por Bruna Meneghetti Inoue
Imagem: UNESCO Intangible Cultural Heritage
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O teatro é na essência uma ferramenta de transformação social e um espaço para o pensamento crítico. Na Coreia antiga, o teatro de danças de máscaras assumiu um papel relevante, pois, além de estar relacionado aos rituais xamânicos, também assumia uma importante função crítica da época ao satirizar grupos dominantes da sociedade.
Com a oficialização da anexação japonesa do território coreano a partir de 1910, o teatro coreano de danças de máscaras sofreu um processo de apagamento, assim como outros elementos que fortaleciam o senso de identidade e coletividade do povo coreano. Com a instauração das Repúblicas na Coreia do Sul a partir de 19481, é possível observar um movimento de retomada de elementos simbólicos da cultura coreana que se viabilizou por meio de políticas verticais promovidas pelo Estado.
Aqui, destaca-se o período da Terceira e da Quarta República, em que o general Park Chung Hee implementou um conjunto de estratégias baseadas em teorias neoliberais para promover a modernização da economia da Coreia do Sul, durante a década de 1970. Esse conjunto de medidas ficou conhecido como Saemaeul Undong e, sobre os impactos dessas medidas no teatro de danças de máscaras, Kang, Peregrín e Domenech (2023, p. 253, tradução nossa), concluem que:
O governo, por meio do Movimento dos Novos Povos (Saemaul Undong), buscou reconstruir a cultura rural do país, mas, ao mesmo tempo, promoveu a destruição de elementos considerados mera superstição, por serem vistos como obstáculos ao desenvolvimento econômico do país. Esse movimento contrariava crenças tradicionais, como o xamanismo, ou mesmo o teatro de máscaras, devido aos seus componentes religiosos e ritualísticos.
Mais do que retomar a tradição, as políticas verticais adotadas pelo Estado buscaram controlar quais aspectos do teatro de danças de máscaras poderiam ser recuperados e difundidos. Segundo Kang, Peregrín e Domenech (2023, p.253-254), as máscaras do teatro tradicional coreano foram estrategicamente selecionadas e empregadas com fins políticos, situação na qual apenas sua natureza festiva e lúdica foi ressaltada em detrimento dos aspectos críticos desse teatro essencialmente popular.
Diante desse contexto, surgiu nas universidades um movimento de recuperação do teatro de danças de máscaras na sua integridade. Esse movimento foi liderado por grupos de estudantes que se organizavam como grupos teatrais e recuperavam os elementos antes ignorados pelo Estado, dessa forma ressignificando essas máscaras e utilizando esse teatro como uma ferramenta de crítica ao regime político da época. Esses grupos se organizavam de forma independente e o conhecimento sobre o teatro de danças de máscaras era transmitido de um grupo para outro de forma oral, com um grupo ensinando outro grupo de outra universidade. Dessa maneira, o teatro de danças de máscaras se tornou um fenômeno social que marcou a vida universitária sul-coreana na década de 1970.
Segundo Kang, Peregrín e Domenech (2023, p. 259), as primeiras modalidades recuperadas por esses grupos foram a Bongsan Talchum e a Yangju Byeolsandae, que são duas das modalidades que Lee (2025) enquadra no grupo de danças que surgiram no século XVIII EC, quando o teatro de danças de máscaras se semiprofissionalizou e migrou do campo para as cidades.
Por se tratar de um teatro popular que historicamente dialogava com a crítica às classes dominantes da sociedade, o teatro coreano de danças de máscaras recuperado pelo movimento estudantil foi ressignificado no madanggeuk, gênero teatral que começou a se delinear nos anos finais da década de 1960, ganhando força a partir das décadas de 1970 e 1980, períodos marcados pelo regime militar. Sobre isso, Kang, Peregrín e Domenech (2023, p. 260, tradução nossa) comentam que:
À medida que o projeto do movimento estudantil se espalhava pela sociedade, deu origem ao que ficou conhecido como minjung undong (movimento da cultura popular), um dos elementos centrais do qual era o madang (a tradução literal seria “jardim”, mas se refere a um espaço aberto onde as pessoas se reúnem para celebrar), que buscava resgatar o espaço tradicional da performance teatral onde o público e os atores interagiam. O teatro de máscaras, apresentado no madang, foi revivido para transmitir suas reivindicações políticas contra o governo militar. A mensagem social que originalmente carregava foi recuperada, mas desta vez como uma crítica ao poder ditatorial e uma expressão das aspirações pró-democráticas do povo. Dessa tradição, desenvolveu-se um novo movimento criativo, recebendo nomes diferentes dependendo da situação política da época: teatro madang, teatro popular, teatro universitário e teatro operário. Finalmente, todas essas formas foram agrupadas sob o nome geral de teatro madang, sem dúvida o gênero mais representativo dos anos oitenta.
O madanggeuk foi um teatro que surgiu como forma de resistência ao regime autoritário e uma forma de trazer a público as críticas em relação às desigualdades e injustiças sociais e políticas, se configurando em um espaço de debate e diálogo com a população. Segundo Lee (2018), o madanggeuk pode ser dividido em três categorias: o teatro baseado nas danças de máscaras, o teatro centrado na denúncia social e o teatro voltado para o ambiente universitário.
É importante ressaltar que, independentemente da vertente, o madanggeuk estava inserido dentro do Minjung Undong, que foi um movimento popular pela redemocratização que marcou as décadas de 1970 e 1980 e que foi decisivo para a remodelação da cena teatral coreana que vinha sendo inundada de referências europeias a partir da década de 1910, em decorrência da anexação japonesa.

Fonte: 경향신문 (Jornal Gyeonghyang). Disponível em: https://www.khan.co.kr/article/2004 10211554251 Acesso em: 03 maio. 2026
Segundo Lee (2007), o Minjung Undong foi um movimento que buscou estabelecer uma aliança entre intelectuais e o movimento operário, envolvendo também o apoio de estudantes universitários e várias organizações que lutavam pelas questões trabalhistas. Esse aspecto veio a influenciar diretamente o teatro madanggeuk, no qual, como conclui Lee (2007, p. 11, tradução nossa):
Os praticantes de madanggeuk visavam derrubar as barreiras usuais entre trabalho e lazer, produtor e consumidor, trabalhador e intelectual. Operários, agricultores, mulheres, indivíduos de camadas menos abastadas do meio urbano e intelectuais deveriam ser tanto produtores quanto consumidores de madanggeuk, expressando as aspirações e preocupações de suas vidas diárias em uma teia perfeita de trabalho e diversão.
Enquanto o Estado retomou as máscaras tradicionais por meio de políticas verticais e controladas, sua recuperação pela luta estudantil consolidou-se a partir de medidas horizontais, da força da coletividade e da reapropriação crítica dessas práticas. Desta forma, é possível concluir a importância dos grupos de teatro estudantil e sua luta contra o regime ditatorial na ressignificação das máscaras do teatro coreano na contemporaneidade.
Referências
KANG, Eun Kyung; PEREGRÍN, F. Manuel Montalbán; DOMENECH, Antonio J. Teatro de máscaras coreano – Korean Mask Theater. Estudios de Asia y Africa, [S. l.], v. 58, n. 2, p. 243-272, maio-agosto 2023
LEE, Meewon. Madangguk: The Contemporary Theatrical Genre with the Traditional Heritages: Study on the conditions for ‘the recognition’ in the Korean Theatre in 1980’s. 한국예술연구 2018 영문특집호 제1호, [S. l.], p. 105 – 141, fevereiro 2018.
LEE, Meewon. Modernization of Korean theatre in the 20th century. Nova York: Routledge, 2025. 238 p.
LEE, Namhee. The Making of Minjung: Democracy and the Politics of Representation in South Korea. [S. l.]: Cornell University Press, 2007. 368 p.
SOBRE A AUTORA

Bruna Meneghetti Inoue
Graduada em Licenciatura em Letras pela Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP), possui formação técnica em Teatro e foi selecionada para o programa de verão da The Academy of Korean Studies (AKS), na Coreia do Sul. É membro do Grupo de Estudos Cena Teatral (USP), integrante da Curadoria de Estudos Coreanos (CEÁSIA/CEA/UFPE) e pesquisa teatro coreano tradicional e contemporâneo, performance e cultura pop coreana.
E-mail: clubedecoreano@gmail.com
- Com o fim da anexação japonesa, em 15 de agosto de 1945, a península da Coreia foi dividida na altura do paralelo 38º, ficando a porção norte sob a ocupação da então União Soviética e a porção sul sob a ocupação dos Estados Unidos. O período que se seguiu foi marcado por intensa agitação política na península coreana. Em 15 de agosto de 1948, foi estabelecida, na porção sul, a República da Coreia, dando início à Primeira República, sob a presidência de Syngman Rhee (1875-1965). Poucos dias depois, em 9 de setembro de 1948, a porção norte estabeleceu oficialmente a República Popular Democrática da Coreia, sob a liderança de Kim Il Sung (1912-1994). ↩︎