, incluindo o cinema, que frequentemente reproduz visões masculinizadas da história e limita a visibilidade da atuação feminina.
Dessa forma, embora A Taxi Driver seja uma obra relevante para a divulgação da história de Gwangju, sua representação evidencia como a memória coletiva pode reproduzir exclusões. Ao deixar em segundo plano as mulheres que participaram ativamente da resistência, o filme contribui para o silenciamento de experiências fundamentais para a compreensão do Movimento e da própria luta pela democracia na Coreia do Sul. Com isso, percebemos como as disputas que envolvem a memória de Gwangju demonstram que a identidade nacional não é uma característica fixa e estática, mas uma construção social e política. Nesse processo, definir quem é lembrado como protagonista da história também significa definir quem é reconhecido como representante da própria nação. 

Referências

JUNG, Dae-ha; AHN, Kwan-ok. Women being recognized for their role in May 18 Gwangju Democratization Movement. The Hankyoreh, 2018. Disponível em: https://www.hani.co.kr/arti/english_edition/e_national/845376.html. Acesso em: 05 jun. 2026.

KANG, Hyun-ah. Women’s Experiences in the Gwangju Uprising: Participation and Exclusion. New Political Science, UK, v. 25, n. 2, p. 193-206, ago. 2010. Disponível em: https://www.tandfonline.com/doi/abs/10.1080/07393140307194. Acesso em: 09 jun. 2026.

LEE, Jae-eui. Gwangju diary: beyond death, beyond the darkness of the age. Los Angeles: University of California, UCLA Asian Pacific Monograph Series, 1999.

LEE, Myung-sik. The History of Democratization Movement in Korea. Seul: Korea Democracy Foundation(KDF), The May 18 Memorial Foundation, 2010.

LEWIS, Linda Sue. Laying Claim to the Memory of May: A look back at the 1980 Kwangju Uprising. Estados Unidos da América: Hwai’i Studies on Korea, 2002.

RHEE, Jooyeon. Beyond victims and heroes: The 5.18 cinema across gender boundary. Introduction: The problem of representing historical trauma in cultural productions. Korean Studies, v. 43, p. 68-95, 2019. Disponível em: https://pennstate.pure.elsevier.com/en/publications/beyond-victims-and-heroes-the-518-cinema-across-gender-boundary-i. Acesso em: 03 jun. 2026.

SHIM, David. Cinematic Representations of the Gwangju Uprising: Visualizing the “New” South Korea in A Taxi Driver. Asian Studies Review, v. 45, n. 3, p. 454-470, 26 de out. 2020.


2022/12121-6, Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP). As opiniões, hipóteses e conclusões ou recomendações expressas neste material são de responsabilidade da autora e não necessariamente refletem a visão da FAPESP. 


Sobre a autora

Júlia Santos

Mestranda em Ciências Sociais na Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP), integrante da Curadoria de Estudos Coreanos (CEÁSIA/CEA/UFPE). Se interessa por sociologia do cinema e estudos de gênero, pensando como essa questão reflete nas produções fílmicas.

Email: julia.andrade@unifesp.br