por Clara Menezes
Foto: Heike Steinweg – Frankfurter Rundschau
A literatura sul-coreana e de diáspora está se tornando cada vez mais popular no Brasil. Basta fazer uma breve pesquisa para encontrar nomes que, em pouco tempo, tornaram-se referência entre os leitores: Han Kang (“A Vegetariana”), Min Jin Lee (“Pachinko”), Cho Nam-joo (“Kim Jiyoung, nascida em 1982”) e Sohn Won-pyung (“Amêndoas”)1 estão entre as mais populares. Mas, também, há os escritores que lideram o fenômeno de “literatura de cura” do mercado nacional, como Hwang Bo-reum (“Bem-vindos à Livraria Hyunam-Dong”), Kim Ho-yeon (“A inconveniente loja de conveniência”), Baek Se-hee (“Queria morrer, mas no céu não tem tteokbokki”) e muitos outros.
Há, porém, uma autora que parece ter ficado para trás da onda literária. Não por causa da qualidade de sua escrita, porque ela talvez seja uma das grandes escritoras contemporâneas da Coreia do Sul. Mas, provavelmente, porque seus livros foram traduzidos no Brasil antes das publicações sul-coreanas ganharem maior popularidade internacionalmente, porque suas obras não foram publicadas pelas grandes editoras que, muitas vezes, definem os títulos mais comentados no país, e porque seus títulos não receberam premiações internacionais que costumam chamar atenção do mercado brasileiro. A escritora é Bae Su-ah, que publicou livros como “Sukiyaki de Domingo”, pela Estação Liberdade, e “Noites e dias desconhecidos”, pela DBA Editora.
Além de um marco no mercado editorial por ter sido o primeiro título traduzido diretamente do coreano para o português, “Sukiyaki de Domingo” é um romance que critica a estrutura patriarcal e capitalista do mundo em que vivemos. Com uma narrativa não linear, na qual cada capítulo pode ser lido individualmente, a autora lança um olhar para as pessoas da classe trabalhadora que destoam de uma imagem de sucesso, mas que vivem em um cotidiano de escassez, igualmente necessário para manter as engrenagens do capitalismo funcionando. Infelizmente, é uma obra que não está mais disponível para vendas — não está na Amazon, nem no site da Estação Liberdade. Há alguns disponíveis na Estante Virtual, plataforma digital de comércio para livreiros e sebos, e, se você tiver sorte, como eu tive, pode encontrar um exemplar em alguma biblioteca.
Há também “Noites e dias desconhecidos”, que pode ser adquirido com maior facilidade. O livro tem um tom surrealista e onírico, no qual o leitor não sabe definir onde termina a realidade e onde começa o sonho. Entretanto, há uma história que guia toda a narrativa, diferentemente de “Sukiyaki de Domingo”: nela, a atriz Ayami está no seu último dia de trabalho em um teatro para pessoas cegas e inicia uma jornada por Seul. Enquanto anda pela cidade com seu ex-chefe em busca de reencontrar uma amizade antiga, conversam sobre tudo. Porém, a autora mescla os pontos de vista dos personagens e conduz os leitores por uma narrativa que troca a ordem da realidade pelo caos dos sonhos.
Bae Su-ah aposta na experimentação durante a escrita ao trazer mudanças abruptas de perspectiva, ao não se incomodar em explicar frases e expressões que (apenas) parecem ter aparecido de repente e ao recorrer a uma visão introspectiva sobre os acontecimentos que afetam os personagens. É, portanto, autoexplicativo que ela, em seu trabalho como tradutora do alemão para o coreano, tenha traduzido autores como Franz Kafka, Fernando Pessoa e, inclusive, Clarice Lispector (LTI Korea, [s.d.]).
A autora, porém, teve um difícil início de carreira na literatura, porque muitos críticos a consideravam “pouco coreana”. Diferentemente de uma escrita concisa, com temas sociais evidentes, ela escreve frases longas e foca na individualidade. “Eu não sou uma escritora que escreve em um coreano bonito e refinado. Quando comecei a escrever, não estava bem preparada e, até hoje, acho que não escrevo frases muito boas, mas ultimamente as pessoas estão menos críticas”, disse ela em entrevista ao The Guardian (Ashby, 2020). Já em conversa ao Three Wise Monkeys (Sylvian, 2014), a autora também opinou sobre a receptividade de seu trabalho na Coreia do Sul: “minha escrita pode parecer muito individualista. Os coreanos gostam de consenso emocional. Eles vivem fiéis aos seus desejos, mas, ao defender alguma causa, sempre dão importância a esse valor. O mesmo acontece na literatura”.
Com um olhar para as dores individuais do mundo contemporâneo, como a solidão, a violência e o trauma, além de constantemente focar em personagens que estão à margem da sociedade, Bae Su-ah já publicou muitos outros textos. E estes, espero que sejam descobertos pelo mercado editorial brasileiro. Entre os não traduzidos para o português estão “A Greater Music” (2016), que conta a história de uma jovem escritora coreana que, ao cair em um rio em Berlim, recorda histórias do passado, sua relação com o namorado Joachim e as experiências de mudar-se para a Alemanha; “Milena, Milena, Ecstatic” (2019), que acompanha um cineasta que recebe uma proposta de uma fundação para produzir um documentário sobre uma garota em busca da mãe que a abandonou durante a infância; e “Nowhere To Be Found” (2015), sobre uma narradora não identificada que procura um significado para a própria vida enquanto recorda memórias sobre família, relacionamentos e trabalho.
Bae Su-ah utiliza majoritariamente personagens femininas, e esta escolha é intencional, como comentou em entrevista para o The White Review:
Na maioria dos casos, tenho uma intenção clara quando escolho uma protagonista feminina. São mulheres que se recusam ou não conseguem ter seu próprio lugar na sociedade tradicional. Eu amo essas mulheres. Mulheres que não podem ter status social garantido pelo casamento, ou mulheres que se recusam a se casar para obtê-lo; mulheres que não se reprimem por causa de seus pais ou irmãos; mulheres que, como resultado de suas personalidades independentes, são solitárias e enfrentam problemas financeiros. Mulheres que seguem seu próprio caminho de acordo com sua própria teimosia e que não têm medo de fazê-lo. Tenho muito interesse nessas vidas. E, portanto, planejo escrever sobre essas mulheres também no futuro. Desejo dotá-las de um status estético por meio da minha ficção. E quero fazê-las cruzar uma certa fronteira que eu mesma não consegui cruzar porque minha bravura foi insuficiente. Desejo que elas sejam mais fortes do que eu (Smith; Bae, 2017).
Apesar da conexão com protagonistas e narradoras mulheres, a autora não se considera muito envolvida com política, nem define sua literatura como feminista, mas carrega um compromisso com a imaginação e com a observação acerca da vida. Ela trabalha, neste sentido, com o grotesco que se insere nos costumes, na sociedade e nas relações humanas (Sylvian, 2014) — e mostra como esse elemento contribui para a instabilidade emocional e a solidão presente no cotidiano.
Com uma obra literária conectada ao onírico, Bae Su-ah desafia as fronteiras entre as vidas vividas e as vidas sentidas. Talvez, em um mundo tão acelerado, o que precisamos seja uma experiência de leitura que rompe com o real e convida ao tempo da subjetividade.
REFERÊNCIAS
ASHBY, Chloe. Bae Suah: ‘I was practising my typing and wrote my first story by accident’. The Guardian, Londres, 27 jan. 2025. Disponível em: https://www.theguardian.com/books/2020/jan/27/bae-suah-i-was-practising-my-typing-and-wrote-my-first-story-by-accident. Acesso em: 15 out. 2025.
BAEK, Sehee. Queria morrer, mas no céu não tem tteokbokki. São Paulo: Intrínseca, 2023.
BAE, Su-ah. A greater music. Nova Iorque: Open Letter, 2016.
BAE Su-ah (배수아) | Digital Library of Korean Literature. LTI Korea, [s.d.]. Disponível em: https://library.ltikorea.or.kr/writer/200064. Acesso em: 15 out. 2025.
BAE, Su-ah. Milena, Milena, Ecstatic. Norwich: UEA Publishing Project, 2018.
BAE, Su-ah. Nowhere to be found. Seattle: Amazon Crossing, 2015.
BAE, Su-ah. Sukiyaki de domingo. São Paulo: Estação Liberdade, 2014.
BAE, Su-ah. Noites e dias desconhecidos. São Paulo: DBA Literatura, 2021.
CHO, Nam-Joo. Kim Jiyoung, nascida em 1982. São Paulo: Intrínseca, 2020.
HAN, Kang. A vegetariana. São Paulo: Todavia, 2018.
HWANG, Bo-reum. Bem-vindos à Livraria Hyunam-dong. São Paulo: Intrínseca, 2023.
KIM, Ho-yeon. A inconveniente loja de conveniência. São Paulo: Intrínseca, 2024.
LEE, Min Jin. Pachinko. São Paulo: Intrínseca, 2018.
SMITH, Deborah; BAE, Su-ah. Interview with Bae Suah. The White Review, Londres, mar. 2017. Disponível em: https://www.thewhitereview.org/feature/interview-bae-suah/. Acesso em: 15 out. 2025.
SOHN, Won-Pyung. Amêndoas. São Paulo: Intrínseca, 2021.
SYLVAN, Gabriel. Writing Against the Establishment’s Grain – A conversation with Bae Su-ah. The Three Wise Monkeys, Seul, 13 dez. 2014. Disponível em: http://thethreewisemonkeys.com/2014/12/13/writing-against-the-establishments-grain-a-conversation-with-bae-su-ah/. Acesso em: 15 out. 2025.
SOBRE A AUTORA:

Mestranda em Ciências Sociais pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) é integrante da Curadoria de Estudos Coreanos. Pesquisa na área de sociologia da literatura, com foco na obra de Han Kang. E-mail: mclaracmenezes@gmail.com.
NOTAS:
- A literatura de cura foi um gênero recentemente criado pelo mercado editorial para definir histórias ambientadas em lugares aconchegantes, como livrarias, bibliotecas e cafeterias, e que trazem mensagens de conforto aos leitores. Sohn Won-pyung, autora de “Amêndoas”, é considerada um dos grandes nomes desse recente movimento literário. Mas, como ela mesma disse em entrevista ao O Globo em 2024, seu livro não tinha a intenção de curar alguém, porque foi inspirado em suas experiências pessoais. Apesar disso, ela reconhece que “O Impulso”, seu outro título, pode ser considerada uma obra do gênero. Mais informações estão no link da matéria: https://oglobo.globo.com/cultura/noticia/2024/09/13/queridinha-do-bts-autora-de-amendoas-lanca-novo-romance-na-bienal-do-livro-e-questiona-rotulo-ficcao-de-cura-nao-quero-salvar-ninguem.ghtml ↩︎