por Clara Menezes
Créditos da capa: Netflix [https://occ-0-8407-2218.1.nflxso.net/dnm/api/v6/9pS1daC2n6UGc3dUogvWIPMR_OU/AAAABUdrS-n4PStA7nVfbFn4WID2K9ztTNiUeeUMwQX5o5g_8HJDY5z-QzygPojCaSAFJL3fT05zK7SVCTi2V6y3CKQ-lbxIbB_h9ZEAuxPwOp765Gd-_ejcNA9W9A.jpg?r=5df]
“Eu, você e toda uma vida” apresenta o maior conflito da trama logo no início: Cheon Sang-yeon (Park Ji-hyun) está com câncer terminal e pede à amiga de longa data, Yoo Eun-jung (Kim Go-eun), para acompanhá-la até a Suíça, onde quer realizar o procedimento de morte assistida. As duas se conheceram na infância e agora, aos 40 e poucos anos, mantêm uma relação marcada por décadas de amor, raiva e desentendimentos.
Em uma narrativa que percorre diferentes momentos da vida — a infância, a juventude e a fase adulta —, elas desafiam as fronteiras entre amor e ódio, respeito e inveja, obrigando os espectadores a questionar: o que nos conecta aos outros? Será que o amor é suficiente para sustentar uma relação? Ou o ódio também é importante nesse estranho laço que nos une? Por que parecemos orbitar perto de algumas pessoas, mesmo quando a distância parece a escolha mais saudável? Qual o valor das memórias que construímos e das escolhas que fazemos perante a chegada da morte?
Dirigido por Jo Young-min e escrito por Song Hye-jin, o drama constrói personagens complexos e frustrantes, cheios de falhas, contradições e atitudes que beiram o detestável, na mesma medida em que geram empatia e curiosidade. Sang-yeon nasceu em uma família rica que posteriormente declara falência. Ela cresceu sentindo falta de acolhimento dos pais e percebe cedo que, para ser reconhecida, precisa ser bem-sucedida. Já Eun-jung, vinda de uma família pobre, recebe amor e apoio incondicional. Essas diferentes experiências de vida moldam as personalidades e as percepções delas: enquanto Sang-yeon, movida pela inveja e pelo medo de ser incompreendida, constantemente se distancia para esconder sua vulnerabilidade, Eun-jung mantém o coração aberto e se entrega com facilidade às pessoas ao seu redor.
Durante os episódios, Sang-yeon muitas vezes toma atitudes contraditórias com a amiga. Com uma tendência a ser egoísta, seja na vida amorosa, na profissão ou até mesmo nos hobbies, ela é uma personagem que incita a raiva do público. Mas é sempre importante ter em mente que a história é narrada sob a perspectiva de Eun-jung, tornando difícil compreender as motivações e o ponto de vista de Sang-yeon.
Com um fim inevitavelmente trágico, “Eu, você e toda uma vida” traz um olhar profundo sobre os relacionamentos em uma época em que tudo parece superficial demais. Distante de um discurso dicotômico entre certo e errado, no qual o menor erro é suficiente para cortar vínculos, a série se opõe a essa aparente facilidade de criar e desfazer laços. Distanciar-se de alguém exige esforço e convicção. E, quando essa pessoa retorna à nossa vida, seja por acaso ou intencionalmente, todas as emoções também voltam. Porque somos humanos. Porque somos seres afetuosos.
Apesar de captar a complexidade das relações, a série tropeça em algumas questões. A principal delas é o fato de que um dos distanciamentos entre Sang-yeon e Eun-jung é causado devido a um homem por quem ambas se apaixonam. A trama se alonga nesse conflito, reforçando o clichê de uma rivalidade feminina provocada por interesses amorosos. Isso, porém, pouco acrescenta à história, que teria se mantido a mesma se não fosse pela interferência de Kim Sang-hak, interpretado por Kim Gun-woo. Apesar dessa parte do roteiro, há algo que salta aos olhos: no fim, elas continuam a escolher uma à outra, apesar e por causa de tudo.
Esta crítica, entretanto, não ofusca a força de “Eu, você e toda uma vida”, que continua sendo uma narrativa intensa sobre amor, inveja e vulnerabilidade ao retratar os laços que escolhemos manter todos os dias, porque eles fazem parte de nós mesmos, com sua dor e alegria. E permanece, acima de tudo, uma história sobre as inevitáveis emoções de estar vivo neste mundo, e sobre o direito de morrer com dignidade, ao lado de quem compartilhamos os anos de nossa vida.
SOBRE A AUTORA:

Mestranda em Ciências Sociais pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), é integrante da Curadoria de Estudos Coreanos. Pesquisa na área de sociologia da literatura, com foco na obra de Han Kang. E-mail: mclaracmenezes@gmail.com.