por Larissa Brito

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“O incidente foi tão horrível que adotei como protagonista uma árvore em vez de uma pessoa”, afirma Yong-Tak Choi, autor do romance “Memórias de um Freixo” (2013) que serviu de base para a readaptação em forma de História em Quadrinhos de mesmo nome do autor Kun-woong Park (2021). O autor da HQ sentiu a necessidade de retomar a obra de Yong-Tak Choi como uma forma de lembrar a sociedade dos horrores do Massacre das Ligas Bodo e talvez, de certa forma, fazer justiça. 

A estrutura da HQ é composta de 10 capítulos que abordam o conteúdo do livro e, ao final, o autor traz um apêndice com reflexões sobre o papel da memória e da História escritas por ele, pelo autor do romance original e por estudiosos da área.

Qual seria o limite da violência humana e do assassinato de milhares de pessoas para “proteger o país”? Esta pergunta nos traz ao contexto da Guerra da Coreia, conflito após a fratura da península impulsionada pelas potências vencedoras da Segunda Guerra Mundial. Com a polarização política, a Coreia do Sul adotou uma perspectiva ideológica capitalista e estritamente anticomunista. Com o estabelecimento da República da Coreia em 1948, o governo criou as Ligas Bodo, organização formada por membros “convertidos” do comunismo que juraram lealdade ao país e no passado já tinham participado de grupos comunistas (Choi, 2011, p. 293), além deles, muitos fazendeiros que não tinham ligação com o comunismo também se inscreveram para preencher as vagas. O horror se inicia quando o governo sul-coreano promove uma chacina com as pessoas dessas ligas, acusando-as de serem a favor da ideologia comunista, o que poderia ajudar o exército norte-coreano. Oficialmente 4.934 civis foram mortos, mas em estudos independentes este número chega até 200 mil. 

Essas pessoas eram mortas e jogadas em uma vala num vale, de forma escondida e cruelmente organizada, os corpos ficavam lá, apenas servindo de base para mais corpos posteriores. O governo sul-coreano escondeu o caso, sendo considerado um grande tabu. Mas as famílias dessas pessoas não, muitas chegaram a ir até o local dos corpos para procurar por seus entes queridos em meio aos corpos em decomposição. Além disso, as famílias ainda sofreram diversos preconceitos, sendo taxadas de “famílias comunistas” por terem relação com as pessoas mortas das ligas. Apenas nos anos 2000, a Comissão da Verdade e da Reconciliação investigou e trouxe a verdade à tona, afirmando que os civis realmente foram vítimas das organizações do governo. 

“Memórias de um Freixo” em História em Quadrinhos é um livro pesado, que traz uma história difícil de ler, mas que se mostra extremamente necessária para entender a história sul-coreana. O autor opta por utilizar apenas as cores preto e branco em seus desenhos, dando um toque sombrio a sua história. Além disso, as feições das pessoas desenhadas conseguem transmitir a dor e a agonia da morte vista de perto, os olhos arregalados, as bocas abertas, os pedidos por misericórdia. A escolha pela narrativa e pelas falas e pensamentos do freixo também são importantes, retirando a humanidade da história para refletir a falta dela nas próprias ações dos militares. A história é narrada pelo freixo, árvore do vale onde o massacre aconteceu, de forma bastante fria, onde ele parece se divertir com o horror à sua frente. Em alguns momentos, o autor substitui o desenho das pessoas com desenhos de vacas, trazendo uma crítica para a forma como eles foram tratados e também uma memória do próprio autor, que viu um dia uma notícia sobre inúmeros porcos e gado sendo abatidos e enterrados:

Os animais que choravam, olhando para os humanos, me fez suspeitar e questionar os seres humanos em um nível fundamental. E me lembrei de cenas familiares. Eram as fotos do Massacre das Ligas Bodo de 65 anos atrás, reveladas pelos EUA (Park, 2021, p. 296).

Imagem divulgada pelos Estados Unidos. 
Fonte:https://c8.alamy.com/comp/PPKXEE/bodo-league-massacre-at-daejon-south-korea-1950-PPKXEE.jpg

O autor destaca em sua obra os animais se alimentando dos corpos, que também viram adubo para as árvores do vale, demonstrando a desumanização do ocorrido como uma crítica própria. As cenas grotescas, de cadáveres em decomposição com vermes se alimentando, torna a história mais real, impacta mais, e o autor desejava impactar. O tradutor Jae Hyung Woo afirma que precisou pausar a tradução diversas vezes, esta era uma história de seu país que ele não conhecia. Portanto, podemos concluir que muitas vezes a história oficial esconde histórias humanas em favor de projetos políticos. Logo, apenas a inquietação e a rememoração conseguem trazer esse passado e a justiça de volta aos debates de hoje. O horror vivido e as vidas perdidas incomodam, as imagens só vem corroborar e reverberar esse desconforto.

Referências

PARK, Kun-Woong. Memórias de um Freixo. Tradução: Jae Hyung Woo. São Paulo: Conrad Editora, 2021. 

Sobre a autora

Maria Larissa de Brito é mestranda em História pela Universidade Federal de Campina Grande, integrante da Curadoria de Estudos Coreanos (CEÁSIA/CEA/UFPE). Se interessa por Estudos Coreanos e pela relação entre audiovisuais e o contexto sul-coreano. E-mail: britolarissa925@gmail.com