por: Thaisa Viana
Imagem: DAPA
Link:https://thedefensepost.com/2026/05/26/south-korea-nuclear-powered-submarines-plan/
Em encontro com a presença do presidente Lee Jae-myung, o Ministro da Defesa Ahn Gyu-back afirmou que “a Coreia do Sul será capaz de desenvolver e construir submarinos nucleares e a própria tecnologia de lançamento de mísseis até metade dos anos de 2030”, marcando o que pode ser classificado como uma nova era na defesa sul-coreana. O sinal de confirmação para a iniciativa veio do aval concedido pelo governo dos Estados Unidos em novembro de 2025, quando o presidente Donald Trump aprovou um tratado comercial e securitário que deixava abertura para a Coreia do Sul iniciar os processos de construção dos submarinos, reprocessamento de combustível e enriquecimento de urânio. Mas, diante do cenário positivo estabelecido, quais são as consequências práticas das decisões? Quais os impactos da medida no processo de desnuclearização da península e nas relações intercoreanas?
A iniciativa de nuclearização da Coreia do Sul não é um projeto novo. Durante a década de 1970, com a administração de Park Chung-hee temendo o desenvolvimento nuclear do Norte, o governo sul-coreano tentou iniciar um programa voltado ao desenvolvimento de uma indústria nuclear mais autônoma em parceria com a França. O projeto, contudo, foi suprimido por pressão dos EUA, que condicionaram sua política de segurança à adesão da Coreia do Sul ao Tratado de Não Proliferação Nuclear (TNP) e à sua incorporação ao guarda-chuva de proteção nuclear estadunidense. A adesão da Coreia do Sul à proteção dos EUA ocasionou uma dificuldade em estabelecer maior autonomia do país frente às suas políticas nucleares e um silenciamento da questão ao longo dos anos.
Contudo, com o desenvolvimento do programa nuclear da Coreia do Norte ao longo dos anos 2000 e com as prioridades estratégicas estadunidenses voltando-se para o Oriente Médio, a Coreia do Sul via-se diante da necessidade de ampliar sua autonomia e assumir maior protagonismo na definição de sua própria segurança, sobretudo nas temáticas nucleares. É nesse contexto que se intensificaram os esforços de lobby junto aos EUA, em uma busca por maior flexibilização das restrições ao desenvolvimento de tecnologias estratégicas consideradas essenciais para ampliar sua capacidade de dissuasão diante da Coreia do Norte e dos desafios impostos pela questão nuclear. Assim como ocorreu no debate sobre a transferência do Controle Operacional em Tempo de Guerra (OPCON) para Seul, lideranças de diferentes espectros políticos empenharam-se ao longo dos anos para manter essas negociações em andamento, garantindo canais abertos para a reavaliação de uma política de defesa menos tutelada pelos EUA.
Embora os esforços tenham se voltado principalmente para o desenvolvimento da propulsão nuclear de submarinos — enquanto a produção de mísseis nucleares permanecia pouco explorada devido às circunstâncias regionais —, foi apenas em 2021 que as demandas de Seul passaram a obter resultados concretos. O relacionamento com o ex-presidente dos EUA, Joe Biden, garantiu a assinatura da Declaração de Washington, que estabeleceu um comitê de planejamento nuclear conjunto, o Grupo Consultivo Nuclear (NCG) e o envio periódico de submarinos nucleares estadunidenses à península coreana. Mesmo com a renovação do comprometimento da Coreia do Sul com o TNP na declaração e a permanência dos EUA como base das políticas de segurança sul-coreanas, o acordo destacava a eliminação de restrições impostas ao desenvolvimento de mísseis sul-coreanos e o retorno das negociações para a transferência da OPCON para a administração da Coreia do Sul. As iniciativas de maior autonomia da Coreia do Sul frente aos EUA pareciam finalmente ter dado frutos e a independência securitária da Coreia do Sul parecia garantida, com o avanço nos diálogos para a transferência do OPCON, a Coreia do Sul se via confiante para buscar o apoio para o desenvolvimento de tecnologias nucleares.
O aval de Trump para o desenvolvimento de submarinos de propulsão nuclear pela Coreia do Sul parece constituir um movimento relativamente orgânico e, em certa medida, esperado tanto por lideranças sul-coreanas quanto estadunidenses, surgindo como consequência de um esforço contínuo de Seul para consolidar e ampliar sua autonomia estratégica. Em um cenário internacional cada vez mais complexo para a liderança sistêmica dos EUA, a Coreia do Sul vê uma oportunidade de finalmente se consolidar como protagonista e responder a seus próprios anseios em relação à Coreia do Norte.
O movimento de buscar mais autonomia em temáticas de segurança por meio do uso da energia nuclear, contudo, também apresenta implicações significativas, especialmente sob a ótica das relações intercoreanas e das dinâmicas de segurança regional. A adoção de políticas mais hostis em relação ao Norte durante o governo de Yoon Suk Yeol, somada ao progressivo afastamento da Coreia do Norte dos mecanismos de diálogo intercoreano — incluindo as discussões sobre reunificação, cada vez menos presentes nas iniciativas e narrativas norte-coreanas —, contribui para um ambiente de crescente desconfiança entre os dois países. Neste contexto, o desenvolvimento de tecnologias nucleares para fins militares pela Coreia do Sul pode ser interpretado por Pyongyang como uma medida hostil. O distanciamento da Coreia do Sul em relação ao Norte, não apenas manifestado nas políticas governamentais diretas, mas também em transformações do próprio cenário político doméstico sul-coreano que têm favorecido a disseminação de narrativas que impulsionam o confronto com o Norte, soma-se ao debate sobre o desenvolvimento nuclear e pode reforçar a percepção norte-coreana de que tais iniciativas constituem uma provocação direta ao país vizinho.
Ademais, há ainda o risco de legitimação da manutenção e do fortalecimento do programa nuclear norte-coreano, uma vez que a consolidação da Coreia do Sul como uma potencial ameaça nuclear concreta, ainda que amparada por sua aliança com os EUA, pode ser utilizada pela Coreia do Norte para justificar a continuidade de sua própria estratégia nuclear. Esse cenário contribui para a perpetuação de uma península cada vez mais nuclearizada, reduzindo as perspectivas de acordos duradouros voltados à desnuclearização efetiva da região e à resolução definitiva das questões remanescentes da Guerra da Coreia.
A relação com os demais países na região e a balança de poder local também é um dos pontos a serem considerados em consequências diretas do desenvolvimento nuclear da Coreia do Sul. Com a perspectiva de uma península desnuclearizada tornando-se cada vez mais distante, as relações com a China — que projeta seu poder na região e mantém vínculos estratégicos com a Coreia do Norte como forma de preservar um equilíbrio de poder regional — e com o Japão — que também se insere no grupo de países potencialmente ameaçados por essa conjuntura e que pode passar a considerar o desenvolvimento autônomo de capacidades nucleares como instrumento de garantia de sua posição estratégica — tendem a tornar-se mais tensas e marcadas pela insegurança.
O cenário, ainda que positivo para a Coreia do Sul no curto prazo, mostra-se incerto e pouco promissor para a região. A paz e a desnuclearização da península parecem, agora, cada vez mais distantes, sendo gradualmente substituídas por projetos de segurança orientados para respostas de curto prazo.
Referências
SHARMA, Abhishek; RAWAT, Rahul. South Korea’s Nuclear Submarines: Deterrence and Risk in Northeast Asia. Observer Research Foundation, 5 fev. 2026. Disponível em: https://www.orfonline.org/expert-speak/so/uth-korea-s-nuclear-submarines-deterrence-and-risk-in-northeast-asia. Acesso em: 28 Mai. 2026.
SINGH, Lakhvinder. S Korea’s nuclear sub made in USA: It’s complicated. Asia Times, 5 nov. 2025. Disponível em: https://asiatimes.com/2025/11/us-based-construction-of-south-koreas-n-sub-its-complicated/. Acesso em: 6 maio. 2026.
ROEHRIG, Terence. The U.S. Nuclear Umbrella over South Korea: Nuclear Weapons and Extended Deterrence. Political Science Quarterly, [S. l.], v. 132, n. 4, p. 651–684, Winter 2017. DOI: 10.1002/polq.12702. Disponível em: https://doi.org/10.1002/polq.12702. Acesso em: 3 jun. 2026.
AFP. South Korea Says It Will Build Nuclear-Powered Submarines at Home. The Defense Post, 26 maio 2026. Disponível em: https://thedefensepost.com/2026/05/26/south-korea-nuclear-powered-submarines-plan/. Acesso em: 5 jun. 2026.
Sobre a autora

Thaisa da Silva Viana
Doutoranda e Mestre em Relações Internacionais pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Especialista em Direito Internacional pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC-Minas). Pesquisadora do LabÁSIA (UERJ), no DataMundi (UERJ) e no LETA – Laboratório de Estudos Transasiáticos, da Universidade Federal do Espírito Santo. Integrante da Curadoria de Estudos Coreanos (CEÁSIA/CEA/UFPE).
Email: thaisa.viana298@gmail.com.