por: Thaisa Viana
foto: Instituto Brasil Coreia – Rio de Janeiro
A história falhou conosco, mas não importa.
É assim que inicia Pachinko (2020), romance realista escrito por Min Jin Lee e lançado no Brasil pela editora Intrínseca. O livro acompanha a trajetória de uma família ao longo de mais de 70 anos, entrelaçando suas histórias pessoais com a história coreana nos séculos XX e XXI.
A narrativa começa em 1883, em uma pequena vila de pescadores em Yeongdo, no distrito de Busan. Um dos primeiros personagens apresentados, Hoonie, é um jovem com deficiências e filho de pescadores humildes que mantêm uma pousada para aumentar suas poucas rendas. Aos 27 anos, ele consegue um casamento arranjado com Yangjin, filha de fazendeiros pobres da mesma vila. Em 1910, mesmo ano de assinatura do tratado de anexação da Coreia ao Japão, Hoonie e Yangjin tornam-se pais de uma menina chamada Sunja, que mais tarde irá se destacar como o principal fio condutor de toda a saga familiar ao longo do romance.
A primeira parte do livro, de 1910 até 1933, acompanha a vida de Sunja nos seus primeiros anos. Ao mesmo tempo em que Sunja se descobre como mulher, ela descobre seu país e sua nação em transformação, resistindo de maneiras distintas e cotidianas à invasão japonesa na península coreana do Japão. Não apenas a vida de Sunja é afetada pelo primeiro período da colonização japonesa, mas a vida de diversos outros personagens, destacando aspectos sombrios de uma assimilação forçada e violenta. As mulheres de conforto, a violência policial, o uso de trabalhadores forçados e até as mudanças de nome e preconceitos enfrentados pelos coreanos durante a colonização são abordados de maneira sutil e marcante em elementos e personagens de uma mesma família que contornam a vida de Sunja e seus relacionamentos.
Na segunda parte do livro, de 1933 até 1962, temas como a vida de descendentes e migrantes coreanos no Japão (os chamados de Zainichis), a discriminação, os jogos de poder e as relações familiares conturbadas são costurados no cenário internacional do final da Segunda Guerra Mundial e da Guerra da Coreia. Assim como o Japão e as Coreias, a família de Sunja se vê mais uma vez em uma posição de recomeço e resistência frente a um cenário desolador. Uma família que, assim como sua nação, persiste no tempo e na história em quaisquer circunstâncias políticas.
O terceiro, e último, ato do romance se concentra nos anos de 1962 até 1989, desenvolvendo as relações familiares e a busca de identidade agora entre pontes aéreas dos Estados Unidos, Japão e Coreia. Assim como nas máquinas de Pachinko 一 os fliperamas usados como jogos de azar no Japão que dão nome ao romance 一, a vida e o desenvolvimento dos países mencionados se mostra imprevisível, cabendo aos indivíduos enfrentar as mudanças, sempre em uma busca pela sobrevivência.
A autora desenvolve Sunja desde sua infância até sua velhice como uma mulher comum, calada, pensativa, mas resiliente, ainda sonhadora e condicionada a lutar pela sua sobrevivência, independente das circunstâncias externas, em uma construção que quase se torna uma metáfora delicada para a própria nação coreana. A história da família de Sunja, com perdas, nascimentos e renascimentos, não apenas perpassa a história coreana, como também a reflete. A nação coreana se molda, se adapta, resiste e permanece firme ao longo dos mais de 4 mil anos que a constituem. A curiosidade sobre a vida e a sobrevivência de Sunja ao longo dos anos é mantida pela autora ao longo do romance como uma forma de também nos lembrar das próprias incertezas frente a história coreana. A questão “será que eles vão sobreviver?”, que permeia toda a leitura, é um lembrete não apenas das dificuldades da vida comum de um indivíduo do século XX e início do XXI, mas da própria nação sul-coreana como um todo.
O livro torna-se um importante lembrete de que teorias e fatos históricos são produzidos e movidos por indivíduos com particularidades, famílias, interesses pessoais e necessidades urgentes da vida cotidiana. Porém, não apenas isso se mostra relevante na narrativa. A obra nos recorda os horrores da guerra, da fome e da segregação, em um convite para refletir sobre nossos lugares diante das conjunturas políticas e das situações que vão além das quatro paredes de um núcleo familiar. É um convite para perceber nossa presença diante da imprevisibilidade da história, que, por vezes, falha, mas nunca se ausenta de nossas vidas.
Referência
LEE, Min Jin. Pachinko. Tradução de Marina Vargas. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2020.
Sobre a autora

Thaisa da Silva Viana
Doutoranda em Relações Internacionais pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e Mestre em Relações Internacionais pela mesma instituição. Especialização em Direito Internacional em andamento pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais. Pesquisadora do LabÁSIA (UERJ), do Grupo de Estudos Asiáticos (GEA-UFMG) e integrante da Curadoria de Estudos Coreanos (CEÁSIA/CEA/UFPE). Tem experiência na área de política internacional, estudos de nacionalismo e cultura nas relações internacionais.