por: Yasmim Coutinho
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Durante a Dinastia Joseon (1393-1910), o neoconfuncionismo1 se tornou a ideologia de Estado oficial. Para tanto, os cidadãos de Joseon foram obrigados a implementar os princípios neoconfucionistas no seu cotidiano, como os que estavam relacionados a lealdade e a autoridade, já que a filosofia servia como uma forma de organizar a sociedade e moldar o comportamento. Os coreanos engajavam bastante nessa natureza hierárquica e respeitosa do confucionismo, especialmente nos “Três Laços Fundamentais”, um dos principais pilares do pensamento. Os três laços são: “[…] a lealdade de um súdito ao seu líder; a veneração de uma criança aos seus pais e ancestrais; a dedicação de uma mulher ao seu marido e à sua família” (Jayasuriya, 2024, p. 11).
Com seu caráter hierárquico abraçado pela população da época, a ideologia neoconfucionista passou a desempenhar função fundamental na vida das mulheres coreanas, dado que a subordinação feminina se tornou uma de suas bases. Sob tal lógica, os papéis das mulheres na sociedade eram bastante limitados: todas deveriam ser filhas, esposas e mães e desempenhar perfeitamente as funções ligadas à vida doméstica. Embora a Coreia do Sul hoje seja um país moderno e industrializado, esta perspectiva prevalece na mentalidade dos sul-coreanos, tornando o sistema patriarcal neoconfucionista uma forte herança cultural da Dinastia Joseon, sendo um obstáculo para as mulheres sul-coreanas do tempo presente e, concomitantemente, para o movimento feminista, visto que ainda coloca as mulheres como subordinadas e inferiores aos homens.
Jayasuriya (2024, p. 14) afirma que os ideais neoconfucionistas influenciam diretamente várias situações do cotidiano das mulheres, como o modo com que elas lidam com seus corpos e sua aparência, os padrões de beleza da sociedade e a distribuição de tarefas (ainda são as mulheres as principais responsáveis pelas tarefas da casa, por exemplo). Além disso, as sul-coreanas também se tornaram alvos na esfera on-line, sofrendo diariamente com diversos tipos de ataques na internet, como a propagação de deepfakes e a própria criação da machosfera2 (Jung; Moon, 2024), acontecimentos que evidenciam a condição subalterna a que essas mulheres estão expostas.
Apesar desta forma de pensamento estar internalizada na cultura sul-coreana e sua abolição ou reestruturação ser uma tarefa complexa, muitos autores como Juliana Batista e Tabitha Jayasuriya defendem que é possível uma reformulação. Visto que o neoconfucionismo é uma reinterpretação do confucionismo, as autoras partem da ideia de que é possível reinterpretar a filosofia confucionista para entender o papel feminino na filosofia “original” e, dessa maneira, entender o que é invenção do neoconfucionismo e o que não é. Em outras palavras, é necessário realizar uma reinterpretação da ideologia confucionista a fim de entender o papel da mulher na filosofia confuciana para entender o papel da mulher no neoconfucionismo e analisar se o confucionismo e o feminismo são realmente duas ideologias opostas. Segundo Jayasuriya (2024), a ideia de que as mulheres são inferiores aos homens no confucionismo é um erro de interpretação. Sob tal perspectiva, não seria a filosofia confucionista intrinsecamente misógina e sexista, mas sim a forma com que ela é interpretada, ensinada e colocada em prática pelas pessoas desde a Dinastia Joseon, a qual se reflete nos dias atuais.
Por exemplo, Hsü Daulin (1970) afirma que os neoconfucionistas interpretaram de forma errônea “Os Três Laços Fundamentais” do confucionismo ao torná-los um princípio cosmológico: a partir dessa interpretação, a lógica da hierarquia foi consagrada no lugar da reciprocidade dos relacionamentos pregada pela filosofia de Confúcio; essa interpretação errada poderia ser uma das causas da subordinação feminina, pois o homem estaria acima na hierarquia. Além disso, Jayasuriya (2024) e Batista (2017) ainda afirmam que há pontos de intersecção entre o feminismo e o confucionismo, pois o primeiro consegue aplicar as Cinco Virtudes Constantes do Confucionismo (Benevolência, Retidão, Propriedade, Sabedoria e Confiabilidade)3 com facilidade e simplicidade às suas agendas, porque “o Confucionismo é uma filosofia dedicada ao cuidado, ao respeito e à harmonia, e o feminismo é uma ideologia que busca a mesma qualidade de sociedade” (Jayasuriya, 2024, p. 32). Diante desta perspectiva, pode ser enriquecedor para as mulheres sul-coreanas se elas utilizarem o confucionismo em prol da luta mulheril. Jayasuriya (2024, p. 34) admite que não é algo tão simples a se fazer, mas ainda assim é póssivel: “com alguma melhoria na educação e maior conscientização em torno da libertação das mulheres no contexto cultural confucionista, a Coreia poderia aceitar a agenda feminista em suas estruturas sociais e políticas […]” .
É inegável que os valores neoconfucionistas contribuíram para reprimir as mulheres, da mesma forma que são utilizados como justificativa até hoje para tal repressão. Porém, como muitos estudiosos afirmam, existe a possibilidade de que a filosofia confucionista não possua raízes sexistas. Assim, seria o modo que a filosofia foi interpretada e ensinada que tornou o neoconfucionismo sexista e misógino. Nas palavras de Batista (2017), “a ausência de literatura poderosa e de apoio dos primeiros filósofos confucionistas, incluindo o próprio Confúcio, produziu um vácuo que poderia ser preenchido com interpretações negativas das mulheres”. Desta forma, utilizar pontos de convergência entre o confucionismo e o feminismo e realizar uma revisão da filosofia confuciana pode ser um caminho para que a emancipação das mulheres sul-coreanas continue florescendo.
REFERÊNCIAS
BATISTA, Juliana. The Confucianism-Feminism Conflict: Why a New Understanding is Necessary. Schwarzman Scholars, 2017. Disponível em: https://www.schwarzmanscholars.org/events-and-news/confucianism-feminism-conflict-new-understanding-necessary/. Acesso em: 20 fev 2026.
HUANG, Xiuji. Essentials of Neo-Confucianism: eight major philosophers of the Song and Ming periods. Westport, Conn.: Greenwood Press, 1999. Disponível em: https://philpapers.org/rec/HUAEON. Acesso em: 20 fev 2026.
HSÜ, Dau-lin. The myth of the “Five Human Relations” of Confucius. Monumenta Serica, v. 29, p. 27– 37, 1970. Disponível em: dx.doi.org/10.1080/02549948.1970.11744983. Acesso em: 20 fev 2026.
JAYASURIYA, Tabitha. Can you be a feminist in South Korea? Investigating the compatibility of Confucianism and feminism in a Korean context. 2024. Tese (Doutorado em Antropologia) – University of Exeter, 2024. Disponível em: 10.13140/RG.2.2.33264.06408. Acesso em: 20 fev 2026.
JUNG, Gowoon; MOON, Minyoung. “I Am A Feminist, But . . .” Practicing Quiet Feminism in the Era of Everyday Backlash in South Korea. Gender & Society, v. 38, n. 2, p. 216-243. 2024. Disponível em: https://doi.org/10.1177/08912432241230557. Acesso em: 20 fev 2026.
YAO, Xinzhong. An Introduction to Confucianism. Cambridge University Press, 2000. Disponível em: https://www.cambridge.org/core/books/an-introduction-to-confucianism/23905CF8F1A2EAF0160AF18B1D8A8DD5. Acesso em: 20 fev 2026.
SOBRE A AUTORA

Yasmim Kettermann Coutinho
Graduada em Relações Internacionais pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), integrante da Curadoria de Estudos Coreanos (CEÁSIA/CEA/UFPE). Se interessa por estudos de gênero, literatura asiática feminina e cultura coreana. E-mail: yasmim.kc@gmail.com
- O neoconfucionismo é uma reinterpretação do confucionismo: ambos são um sistema de crenças que regem e organizam a sociedade. No que diz respeito à ligação desses sistemas, deixo as palavras de Huang (1999, p. xi) “A era Song-Ming tem sido apropriadamente referida como o maior período criativo da história da filosofia chinesa desde a dinastia Zhou (1122?–256 a.C.). Mas, ao contrário da época antiga, durante a qual o confucionismo era uma das escolas mais influentes entre as chamadas cem escolas, durante as dinastias Song e Ming, o neoconfucionismo foi a única força filosófica predominante a desafiar a influência gradualmente decrescente do budismo e, em certa medida, do taoísmo religioso”. Nesse sentido, o confucionismo e o neoconfucionismo nasceram e floresceram em momentos e dinastias chinesas diferentes. Segundo o autor, os filósofos neoconfucionistas tornaram a filosofia mais ortodoxa. Yao (2000, p. 97) afirma que “O verdadeiro valor do neoconfucionismo não reside apenas em seu ‘retorno’ ao confucionismo clássico, mas em sua transformação fundamental das doutrinas confucionistas, que permitiu aos neoconfucionistas construir um sistema doutrinário abrangente e complexo, contendo uma cosmologia evolucionista, uma ética humanista e uma epistemologia racionalista”. ↩︎
- Machosfera, segundo Jung e Moon (2024, p. 220), é “um espaço onde as comunidades digitais propagam visões misóginas e rejeitam a masculinidade inclusiva”. ↩︎
- As Cinco Virtudes Constantes do Confucionismo são benevolência (ren 仁), retidão (yi 義), prosperidade (li 礼), sabedoria (zhi 智) e confiabilidade (xin 信). Knapp (2009, p. 2253) ao citar Baihutong (um dos textos confucianos) diz: “Benevolência significa não suportar o sofrimento alheio, amar o próximo e auxiliar todos os seres vivos. Retidão significa agir corretamente. Significa acertar no julgamento. Propriedade significa praticar o bem, ou seja, compreender o caminho e aperfeiçoar o que é refinado. Sabedoria significa conhecimento. Significa ter uma compreensão especial e poder saber das coisas antes mesmo de ouvi-las. Significa não se confundir com as circunstâncias e discernir as sutilezas. Confiabilidade significa sinceridade. Significa não se deixar desviar de seu propósito”. Em outras palavras, para o confucionismo as Cinco Virtudes Constantes são os valores/virtudes necessários para viver uma vida moral. Vale ressaltar que o neoconfucionismo se baseia nos conceitos de “qi (originalmente significando ar, vapor, respiração e depois a força vital da vida, traduzido de várias maneiras como força material, energia primária, éter ou matéria), li (princípio ou razão), xin (o coração/mente) e xing (natureza ou natureza humana)” (Yao, 2000). ↩︎