por Maria Gabriela Pedrosa
Link da imagem: https://www.insideoutproject.net/pt_BR/news/mj 

Foto de parte da instalação do Inside Out Project na cidade de Gwangju. Crédito: Inside Out Project. 

A cidade de Gwangju se tornou, nas últimas décadas, um dos principais palcos da memória na Coreia do Sul. Projetos artísticos participativos, como é o caso do Inside Out Project, bem como eventos globais, a exemplo da Bienal de Gwangju, projetam-se em um gesto coletivo: lembrar. Ainda assim, essa insistência não indica necessariamente uma memória estabilizada, mas revela um processo contínuo de disputa e reconstrução. Afinal, por que ainda é preciso revisitar aquilo que não deveria ter sido esquecido?

O levante de maio de 1980, conhecido como 오일팔 민주화 운동 (em coreano) e Gwangju Uprising (em inglês), permanece como uma das feridas mais significativas da história sul-coreana. Durante a ditadura militar, civis foram mortos por forças do Estado ao reivindicarem democracia. Cerca de 200 vítimas são oficialmente reconhecidas, embora estimativas independentes apontem números mais elevados, prática recorrente nesses atos violentos. Se, nas décadas seguintes, o episódio passou de objeto de silenciamento a símbolo da luta democrática, isso não eliminou as tensões que atravessam sua memória.

Hoje, Gwangju ocupa um lugar consolidado no imaginário nacional como marco da redemocratização. No entanto, a institucionalização dessa memória não encerra o problema, mas o transforma. Quando o trauma é incorporado a uma narrativa nacional de progresso, corre-se o risco de reorganizar o horror em termos mais palatáveis, ajustando-o a uma lógica de coesão e continuidade histórica.

Nesse contexto, a arte desempenha um papel ambivalente. Iniciativas como o Inside Out Project devolvem rostos e histórias a sujeitos historicamente silenciados, democratizando a produção da memória e tensionando versões oficiais. Ao mesmo tempo, não estão imunes às dinâmicas contemporâneas de circulação de imagens, nas quais o sofrimento pode ser transformado em uma experiência estética consumível. A potência e o risco coexistem (in)felizmente.

O mesmo vale para a Bienal de Gwangju. Criada no contexto da abertura democrática, a Bienal se consolidou como um dos principais eventos de arte contemporânea da Ásia, frequentemente engajada em debates políticos. Ainda assim, sua inserção no circuito global levanta uma questão incômoda: até que ponto a memória, ao circular internacionalmente, precisa se adaptar às expectativas de um público global? Mais do que “exorcizar” o passado, a arte parece operar em um campo de tensões entre crítica, mercado e visibilidade.

Essa instabilidade não é acidental. Como apontam os estudos do trauma, em autores como Cathy Caruth (1996) e Márcio Seligmann-Silva (2003), experiências extremas resistem à representação plena, retornando de forma fragmentada e insistente. Lembrar, nesse sentido, não é recuperar o passado tal como foi, mas reconstruí-lo a partir de lacunas, silêncios e disputas.

É nesse ponto que a literatura, dentro do campo artístico, ocupa um lugar  tão decisivo. Em Atos humanos, da escritora sul-coreana Han Kang, o levante de Gwangju não é apresentado como uma narrativa linear ou fechada, mas como uma constelação de vozes interrompidas, corpos ausentes e memórias fragmentadas. Ao recusar a totalização, a literatura não apenas representa o trauma, mas o revisita como aquilo que permanece irredutível às versões oficiais.

No entanto, toda política da memória implica escolhas. O que lembrar, como lembrar e, sobretudo, quem tem o direito de lembrar são questões inseparáveis de relações de poder. Como sugere Marianne Hirsch (1997, 2012), a memória não pertence apenas a quem viveu o evento, mas também às gerações posteriores que o herdaram — o que amplia, mas também complexifica, seus modos de transmissão.

Há ainda uma dimensão global incontornável. Enquanto certos eventos históricos, como o Holocausto, ocupam posição central no imaginário internacional, outros, como o levante de Gwangju, permanecem relativamente periféricos. Isso revela que a memória não é apenas preservação, mas também hierarquia: nem toda dor alcança o mesmo grau de reconhecimento.

Diante disso, talvez a questão mais urgente vá além do que a Coreia do Sul escolhe lembrar, concentrando-se no que ainda resiste à lembrança plena: seja por incômodo político, seja por inadequação às formas dominantes de narrar o passado.

Gwangju não é apenas um símbolo da democracia. É também um lembrete de que toda memória é instável, construída e disputada. Entre monumentos, imagens e narrativas, o passado não se fixa, mas sim continua sendo negociado. Nesse sentido, lembrar não é um gesto neutro: é inevitavelmente um ato político.

Referências 

ADJAYE ASSOCIATES. Reel Gwangju [vídeo]. Instagram, [s.l.], 22 nov. 2024. Disponível em: https://www.instagram.com/reels/DCrYlIxtP50/. Acesso em: 11 abr. 2026. 

BARINI, Filipe. Legado democrático: 45 anos depois, Gwangju é marco da resistência à ditadura na Coreia do Sul. O Globo, [s.l.], 8 set. 2025. Disponível em: https://oglobo.globo.com/mundo/noticia/2025/09/08/legado-democratico-45-anos-depois-gwangju-e-marco-da-resistencia-a-ditadura-na-coreia-do-sul.ghtml. Acesso em: 11 abr. 2026 

BIENNIAL FOUNDATION. Gwangju Biennale. Disponível em: https://biennialfoundation.org/biennials/gwangju-biennale/. Acesso em: 11 abr. 2026.

CARUTH, Cathy. Unclaimed Experience: Trauma, Narrative, and History. Baltimore: John Hopkins University Press, 1996.

HAN, Kang. Atos humanos. São Paulo: Todavia, 2021.

HIRSCH, Marianne. Family frames: photography, narrative and postmemory. Cambridge: Harvard University Press, 1997.

HIRSCH, Marianne. The generation of postmemory: writing and visual culture after the Holocaust. New York: Columbia University Press, 2012.

INSIDE OUT PROJECT. Photobooth Gwangju (PT). Disponível em: https://www.insideoutproject.net/pt_BR/explore/photobooth/inside-out-gwangju-south-korea. Acesso em: 11 abr. 2026.

INSIDE OUT PROJECT. Photobooth Gwangju (EN). Disponível em: https://www.insideoutproject.net/en/explore/photobooth/inside-out-gwangju-south-korea. Acesso em: 11 abr. 2026.

INSIDE OUT PROJECT. Projeto em Gwangju amplia memória coletiva. Inside Out Project, 8 nov. 2024. Disponível em: https://www.insideoutproject.net/pt_BR/news/mj. Acesso em: 11 abr. 2026. 

INSIDE OUT PROJECT. Gwangju Memoirs. Disponível em: https://www.mentmagazine.com/issue002/gwangju-memoirs. Acesso em: 11 abr. 2026.

INSIDE OUT PROJECT. Inside Out Gwangju [imagem]. Instagram, [s.l.], 11 out. 2024. Disponível em: https://www.instagram.com/p/DA_T_ubMiqr/. Acesso em: 11 abr. 2026. 

LEINER, Sheila. Bienal de Gwangju busca exorcizar passado violento da Coreia do Sul. O Estado de S. Paulo, São Paulo, 2 nov. 2014. Disponível em: https://www.estadao.com.br/cultura/artes/bienal-de-gwangju-busca-exorcizar-passado-violento-da-coreia-do-sul/. Acesso em: 11 abr. 2026.

SILVA, Estevam. O massacre de Gwangju e a luta inglória por democracia na Coreia do Sul. Opera Mundi, [s.l.], 27 maio 2024. Disponível em: https://operamundi.uol.com.br/pensar-a-historia/o-massacre-de-gwangju-e-a-luta-ingloria-por-democracia-na-coreia-do-sul/. Acesso em: 11 abr. 2026.

SELIGMANN-SILVA, M. (Org.) História, memória, literatura: o Testemunho na Era das Catástrofes. Campinas, SP: Unicamp, 2003.

SOBRE A AUTORA

Maria Gabriela Pedrosa

Doutoranda em Estudos Literários na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), integrante da Curadoria de Estudos Coreanos (CEÁSIA/CEA/UFPE). Interessa-se pela relação entre os estudos literários, a intermidialidade e a memória.

E-mail: mariagpedrosa@gmail.com