por Maria Gabriela Pedrosa

imagem: https://dasartes.com.br/materias/doris-salcedo/

O romance Atos humanos, de Han Kang, publicado na Coreia do Sul em 2014, constitui uma potente elaboração literária do trauma histórico ao revisitar a revolta e o massacre de Gwangju, ocorridos em maio de 1980, quando o exército sul-coreano reprimiu violentamente um levante estudantil, resultando em milhares de mortes. Mais do que narrar o evento, a autora o transfigura em uma ficção poética e brutal, construída a partir de múltiplas vozes, mortos, sobreviventes e testemunhas, que evidenciam os limites da representação e a persistência da memória. Ao recusar uma narrativa linear e totalizante, a obra insiste na fragmentação como forma de dar conta daquilo que escapa à linguagem: o trauma.

Uma parte do título desta resenha, “A literatura vem”, inspira-se no título original do romance (O menino vem) e propõe deslocar o foco do indivíduo para a própria literatura como agente de memória. Esse gesto sugere que é a escrita que retorna, que insiste em fazer lembrar aquilo que a história oficial tentou silenciar. A literatura, assim, assume um papel ativo na reescrita da memória coletiva, funcionando não apenas como representação, mas como intervenção no modo como o passado é lembrado, narrado e disputado.

     A narrativa fragmentada acompanha diferentes temporalidades e revela os desdobramentos duradouros do trauma. A partir da figura de Dong-ho, um jovem que ajuda a identificar corpos em um necrotério improvisado, a obra se expande para outras experiências marcadas pela violência, como a censura, a tortura e o luto. Cada capítulo revisita o massacre sob uma nova perspectiva, evidenciando que a violência não se encerra no evento histórico, mas se prolonga nos corpos e nas memórias. Nesse contexto, como propõe Aleida Assmann (2011), a literatura funciona como um suporte simbólico capaz de reorganizar o passado, transformando-o em memória cultural.

Figura 1Disremembered X (2020-2021), de Doris Salcedo

Crédito: Ron Armstutz (2023).

     Nesse sentido, a materialidade da memória e da ausência pode ser visualmente associada à obra Disremembered, de Doris Salcedo (Figura 1), na qual um tecido suspenso, marcado por inúmeras perfurações, sugere um corpo ausente, atravessado pela violência. À primeira vista, a obra apresenta uma aparência de leveza e delicadeza; no entanto, essa impressão é tensionada pelas agulhas que atravessam sua superfície, revelando uma dimensão de violência que perfura a aparente suavidade. Essa tensão entre fragilidade e agressão explicita a coexistência de impulsos contraditórios no humano. Assim como em Atos humanos, a obra não representa diretamente o horror, mas o inscreve na superfície, por meio de vestígios e silêncios, fazendo da ausência um modo de presença.

     Além disso, a obra evidencia os silenciamentos históricos discutidos por Michel-Rolph Trouillot (1995), ao trazer à tona vozes apagadas pelo discurso oficial. Em diálogo com Gayatri Spivak (2010), pode-se afirmar que, embora o subalterno não fale diretamente, a literatura cria um espaço ético de evocação dessas vozes. Trata-se de uma fala mediada, que não restitui plenamente o sujeito, mas impede seu completo apagamento, instaurando uma forma de testemunho possível.

     Neste sentido, a narrativa de Han Kang pode ser compreendida também como uma prática intermidiática, nos termos de Claus Clüver (2011) e Irina Rajewsky (2012), ao articular diferentes regimes de representação da memória (testemunho, imagem, arquivo e ficção) que ampliam as possibilidades do literário. A fragmentação estrutural e a multiplicidade de vozes evidenciam o cruzamento de mídias e discursos, reforçando o caráter híbrido da memória cultural e sua dependência de diferentes formas de mediação.

     Outro aspecto central é a reflexão sobre a natureza humana. Como observa Annalisa Quinn (2017), Atos humanos evidencia a coexistência de impulsos paradoxais, a misericórdia e a violência, tensionando os próprios limites do que entendemos por humanidade. A violência, longe de se configurar como exceção, apresenta-se como uma possibilidade recorrente da condição humana, atravessando diferentes contextos históricos; do mesmo modo, emergem gestos de coragem, solidariedade e resistência. Nesse sentido, tanto a brutalidade quanto a grandeza se inscrevem como dimensões constitutivas dos atos humanos, revelando uma humanidade marcada por sua própria ambivalência.

     Dessa forma, o massacre de Gwangju, trazido à superfície pela ficção, é um marco coletivo que define pertencimento, luto e resistência, inscrevendo-se na consciência histórica do país. Assim, Han Kang reafirma a literatura como espaço de recordação, no qual a memória insiste em vir, e, com ela, a possibilidade de confrontar o passado, resistir ao esquecimento e repensar o que significa, afinal, ser humano.

Referências

ASSMANN, Aleida. Espaços de recordação: formas e transformações da memória cultural. Campinas: Editora UNICAMP, 2011.

CLÜVER, Claus. Inter midialidade. In: DINIZ, Thaïs Flores Nogueira (org.). Intermidialidade e estudos interartes: desafios da arte contemporânea. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2011. p. 9-26.

ERLL, Astrid. Memory in culture. Basingstoke: Palgrave Macmillan, 2011.

HAN, Kang. Atos humanos. Tradução: Ji Yun Kim. São Paulo: Todavia, 2021.

QUINN, Annalisa. Human Acts tries to reconcile bloody human impulses. NPR, 21 jan. 2017. Disponível em: https://www.npr.org/2017/01/21/510833347/human-acts-tries-to-reconcile-bloody-human-impulses. Acesso em: 22 mar. 2026.

RAJEWSKY, Irina O. Intermidialidade, intertextualidade e remediação: uma perspectiva literária sobre intermidialidade. In: DINIZ, Thaïs Flores Nogueira (org.). Intermidialidade e estudos interartes: desafios da arte contemporânea. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2012. p. 15-45.

SPIVAK, Gayatri Chakravorty. Pode o subalterno falar? Tradução: Sandra Regina Goulart Almeida; Marcos Pereira Feitosa; André Pereira Feitosa. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2010.

TROUILLOT, Michel-Rolph. Silencing the past: power and the production of history. Boston: Beacon Press, 1995.

Sobre a Autora

Maria Gabriela Pedrosa 

Doutoranda em Estudos Literários na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), integrante da Curadoria de Estudos Coreanos (CEÁSIA/CEA/UFPE). Se interessa por estudos literários, intermidialidade e memória.

E-mail: mariagpedrosa@gmail.com