por Guilherme Henrique Ferreira Povoa e Maria Clara Lima Abrão

Imagem: Estátua de uma pessoa consolando outra na Ponte Mapo (마포대교), no Rio Han, ponte com o maior registro de tentativas de suicídio em Seul. Fonte: https://www.ilpost.it/2013/01/12/dimentica-tutto/skorea-society-suicide-5/

Frequentemente celebrada pela capacidade tecnológica, índices de desenvolvimento e influência cultural global, a Coreia do Sul exporta uma narrativa de Estado bem-sucedida, mascarando diversas rupturas sociais alarmantes, muitas vezes agravadas por essa própria narrativa. Dentre as fraturas, destacam-se os altos e alarmantes índices de suicídio e as diversas tentativas de compreender quais as motivações e relações entre esses e a sociedade moderna sul-coreana: fatores econômicos, filosóficos, midiáticos e sistêmicos.

A cada quarenta minutos, falece uma pessoa na Coreia do Sul, país no qual o suicídio é a quinta causa de morte mais comum entre todas as idades, o que o torna uma epidemia a ser combatida (Raschke et al., 2022). Neste sentido, quando ponderado demograficamente, nota-se um aumento no número de suicídios entre crianças e adolescentes, o qual se relaciona com pressão acadêmica, bullying, cyberbullying, coberturas midiáticas inadequadas de outros casos de suicídio e quadros precários de saúde mental, simultâneo ao crescimento alarmante no índice de suicídio entre idosos, majoritariamente em áreas rurais, associado ao desamparo financeiro e familiar (Lee, 2023).

Historicamente, a Crise Econômica Asiática de 1997 marca o aumento expressivo da quantidade de suicídios no país — cujos índices são os maiores entre os membros da OCDE (Paik, 2025) —, sobretudo entre os anos de 2009 a 2011 (Staudt, 2025), quintuplicando o índice anual. Esse período na Coreia do Sul foi marcado por instabilidade financeira, desemprego e baixa renda, fatores diretamente relacionados a tentativas de suicídio (Raschke et al., 2022). A percepção do cenário econômico, para além da situação profissional e financeira, pode ser diretamente associada à depressão (Barrass et al., 2024, p. 12); a relação também ocorre, em crescimento linear, quando pensadas as tentativas de suicídio, devido ao aumento de custo de planos de saúde, entre outros (Lee et al., 2025)

Neste contexto, diversos elementos influenciam as altas taxas de suicídio, para além de fatores socioeconômicos, como o Confucionismo, filosofia enraizada na Ásia, em que “o fracasso não é tolerado e as pessoas hesitam em falar sobre erros ou problemas de saúde mental, todos os quais são considerados uma fraqueza1 (Rashid, 2023a; Saeji et al., 2018 apud Staudt, 2025, p. 27, tradução nossa). Outrossim, a falta de escandalização ou a aquiescência perante o suicídio é herança, não somente da sabedoria confucionista, mas da própria história asiática, em que a morte preserva a honra em um contexto que valoriza a ideia de legado individual e familiar (Im; Park; Ratcliff, 2018).  

A cobertura inadequada e/ou sensacionalista da mídia é, idem, um fator que contribui para a elevação dos índices, levando comumente a comportamentos em massa nas redes sociais (como hate trains). Sobretudo, influenciam pela natureza contagiante do suicídio — ou pelo Efeito Werther2 —, exemplificado por coberturas de famosos, como o ex-presidente da República (2003–2008), Roh Moo-hyun (1946–2009), cuja exposição, especulação e publicização foram excessivas, com mais de 26 mil reportagens on-line até 2020 (Ha; Yang, 2021). Segundo Ha e Yang (2021), como efeito de coberturas midiáticas, os índices de suicídio já apresentam elevações de 16,4% ao primeiro dia de exposição, influenciando, inclusive, o método escolhido (comumente similar ao televisionado).

Outros elementos que impactam profundamente na qualidade de vida consistem no deslocamento entre valores e moralidades tradicionais, como o hyo, em contraste à modernidade “comprimida”, dinâmica e, basicamente, neoliberal e capitalista, afetando sobretudo a população idosa. O hyo (em hangul 효), é comumente traduzido como “piedade filial” e é um dos pilares da filosofia Confuciana, embora não tenha surgido com Confúcio a ideia de assistência, cuidado aos mais velhos e respeito profundo aos ancestrais (Wang; Tian, 2023); tal valor faz-se presente inclusive em folclores coreanos antigos prévios a Confúcio, como em “História de Shim-Jong” (Ilin, 2023). Neste sentido, o dado valor fora associado à noção de “boa pessoa” e integrou a cultura e as normas sociais por gerações, não se tratando somente de uma crença, mas de uma virtude arraigada, por ser a base de todas as outras virtudes segundo Confúcio (Wang; Tian, 2023). Hyo envolve, portanto, lealdade, justiça, honra, misericórdia, respeito, educação, obediência e provento material, entre outros. Neste contexto, todavia, nota-se, com a ascensão do neoliberalismo desde os anos 1990 — e da criação de “classes inseguras” devido à precarização, queda na qualidade de vida, exploração da classe trabalhadora e perda de segurança social —, o enfraquecimento do hyo, não somente pela impossibilidade do provento material e assistência financeira dos filhos aos pais, mas pela falta de preparo e proteção social diante do envelhecimento acelerado da população, denotando a perda de importância, piedade, justiça e, sobretudo, respeito aos idosos (Staudt, 2025).

Ao analisar os elementos que influenciam o alto índice estrutural de suicídio, uma vez que perdura há décadas, percebe-se que tais fatalidades escancaram que os supostos fama, sucesso e admiração pública, utilizados na narrativa sul-coreana bem-sucedida exportada a todo vapor, não possuem força frente a uma estrutura que nega espaço para a vulnerabilidade, reforça a exploração do trabalhador, produz choques culturais entre filosofias tradicionais e a lógica neoliberal e reverbera todas as falhas, erros e falecimentos em suas mídias. Todos esses elementos produzem a desumanização do ser e reforçam a importância de pautar os altos índices de suicídio na Coreia do Sul, não somente a fim de contrastar com a narrativa de sucesso exportada e em voga domesticamente, mas com o intuito de alertar àqueles que a consomem candidamente e acreditam de forma convicta se tratar de um país paradisíaco sem fissuras sociais.

REFERÊNCIAS

BARRASS, Lucy et al. The association between socioeconomic position and depression or suicidal ideation in low and middle-income countries in Southeast Asia: a systematic review and meta-analysis. BMC Public Health, n. 24, p. 3507, 2024. 

HA, Jeongmin; YANG, Hee-Seung. The Werther effect of celebrity suicides: Evidence from South Korea. PLoS ONE, v. 16, n. 4, 2021.

ILIN, Mykhailo. Filial Piety in Korean Cultural Tradition. SJ Academy, abr. 2023. Disponível em: https://sj.academy/2023/04/29/shanoblyvist-u-korejskij-kulturnij-tradycziyi/. Acesso em 13 out. 2025

IM, Jeong Soo; PARK, B. C. Ben; RATCLIFF, Kathryn Strother. Cultural Stigma Manifested in Official Suicide Death in South Korea. OMEGA – Journal of Death and Dying, v. 77, n. 4, 2018. 

LEE, Yuri. Suicide Trends and Responses in Korea. In: Korean Social Trends. Statistics Korea Research Institute (KOSTAT), 2023.

METELSKI, Giuliano et al. O  efeito  Werther  e  sua  relação  com  taxas  de  tentativas  de  suicídio:  uma  revisão narrativa. Research, Society and Development, v. 11, n.10, e267111032630, 2022.

PAIK, Rocio. Por que a Coreia do Sul se tornou a República do Suicídio. Opera Mundi – Especial, 2023. Disponível em: https://operamundi.uol.com.br/especial/por-que-a-coreia-do-sul-se-tornou-a-republica-do-suicidio/. Acesso em: 5 ago. 2025.

RASCHKE, Nicolas et al. Socioeconomic factors associated with suicidal behaviors in South Korea: systematic review on the current state of evidence. BMC Public Health, n. 22, art. 129, 2022. DOI: https://doi.org/10.1186/s12889-022-12498-1

STAUDT, Eileen. South Korea, Competitiveness and Suicides: A Global Political Economy Study of South Korea’s “Suicide Crisis”. University Helsinki, 2025.

WANG, Xueyin; TIAN, Xiaolei. Teaching with Filial Piety: A Study of The Filial Piety Throught of Confucionism. Trans/Form/Ação, Marília, v. 46, n. 4, p. 287-302, 2023.

SOBRE OS AUTORES

Guilherme Henrique Ferreira Povoa

Graduando em Relações Internacionais pela Universidade Federal de Uberlândia, integrante da Curadoria de Estudos Coreanos (CEÁSIA/CEA/UFPE). Possui interesse em Estudos Asiáticos com ênfase em Coreias, Segurança Internacional, Política Externa e Comércio Exterior. E-mail: guilhermeferreiradesouza135@gmail.com

Maria Clara Lima Abrão

Graduanda em Relações Internacionais pela Universidade Federal de Uberlândia, integrante da Curadoria de Estudos Coreanos (CEÁSIA/CEA/UFPE) e do Núcleo de Pesquisa em Segurança Internacional e Estudos Estratégicos (NUPSIEE-UFU). Se interessa por Estudos Asiáticos com ênfase em Coreias, Segurança Internacional, cultura e identidade. E-mail: mcl.abrao@gmail.com

  1. No original: “failure is not tolerated and that people are hesitant to talk about mistakes or mental health issues, all of which are considered a weakness” (Rashid, 2023a; Saeji et al., 2018 apud Staudt, 2025, p. 27). ↩︎
  2. Efeito Werther ou efeito manada é uma terminologia utilizada para o aumento de taxas de suicídio após a divulgação ampla de suicídios de celebridades e/ou personalidades midiáticas. O termo advém do protagonista da obra de Goethe, “Os sofrimentos do jovem Werther”, e levou a uma onda de suicídios na Europa após o lançamento do livro (Metelski et al, 2022). ↩︎