Foto de parte da instalação do Inside Out Project na cidade de Gwangju. Crédito: Inside Out Project.
A cidade de Gwangju se tornou, nas últimas décadas, um dos principais palcos da memória na Coreia do Sul. Projetos artísticos participativos, como é o caso do Inside Out Project, bem como eventos globais, a exemplo da Bienal de Gwangju, projetam-se em um gesto coletivo: lembrar. Ainda assim, essa insistência não indica necessariamente uma memória estabilizada, mas revela um processo contínuo de disputa e reconstrução. Afinal, por que ainda é preciso revisitar aquilo que não deveria ter sido esquecido?
O levante de maio de 1980, conhecido como 오일팔 민주화 운동(em coreano) e Gwangju Uprising (em inglês), permanece como uma das feridas mais significativas da história sul-coreana. Durante a ditadura militar, civis foram mortos por forças do Estado ao reivindicarem democracia. Cerca de 200 vítimas são oficialmente reconhecidas, embora estimativas independentes apontem números mais elevados, prática recorrente nesses atos violentos. Se, nas décadas seguintes, o episódio passou de objeto de silenciamento a símbolo da luta democrática, isso não eliminou as tensões que atravessam sua memória.
Hoje, Gwangju ocupa um lugar consolidado no imaginário nacional como marco da redemocratização. No entanto, a institucionalização dessa memória não encerra o problema, mas o transforma. Quando o trauma é incorporado a uma narrativa nacional de progresso, corre-se o risco de reorganizar o horror em termos mais palatáveis, ajustando-o a uma lógica de coesão e continuidade histórica.
Nesse contexto, a arte desempenha um papel ambivalente. Iniciativas como o Inside Out Project devolvem rostos e histórias a sujeitos historicamente silenciados, democratizando a produção da memória e tensionando versões oficiais. Ao mesmo tempo, não estão imunes às dinâmicas contemporâneas de circulação de imagens, nas quais o sofrimento pode ser transformado em uma experiência estética consumível. A potência e o risco coexistem (in)felizmente.
O mesmo vale para a Bienal de Gwangju. Criada no contexto da abertura democrática, a Bienal se consolidou como um dos principais eventos de arte contemporânea da Ásia, frequentemente engajada em debates políticos. Ainda assim, sua inserção no circuito global levanta uma questão incômoda: até que ponto a memória, ao circular internacionalmente, precisa se adaptar às expectativas de um público global? Mais do que “exorcizar” o passado, a arte parece operar em um campo de tensões entre crítica, mercado e visibilidade.
Essa instabilidade não é acidental. Como apontam os estudos do trauma, em autores como Cathy Caruth (1996) e Márcio Seligmann-Silva (2003), experiências extremas resistem à representação plena, retornando de forma fragmentada e insistente. Lembrar, nesse sentido, não é recuperar o passado tal como foi, mas reconstruí-lo a partir de lacunas, silêncios e disputas.
É nesse ponto que a literatura, dentro do campo artístico, ocupa um lugar tão decisivo. Em Atos humanos, da escritora sul-coreana Han Kang, o levante de Gwangju não é apresentado como uma narrativa linear ou fechada, mas como uma constelação de vozes interrompidas, corpos ausentes e memórias fragmentadas. Ao recusar a totalização, a literatura não apenas representa o trauma, mas o revisita como aquilo que permanece irredutível às versões oficiais.
No entanto, toda política da memória implica escolhas. O que lembrar, como lembrar e, sobretudo, quem tem o direito de lembrar são questões inseparáveis de relações de poder. Como sugere Marianne Hirsch (1997, 2012), a memória não pertence apenas a quem viveu o evento, mas também às gerações posteriores que o herdaram — o que amplia, mas também complexifica, seus modos de transmissão.
Há ainda uma dimensão global incontornável. Enquanto certos eventos históricos, como o Holocausto, ocupam posição central no imaginário internacional, outros, como o levante de Gwangju, permanecem relativamente periféricos. Isso revela que a memória não é apenas preservação, mas também hierarquia: nem toda dor alcança o mesmo grau de reconhecimento.
Diante disso, talvez a questão mais urgente vá além do que a Coreia do Sul escolhe lembrar, concentrando-se no que ainda resiste à lembrança plena: seja por incômodo político, seja por inadequação às formas dominantes de narrar o passado.
Gwangju não é apenas um símbolo da democracia. É também um lembrete de que toda memória é instável, construída e disputada. Entre monumentos, imagens e narrativas, o passado não se fixa, mas sim continua sendo negociado. Nesse sentido, lembrar não é um gesto neutro: é inevitavelmente um ato político.
SELIGMANN-SILVA, M. (Org.) História, memória, literatura: o Testemunho na Era das Catástrofes. Campinas, SP: Unicamp, 2003.
SOBRE A AUTORA
Maria Gabriela Pedrosa
Doutoranda em Estudos Literários na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), integrante da Curadoria de Estudos Coreanos (CEÁSIA/CEA/UFPE). Interessa-se pela relação entre os estudos literários, a intermidialidade e a memória.
A obra The Cultural Diplomacy of South Korea: Exhibiting the National in International Museums, de Sumi Kim, apresenta uma análise aprofundada sobre a utilização dos museus e das exposições internacionais como instrumentos de diplomacia cultural e construção da imagem nacional sul-coreana. Publicado pela Routledge, o livro caracteriza-se como um estudo teórico-analítico interdisciplinar, no qual a autora articula pesquisa arquivística, história cultural e análise museológica para compreender como os museus atuam na formação de narrativas nacionais e de estratégias de projeção internacional da Coreia do Sul (Kim, 2026).
Baseando-se em ampla pesquisa arquivística realizada na Coreia do Sul, nos Estados Unidos e no Reino Unido, Kim analisa exposições comoMasterpieces of Korean Art (1957-1962) e 5000 Years of Korean Art (1976-1985) e a implementação da Korea Foundation Gallery no British Museum. Ao longo da obra, a autora demonstra que essas iniciativas não podem ser compreendidas apenas como eventos culturais, mas como estratégias diplomáticas diretamente articuladas aos interesses políticos e simbólicos do Estado sul-coreano.
Um dos principais méritos do livro está em compreender o museu como espaço de construção narrativa e de projeção internacional. Kim evidencia que exposições internacionais participam ativamente da elaboração de imagens nacionais, especialmente em contextos marcados por disputas geopolíticas e necessidades de legitimação simbólica. Neste sentido, a obra aproxima-se das discussões sobre soft power desenvolvidas por Joseph Nye (2004), ao demonstrar como a cultura pode atuar como mecanismo de influência internacional.
Embora a autora não dialogue diretamente com a museologia brasileira, a leitura da obra possibilita importantes aproximações com esse campo teórico, especialmente com autores como Mário Chagas, Waldisa Rússio e Maria Célia Teixeira Moura Santos. A partir dessas interlocuções, torna-se possível aprofundar criticamente algumas das questões levantadas por Kim, sobretudo no que diz respeito às relações entre memória, poder e patrimônio.
Ao analisar as exposições internacionais de arte coreana, percebe-se claramente aquilo que Mário Chagas (2002) define como o caráter político da memória nos museus. Para o autor, os museus não apenas preservam objetos, mas também produzem discursos e legitimam determinadas narrativas sobre o passado. Essa reflexão contribui significativamente para compreender como as exposições analisadas por Kim participam da construção simbólica da própria ideia de “Coreia”.
A seleção de cerâmicas celadon, pinturas budistas, esculturas e objetos arqueológicos evidencia esse processo. Os objetos apresentados internacionalmente são organizados de maneira a construir uma narrativa contínua, sofisticada e civilizacional sobre a história coreana, frequentemente minimizando conflitos internos, traumas coloniais ou tensões políticas contemporâneas. Nesse aspecto, a obra também dialoga com Benedict Anderson (2008), para quem a nação é uma construção simbólica produzida através de narrativas compartilhadas.
A interlocução com Waldisa Rússio também permite ampliar a leitura crítica da obra. Segundo Rússio (2010), o fato museal não se limita ao objeto preservado, mas envolve as relações sociais e culturais construídas em torno dele. A partir dessa perspectiva, os objetos coreanos exibidos em museus ocidentais deixam de ser compreendidos apenas como peças artísticas ou patrimoniais e passam a ser entendidos como elementos inseridos em disputas simbólicas e diplomáticas.
Assim, a presença da arte coreana em instituições como o British Museum ou o Metropolitan Museum of Art (MoMa) não representa somente reconhecimento estético. Trata-se de uma operação política de inserção internacional da Coreia do Sul em circuitos globais de legitimidade cultural. O museu transforma-se, portanto, em instrumento diplomático e espaço de produção de autoridade simbólica.
Esta leitura aproxima-se ainda das formulações de Tony Bennett (1995), que compreende o museu moderno como um dispositivo produtor de narrativas nacionais. Contudo, no caso analisado por Kim, essa lógica assume dimensão transnacional. O museu deixa de atuar exclusivamente para o público interno e passa a funcionar como vitrine internacional da identidade nacional coreana.
Outro ponto importante desenvolvido pela autora refere-se às transformações da diplomacia cultural sul-coreana ao longo do tempo. Kim demonstra que, durante a Guerra Fria, as exposições internacionais estavam fortemente ligadas à disputa ideológica entre Coreia do Sul e Coreia do Norte. A promoção da cultura tradicional coreana funcionava como estratégia de legitimação do Estado sul-coreano aliado aos Estados Unidos.
Posteriormente, sobretudo a partir da década de 1990, observa-se uma mudança significativa. Com a democratização do país e o crescimento econômico acelerado, a diplomacia cultural passa a relacionar-se cada vez mais à globalização e ao branding nacional. Nesse contexto, instituições como a Korea Foundation assumem papel central na expansão cultural sul-coreana.
A criação da Korea Foundation Gallery no British Museum simboliza essa nova etapa da diplomacia cultural. Mais do que um espaço expositivo, a galeria opera como território da presença coreana em uma das instituições museológicas mais influentes do mundo. A cultura passa a funcionar não apenas como elemento identitário, mas também como recurso estratégico de inserção global.
Nesse ponto, as reflexões de Maria Célia Teixeira Moura Santos (2001) contribuem para ampliar criticamente a análise da obra. Ao compreender os museus como instituições atravessadas pelas relações de poder e pelas dinâmicas sociais de seu tempo, Santos permite perceber como as exposições internacionais analisadas por Kim estão inseridas em processos mais amplos de disputa política, econômica e simbólica.
Apesar da densidade analítica da obra, algumas limitações podem ser observadas. A principal delas refere-se ao foco predominantemente institucional da pesquisa. Kim dedica grande atenção às políticas culturais estatais e às estratégias diplomáticas oficiais, mas discute menos as experiências do público e as formas de recepção dessas exposições.
Além disso, embora a autora mencione a colonização japonesa como elemento importante para a formação da identidade sul-coreana contemporânea, essa questão poderia ser desenvolvida de maneira mais aprofundada. A memória colonial aparece frequentemente como pano de fundo, mas sem ocupar centralidade analítica proporcional à sua relevância histórica.
Também seria possível aprofundar a crítica às próprias instituições ocidentais que recebem essas exposições. Museus como o British Museum carregam históricas relações com colonialismo, imperialismo e apropriação patrimonial. Um diálogo mais aprofundado com autores como James Clifford (1997) e Ariella Azoulay (2024) enriqueceria a discussão sobre os limites e as contradições dos chamados “museus universais”.
Ainda assim, The Cultural Diplomacy of South Korea constitui uma contribuição extremamente relevante para os estudos de museologia, patrimônio cultural e história global. O livro demonstra de maneira consistente como museus e exposições operam como espaços de construção simbólica da nação e instrumentos estratégicos de diplomacia cultural.
A partir do diálogo crítico com autores da museologia brasileira feito a partir da leitura do livro, tornou-se ainda mais evidente que os museus analisados por Kim não funcionam apenas como espaços de preservação cultural, mas como arenas de disputa política, memória e poder. Desse modo, a obra evidencia que o patrimônio não é neutro: ele é continuamente mobilizado para construir narrativas, legitimar identidades e projetar imaginários nacionais no cenário internacional.
Referências
ANDERSON, Benedict. Comunidades imaginadas: reflexões sobre a origem e a difusão do nacionalismo. São Paulo: Companhia das Letras, 2008.
AZOULAY, Ariella Aïsha. História potencial: desaprender o imperialismo. Tradução de Fernando Santos. São Paulo: Ubu Editora, 2024.
BENNETT, Tony. The birth of the museum: history, theory, politics. Londres: Routledge, 1995.
CHAGAS, Mário. Memória e poder: dois movimentos. Cadernos de Sociomuseologia, Lisboa, v. 19, n. 19, 2002.
CLIFFORD, James. Routes: travel and translation in the late twentieth century. Cambridge: Harvard University Press, 1997.
KIM, Sumi. The Cultural Diplomacy of South Korea: Exhibiting the Nation in International Museums. Londres: Routledge, 2026.
NYE, Joseph S. Soft power: the means to success in world politics. New York: Public Affairs, 2004.
RÚSSIO, Waldisa. Texto III: processo museológico e educação. In: BRUNO, Maria Cristina Oliveira (org.). Waldisa Rússio Camargo Guarnieri: textos e contextos de uma trajetória profissional. São Paulo: Pinacoteca do Estado; Secretaria de Estado da Cultura, 2010. v. 1.
SANTOS, Maria Célia Teixeira Moura. Museu, educação e comunidade. Salvador: UNEB, 2001.
Sobre a Autora
Cecília Bruno de Carvalho
Graduada em Museologia pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Desenvolve pesquisas nas áreas de museologia, patrimônio cultural, memória, arte contemporânea e as relações entre museus, identidade nacional e política cultural.
A Única Saída, de Park Chan-wook, parte de uma premissa aparentemente simples, um homem que é demitido após dedicar anos ao trabalho, para construir uma crítica a respeito do capitalismo predatório e a fragilidade da identidade que é atrelada ao sucesso profissional. Nessa narrativa, acompanhamos Man-soo (Lee Byung-hun), que, depois de 25 anos trabalhando em uma fábrica de papel, vê sua carreira desmoronar após uma reestruturação da empresa que afetou diversos funcionários. Entretanto, muito mais do que a perda do emprego, o filme trata da destruição simbólica de tudo aquilo que o personagem acreditava ter conquistado, isto é, status, estabilidade e reconhecimento social. O que torna a narrativa inquietante e envolvente é a maneira como Park Chan-wook transforma o desespero econômico em paranoia moral. Levando isso em consideração, Man-soo não é apresentado como uma vítima absoluta, tendo em vista que ele mantém certos privilégios materiais, mas como alguém incapaz de existir fora de uma lógica produtiva que moldou grande parte da sua identidade. O diretor evidencia como o capitalismo não apenas explora o trabalhador, mas também o condiciona a acreditar que sua dignidade depende da utilidade que tem no mercado. No filme, quando essa utilidade desaparece para Man-soo, resta um vazio e dele nasce a violência. Ao longo da narrativa, Man-soo mergulha em um processo de questionamento da própria ética. A partir disso, sua tentativa de “salvar” a família deixa de soar nobre e passa a revelar um egoísmo desesperado, que é mascarado por um discurso de responsabilidade. Um ponto que se destaca nesse contexto é que Park Chan-wook evita transformá-lo em um vilão caricato, como um serial killer ou algo que se aproxima dos filmes de terror. Mesmo enquanto planeja atos brutais, Man-soo continua sendo um homem comum, atrapalhado e emocionalmente contido, o que torna suas ações ainda mais desorganizadas, contendo leves toques de comédia. A violência não é colocada como uma explosão de raiva, mas como consequência “lógica” de uma sociedade competitiva que transforma pessoas em obstáculos que precisam ser descartados por um bem maior. Essa ideia de preservação do status também é conhecida como “chemyeon” (체면), que é definido como “[…] princípios a seguir, obrigações a cumprir, ou uma ‘imagem’ a preservar para se apresentar diante dos outros com dignidade, sem um sentimento de vergonha” (Choi; Kim, 2004, p. 33 apud Ahn, 2018, p. 23, tradução nossa). Man-soo busca a todo custo manter a imagem fundamentada no prestígio do trabalho, se recusando a abrir mão de seus privilégios e da imagem passada pela família. Dessa forma, o personagem tenta se convencer de que não há outra saída além da eliminação de cada um de seus concorrentes para que ele possa manter sua imagem. A escolha pelo humor sombrio é essencial para esse impacto construído pela obra. Ao longo do desenvolvimento da história, Park Chan-wook manipula a tensão com maestria, alternando momentos de absurdo e crueldade com espaços de alívio cômico, nos quais o espectador pode questionar as decisões tomadas pelo protagonista. O riso provocado pelo filme nasce do constrangimento e da percepção de que a situação retratada não se distancia tanto da realidade de Man-soo, e é justamente essa abordagem que impede que a narrativa se torne apenas um thriller social convencional e reforça o caráter satírico da crítica contida na narrativa. Os personagens secundários ajudam a ampliar ainda mais essa dimensão. Mi-ri (Son Ye-jin), esposa de Man-soo, funciona como o retrato silencioso da dificuldade causada pela insegurança financeira. Suas tentativas de reorganizar os gastos da casa e compreender o comportamento do marido revelam como o desemprego afeta não apenas quem perde o trabalho, mas toda a estrutura familiar. Já os filhos, Ri-won (Choi So-yul) e Si-won (Kim Woo-seung), representam diferentes respostas ao colapso estrutural da família. Enquanto a trilha musical associada ao violoncelo de Ri-won intensifica a melancolia da narrativa, Si-won incorpora a ansiedade de uma geração que aprende cedo demais o peso das dificuldades econômicas. Visualmente, o filme também reforça sua crítica social através de uma direção estilizada, que relembra outros trabalhos de Park Chan-wook. A fotografia aposta em tons frios e composições sufocantes para refletir o isolamento psicológico de Man-soo, diversificando os ângulos para criar a sensação de tensão. Os enquadramentos frequentemente o retratam em ambientes com baixa iluminação, agitado e angustiado, sugerindo que o protagonista está preso não apenas às consequências de suas escolhas, mas também à lógica do sistema que o afetou. A trilha sonora e as transições contribuem para uma sensação constante de instabilidade, como se a qualquer momento tudo pudesse desmoronar de vez. Adaptando o romance “The Ax”, de Donald E. Westlake, anteriormente levado ao cinema por Costa-Gavras, Park Chan-wook atualiza a história para um contexto em que a competitividade profissional se tornou ainda mais brutal. Embora comparações com Parasita sejam inevitáveis, A Única Saída segue um caminho diferente, tendo em vista que ao invés de focar exclusivamente na desigualdade de classes, o filme investiga a obsessão por manter privilégios e aparências dentro de um sistema que reduz indivíduos ao próprio desempenho econômico. A grande força do longa está justamente em não oferecer respostas fáceis. Park Chan-wook recusa qualquer moralização simplista e conduz o espectador a um dilema desconfortável, no qual é impossível ignorar tanto a brutalidade das ações de Man-soo quanto as pressões que o empurram em direção a elas. No fim, A Única Saída transforma sua sátira em uma pergunta que vale a reflexão: em uma sociedade que mede o valor humano pela produtividade, até onde alguém estaria disposto a ir para continuar sendo considerado necessário?
Referências
AHN, Sarah. Am I Good Enough? Dealing Pastorally with the Shame of Women in the Amalgam of Korean Confucian and Christian Culture. 2018. 70f. Tese (Mestrado em Estudos Teológicos) – George Fox University, Newberg, Oregon, 2018.
A ÚNICA saída (Eojjeolsuga eobsda). Direção: Park Chan-wook. Roteiro: Park Chan-wook e Lee Kyoung-mi. Coreia do Sul: KG Productions; Moho Film, 2025. 1 filme (139 min).
Sobre a autora
Júlia Santos
Mestranda em Ciências Sociais na Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP), integrante da Curadoria de Estudos Coreanos (CEÁSIA/CEA/UFPE). Se interessa por sociologia do cinema e estudos de gênero, pensando como essa questão reflete nas produções fílmicas.
“Coelho maldito” (2024), de Bora Chung, reúne dez contos que utilizam o grotesco para narrar os horrores da sociedade capitalista e patriarcal. Uma das escritoras mais proeminentes da Coreia do Sul, ela mescla terror, ficção científica e fantasia para contar histórias de personagens que enfrentam violências cotidianas e que estranham suas condições em um mundo onde a brutalidade predomina, sobretudo contra as mulheres.
Finalista do Prêmio Internacional Man Booker de 2022, importante premiação da literatura contemporânea que reconhece as melhores obras traduzidas para a língua inglesa, a obra atravessa uma série de gêneros e assuntos. Mas este texto se propõe a discorrer sobre três deles: “A cabeça”, “Dedos gélidos” e “Menorreia”, porque compartilham temáticas comuns, como o horror e o olhar para os problemas femininos.
“A cabeça” conta a história de uma mulher aterrorizada por uma cabeça em seu vaso sanitário e que a chama de mãe. A figura nasceu dos excrementos, do lixo e de tudo o que foi jogado na privada e, mesmo sendo ignorada pela pessoa que a criou, continua a aparecer constantemente na tentativa de chamar sua atenção. A protagonista, porém, começa a sofrer com problemas de saúde por causa desses encontros no banheiro. Quando decide se casar e se tornar mãe, a situação parece ficar sob controle, até que a cabeça retorna para clamar o lugar que é seu.
Em “Dedos gélidos”, uma mulher chamada professora Lee sofre um acidente de carro e não se lembra do que aconteceu. Enquanto uma voz fina fala com ela, a protagonista tenta recuperar suas memórias. Entretanto, os diálogos somente aprofundam a confusão à medida que a voz revela informações, mas também as modifica. É no decorrer dessa desordem que a mulher descobre sua relação com a professora Choi, que provavelmente morreu após enfrentar o término de um casamento difícil.
Já “Menorreia” narra a jornada de uma mulher que descobre estar grávida devido ao uso excessivo de anticoncepcionais. Ela não sabia dos efeitos colaterais do contraceptivo, porque nenhum médico a avisou, e agora precisa encontrar um pai para o filho nascer saudável. Ao sair do emprego para iniciar essa busca, passa a enfrentar os julgamentos da maternidade solo enquanto vivencia uma série de encontros fracassados com potenciais maridos.
Nesses três contos, Bora Chung descreve um horror comum em narrativas do gênero escritas principalmente por mulheres: o das experiências em uma sociedade patriarcal. Este é um tema prolífero em estudos que relacionam gênero e literatura — presente há muitas décadas no meio acadêmico, mas cujo debate se tornou mais proeminente após a popularização da crítica feminista e a criação do termo “gótico feminino” pela acadêmica estadunidense Ellen Moers (1976).
Cinco décadas depois dessa classificação, ainda há um debate extenso sobre a necessidade de existir um subgênero do horror criado por mulheres e como pensar essa categoria na contemporaneidade (Wallace; Smith, 2009; Brabon; Genz, 2007; Whitney, 2016). Mas, independentemente dessas discussões, fato é que existe uma extensa tradição de autoras que utilizam o gênero como um recurso para denunciar a condição da mulher em uma sociedade que constantemente a violenta.
O corpo da mulher em Bora Chung
O que Bora Chung faz é trazer para a literatura de horror sul-coreana temas que já se consagraram em outros gêneros da literatura mundial. Nos contos citados, a autora utiliza o corpo feminino para retratá-lo como um alvo de opressão e de violência.
Em “A cabeça”, o monstro é uma massa uniforme, a filha não reconhecida da protagonista. Nascida de excrementos, a figura monstruosa exige atenção materna, mas não recebe porque sua mãe não a reconhece como filha. Como Cohen (1996) explicita, o monstro é esse ser que representa algo além de si; que incorpora o medo, a ansiedade e a fantasia de uma sociedade; que nunca desaparece por completo; e que desafia os limites do possível. Ele é esse outro, que obriga as pessoas a notarem sua existência.
“Os monstros são nossos filhos. Eles podem ser empurrados para as margens da geografia e do discurso, escondidos nas margens do mundo e nos recônditos proibidos de nossa mente, mas sempre retornam” (Cohen, 1996, p. 20, tradução nossa). Como representado na história, o monstro seria — de fato — a filha “de sangue” da protagonista, mas não é considerada como tal. É uma figura que impede a personagem de esquecer a maternidade que não quis exercer. E, quando ela finalmente decide ser mãe, aquela massa monstruosa não desaparece, permanecendo sempre ali, desafiando a vida pacífica da família.
Já em “Dedos gélidos”, não fica claro logo no início se a personagem principal está morta ou não. Tudo o que se sabe é que ela sofreu um acidente de carro e, quando dedos gélidos a tocam, passa a buscar respostas para sua falta de memória. Aos poucos, fragmentos dessas lembranças se revelam ao leitor. Ela parecia ter a “vida ganha”, com um bom emprego e um parceiro amoroso aparentemente gentil. Porém, em um diálogo com uma voz estranha, descobre que estava em um relacionamento muito pior do que os outros imaginavam.
Não há um final fechado para os acontecimentos: ela foi morta por seu parceiro ou se suicidou? Ela morreu de fato ou ainda está naquele limiar entre a vida e a morte? Independentemente da resposta, a protagonista simboliza uma realidade comum de mulheres que enfrentam o medo dentro do próprio lar e que são vítimas de um algoz que antes parecia confiável.
O corpo feminino aparece neste conto não como o criador de um monstro, e sim como um símbolo da fragilidade de uma vida. Entretanto, a mulher não é simplesmente uma vítima, porque, à medida que a narrativa se desenrola, o público conhece a subjetividade da protagonista para além da violência — uma característica típica da literatura gótica feminina contemporânea (Whitney, 2016). Mas, ainda assim, ela sofre brutalidades e subverte as fantasias de um mundo que parecia ter avançado muito em relação aos direitos femininos.
“Menorreia” também usa o corpo da mulher como lembrete físico das violências enfrentadas no cotidiano. A personagem desse conto engravidou devido ao uso excessivo de anticoncepcionais e precisa encontrar um marido para que seu filho tenha um pai. Se nenhum homem assumir a paternidade, o bebê nascerá com diversos problemas.
A crítica desse texto é evidente: mostra os preconceitos enfrentados por mães solo e também pelos filhos dessas mulheres, escancarando a ironia de suas realidades. O corpo feminino, aqui, revela as contradições de uma sociedade que obriga as mulheres a serem mães enquanto os homens podem escolher não serem pais.
O terror como denúncia da condição feminina
Em diferentes entrevistas, Bora Chung explica que suas narrativas partem de experiências pessoais ou de histórias reais que leu sobre a vida na Coreia do Sul. São textos ficcionais criados a partir de sua incompreensão acerca de situações que não deveriam acontecer com ninguém (Chung, 2023).
Entretanto, ela não percebe suas personagens femininas como subversivas. Todas estão, na verdade, apenas lidando com situações absurdas e tentando entender como sair disso (Chung, 2023). “É por isso que parecem subversivas, suponho. Porque, de um ponto de vista patriarcal, as mulheres não têm, e não deveriam ter, a capacidade de pensar, sentir e buscar respostas por conta própria. Porque o patriarcado é um sistema de ilusões”, afirma ela em entrevista (2023).
“Menorreia”, por exemplo, nasceu de uma dessas experiências que as mulheres enfrentam no cotidiano. Aos 28 anos, Bora Chung teve um cisto no ovário, mas sua própria mãe disse para não ir ao médico, porque ela não era casada. “Se você está viva e seus órgãos funcionam, então você deve cuidar deles. Deveria ser muito simples. Mas, como a questão da gravidez está ligada a isso, a sociedade acaba atribuindo todo tipo de significado estranho aos seus órgãos”, disse em entrevista à NPR (2022).
“Eu queria falar sobre uma mulher que tem um bebê sozinha. E na Coreia do Sul existe um estigma absurdo e o bebê é discriminado desde o momento em que nasce. A certidão de nascimento precisa indicar se os pais são casados ou não”, continua durante a conversa à emissora de rádio.
As histórias de Bora Chung, sobretudo as presentes em Coelho maldito (2024), trazem um olhar fantástico para o real no intuito de expor o absurdo presente no dia a dia das mulheres. Por meio de narrativas que reconfiguram o cotidiano, ela revela o terror e a monstruosidade do patriarcado que cerceia a liberdade das mulheres, mas que, apesar de sua violência, não consegue impedi-las de buscar outros modos de vida fora desse sistema.
REFERÊNCIAS
BRABON, Benjamin A.; GENZ, Stéphanie (ed.). Postfeminist Gothic: Critical Interventions in Contemporary Culture. Hampshire: Palgrave Macmillan, 2007.
MOERS, Ellen. Literary Women: The Great Writers. Oxford: Oxford University Press, 1976.
WALLACE, Diana; SMITH, Andrew (ed.). The Female Gothic: News Directions. Hampshire: Palgrave Macmillan, 2009.
WHITNEY, Sarah E. Splattered Ink: Postfeminist Gothic Fiction and Gendered Violence. Illinois: Urbana: University of Illinois Press, 2007.
SOBRE A AUTORA
Clara Menezes
Mestranda em Ciências Sociais pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e integrante da Curadoria de Estudos Coreanos. Pesquisa na área de sociologia da literatura, com foco na obra de Han Kang.
Lançado no início de 2024, o drama sul-coreano “Love for Love’s Sake” (em coreano, 연애 지상주의 구역, cuja tradução direta para inglês é “love supremacy zone”) se apresenta inicialmente com uma premissa comum aos webtoons de fantasia convencionais com a transmigração do protagonista para dentro de um jogo de simulação para viver em uma realidade diferente. No entanto, sob a superfície de missões coloridas e barras de afinidade, a obra dirigida pela diretora Kim Kyun-ah oferece uma crítica contundente sobre a solidão, o amor e a saúde mental na sociedade contemporânea sul-coreana (MyDramalist, 2024).
A trama acompanha o protagonista Tae Myung-ha — interpretado por Lee Tae-vin (em coreano, 이태빈), um ator sul-coreano e ex-membro do grupo MYTEEN —, um homem de 29 anos desiludido com a vida, transportado para um jogo onde assume sua versão de 19 anos novamente. Sua missão é clara: fazer com que o jovem estudante Cha Yeo-woon — interpretado pelo ator sul-coreano Cha Joo-wan (em coreano, 차주완) —, um atleta escolar marcado pela tragédia e pobreza, se torne feliz, na circunstância de que sua falha implica na sua morte. Neste contexto, a genialidade do roteiro está em utilizar a mecânica de jogo, que permite observar os níveis de afeto entre as pessoas e oferece missões, não apenas como recurso narrativo, mas como metáfora para a dificuldade humana de criar conexões genuínas e verdadeiras em um mundo utilitarista (MyDramalist, 2024).
Nesse mundo em que mergulhamos, diferente de produções que focam apenas no romance Boys Love (BL) como escapismo, a série toca em mazelas sociais profundas da sociedade sul-coreana, perceptível na esmagadora pressão sofrida por Cha Yeo-woon e por tantos jovens sul-coreanos, exigindo a excelência atlética e acadêmica em meio à precariedade familiar. Cha age de forma defensiva, arisco com todos ao seu redor devido à sensação de que o mundo apenas tirou coisas dele: os pais, a estabilidade, a dignidade. Porém, ao encontrar Myung-ha, Yeo-woon fica confuso, buscando o porquê das ações gentis do outro, sem nada em troca; mas, aos poucos, Myung-ha vai se tornando o único pilar que sustenta o mundo de Yeo-woon que estava prestes a desmoronar. Para Yeo-woon, o parceiro não era apenas uma “missão”, mas alguém que o fortalece no enfrentamento do mundo, que o faz se sentir visto, amado e capaz de projetar o futuro e a vida (The BL Xpress, 2024).
Diferentemente, Myung-ha traz a perspectiva do adulto que já desistiu de tudo e não encontra mais sentido na vida, com sua jornada no jogo se revelando, na verdade, uma terapia de choque existencial ao ser forçado a cuidar de outra pessoa para sobreviver, na qual ele reaprende a valorizar a própria existência. Inicialmente, via Cha Yeo-woon como um simples “NPC” (personagem não-jogável) que precisava de pontos de felicidade, mas, rapidamente, ele percebe que o jovem é um reflexo dele mesmo, uma pessoa solitária, sobrecarregada pelo mundo. Neste cenário, Myung-ha passa a cuidar de Yeo-woon não pelos pontos do jogo, mas pela sua empatia: ele sabe como o sofrimento causado pela solidão pode assolar alguém, de modo que passa a oferecer alimento e a defender Yeo, construindo um “lar” emocional, algo que não tinha há muito tempo (The BL Xpress, 2024).
A dinâmica entre os protagonistas é o triunfo do roteiro, visto que Yeo-woon enxerga em Myung-ha a única figura adulta capaz de oferecer a ele um afeto desinteressado e sem segundas intenções em meio à exploração de seu talento esportivo a que estava acostumado; em contrapartida, Myung-ha reconhece no garoto sua própria desesperança no mundo e a exaustão de tentar manter-se vivo em uma realidade tão desafiadora. É nesse cenário que o romance entre eles floresce, não de clichês juvenis, mas da necessidade urgente de manter o outro vivo, de modo que o K-drama se desenrola em momentos difíceis, complexos e dolorosos para ambos os personagens. Todavia, embora diversos obstáculos dificultem o relacionamento, eles fortalecem a confiança mútua e fazem com que percebam que não estão mais sozinhos, com a intensidade emocional exigida pelo enredo sendo habilmente sustentada pelas atuações de Lee Tae-vin e Cha Joo-wan. O drama subverte tropos clássicos ao mostrar que a conquista amorosa não é um prêmio de jogo, mas um processo de cura mútua: o sistema de jogo, controlado por uma figura misteriosa (“Senior”), funciona como uma alegoria para o destino ou a intervenção divina, questionando o livre-arbítrio diante de traumas passados dos personagens (The BL Xpress, 2024).
O ápice dramático ocorre quando o sistema do jogo impõe um ultimato trágico, já que o sistema calculou que, para Yeo-woon ter um futuro brilhante e sem escândalos, Tae Myung-ha (que causava confusão e riscos) deveria desaparecer de sua vida. Como efeito, Myung-ha aceita seu destino na tentativa de priorizar a felicidade de Yeo-woon, optando pela morte (ou apagamento) para garantir a vida do amado, mostrando a prova máxima de amor de colocar a existência do outro acima da sua. Desta forma, o sistema apaga a memória de todos sobre Myung-ha e, nessa nova realidade, Yeo-woon tem tudo o que o jogo considera triunfal, como medalhas de ouro, uma vida saudável para sua avó, estabilidade financeira e amigos, denotando o cumprimento da missão. Contudo, nota-se um “erro de cálculo no sistema”, um tipo de sentimento residual que faz Yeo-woon se recusar a esquecer seu amado no que tange ao impacto emocional, sentindo a falta de algo que “não deveria existir”, ou uma espécie de anemoia: ele acorda na considerada vida perfeita, mas sente, para além da dor física de perda, um vazio no peito, e chora sem compreender o motivo. Desta forma, apesar de ter tudo para ser feliz, isto é, tudo aquilo que a sociedade sul-coreana valoriza e atribui como uma vida bem-sucedida, como carreira e situação financeira estáveis, o protagonista continua sentindo-se miserável.
A série subverte o tropo do “sacrifício heróico” ao sugerir que a verdadeira salvação não está em morrer pelo outro, mas na obstinação em viver junto, de modo que o clímax desafia a lógica programada do destino de “você tem tudo, seja feliz” com a recusa de Yeo-woon em esquecer a existência de Myung-ha, visto que, sem o parceiro, mesmo que ele não se lembre por completo, seria incapaz de alcançar a felicidade. A partir da contradição do jogo, que objetivava a alegria de Yeo-woon, o sistema é obrigado a trazer Myung-ha de volta, pois, caso Myung-ha continuasse morto/apagado, o jogo falharia na sua missão principal, pois o protagonista ficaria em luto eterno. O amor, portanto, atua como uma variável incalculável que força o sistema a reescrever à realidade para cumprir sua própria diretriz de “final feliz”, de forma que, a partir do retorno de Myung-ha, há o reencontro romântico e profundo e, ao final da obra, percebe-se que o próprio Myung-ha havia tentado cometer suicídio e por este motivo entrou no jogo, a sua “segunda chance”, onde reencontrou seu propósito de viver ao lado de Yeo-woon.
Ambos acabam por salvar um ao outro, deixando duas mensagens claras de que, independentemente da dor, do vazio existencial e do peso do mundo, ainda existe alguém que lutaria por você, disposto até a apagar sua própria existência, como Myung-ha fez. Revelando, portanto, a importância do apoio emocional, mesmo quando tudo aquilo que é considerado bem-sucedido foi alcançado — pauta importantíssima na Coreia do Sul, que enfrenta o suicídio como questão de saúde pública e, ainda assim, exporta o sucesso e o triunfo, muitas vezes deixando a saúde mental aquém (Raschke et al., 2022). Por outro lado, Yeo-woon evidencia que a felicidade não se dá pelo sacrifício heróoico e que a maior prova de amor não é se sacrificar por quem ama, mas escolher viver por ela.
Em suma, “Love for Love’s Sake” transcende seu gênero. É uma obra sobre o imperativo de encontrar razões para viver em uma sociedade que frequentemente isola os indivíduos cotidianamente. A conclusão da narrativa reforça que a verdadeira vitória não está em completar meras missões, isto é, alcançar o suposto sucesso, mas na capacidade de alterar a realidade e o próprio destino através de suas próprias escolhas, evidenciando que não é necessário enfrentar as dificuldades da vida sozinho e que o afeto e a atenção à saúde mental devem caminhar juntos.
REFERÊNCIAS
LOVE for Love’s Sake. Direção: Kim Kyun-ah. Roteiro: Kwon Cho-rong. Produção: Studio Coffee Break. Coreia do Sul: iQIYI / GagaOOLala, 2024. 8 episódios.
MYDRAMALIST. Love for Love’s Sake. 2024. Base de dados de entretenimento asiático. Disponível em: https://mydramalist.com/753495-love-supremacy-zone?lang=pt-BR. Acesso em 13 jan. 2026.
RASCHKE, Nicolas et al. Socioeconomic factors associated with suicidal behaviors in South Korea: systematic review on the current state of evidence. BMC Public Health nº. 22, art. 129, 2022.
SALES, Gabrieli. Dica: Love for Love’s Sake. Culturar, 2 fev. 2024. Disponível em: https://culturar.blog/2024/02/02/dica-love-for-loves-sake/. Acesso em: 14 jan. 2026.
THE BL XPRESS. “Love for Love’s Sake” Series Review. The BL Xpress, 3 fev. 2024. Disponível em:
Bacharel em Relações Internacionais pela Universidade Federal de Uberlândia, integrante da Curadoria de Estudos Coreanos (CEÁSIA/CEA/UFPE) e do Núcleo de Pesquisa em Segurança Internacional e Estudos Estratégicos (NUPSIEE-UFU). Se interessa por Estudos Asiáticos com ênfase em Coreias, Segurança Internacional, cultura e identidade.
Graduando em Relações Internacionais pela Universidade Federal de Uberlândia, integrante da Curadoria de Estudos Coreanos (CEÁSIA/CEA/UFPE). Possui interesse em Estudos Asiáticos com ênfase em Coreias, Segurança Internacional, Política Externa e Comércio Exterior.
“O coreano é usado por aproximadamente 77 milhões de pessoas, tornando-se a 13ª língua mais falada no mundo”. “Além disso, ocupa a 10ª posição entre as línguas mais usadas na internet”. Essas informações foram apresentadas por Park (2010, p. 5) em um documento publicado pelo Instituto Nacional da Língua Coreana (국립국어원), órgão responsável pela promoção e pelas pesquisas relacionadas à língua coreana, incluindo a língua de sinais coreana e o braile coreano.
Ainda assim, a República da Coreia não investe apenas na divulgação estratégica do coreano, mas também em políticas linguísticas que, segundo Calvet (2007, p. 11), são “grandes decisões referentes às relações entre as línguas e a sociedade” e fazem parte das políticas públicas e internacionais. Um exemplo de política linguística elaborada pelo Estado sul-coreano é o artigo 15 do Framework Act On Korean Language, que estabelece que o Ministério da Cultura, Esportes e Turismo deve promover estratégias de relações públicas e de educação através de jornais, broadcasting, revistas, internet, sinais eletrônicos, entre outros, para auxiliar na disseminação da cultura e da língua coreana, auxiliando no uso adequado desta língua (Korea Legislation Research Institute, 2012).
Nesta direção, o Instituto Rei Sejong é um dos principais responsáveis pelas políticas linguísticas de promoção da aprendizagem de coreano ao redor do mundo, o que já vem gerando frutos. Em março de 2026, o jornal Korea JoongAng Daily divulgou que o instituto Rei Sejong espera um aumento expressivo no número de estrangeiros que realizarão o teste de avaliação da língua coreana, passando de 6.400 candidatos para 15.000 até o final do ano (Yoon, 2026).
Esses dados caminham lado a lado com aqueles divulgados pelo Korea.net, site de notícias administrado pelo Ministério da Cultura, Esportes e Turismo da Coreia do Sul (문화체육관광부), que reportou um aumento constante no número de candidatos ao TOPIK, o teste de proficiência em coreano, que passou de 360 mil participantes em 2022 para 550 mil em 2025 (Akhmetzianova, 2025).
O aplicativo de aprendizagem de idiomas Duolingo também divulgou, em seu relatório de línguas de 2025, que o coreano ocupou a 6ª posição entre as línguas mais aprendidas ao redor do mundo (Blanco, 2025).
Linguistas atribuem o aumento considerável de aprendizes de coreano, em nível mundial, à onda coreana, ou Hallyu (한류) (Eom; Braithwaite, 2023; Jee, 2015; Wang; Pyun, 2020), que, de acordo com Ravina (2009), refere-se à maior visibilidade da cultura sul-coreana a partir dos anos 1990, iniciada nos países do Leste Asiático e, mais recentemente, em outros países e continentes.
Em entrevista ao Jornal da USP, a professora Yun Jung Im aponta as fases da Hallyu como sendo as seguintes: Hallyu 1.0, com foco nos K-dramas e em sua divulgação no mercado asiático; Hallyu 2.0, que centraliza o K-pop e começou a se popularizar a partir dos anos 2000; Hallyu 3.0, que surge a partir de 2010 e evidencia a popularidade dos K-dramas e o K-pop globalmente; e Hallyu 4.0, fase mais recente, que expande a onda coreana para outros aspectos da cultura sul-coreana, como o K-beauty (os protocolos e produtos de beleza da Coreia do Sul), o K-food, entre outros (Lemos, 2025).
Destaca-se que, nessa direção, a língua coreana figura entre as manifestações culturais extensivamente impulsionadas atualmente pela onda coreana, o que é corroborado pela Overseas Hallyu Survey,promovida anualmente pela Korean Foundation for International Cultural Exchange (KOFICE, a “Fundação Coreana para o Intercâmbio Cultural Internacional”), que possui uma seção inteiramente dedicada à língua coreana. De acordo com a pesquisa realizada em 2025, com 28 países, aproximadamente 28,6% dos consumidores da Hallyu tinham experiência com a aprendizagem de coreano (Korean Foundation For International Cultural Exchange, 2025). A imagem abaixo (Tabela 1) demonstra que, entre os países latino-americanos, o Brasil fica apenas atrás do México em se tratando do contato prévio com a língua coreana.
Tabela 1 – Relação da média de taxas de experiência de aprendizado do coreano por país
Fonte: Korean Foundation For International Cultural Exchange (2025, p. 277). Nota: Réplica da tabela original, retirada da 2025 Overseas Hallyu Survey, elaborada com a ferramenta de inteligência artificial Google Gemini. Na tabela é possível ver o Brasil posicionado na 15ª posição entre os países que possuem experiência com o aprendizado da língua coreana.
Ainda de acordo com o estudo, as principais razões para a aprendizagem de coreano mundialmente eram “interesse pela Coreia e pela cultura coreana” e “interesse pela língua coreana” (Korean Foundation For International Cultural Exchange, 2025).
Quanto ao Brasil, o relatório de idiomas do Duolingo para o país, em 2020, apontou que o coreano era o segundo idioma que mais crescia, atrás apenas do hindi (Martins, 2020). Contudo, não se sabe quantos são os aprendizes de coreano no Brasil e no mundo.
É possível concluir que, na atualidade, a língua coreana goza de uma popularidade semelhante à experienciada pela língua japonesa. Conforme dados da Survey on Japanese-Language Education Abroad FY2024 (Pesquisa sobre o Ensino de Língua Japonesa no Exterior – Ano Fiscal de 2024) realizada pela Fundação Japão (Japan Foundation), há aproximadamente 4 milhões de pessoas em 143 regiões e países estudando japonês, o que se deve, em grande medida, à cultura popular japonesa, como os animes e os mangás (Ministry of Foreign Affairs of Japan, 2025). O jornal nippon.com ainda divulgou que o Ministério da Educação, Cultura, Esportes, Ciências e Tecnologia (Ministry of Education, Culture, Sports, Science, and Technology) do Japão constatou que, em novembro de 2024, havia 294.198 estrangeiros aprendendo japonês no país, um acréscimo de 30.000 aprendizes em relação a 2023 (Nippon.com, 2025).
Todavia, resta saber se, assim como o japonês, o coreano se manterá popular nos anos por vir, uma vez que a língua japonesa vem experimentando popularidade mundial desde o boom da cultura popular japonesa, que remonta aos anos 1980 (Tsutsui, 2010). Assim, questiona-se se a língua coreana permanecerá entre as línguas mais aprendidas, ao lado do japonês e das línguas ocidentais hegemônicas (isto é, as línguas dominantes, como o inglês, o espanhol, o francês e o alemão) tanto no cenário mundial quanto no brasileiro. Será possível que o coreano ultrapasse o japonês? Isso só o tempo dirá, ainda que a presença da língua japonesa se mantenha estável em relação à do coreano.
BLANCO, C. 2025 Duolingo language report. Duolingo Blog, 2025. Disponível em: https://blog.duolingo.com/2025-duolingo-language-report/. Acesso em: 04 fev. 2026.
CALVET, L. As políticas linguísticas. Florianópolis e São Paulo: Ipol/Parábola, 2007.
EOM, M.; BRAITHWAITE, J. Learner Motivations in Korean as a Foreign Language (KFL): Differentiating Motivational Intensity and Academic Aspiration. Journal of Korean Language Education, 2023. v. 34, n. 3 p. 239-267. Disponível em: https://www.kci.go.kr/kciportal/landing/article.kci?arti_id=ART002992128. Acesso em: 17 mar. 2024.
JEE, M. A Study of Language Learner Motivation: Learners of Korean as a Foreign Language. Journal of Korean Language Education, v. 26, n. 2, p. 213-238, 2015. Disponível em: https://oak.go.kr/central/journallist/journaldetail.do?article_seq=19150. Acesso em: 17 abr. 2024.
LEMOS, S. Muito além do K-pop, cultura coreana desperta cada vez mais o interesse do brasileiro. Jornal da USP. 12 set. 2025. Disponível em: https://jornal.usp.br/atualidades/muito-alem-do-k-pop-cultura-coreana-desperta-cada-vez-mais-o-interesse-do-brasileiro/. Acesso em: 18 mar. 2026.
WANG, H.; PYUN, D.Hallyu and Korean Language Learning: Gender and Ethnicity Factors. The Korean Language in America, v. 24, n. 2, p. 30-59, 2020. Disponível em: https://www.academia.edu/75626311/Hallyu_and_Korean_Language_Learning_Gen der_and_Ethnicity_Factors. Acesso em: 19 mar. 2026.
2025 Overseas Hallyu Survey. Korean Foundation for International Cultural Exchange. p. 1- 305, 2025.
SOBRE A AUTORA
Giovana Canez Valerão
Mestranda na linha de Aquisição, Variação e Ensino do Programa de Pós-Graduação em Letras da Universidade Federal de Pelotas (UFPEL), integrante da Curadoria de Estudos Coreanos (CEÁSIA/CEA/UFPE). Se interessa pela língua coreana, pelo K-pop e pelos K-dramas.