Por Giovana Canez Valerão

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“O coreano é usado por aproximadamente 77 milhões de pessoas, tornando-se a 13ª língua mais falada no mundo”. “Além disso, ocupa a 10ª posição entre as línguas mais usadas na internet”. Essas informações foram apresentadas por Park (2010, p. 5) em um documento publicado pelo Instituto Nacional da Língua Coreana (국립국어원), órgão responsável pela promoção e pelas pesquisas relacionadas à língua coreana, incluindo a língua de sinais coreana e o braile coreano. 

Ainda assim, a República da Coreia não investe apenas na divulgação estratégica do coreano, mas também em políticas linguísticas que, segundo Calvet (2007, p. 11), são “grandes decisões referentes às relações entre as línguas e a sociedade”  e fazem parte das políticas públicas e internacionais. Um exemplo de política linguística elaborada pelo Estado sul-coreano é o artigo 15 do Framework Act On Korean Language, que estabelece que o Ministério da Cultura, Esportes e Turismo deve promover estratégias de relações públicas e de educação através de jornais, broadcasting, revistas, internet, sinais eletrônicos, entre outros, para auxiliar na disseminação da cultura e da língua coreana, auxiliando no uso adequado desta língua (Korea Legislation Research Institute, 2012). 

Nesta direção, o Instituto Rei Sejong é um dos principais responsáveis pelas políticas linguísticas de promoção da aprendizagem de coreano ao redor do mundo, o que já vem gerando frutos. Em março de 2026, o jornal Korea JoongAng Daily divulgou que o instituto Rei Sejong espera um aumento expressivo no número de estrangeiros que realizarão o teste de avaliação da língua coreana, passando de 6.400 candidatos para 15.000 até o final do ano (Yoon, 2026).

Esses dados caminham lado a lado com aqueles divulgados pelo Korea.net, site de notícias administrado pelo Ministério da Cultura, Esportes e Turismo da Coreia do Sul (문화체육관광부), que reportou um aumento constante no número de candidatos ao TOPIK, o teste de proficiência em coreano, que passou de 360 mil participantes em 2022 para 550 mil em 2025 (Akhmetzianova, 2025).

O aplicativo de aprendizagem de idiomas Duolingo também divulgou, em seu relatório de línguas de 2025, que o coreano ocupou a 6ª posição entre as línguas mais aprendidas ao redor do mundo (Blanco, 2025). 

Linguistas atribuem o aumento considerável de aprendizes de coreano, em nível mundial, à onda coreana, ou Hallyu (한류) (Eom; Braithwaite, 2023; Jee, 2015; Wang; Pyun, 2020), que, de acordo com Ravina (2009), refere-se à maior visibilidade da cultura sul-coreana a partir dos anos 1990, iniciada nos países do Leste Asiático e, mais recentemente, em outros países e continentes. 

Em entrevista ao Jornal da USP, a professora Yun Jung Im aponta as fases da Hallyu como sendo as seguintes: Hallyu 1.0, com foco nos K-dramas e em sua divulgação no mercado asiático; Hallyu 2.0, que centraliza o K-pop e começou a se popularizar a partir dos anos 2000; Hallyu 3.0, que surge a partir de 2010 e evidencia a popularidade dos K-dramas e o K-pop globalmente; e Hallyu 4.0, fase mais recente, que expande a onda coreana para outros aspectos da cultura sul-coreana, como o K-beauty (os protocolos e produtos de beleza da Coreia do Sul), o K-food, entre outros (Lemos, 2025). 

Destaca-se que, nessa direção, a língua coreana figura entre as manifestações culturais extensivamente impulsionadas atualmente pela onda coreana, o que é corroborado pela Overseas Hallyu Survey, promovida anualmente pela Korean Foundation for International Cultural Exchange (KOFICE, a “Fundação Coreana para o Intercâmbio Cultural Internacional”), que possui uma seção inteiramente dedicada à língua coreana. De acordo com a pesquisa realizada em 2025, com 28 países, aproximadamente 28,6% dos consumidores da Hallyu tinham experiência com a aprendizagem de coreano (Korean Foundation For International Cultural Exchange, 2025). A imagem abaixo (Tabela 1) demonstra que, entre os países latino-americanos, o Brasil fica apenas atrás do México em se tratando do contato prévio com a língua coreana. 

Tabela 1 – Relação da média de taxas de experiência de aprendizado do coreano por país

Fonte: Korean Foundation For International Cultural Exchange (2025, p. 277).
Nota: Réplica da tabela original, retirada da 2025 Overseas Hallyu Survey, elaborada com a ferramenta de inteligência artificial Google Gemini. Na tabela é possível ver o Brasil posicionado na 15ª posição entre os países que possuem experiência com o aprendizado da língua coreana.

Ainda de acordo com o estudo, as principais razões para a aprendizagem de coreano mundialmente eram “interesse pela Coreia e pela cultura coreana” e “interesse pela língua coreana” (Korean Foundation For International Cultural Exchange, 2025).

Quanto ao Brasil, o relatório de idiomas do Duolingo para o país, em 2020, apontou que o coreano era o segundo idioma que mais crescia, atrás apenas do hindi (Martins, 2020). Contudo, não se sabe quantos são os aprendizes de coreano no Brasil e no mundo. 

É possível concluir que, na atualidade, a língua coreana goza de uma popularidade semelhante à experienciada pela língua japonesa. Conforme dados da Survey on Japanese-Language Education Abroad FY2024 (Pesquisa sobre o Ensino de Língua Japonesa no Exterior – Ano Fiscal de 2024) realizada pela Fundação Japão (Japan Foundation), há aproximadamente 4 milhões de pessoas em 143 regiões e países estudando japonês, o que se deve, em grande medida, à cultura popular japonesa, como os animes e os mangás (Ministry of Foreign Affairs of Japan, 2025). O jornal nippon.com ainda divulgou que o Ministério da Educação, Cultura, Esportes, Ciências e Tecnologia (Ministry of Education, Culture, Sports, Science, and Technology) do Japão constatou que, em novembro de 2024, havia 294.198 estrangeiros aprendendo japonês no país, um acréscimo de 30.000 aprendizes em relação a 2023 (Nippon.com, 2025).

Todavia, resta saber se, assim como o japonês, o coreano se manterá popular nos anos por vir, uma vez que a língua japonesa vem experimentando popularidade mundial desde o boom da cultura popular japonesa, que remonta aos anos 1980 (Tsutsui, 2010). Assim, questiona-se se a língua coreana permanecerá entre as línguas mais aprendidas, ao lado do japonês e das línguas ocidentais hegemônicas (isto é, as línguas dominantes, como o inglês, o espanhol, o francês e o alemão) tanto no cenário mundial quanto no brasileiro. Será possível que o coreano ultrapasse o japonês? Isso só o tempo dirá, ainda que a presença da língua japonesa se mantenha estável em relação à do coreano.

Referências

AKHMETZIANOVA, A. No. of Korean-language test takers breaks 550K; 15 exams set for 2026. Korea.net. 10 out. 2025. Disponível em: https://www.korea.net/NewsFocus/Society/view?articleId=279830. Acesso em: 18 mar. 2026.

BLANCO, C. 2025 Duolingo language report. Duolingo Blog, 2025. Disponível em: https://blog.duolingo.com/2025-duolingo-language-report/. Acesso em: 04 fev. 2026.

CALVET, L. As políticas linguísticas. Florianópolis e São Paulo: Ipol/Parábola, 2007. 

EOM, M.; BRAITHWAITE, J. Learner Motivations in Korean as a Foreign Language (KFL): Differentiating Motivational Intensity and Academic Aspiration. Journal of Korean Language Education, 2023. v. 34, n. 3 p. 239-267. Disponível em: https://www.kci.go.kr/kciportal/landing/article.kci?arti_id=ART002992128. Acesso em: 17 mar. 2024.  

JEE, M. A Study of Language Learner Motivation: Learners of Korean as a Foreign Language. Journal of Korean Language Education, v. 26, n. 2, p. 213-238, 2015. Disponível em: https://oak.go.kr/central/journallist/journaldetail.do?article_seq=19150. Acesso em: 17 abr. 2024.

KOREA LEGISLATION RESEARCH INSTITUTE. Framework Act on Korean Language (Act No. 7368). Sejong: Korea Legislation Research Institute, 2012. Disponível em:https://elaw.klri.re.kr/eng_service/lawView.do?hseq=25382&lang=ENG. Acesso em: 19 mar. 2026.

LEMOS, S. Muito além do K-pop, cultura coreana desperta cada vez mais o interesse do brasileiro. Jornal da USP. 12 set. 2025. Disponível em: https://jornal.usp.br/atualidades/muito-alem-do-k-pop-cultura-coreana-desperta-cada-vez-mais-o-interesse-do-brasileiro/. Acesso em: 18 mar. 2026. 

MARTINS, A. Relatório de Idiomas Duolingo 2020: Brasil. Duolingo blog. 15 dez. 2020. Disponível em: https://blog.duolingo.com/pt/brazil-language-report-2020/. Acesso em: 18 mar. 2026.

PARK, D. Everything you wanted to know about the Korean language. Seoul: The National Institute of the Korean Language, 2010.

RAVINA, M. Introduction: conceptualizing the Korean Wave. Southeast Review of Asian Studies, v. 31, p. 3-10, 2009. Disponível em: https://www.academia.edu/24308710/Introduction_Conceptualizing_the_Korean_Wave . Acesso em: 18 mar. 2026.

RECORD Number of Japanese-Language Learners in Japan. Nippon.com. 26 dez. 2025.Disponível em:https://www.nippon.com/en/japan-data/h02631. Acesso em: 18 mar. 2026.

TSUTSUI, W. Japanese Popular Culture and Globalization. [S.l.]: Association for Asian Studies, 2010. (Key Issues in Asian Studies)

YOON, S. More international students look to prove speaking proficiency with Sejong Korean Language Assessment test. Korea JoongAng Daily. 10 mar. 2026. Disponível em: https://koreajoongangdaily.joins.com/news/2026-03-10/national/kcampus/More-international-students-look-to-prove-speaking-proficiency-with-Sejong-Korean-Language-Assessment-test/2541103. Acesso em: 18 mar. 2026.

WANG, H.; PYUN, D. Hallyu and Korean Language Learning: Gender and Ethnicity Factors. The Korean Language in America, v. 24, n. 2, p. 30-59, 2020. Disponível em: https://www.academia.edu/75626311/Hallyu_and_Korean_Language_Learning_Gen der_and_Ethnicity_Factors. Acesso em: 19 mar. 2026. 

2025 Overseas Hallyu Survey. Korean Foundation for International Cultural Exchange. p. 1- 305, 2025. 

SOBRE A AUTORA

Giovana Canez Valerão

Mestranda na linha de Aquisição, Variação e Ensino do Programa de Pós-Graduação em Letras da Universidade Federal de Pelotas (UFPEL), integrante da Curadoria de Estudos Coreanos (CEÁSIA/CEA/UFPE). Se interessa pela língua coreana, pelo K-pop e pelos K-dramas.

E-mail: givalerao14@gmail.com.