por Denise Nobre
Fonte: Wikipedia https://it.wikipedia.org/wiki/Ssanghwajeom
A produção cinematográfica sul-coreana contemporânea frequentemente revisita o passado dinástico para reinterpretar a identidade nacional. Neste contexto, o filme A Frozen Flower (Ssanghwajeom, 2008), dirigido por Yu Ha, destaca-se não apenas como um drama histórico, mas como um exercício de tradução visual das Goryeo Gayo (Canções de Goryeo).
As Goryeo Gayo, uma coleção de poemas e canções folclóricas da Dinastia Goryeo, representam um dos corpus mais famosos e intrigantes da história da literatura coreana clássica. Estas canções, oriundas da tradição oral e posteriormente registradas durante a Dinastia Joseon em compilações como o Akhak Gwebeom1 (cânone Musical), destacam-se pela sua franqueza emocional e temática vulgar. Tais obras capturam a essência humana sem os filtros moralizantes posteriores, abordando o amor, a separação e o prazer com uma crueza linguística única (Lee, 2003). O filme não utiliza as canções Ssanghwajeom e Gasiri meramente como trilha sonora diegética (que faz parte da cena), mas estrutura seu roteiro como uma interpretação visual e simbólica de suas letras.
Ambientada no final da Dinastia Goryeo, um período de subjugação política ao Império Yuan e crise de identidade nacional, a trama desenvolve-se em torno de um triângulo amoroso trágico. O Rei, impossibilitado de gerar um herdeiro e sob pressão política, solicita ao seu amante e chefe da Guarda Real, Hong-rim, que engravide a Rainha. O que inicia como um cumprimento de dever transforma-se em uma paixão avassaladora entre a Rainha e o guarda, desencadeando uma série de eventos marcados por ciúme, traição e vingança, culminando na dissolução sangrenta da corte.
A canção que intitula o filme, Ssanghwajeom (“A Loja de Dumplings”), introduz a tensão erótica e a inevitabilidade do escândalo. Historicamente censurada por seu conteúdo explícito, a canção narra encontros (ou abusos) sexuais em locais inusitados. No filme, o eu lírico encontra correspondência em Hong-rim, o chefe da guarda real, que se torna o sujeito passivo “tomado” pelas figuras de poder (o Rei e a Rainha), transformando a corte num palco de rumores.
Um dos pontos mais sofisticados da obra é a incorporação da pluralidade de leituras do termo “ssanghwa”. O filme não escolhe uma única tradução, mas representa visualmente algumas das hipóteses de tradução. A interpretação tradicionalmente mais aceita para os dois primeiros versos da canção — “Ssanghwajeome ssanghwa sareo gasseonneunde / Hoehoeabi nae sonmogeul jwieotseumnida” — seria: “Vou à loja turca (ou árabe), compro um pãozinho (dumpling) / Um velho turco me segura/toma pela mão” (Lee, 1981, 2003). Desta forma, é possível interpretar que o ssanghwa na canção é um tipo de mandu feito por comerciantes estrangeiros da época. No longa, esse “bolinho” aparece em cena quando a Rainha oferece mandu de arroz a Hong-rim como forma de confessar seu amor, dizendo que é uma tradição de sua terra natal, simbolizando a aceitação do afeto proibido e a corrupção da identidade nacional pelos costumes estrangeiros. Outra leitura possível é do ssanghwa como referência ao Ssanghwatang, um tipo de chá medicinal de madressilva que Hong-rim serve a ambos os monarcas, reforçando sua posição de subserviência e cuidado.
Uma discussão mais recente sobre a palavra ssanghwa na canção foi feita pelo professor Park Deok-yu, do Departamento de Educação em Língua Coreana da Universidade Inha, em seu estudo “A Study on the Rhyme and Syntactic Structure of <Ssanghwajeom>” (2001). Baseando-se no Dicionário Sino-Coreano de 1989, o professor aponta que o termo 霜花 shuāng huā (“flor de gelo” ou “flor de geada”) designa um “trabalho fino em forma de gelo” (細工). Consequentemente, ele conclui que ssanghwa refere-se a um artesanato delicado ou joia, e que Ssanghwajeom seria, portanto, uma “loja de artesanato” ou loja de joias de comerciantes estrangeiros, e não uma loja de mandu.
Sendo assim, esta última é a interpretação que melhor dialoga com o título internacional do filme (A Frozen Flower), e com a tragédia dos personagens, desafiando a tradicional interpretação relacionada à culinária. Isso valida a importância narrativa do colar de Yuan no filme. A joia, que a Rainha trouxe consigo e perde em um ataque, é reposta secretamente por Hong-rim (porém, ela diz ao rei ter ganhado uma nova joia parecida trazida por seu irmão), e torna-se a materialização física desse ssanghwa (artesanato delicado). Outra interpretação para o título do filme seria “flor congelada” e poderia remeter à cena final do filme em que a imagem da pintura feita pelo rei, retratando-o com seu amante, é congelada na tela, simbolizando o amor entre ele e Hong-rim como uma flor que nunca desabrochou.
Já a canção Gasiri (“Você vai?”), em contraste com a promiscuidade e assédio de Ssanghwajeom, estrutura o arco dramático do Rei repleto de um profundo sentimentalismo. O monarca encarna o eu lírico que observa a partida emocional de seu amado, paralisado pelo dilema expresso na letra: o medo de que, ao tentar deter o amante à força, este nunca mais retorne. A violência do Rei — incluindo a castração de Hong-rim — deve ser lida sob a ótica desta canção. Não é apenas uma punição, mas uma tentativa desesperada de impedir a “partida” física do guarda para a Rainha, visando, através do impedimento de concretizar o desejo sexual, restaurar uma lealdade de “coração”. O Rei suplica pelo retorno do amante até o último instante, pois para ele a posse física é inútil sem o afeto, assim como o próprio reino deixa de importar perante a perda de seu grande amor.
A Frozen Flower opera como uma tradução visual que transcende a adaptação literal. Ao personificar as vozes líricas das Goryeo Gayo em seus protagonistas, o diretor Yu Ha resgata a humanidade crua e impulsiva (o desejo, o ciúme, a transgressão, a corrupção) que a ética e a hierarquia confucionistas tentaram suprimir na sociedade coreana. O filme encena essa vitória da emoção sobre a regra, provando que o legado mais duradouro da literatura coreana reside na coragem de sentir e expressar.
REFERÊNCIAS
A FROZEN Flower. Direção: Yoo Ha. Produção: Opus Pictures. Intérpretes: Jo In-sung; Joo Jin-mo; Song Ji-hyo e outros. Seul: Showbox, 2008. 1 filme (133 min), son., color.
A FROZEN Flower. In: Wikipedia: the free encyclopedia. [S.l.], 2025. Disponível em: https://en.wikipedia.org/wiki/A_Frozen_Flower. Acesso em: 8 dez. 2025.
ACADEMY OF KOREAN STUDIES. Akhak Gwebeom (악학궤범). Encyclopedia of Korean Culture. s.d. Disponível em:https://encykorea.aks.ac.kr/Article/E0034481. Acesso em: 30 jan 2026.
JUNG, Sang-young. Goryeosogyo ‘Ssanghwajeom’ui mandugageneun wigureuin sawon? [고려속요 ‘쌍화점’의 만두가게는 위구르인 사원?]. The Hankyoreh, Seul, 9 jan. 2009. Disponível em: https://www.hani.co.kr/arti/culture/culture_general/329817.html. Acesso em: 8 dez. 2025.
LEE, Peter H. Anthology of Korean Literature. From Early Times to the Nineteenth Century. Honolulu: University of Hawaii Press. 1981. p. 43
LEE, Peter H. (Ed.). A history of Korean literature. Cambridge: Cambridge University Press, 2003. p. 99-117.
SSANGHWA. In: Namu Wiki. [S. l.], [20–?]. https://namu.wiki/w/%EC%8C%8D%ED%99%94. Acesso em: 8 dez. 2025.
SOBRE A AUTORA

Denise Nobre
Bacharela em Letras Português e Coreano na Universidade de São Paulo, idealizadora e co-fundadora do podcast e portal de notícias Sarangbang. Integrante da Curadoria de Estudos Coreanos (CEÁSIA/CEA/UFPE). Se interessa por literatura coreana.
E-mail: denisenobre@sarangbang.com.br
- O Akhak Gwebeom (악학궤범 / 樂學軌範) é um tratado fundamental sobre música tradicional coreana compilado em 1493, durante o reinado do Rei Seongjong na Dinastia Joseon. A obra funciona como um manual abrangente que documenta a teoria musical, os instrumentos da época, as coreografias das danças e os arranjos para rituais e banquetes da corte. Sua importância para o estudo da literatura coreana clássica reside no fato de que o tratado revisou e corrigiu erros de tratados anteriores e preservou as letras de diversas canções populares, inclusive da Dinastia Goryeo. Embora algumas letras tenham sido censuradas pelos magistrados confucionistas que compilaram a obra, o cânone, composto por 9 volumes e 3 livros, foi recuperado mesmo após diversas guerras e permanece como importante documento da música tradicional coreana (Academy of Korean Studies, s.d.). ↩︎