por Guilherme Henrique Ferreira Póvoa e Maria Clara Lima

Imagem: https://culturar.blog/2024/02/02/dica-love-for-loves-sake/

Lançado no início de 2024, o drama sul-coreano “Love for Love’s Sake” (em coreano, 연애 지상주의 구역, cuja tradução direta para inglês é “love supremacy zone”) se apresenta inicialmente com uma premissa comum aos webtoons de fantasia convencionais com a transmigração do protagonista para dentro de um jogo de simulação para viver em uma realidade diferente. No entanto, sob a superfície de missões coloridas e barras de afinidade, a obra dirigida pela diretora Kim Kyun-ah oferece uma crítica contundente sobre a solidão, o amor e a saúde mental na sociedade contemporânea sul-coreana (MyDramalist, 2024).

A trama acompanha o protagonista Tae Myung-ha — interpretado por Lee Tae-vin (em coreano, 이태빈), um ator sul-coreano e ex-membro do grupo MYTEEN —, um homem de 29 anos desiludido com a vida, transportado para um jogo onde assume sua versão de 19 anos novamente. Sua missão é clara: fazer com que o jovem estudante Cha Yeo-woon — interpretado pelo ator sul-coreano Cha Joo-wan (em coreano, 차주완) —, um atleta escolar marcado pela tragédia e pobreza, se torne feliz, na circunstância de que sua falha implica na sua morte. Neste contexto, a genialidade do roteiro está em utilizar a mecânica de jogo, que permite observar os níveis de afeto entre as pessoas e oferece missões, não apenas como recurso narrativo, mas como metáfora para a dificuldade humana de criar conexões genuínas e verdadeiras em um mundo utilitarista (MyDramalist, 2024).

Nesse mundo em que mergulhamos, diferente de produções que focam apenas no romance Boys Love (BL) como escapismo, a série toca em mazelas sociais profundas da sociedade sul-coreana, perceptível na esmagadora pressão sofrida por Cha Yeo-woon e por tantos jovens sul-coreanos, exigindo a excelência atlética e acadêmica em meio à precariedade familiar. Cha age de forma defensiva, arisco com todos ao seu redor devido à sensação de que o mundo apenas tirou coisas dele: os pais, a estabilidade, a dignidade. Porém, ao encontrar Myung-ha, Yeo-woon fica confuso, buscando o porquê das ações gentis do outro, sem nada em troca; mas, aos poucos, Myung-ha vai se tornando o único pilar que sustenta o mundo de Yeo-woon que estava prestes a desmoronar. Para Yeo-woon, o parceiro não era apenas uma “missão”, mas alguém que o fortalece no enfrentamento do mundo, que o faz se sentir visto, amado e capaz de projetar o futuro e a vida (The BL Xpress, 2024).

Diferentemente, Myung-ha traz a perspectiva do adulto que já desistiu de tudo e não encontra mais sentido na vida, com sua jornada no jogo se revelando, na verdade, uma terapia de choque existencial ao ser forçado a cuidar de outra pessoa para sobreviver, na qual ele reaprende a valorizar a própria existência. Inicialmente, via Cha Yeo-woon como um simples “NPC” (personagem não-jogável) que precisava de pontos de felicidade, mas, rapidamente, ele percebe que o jovem é um reflexo dele mesmo, uma pessoa solitária, sobrecarregada pelo mundo. Neste cenário, Myung-ha passa a cuidar de Yeo-woon não pelos pontos do jogo, mas pela sua empatia: ele sabe como o sofrimento causado pela solidão pode assolar alguém, de modo que passa a oferecer alimento e a defender Yeo, construindo um “lar” emocional, algo que não tinha há muito tempo (The BL Xpress, 2024).

A dinâmica entre os protagonistas é o triunfo do roteiro, visto que Yeo-woon enxerga em Myung-ha a única figura adulta capaz de oferecer a ele um afeto desinteressado e sem segundas intenções em meio à exploração de seu talento esportivo a que estava acostumado; em contrapartida, Myung-ha reconhece no garoto sua própria desesperança no mundo e a exaustão de tentar manter-se vivo em uma realidade tão desafiadora. É nesse cenário que o romance entre eles floresce, não de clichês juvenis, mas da necessidade urgente de manter o outro vivo, de modo que o K-drama se desenrola em momentos difíceis, complexos e dolorosos para ambos os personagens. Todavia, embora diversos obstáculos dificultem o relacionamento, eles fortalecem a confiança mútua e fazem com que percebam que não estão mais sozinhos, com a intensidade emocional exigida pelo enredo sendo habilmente sustentada pelas atuações de Lee Tae-vin e Cha Joo-wan. O drama subverte tropos clássicos ao mostrar que a conquista amorosa não é um prêmio de jogo, mas um processo de cura mútua: o sistema de jogo, controlado por uma figura misteriosa (“Senior”), funciona como uma alegoria para o destino ou a intervenção divina, questionando o livre-arbítrio diante de traumas passados dos personagens (The BL Xpress, 2024).

O ápice dramático ocorre quando o sistema do jogo impõe um ultimato trágico, já que o sistema calculou que, para Yeo-woon ter um futuro brilhante e sem escândalos, Tae Myung-ha (que causava confusão e riscos) deveria desaparecer de sua vida. Como efeito, Myung-ha aceita seu destino na tentativa de priorizar a felicidade de Yeo-woon, optando pela morte (ou apagamento) para garantir a vida do amado, mostrando a prova máxima de amor de colocar a existência do outro acima da sua. Desta forma, o sistema apaga a memória de todos sobre Myung-ha e, nessa nova realidade, Yeo-woon tem tudo o que o jogo considera triunfal, como medalhas de ouro, uma vida saudável para sua avó, estabilidade financeira e amigos, denotando o cumprimento da missão. Contudo, nota-se um “erro de cálculo no sistema”, um tipo de sentimento residual que faz Yeo-woon se recusar a esquecer seu amado no que tange ao impacto emocional, sentindo a falta de algo que “não deveria existir”, ou uma espécie de anemoia: ele acorda na considerada vida perfeita, mas sente, para além da dor física de perda, um vazio no peito, e chora sem compreender o motivo. Desta forma, apesar de ter tudo para ser feliz, isto é, tudo aquilo que a sociedade sul-coreana valoriza e atribui como uma vida bem-sucedida, como carreira e situação financeira estáveis, o protagonista continua sentindo-se miserável.

A série subverte o tropo do “sacrifício heróico” ao sugerir que a verdadeira salvação não está em morrer pelo outro, mas na obstinação em viver junto, de modo que o clímax desafia a lógica programada do destino de “você tem tudo, seja feliz” com a recusa de Yeo-woon em esquecer a existência de Myung-ha, visto que, sem o parceiro, mesmo que ele não se lembre por completo, seria incapaz de alcançar a felicidade. A partir da contradição do jogo, que objetivava a alegria de Yeo-woon, o sistema é obrigado a trazer Myung-ha de volta, pois, caso Myung-ha continuasse morto/apagado, o jogo falharia na sua missão principal, pois o protagonista ficaria em luto eterno. O amor, portanto, atua como uma variável incalculável que força o sistema a reescrever à realidade para cumprir sua própria diretriz de “final feliz”, de forma que, a partir do retorno de Myung-ha, há o reencontro romântico e profundo e, ao final da obra, percebe-se que o próprio Myung-ha havia tentado cometer suicídio e por este motivo entrou no jogo, a sua “segunda chance”, onde reencontrou seu propósito de viver ao lado de Yeo-woon.

Ambos acabam por salvar um ao outro, deixando duas mensagens claras de que, independentemente da dor, do vazio existencial e do peso do mundo, ainda existe alguém que lutaria por você, disposto até a apagar sua própria existência, como Myung-ha fez. Revelando, portanto, a importância do apoio emocional, mesmo quando tudo aquilo que é considerado bem-sucedido foi alcançado — pauta importantíssima na Coreia do Sul, que enfrenta o suicídio como questão de saúde pública e, ainda assim, exporta o sucesso e o triunfo, muitas vezes deixando a saúde mental aquém (Raschke et al., 2022). Por outro lado, Yeo-woon evidencia que a felicidade não se dá pelo sacrifício heróoico e que a maior prova de amor não é se sacrificar por quem ama, mas escolher viver por ela.

Em suma, “Love for Love’s Sake” transcende seu gênero. É uma obra sobre o imperativo de encontrar razões para viver em uma sociedade que frequentemente isola os indivíduos cotidianamente. A conclusão da narrativa reforça que a verdadeira vitória não está em completar meras missões, isto é, alcançar o suposto sucesso, mas na capacidade de alterar a realidade e o próprio destino através de suas próprias escolhas, evidenciando que não é necessário enfrentar as dificuldades da vida sozinho e que o afeto e a atenção à saúde mental devem caminhar juntos.

REFERÊNCIAS

LOVE for Love’s Sake. Direção: Kim Kyun-ah. Roteiro: Kwon Cho-rong. Produção: Studio Coffee Break. Coreia do Sul: iQIYI / GagaOOLala, 2024. 8 episódios.

MYDRAMALIST. Love for Love’s Sake. 2024. Base de dados de entretenimento asiático. Disponível em: https://mydramalist.com/753495-love-supremacy-zone?lang=pt-BR. Acesso em 13 jan. 2026.

RASCHKE, Nicolas et al. Socioeconomic factors associated with suicidal behaviors in South Korea: systematic review on the current state of evidence. BMC Public Health nº. 22, art. 129, 2022.

SALES, Gabrieli. Dica: Love for Love’s Sake. Culturar, 2 fev. 2024. Disponível em: https://culturar.blog/2024/02/02/dica-love-for-loves-sake/. Acesso em: 14 jan. 2026.

THE BL XPRESS. “Love for Love’s Sake” Series Review. The BL Xpress, 3 fev. 2024. Disponível em:

https://the-bl-xpress.com/2024/02/03/love-for-loves-sake-series-review-ep-1-to-8/. Acesso em: 14 jan. 2026.

SOBRE OS AUTORES

Maria Clara Lima Abrão

Bacharel em Relações Internacionais pela Universidade Federal de Uberlândia, integrante da Curadoria de Estudos Coreanos (CEÁSIA/CEA/UFPE) e do Núcleo de Pesquisa em Segurança Internacional e Estudos Estratégicos (NUPSIEE-UFU). Se interessa por Estudos Asiáticos com ênfase em Coreias, Segurança Internacional, cultura e identidade.

E-mail: mcl.abrao@gmail.com.

Guilherme Henrique Ferreira Povoa

Graduando em Relações Internacionais pela Universidade Federal de Uberlândia, integrante da Curadoria de Estudos Coreanos (CEÁSIA/CEA/UFPE). Possui interesse em Estudos Asiáticos com ênfase em Coreias, Segurança Internacional, Política Externa e Comércio Exterior.

E-mail: guilhermeferreiradesouza135@gmail.com.