A literatura vem: Han Kang e a reescrita da memória coletiva coreana

A literatura vem: Han Kang e a reescrita da memória coletiva coreana

por Maria Gabriela Pedrosa

imagem: https://dasartes.com.br/materias/doris-salcedo/

O romance Atos humanos, de Han Kang, publicado na Coreia do Sul em 2014, constitui uma potente elaboração literária do trauma histórico ao revisitar a revolta e o massacre de Gwangju, ocorridos em maio de 1980, quando o exército sul-coreano reprimiu violentamente um levante estudantil, resultando em milhares de mortes. Mais do que narrar o evento, a autora o transfigura em uma ficção poética e brutal, construída a partir de múltiplas vozes, mortos, sobreviventes e testemunhas, que evidenciam os limites da representação e a persistência da memória. Ao recusar uma narrativa linear e totalizante, a obra insiste na fragmentação como forma de dar conta daquilo que escapa à linguagem: o trauma.

Uma parte do título desta resenha, “A literatura vem”, inspira-se no título original do romance (O menino vem) e propõe deslocar o foco do indivíduo para a própria literatura como agente de memória. Esse gesto sugere que é a escrita que retorna, que insiste em fazer lembrar aquilo que a história oficial tentou silenciar. A literatura, assim, assume um papel ativo na reescrita da memória coletiva, funcionando não apenas como representação, mas como intervenção no modo como o passado é lembrado, narrado e disputado.

     A narrativa fragmentada acompanha diferentes temporalidades e revela os desdobramentos duradouros do trauma. A partir da figura de Dong-ho, um jovem que ajuda a identificar corpos em um necrotério improvisado, a obra se expande para outras experiências marcadas pela violência, como a censura, a tortura e o luto. Cada capítulo revisita o massacre sob uma nova perspectiva, evidenciando que a violência não se encerra no evento histórico, mas se prolonga nos corpos e nas memórias. Nesse contexto, como propõe Aleida Assmann (2011), a literatura funciona como um suporte simbólico capaz de reorganizar o passado, transformando-o em memória cultural.

Figura 1Disremembered X (2020-2021), de Doris Salcedo

Crédito: Ron Armstutz (2023).

     Nesse sentido, a materialidade da memória e da ausência pode ser visualmente associada à obra Disremembered, de Doris Salcedo (Figura 1), na qual um tecido suspenso, marcado por inúmeras perfurações, sugere um corpo ausente, atravessado pela violência. À primeira vista, a obra apresenta uma aparência de leveza e delicadeza; no entanto, essa impressão é tensionada pelas agulhas que atravessam sua superfície, revelando uma dimensão de violência que perfura a aparente suavidade. Essa tensão entre fragilidade e agressão explicita a coexistência de impulsos contraditórios no humano. Assim como em Atos humanos, a obra não representa diretamente o horror, mas o inscreve na superfície, por meio de vestígios e silêncios, fazendo da ausência um modo de presença.

     Além disso, a obra evidencia os silenciamentos históricos discutidos por Michel-Rolph Trouillot (1995), ao trazer à tona vozes apagadas pelo discurso oficial. Em diálogo com Gayatri Spivak (2010), pode-se afirmar que, embora o subalterno não fale diretamente, a literatura cria um espaço ético de evocação dessas vozes. Trata-se de uma fala mediada, que não restitui plenamente o sujeito, mas impede seu completo apagamento, instaurando uma forma de testemunho possível.

     Neste sentido, a narrativa de Han Kang pode ser compreendida também como uma prática intermidiática, nos termos de Claus Clüver (2011) e Irina Rajewsky (2012), ao articular diferentes regimes de representação da memória (testemunho, imagem, arquivo e ficção) que ampliam as possibilidades do literário. A fragmentação estrutural e a multiplicidade de vozes evidenciam o cruzamento de mídias e discursos, reforçando o caráter híbrido da memória cultural e sua dependência de diferentes formas de mediação.

     Outro aspecto central é a reflexão sobre a natureza humana. Como observa Annalisa Quinn (2017), Atos humanos evidencia a coexistência de impulsos paradoxais, a misericórdia e a violência, tensionando os próprios limites do que entendemos por humanidade. A violência, longe de se configurar como exceção, apresenta-se como uma possibilidade recorrente da condição humana, atravessando diferentes contextos históricos; do mesmo modo, emergem gestos de coragem, solidariedade e resistência. Nesse sentido, tanto a brutalidade quanto a grandeza se inscrevem como dimensões constitutivas dos atos humanos, revelando uma humanidade marcada por sua própria ambivalência.

     Dessa forma, o massacre de Gwangju, trazido à superfície pela ficção, é um marco coletivo que define pertencimento, luto e resistência, inscrevendo-se na consciência histórica do país. Assim, Han Kang reafirma a literatura como espaço de recordação, no qual a memória insiste em vir, e, com ela, a possibilidade de confrontar o passado, resistir ao esquecimento e repensar o que significa, afinal, ser humano.

Referências

ASSMANN, Aleida. Espaços de recordação: formas e transformações da memória cultural. Campinas: Editora UNICAMP, 2011.

CLÜVER, Claus. Inter midialidade. In: DINIZ, Thaïs Flores Nogueira (org.). Intermidialidade e estudos interartes: desafios da arte contemporânea. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2011. p. 9-26.

ERLL, Astrid. Memory in culture. Basingstoke: Palgrave Macmillan, 2011.

HAN, Kang. Atos humanos. Tradução: Ji Yun Kim. São Paulo: Todavia, 2021.

QUINN, Annalisa. Human Acts tries to reconcile bloody human impulses. NPR, 21 jan. 2017. Disponível em: https://www.npr.org/2017/01/21/510833347/human-acts-tries-to-reconcile-bloody-human-impulses. Acesso em: 22 mar. 2026.

RAJEWSKY, Irina O. Intermidialidade, intertextualidade e remediação: uma perspectiva literária sobre intermidialidade. In: DINIZ, Thaïs Flores Nogueira (org.). Intermidialidade e estudos interartes: desafios da arte contemporânea. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2012. p. 15-45.

SPIVAK, Gayatri Chakravorty. Pode o subalterno falar? Tradução: Sandra Regina Goulart Almeida; Marcos Pereira Feitosa; André Pereira Feitosa. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2010.

TROUILLOT, Michel-Rolph. Silencing the past: power and the production of history. Boston: Beacon Press, 1995.

Sobre a Autora

Maria Gabriela Pedrosa 

Doutoranda em Estudos Literários na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), integrante da Curadoria de Estudos Coreanos (CEÁSIA/CEA/UFPE). Se interessa por estudos literários, intermidialidade e memória.

E-mail: mariagpedrosa@gmail.com

“Pavana” e o amor que surge entre as brechas da solidão

“Pavana” e o amor que surge entre as brechas da solidão

Por Clara Menezes

Créditos da imagem: Netflix e The Korea Times

Antes de assistir ao filme “Pavana”, dirigido por Lee Jong-pil e disponível na Netflix, preciso confessar que eu não sabia o que o título significava. O longa-metragem explica, mas aqui também apresento uma breve elucidação para quem conhece pouco — ou nada — sobre música e dança clássica.

“Pavana” é uma dança aristocrática surgida entre os séculos XVI e XVII na Espanha, marcada por um ritmo majestoso, solene, austero e quase sombrio (Horst, 1987). Para essas apresentações, compositores produziam uma música própria que seguia um compasso específico e que evocava uma pomposidade típica da corte espanhola renascentista (Horst, 1987).

Apesar de ser uma arte antiga, uma das composições mais famosas do gênero foi escrita em 1899 pelo pianista Maurice Ravel, com o nome “Pavana para uma princesa morta”, em francês, Pavane pour une infant défunt (Orquestra Metropolitana de Lisboa, [s.d.]). A obra é melancólica e nostálgica, quase como um lamento, que homenageia uma princesa espanhola fictícia dançando em um palácio (Orquestra Metropolitana de Lisboa, [s.d.]).

O longa-metragem compartilha características semelhantes à música de piano do maestro francês: ambos são lentos e nostálgicos, com uma elegância inerente à própria obra. Enquanto tantas produções audiovisuais produzidas para o streaming parecem cada vez mais aceleradas e simples, na intenção de prender a atenção dos espectadores (realidade que a revista N+1 já revelou em reportagem de 2025 sobre a Netflix), “Pavana” não tem medo de demorar e usar o silêncio a seu favor.

O filme começa com a história do relacionamento dos pais do protagonista, Kyung-rok (Moon Sang-min). O homem trabalhava como ator e alcançou o estrelato enquanto a mulher ficava em casa cuidando do lar. Eventualmente eles se separaram, porque o astro decidiu formar uma família com uma jovem herdeira e nunca assumiu a paternidade do primeiro filho. Assim cresceu Kyung-rok, nas sombras do estrelato e mediante as consequências de um amor fraturado. Por isso sempre se sentiu solitário e, assim como aqueles que precisam amadurecer cedo para lidar com os problemas do mundo, passou a sobreviver dia após dia.

Muito tempo se passa até que ele revele que deixou um grande sonho de lado por nenhum motivo aparente — apenas porque queria juntar dinheiro para realizar uma viagem e pagar as contas. Essa apatia do personagem se transforma em movimento quando ele conhece Mi-jung (Ko A-sung).

Ela é uma antiga funcionária da loja de departamentos onde Kyung-rok começou a trabalhar recentemente. Tímida, sem amigos e fora do padrão de beleza ideal, a jovem se tornou alvo fácil de histórias mirabolantes e bullying. Mas permanece ali, com a mesma rotina de sempre, porque precisa. Acostumada a abaixar a cabeça e não emitir opiniões para passar despercebida, ela é uma figura solitária e misteriosa.

É essa solidão que atrai Kyung-rok à Mi-jung. Apesar de chamar a atenção de diversos funcionários por ser bonito, o jovem se aproxima da garota que ninguém nunca se importou em conhecer. Aos poucos, os dois compartilham suas vulnerabilidades e se apaixonam, encontrando um no outro um espaço para existir. Depois de tantos anos vivendo à margem da sociedade, eles descobrem um amor que os centraliza no mundo.

Os dois trazem um debate profundo sobre a solidão da vida contemporânea, já extensamente analisada por autores como Zygmunt Bauman (2000), que descreve as relações frágeis e superficiais causadas por uma sociedade capitalista e individualista, e Byung-chul Han (2019, 2021), que busca compreender a dor e o crescente isolamento experienciados pelas pessoas na atualidade.

Entretanto, a história poderia ter se tornado um melodrama comum se não fosse pela presença de Yo-han (Byun Yo-han). Às vezes um narrador onisciente, às vezes um personagem, Yo-han é a chave da trama. Com uma personalidade animada que, em um primeiro momento, parece destoar da melancolia do filme, ele é o responsável por unir o casal e por conduzi-los durante toda a narrativa. A primeira introdução, o primeiro encontro e a primeira declaração — tudo perpassa por Yo-han de alguma forma. Porém, o personagem não serve apenas de cupido. Por trás de seu humor entusiasmado, Yo-han esconde a dor e a tristeza que o acompanham e que inevitavelmente transbordam depois de tanto serem reprimidas.

Ele é, também, um narrador não confiável. Os espectadores não sabem se as histórias que conta são verdadeiras ou em quais momentos elas estão entrelaçadas ao seu olhar fantasioso. Isso se intensifica ainda mais ao final do longa-metragem, porque é o próprio Yo-han o escritor de um livro sobre o relacionamento entre Kyung-rok e Mi-jung, mas o namoro deles na publicação termina de uma maneira diferente, com um toque de esperança que parece não existir de fato.

Essa distorção deliberada da realidade é apresentada ao espectador desde o início, porque parte da maneira como o próprio Yo-han compreende o amor. De acordo com ele: “o amor é uma ilusão. Uma ilusão de que a pessoa amada é diferente das outras. Uma ilusão de que esse sentimento durará para sempre”. E parece ser dentro dessa ilusão, na liminaridade com a realidade, que o filme acontece.

Mesmo com tantas qualidades, a obra audiovisual repete alguns estereótipos de beleza que já se tornaram cansativos (mas que talvez façam sentido se compreendermos que a obra é uma adaptação do livro “Pavane for a dead princess”, de Park Min-gyu, lançado originalmente em 2009 e publicado em inglês em 2014). O filme parece destacar de forma excessiva a estranheza da relação entre Kyung-rok e Mi-jung apenas porque ele é bonito e ela não. Isso traz uma certa superficialidade para a trama, principalmente para as mulheres que cresceram assistindo a histórias semelhantes.

Pelo menos a narrativa não reforça o clichê do homem que salva a mulher de uma vida triste (tão comum em obras de romance) — aqui, os dois se ajudam e se transformam mutuamente. Além disso, a dinâmica entre Kyung-rok e Mi-jung é tão profunda que esse problema não impede os espectadores de se afeiçoarem à relação deles.

Entre erros e acertos, a originalidade de “Pavana” está em captar a eterna busca humana por conexão, apesar do mundo capitalista isolar as pessoas (como Marx Weber já havia percebido no início do século passado em “A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo”, muito antes de termos como neoliberalismo e pós-modernidade terem sequer sido popularizados).

Ainda que os dias sejam cansativos, a rotina seja exaustiva, o trabalho drene as energias e o futuro pareça desanimador, todos continuam seguindo em frente, com a esperança de encontrarem um espaço para si. E “Pavana” mostra que, talvez, esse lugar de pertencimento esteja na conexão com o outro, no amor que teima em existir apesar da solidão.

Referências

BAUMAN, Zygmunt. Modernidade líquida. Rio de Janeiro: Zahar, 2021.

HAN, Byung-Chul. Sociedade do cansaço. Petrópolis: Editora Vozes, 2015.

HAN, Byung-Chul. Sociedade paliativa: a dor hoje. Petrópolis: Editora Vozes, 2021.

HORST, Louis. Pre-Classic Dance Forms. Princeton: Princeton Book Company, 1987.

LEITÃO, Rui Campos. Uma Pavana Defunta? Metropolitana, [s.d.]. Disponível em: https://www.metropolitana.pt/musicalia/uma-pavana-defunta/. Acesso em: 08 mar. 2026.

PARK, Min-gyu. Pavane for a Dead Princess: A Novel. Dallas: Dalkey Archive Press, 2014.

TAVLIN, Will. Casual Viewing: Why Netflix looks like that. N+1, mar. 2026. Disponível em: https://www.nplusonemag.com/issue-49/essays/casual-viewing/. Acesso em: 08 mar. 2026.

WEBER, Max. A ética protestante e o espírito do capitalismo. São Paulo: Martin Claret, 2023.

Sobre a autora

Clara Menezes

Mestranda em Ciências Sociais pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e integrante da Curadoria de Estudos Coreanos. Pesquisa na área de sociologia da literatura, com foco na obra de Han Kang.

E-mail: mclaracmenezes@gmail.com.

De repente humana e a representação da figura da raposa de nove caudas (gumiho / 구미호)

De repente humana e a representação da figura da raposa de nove caudas (gumiho / 구미호)

Giovana Canez Valerão

imagem: https://www.reddit.com/r/KDRAMA/comments/1py8br8/sbs_no_tail_to_tell_couple_poster_premieres/?tl=pt-br

O K-drama De repente humana é um romance de fantasia que estreou em janeiro de 2026 na Netflix. Protagonizada por Lomon (de All of us are dead) e Kim Hye Yoon (de Adorável corredora), a produção tem 16 episódios e narra o destino de Eunho, uma raposa de nove caudas, que se envolve com o jogador de futebol Kang Si Yeol (Ezeji, 2026). 

Para além de se constituir como uma história de romance, repleta de momentos cômicos, o enredo inspira-se no folclore coreano ao incorporar não apenas a gumiho (구미호), mas também elementos xamanísticos e até mesmo a personificação da costelação “Ursa maior”, denominada “Pagun” ou “Pagunseongun” no K-drama.

Cabe destacar que, embora a raposa de nove caudas seja amplamente representada no entretenimento sul-coreano, trata-se de uma figura que surgiu inicialmente na mitologia chinesa, sob o nome de Huli Jing (Mitologia em Português, 2021), e que igualmente se manifesta no Japão, onde é conhecida como Kyuubi no Kitsune (Mitologia em Português, 2020), personagem que se popularizou na mídia ocidental através do anime Naruto.

No K-drama, a gumiho Eunho é a protagonista astuta (como qualquer raposa de nove caudas) que se vale dos seus poderes espirituais para enfeitiçar os seres humanos e ganhar dinheiro à custa de contratos com chaebols1. Ela assume a forma de uma mulher elegante que evita realizar pedidos que gerem “muita bondade” ou “muita maldade”, a fim de manter equilibrada a balança que mede suas habilidades espirituais e, assim, evitar tornar-se humana (o que para muitas gumihos seria um sonho). Além disso, demonstra uma atitude desdenhosa em relação aos humanos e tende a valorizar bens materiais. 

Ainda que essa descrição se assemelhe, em certa medida, à figura da raposa de nove caudas tradicionalmente representada na mitologia coreana, os roteiristas Park Chan-young e Jo Ah-young foram responsáveis por modernizar a personagem e torná-la mais palatável ao contexto da Coreia do Sul contemporânea, um país desenvolvido que ostenta uma cultura de luxo e enfrenta outros tipos de ameaça, como a impunidade daqueles que detêm o poder, por vezes mais alarmante do que uma figura mitológica. 

Dessa maneira, este K-drama, assim como muitos outros, faz referência à gumiho ao mesmo tempo em que ressignifica sua trajetória na mitologia tradicional coreana, chegando, inclusive, a ironizar a forma como essa figura era concebida na antiguidade. 

Se nos voltarmos ao folclore coreano, a raposa de nove caudas difere significativamente de suas contrapartes nos países vizinhos, onde é frequentemente associada a um símbolo de bom presságio, passando a representar uma criatura sedenta por carne humana na tradição coreana (Myth and Folklore Wiki, 2012). Tal representação aproxima-se de figuras recorrentes nas lendas ocidentais, como os vampiros, marcados pelo desejo incessante por sangue, e os zumbis, mortos-vivos que se alimentariam de cérebros humanos. Em contrapartida a esses equivalentes ocidentais, a gumiho se alimentaria do fígado ou do coração das suas vítimas, aspecto que a protagonista de De repente humana parece satirizar sempre que a sua identidade é revelada.

Além disso, assim como é representada no K-drama, a gumiho possuiria uma “conta de raposa” (여우구슬), utilizada para absorver poder espiritual (Ministry of Culture, Sports and Tourism, 2022). Contudo, diferentemente do folclore tradicional, esse poder não é adquirido por meio de um beijo, mas sim por grandes ações, como sacrifícios. No enredo, cultivar a espiritualidade (isto é, praticar boas ações) pode, ainda, transformar uma raposa de oito caudas, chamada carinhosamente de palmiho (팔미호), em uma raposa de nove caudas, processo que geralmente levaria séculos para se concretizar. 

Novamente desafiando a mitologia, a narrativa apresenta o desequilíbrio da balança espiritual como o fator responsável por transformar uma gumiho em humana, transformação que, na tradição, ocorreria após 1000 dias sem o consumo de carne humana.

Há também outros pequenos ajustes cômicos no K-drama. Por exemplo, em vez de viver na floresta (USC Digital Folklore Archives, 2022), a protagonista reside em uma mansão luxuosa no Monte Myohang, na Coreia do Norte, local que só pode acessar com seus poderes de comutação. Tal habilidade é perdida quando ela se torna humana e, portanto, não consegue retornar para casa, passando a viver com o protagonista masculino em um pequeno quarto na cobertura. 

De modo geral, observa-se que, assim como em grande parte dos K-dramas que mobilizam a figura da raposa de nove caudas — como My Girlfriend Is a Gumiho, no qual a personagem é libertada de uma pintura pelo protagonista, e My Roommate Is a Gumiho, em que a figura é representada por um homem que se torna colega de casa de uma estudante universitária após ela engolir acidentalmente a sua conta de raposa —, há um esforço em adaptar um elemento central do folclore coreano, tão importante para a identidade das Coreias, a um formato compatível com K-dramas de romance. Tal adaptação permite que essas narrativas sejam apreciadas tanto pelos sul-coreanos quanto pela audiência ocidental, o que ajuda a explicar o grande sucesso da produção no Brasil, onde permaneceu no Top 10 da Netflix por dias após o seu término.

Imagem: https://i.namu.wiki/i/9pDeUX8Q04C_I-i-qq3c4xpIix1EZPX7a7yg1AS9GZBomWbwdoe14Kp6Wh3J3fYy3D0ISh2vqqZFrbzgE6uULtLQOHqwRYrro1WQsrGxvBZHi0c8nBV3KAtOwCDZDL89QO-mmVlkQos3SgzHx-fZW836MIhajAP0aIVBN4spEps.webp

Imagem: https://en.wikipedia.org/wiki/My_Roommate_Is_a_Gumiho#/media/File:My_Roommate_Is_a_Gumiho.jpg

Atribuo o charme do K-drama não apenas à existência de uma gumiho narrativa, mas também ao fato de ela ser uma representante da chamada “Geração Z”, capaz de se adaptar tanto à era Joseon quanto à Seul contemporânea. 

Portanto, se você não é uma pessoa que preza pela verossimilhança entre mito e representação, esta é uma produção divertida para mergulhar no folclore coreano e, quem sabe, posteriormente aventurar-se por outros K-dramas com gumihos. Como entusiasta da mitologia coreana, espero que o sucesso dos filmes e K-dramas de fantasia se mantenha por muito tempo.

Referências

E., EZEJI. Kim Hye Yoon And “No Tail To Tell” Creators Discuss The Drama’s Theme, Inspiration, And More. Soompi, 06 jan. 2026. Disponível em:
https://www.soompi.com/article/1810195wpp/kim-hye-yoon-and-no-tail-to-tell-creators-discuss-the-dramas-theme-inspiration-and-more Acesso em: 02 mar. 2026.
HULI Jing, a raposa mística chinesa (e a Gumiho). Mitologia em português, 03 nov. 2021. Disponível em: https://www.mitologia.pt/huli-jing-a-raposa-mistica-chinesa-498826. Acesso em: 02 mar. 2026.
KITSUNE, ou a Lenda da Raposa de Nove Caudas. Mitologia em português, 13 out. 2020. Disponível em: https://www.mitologia.pt/huli-jing-a-raposa-mistica-chinesa-498826. Acesso em: 02 mar. 2026.
KUMIHO. Myth and Folklore Wiki, 20 ago. 2012. Disponível em: https://mythus.fandom.com/wiki/Kumiho. Acesso em: 02 mar. 2026.

LEE, J. Gumiho. USC Digital Folklore Archives, 17 mai. 2022. Disponível em:https://folklore.usc.edu/gumiho-2/. Acesso em: 02 mar. 2026.

WHAT is a gumiho? Korea Here & Now. Ministry of Culture, Sports and Tourism. 27 jun. 2022. Disponível em: https://www.mcst.go.kr/english/policy/kocis/newsView.jsp?pSeq=102. Acesso em: 02 mar. 2026.

Sobre a autora

Giovana Canez Valerão

Mestranda em Aquisição, Variação e Ensino na Universidade Federal de Pelotas (UFPEL), integrante da Curadoria de Estudos Coreanos (CEÁSIA/CEA/UFPE). Se interessa pela língua coreana, K-pop e K-dramas.

E-mail: givalerao14@gmail.com.

  1. Em coreano,재벌, termo que se refere a indivíduos oriundos de famílias proprietárias de conglomerados. ↩︎
A Complexidade Humana em “O Bom Filho”, de Jeong Yu-Jeong

A Complexidade Humana em “O Bom Filho”, de Jeong Yu-Jeong

Por Mariana Mello Alves de Souza

Fonte: https://martinsfontespaulista.vteximg.com.br/arquivos/ids/1724426-800-800/881893_3.jpg?v=638914004736400000

“O Bom Filho” (종의 기원) é um romance de suspense psicológico narrado em primeira pessoa pelo protagonista Han Yu-jin, um jovem que teve seu futuro promissor como nadador interrompido pela epilepsia. Publicado originalmente na Coreia do Sul em 2016 pela editora 은행나무 e traduzido para o português por Jae Hyung Woo e publicado no Brasil pela editora Todavia em 2019, a narrativa da autora Jeong Yu-Jeong tem início com Yu-jin acordando em meio a um mistério inquietante: ele encontra sua mãe morta na casa onde vivem, mas sua memória do ocorrido está destruída, possivelmente pela própria condição neurológica. A partir daí, a autora desenvolve um enredo complexo que alterna entre o presente e os flashbacks da infância de Yu-jin, explorando os traumas familiares, sua relação com o irmão adotivo Kim Hae-jin, as manipulações mentais e a psicopatia do personagem. Segundo Osborne (2018, p. 1)1, “este é um livro de perguntas. É também um livro de mistério, mas boa parte dele consiste em Yu-jin falando consigo mesmo, tentando descobrir o que está acontecendo”.

A construção do protagonista é destacada na obra pela sua intrincada personalidade, cuja aparente normalidade esconde um comportamento predatório e psicótico. A autora usa a fragmentação da memória e os flashbacks não só para desvendar o mistério do crime, mas para proporcionar uma análise profunda da mente perturbada de Yu-jin, tornando o livro um exercício focado na psicologia humana, especialmente nos impactos do controle opressivo materno e das relações familiares tóxicas. O leitor é levado a uma ambiguidade moral, questionando a confiabilidade da narrativa, pois Yu-jin manipula suas próprias memórias e sua versão dos fatos. Para Varma (2019, p. 1)2:

Ao mergulharmos na toca do coelho, virando as páginas sombrias de sua mente e do diário de sua mãe, que nos leva de sua infância à idade adulta, quando ele está prestes a ingressar na faculdade de direito, nos deparamos com sua ‘verdadeira natureza’.

O livro também é apreciado por público e crítica por seu ritmo intenso e sua habilidade em manter a tensão narrativa, apesar de algumas críticas quanto ao detalhamento excessivo em certas partes. É um thriller que alia suspense com drama humano, revelando os mecanismos internos de uma família marcada por complicações psicológicas e sociais, em um contexto sul-coreano contemporâneo discutido sutilmente no pano de fundo da história. A ambientação cultural, ainda que não seja o foco central da narrativa, contribui para a construção de um cenário que reforça os dilemas individuais e coletivos, permitindo ao leitor compreender como fatores sociais e familiares se entrelaçam na formação da subjetividade dos personagens.

A autora, Jeong Yu-Jeong, demonstra grande habilidade em explorar os limites entre realidade e percepção, utilizando recursos narrativos que intensificam a dúvida e a ambiguidade. O protagonista é construído de forma complexa, revelando gradualmente suas fragilidades, traumas e contradições, o que confere à obra uma dimensão psicológica que ultrapassa o mero enredo policial. Neste sentido, o romance pode ser interpretado como uma investigação não apenas de um crime, mas da própria mente humana, expondo os mecanismos da memória, da repressão e da culpa.

Além disso, a narrativa dialoga com questões universais, como a herança familiar, a pressão social e os efeitos da violência psicológica, ao mesmo tempo em que mantém o leitor em constante estado de alerta. O uso de descrições minuciosas, embora alvo de críticas por leitores e críticos literários, pode ser visto como uma estratégia literária para intensificar a atmosfera claustrofóbica e a sensação de aprisionamento que permeia a obra. Essa escolha estilística reforça a ideia de que o verdadeiro suspense não reside apenas na resolução do mistério, mas na revelação gradual das camadas emocionais e cognitivas que compõem os personagens.

Em síntese, “O Bom Filho” é uma obra que transcende o simples mistério policial para apresentar um estudo psicológico profundo, com uma escrita que prende o leitor e convida à reflexão sobre a natureza da mente, a memória e os laços familiares problemáticos. Trata-se de um romance que, ao mesmo tempo em que entretém pelo suspense, também provoca inquietação intelectual ao expor os limites da racionalidade e da moralidade em situações extremas. Desta forma, a obra de Jeong Yu-Jeong consolida-se como uma contribuição significativa para o gênero thriller psicológico contemporâneo, oferecendo ao público não apenas uma narrativa envolvente, mas também uma oportunidade de reflexão crítica sobre os dilemas humanos universais.

Referências

JEONG, Yu-Jeong. O Bom Filho. Tradução: Jae Hyung Woo. São Paulo: Todavia, 2019.

OSBORNE, J. David. The Good Son by You-Jeong Jeong. World Literature Today, 2018. Disponível em: https://www.worldliteraturetoday.org/2018/july/good-son-you-jeong-jeong. Acesso em: 24 nov. 2025.

VARMA, Anuradha. Book review: The Good Son by You Jeong Jeong. The Indian Express, 26 maio. 2019. Disponível em: https://indianexpress.com/article/lifestyle/books/book-review-good-son-you-jeong-jeong-5747877. Acesso em: 24 nov. 2025.

SOBRE A AUTORA

Mariana Mello Alves de Souza

Doutoranda em Estudos Literários pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) e integrante da Curadoria de Estudos Coreanos. Pesquisa na área de tradução literária, com foco na poesiacanto coreana clássica.

E-mail: mello.mariana@live.com.

  1. Tradução da autora. No original: “This is a book of questions. It’s a book of mystery, too, but a good portion of it consists of Yu-jin talking to himself, trying to figure out what’s going on”. ↩︎
  2. Tradução da autora. No original: “As you go down the rabbit hole, turning the dark pages of his mind and his mother’s journal, which takes us from his childhood to adulthood as he stands at the threshold of law school, we come face to face with his ‘true nature’”. ↩︎
O imaginário nuclear e da reunificação coreana em Tempest/Polaris

O imaginário nuclear e da reunificação coreana em Tempest/Polaris

por Luisa de Mesquita

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fonte: Disney/Reprodução

[este ensaio contém SPOILERS para o k-drama Tempest/Polaris]

Desde o bombardeio de Hiroshima e Nagasaki em 1945, o mundo tem vivido debaixo do medo de um possível apocalipse nuclear, encabeçado pelas maiores potências do mundo ou por atores inesperados que conseguiram desbloquear o complexo processo de produção de armamentos nucleares. Muitas das tensões durante a Guerra Fria se basearam no fato de que ambos EUA e URSS eram países nucleares, e muitos acreditavam que apenas a realidade de Destruição Mútua Assegurada (ou MAD, na sigla em inglês) impedia que os diferentes polos entrassem numa guerra nuclear (Editores da Enciclopédia Britânica, 2024). Portanto, não é de se espantar que as consequências de tal conflito tenham estimulado a imaginação de diversos artistas e contadores de história no último século. Com produções de extremo sucesso como o filme Oppenheimer e a série Chernobyl, a humanidade continua a retratar suas ansiedades e expor sua curiosidade sobre as consequências da nuclearização global.

Enquanto historicamente os soviéticos/russos aparecem como antagonistas em histórias de tragédia ou de potencial nuclear, este ensaio almeja debater brevemente o papel que a República Popular Democrática da Coreia (a chamada Coreia do Norte) tem ocupado em produções mais recentes que abordam a ameaça nuclear. A Coreia do Norte retirou-se em 2003 do TNP, o Tratado da Não-Proliferação de Armas Nucleares, sendo atualmente um dos poucos países com arsenal bélico militar confirmado, e tal fato tem sido explorado por roteiristas de grandes séries televisivas.

Em Tempest/Polaris1, k-drama exibido pelo Disney+ e que estrela Jun Jihyun como a protagonista Seo Munju e Gang Dongwon como seu guarda-costas e par romântico Paik Sanho, o problema nuclear da Coreia do Norte ocupa o plano principal da narrativa. Kim Jong-un, presidente factual da Coreia do Norte, é ficcionalizado como Kim Hansang, interpretado por Uhm Taegoo, e aparece em momentos climáticos e tensos da trama como um dos principais antagonistas, ainda que frequentemente nos bastidores. Tempest/Polaris foi ao ar entre setembro e outubro de 2025, contando com 9 episódios e nota 6,7 no IMDb, sendo distribuído globalmente pela Disney, ainda que no selo Hulu, que produziu o k-drama (Polaris: Conspiração Política, 2025).

A trama segue Munju, ex-embaixadora sul-coreana na ONU, que deixa sua carreira diplomática para acompanhar a candidatura do marido, Jang Junik, à presidência da Coreia do Sul. No entanto, Junik é assassinado durante um compromisso de campanha, e Munju começa a desvelar uma trama de conspiração por detrás da morte do marido. Ela descobre que Junik iria anunciar um plano de reunificação pacífica entre o Norte e o Sul da península coreana, e que ele tinha contato direto com Anderson, dirigente estadunidense para assuntos coreanos nos EUA. Anderson, por sua vez, suspeitava que a Coreia do Norte havia vendido um submarino nuclear para Idisha, um país fictício que sofre com invasões estadunidenses e, a série sugere, está localizado em algum lugar do Oriente Médio. Através desse submarino, a Coreia do Norte estaria diretamente conectada a um futuro bombardeio nuclear em território estadunidense.

A questão da reunificação coreana é também central para o enredo do k-drama, especialmente porque Sanho, o protagonista masculino, é um desertor da Coreia do Norte que trabalha como mercenário. Sua fascinação por Munju, que defendia a proximidade entre as Coreias em seus discursos na ONU, leva-o a buscar protegê-la das tentativas de assassinato que ela sofre quando decide, ela mesma, concorrer à presidência. No meio de uma tempestade que envolve corrupção no governo sul-coreano, animosidade entre Coreia do Sul e China, adultério e dramas familiares, Munju é a responsável por conectar os pontos de uma tentativa de provocação de guerra nuclear na península coreana.

É importante ressaltar que o k-drama coloca a frágil relação entre EUA e Coreia do Sul no centro do enredo. Frágil porque, com bases militares estadunidenses instaladas em seu território, a produção aponta para o fato de que a Coreia do Sul fica à mercê dos interesses particulares e do comprometimento com a détente nuclear estadunidenses para a manutenção de sua própria segurança. Durante o enredo, o alto escalão de dirigentes dos EUA está disposto a sacrificar a Coreia do Sul se isso significar a destruição da Coreia do Norte e de seus armamentos nucleares; o k-drama retrata até um código secreto compartilhado entre as bases militares estadunidenses para a retirada de seus membros da península em caso de futuro bombardeio nuclear.

É através da atuação corajosa de Munju e Sanho que se impede um bombardeio de mísseis nucleares norte-coreanos nos EUA, que ocasionaria a eclosão de uma guerra de proporções mundiais. Arquitetado por uma traficante de armas e espiã que almejava ganhar muito dinheiro com o início de uma guerra violenta, a grande vilã secreta do k-drama é derrotada pelos dois protagonistas e o bombardeio é impedido em conjunto com os líderes fictícios da Coreia do Norte e de Idisha, que fornecem os códigos necessários para cancelar o disparo das ogivas.

O que Tempest/Polaris demonstra é que a Coreia do Sul ainda é uma sociedade marcada de forma singular pela ansiedade nuclear e pela desconfiança de sua irmã nortenha. No entanto, o k-drama não retrata os norte-coreanos como vilões cartunescos, muito pelo contrário: a narrativa aponta para as similaridades entre os países, especialmente no que toca seus relacionamentos conturbados com os EUA. É somente com a colaboração norte-coreana que Munju consegue desarmar as bombas nucleares que estavam direcionadas para os EUA. Munju é uma figura polêmica por conta de sua posição favorável à reunificação coreana, e ela é conhecida por todo país por sua atuação na ONU, falando a favor da paz e contra os conflitos nucleares.

Dessa maneira, Tempest/Polaris procura demonstrar como é complexa a posição sul-coreana em sua localização geopolítica. O k-drama é certeiro ao evidenciar como é desigual o relacionamento entre Coreia do Sul e EUA, demonstrando como os interesses estadunidenses podem comprometer a segurança sul-coreana e destruir quaisquer laços de solidariedade que existam entre ela e a sua irmã do norte. A posição crítica em relação aos EUA não é óbvia para um país que ainda depende não apenas do poderio militar estadunidense como também de laços econômicos com a potência norte-americana. As exportações da Coreia do Sul para os EUA têm apenas crescido, e a ameaça do Presidente Trump de taxá-las em 25% no início de 2025 preocupou profundamente autoridades sul-coreanas (PODER360, 2025).

Além disso, tendo como ponto central o poderio nuclear norte-coreano, Tempest/Polaris retrata como a paranoia nuclear pode cegar dirigentes, levando-os à corrupção (acusando falsamente cidadãos de espionagem, por exemplo) ou a medidas incrivelmente drásticas. O k-drama retrata como a ansiedade nuclear ainda orienta muito das decisões políticas tomadas pela Coreia do Sul e também ao entorno dela, por Coreia do Norte, China e EUA, demonstrando que essa questão ainda é extremamente atual. O problema das armas nucleares não ficou no século XX, com os retratos caricatos de soviéticos em filmes de espionagem. Pelo contrário, a Coreia do Norte, por ser considerada um ator imprevisível, ainda causa extrema desconfiança em dirigentes pelo mundo todo.

A solução apontada pelo k-drama é uma que certamente é considerada utópica por muitos: a reunificação pacífica da península coreana. Apesar das críticas empreendidas tanto ao governo sul-coreano quanto ao estadunidense, o k-drama entende que é apenas com um convívio unificado e transparente que haverá paz duradoura na península. Mas o k-drama não hesita em apontar as dificuldades que tal empreendimento enfrenta, tanto dentro da própria Coreia do Sul, quanto pelos EUA, que têm interesse em manter seu posicionamento na região.

Tempest/Polaris se aproveita da base cultural compartilhada da ansiedade nuclear para construir um enredo tenso, politicamente complexo. Colocando a Coreia do Sul como protagonista, o enredo explora de forma bem sucedida o que a ameaça nuclear norte-coreana significa para a península, redirecionando o foco de tal tipo de narrativa, que geralmente é centrada nas consequências para Europa e EUA.

REFERÊNCIAS

EDITORES DA ENCICLOPÉDIA BRITÂNICA. Mutual assured destruction (MAD). 2024. Disponível em: https://www.britannica.com/topic/mutual-assured-destruction. Acesso em: 6 dez. 2025. 

PODER360. Coreia do Sul prepara pacote de contramedidas após tarifaço de Trump. 2025. Disponível em: https://www.poder360.com.br/poder-economia/coreia-do-sul-prepara-pacote-de-contramedidas-apos-tarifaco-de-trump/. Acesso em: 6 dez. 2025. 

POLARIS: CONSPIRAÇÃO POLÍTICA. 2025. Disponível em: https://www.imdb.com/pt/title/tt27368147/. 

SOBRE A AUTORA

Luisa de Mesquita

Doutora em Relações Internacionais pela PUC-Rio, e pesquisadora associada da Curadoria de Estudos Coreanos (CEA/UFPE) e do Laboratório Cultpop (CNPq/UFF). Sua tese de doutorado procurou entender como fandoms de k-pop são lugares de formação política e por isso mesmo ela está sempre hiperanalisando peças de cultura pop.

  1. O k-drama é exibido no Brasil com o título Polaris, mas internacionalmente é conhecido como Tempest, por isso a opção pela barra. ↩︎
O lar como nação: Gerações familiares e a construção da Coreia em “Pachinko”, de Min Jin Lee

O lar como nação: Gerações familiares e a construção da Coreia em “Pachinko”, de Min Jin Lee

por: Thaisa Viana

foto: Instituto Brasil Coreia – Rio de Janeiro

A história falhou conosco, mas não importa.

É assim que inicia Pachinko (2020), romance realista escrito por Min Jin Lee e lançado no Brasil pela editora Intrínseca. O livro acompanha a trajetória de uma família ao longo de mais de 70 anos, entrelaçando suas histórias pessoais com a história coreana nos séculos XX e XXI.

A narrativa começa em 1883, em uma pequena vila de pescadores em Yeongdo, no distrito de Busan. Um dos primeiros personagens apresentados, Hoonie, é um jovem com deficiências e filho de pescadores humildes que mantêm uma pousada para aumentar suas poucas rendas. Aos 27 anos, ele consegue um casamento arranjado com Yangjin, filha de fazendeiros pobres da mesma vila. Em 1910, mesmo ano de assinatura do tratado de anexação da Coreia ao Japão, Hoonie e Yangjin tornam-se pais de uma menina chamada Sunja, que mais tarde irá se destacar como o principal fio condutor de toda a saga familiar ao longo do romance.

A primeira parte do livro, de 1910 até 1933, acompanha a vida de Sunja nos seus primeiros anos. Ao mesmo tempo em que Sunja se descobre como mulher, ela descobre seu país e sua nação em transformação, resistindo de maneiras distintas e cotidianas à invasão japonesa na península coreana do Japão. Não apenas a vida de Sunja é afetada pelo primeiro período da colonização japonesa, mas a vida de diversos outros personagens, destacando aspectos sombrios de uma assimilação forçada e violenta. As mulheres de conforto, a violência policial, o uso de trabalhadores forçados e até as mudanças de nome e preconceitos enfrentados pelos coreanos durante a colonização são abordados de maneira sutil e marcante em elementos e personagens de uma mesma família que contornam a vida de Sunja e seus relacionamentos. 

Na segunda parte do livro, de 1933 até 1962, temas como a vida de descendentes e migrantes coreanos no Japão (os chamados de Zainichis), a discriminação, os jogos de poder e as relações familiares conturbadas são costurados no cenário internacional do final da Segunda Guerra Mundial e da Guerra da Coreia. Assim como o Japão e as Coreias, a família de Sunja se vê mais uma vez em uma posição de recomeço e resistência frente a um cenário desolador. Uma família que, assim como sua nação, persiste no tempo e na história em quaisquer circunstâncias políticas. 

O terceiro, e último, ato do romance se concentra nos anos de 1962 até 1989, desenvolvendo as relações familiares e a busca de identidade agora entre pontes aéreas dos Estados Unidos, Japão e Coreia. Assim como nas máquinas de Pachinko 一 os fliperamas usados como jogos de azar no Japão que dão nome ao romance 一,  a vida e o desenvolvimento dos países mencionados se mostra imprevisível, cabendo aos indivíduos enfrentar as mudanças, sempre em uma busca pela sobrevivência. 

A autora desenvolve Sunja desde sua infância até sua velhice como uma mulher comum, calada, pensativa, mas resiliente, ainda sonhadora e condicionada a lutar pela sua sobrevivência, independente das circunstâncias externas, em uma construção que quase se torna uma metáfora delicada para a própria nação coreana. A história da família de Sunja, com perdas, nascimentos e renascimentos, não apenas perpassa a história coreana, como também a reflete. A nação coreana se molda, se adapta, resiste e permanece firme ao longo dos mais de 4 mil anos que a constituem. A curiosidade sobre a vida e a sobrevivência de Sunja ao longo dos anos é mantida pela autora ao longo do romance como uma forma de também nos lembrar das próprias incertezas frente a história coreana. A questão “será que eles vão sobreviver?”, que permeia toda a leitura, é um lembrete não apenas das dificuldades da vida comum de um indivíduo do século XX e início do XXI, mas da própria nação sul-coreana como um todo.  

O livro torna-se um importante lembrete de que teorias e fatos históricos são produzidos e movidos por indivíduos com particularidades, famílias, interesses pessoais e necessidades urgentes da vida cotidiana. Porém, não apenas isso se mostra relevante na narrativa. A obra nos recorda os horrores da guerra, da fome e da segregação, em um convite para refletir sobre nossos lugares diante das conjunturas políticas e das situações que vão além das quatro paredes de um núcleo familiar. É um convite para perceber nossa presença diante da imprevisibilidade da história, que, por vezes, falha, mas nunca se ausenta de nossas vidas. 

Referência

LEE, Min Jin. Pachinko. Tradução de Marina Vargas. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2020. 

Sobre a autora

Thaisa da Silva Viana

Doutoranda em Relações Internacionais pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e Mestre em Relações Internacionais pela mesma instituição. Especialização em Direito Internacional em andamento pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais. Pesquisadora do LabÁSIA (UERJ), do Grupo de Estudos Asiáticos (GEA-UFMG) e integrante da Curadoria de Estudos Coreanos (CEÁSIA/CEA/UFPE). Tem experiência na área de política internacional, estudos de nacionalismo e cultura nas relações internacionais.