Por Mariana Mello Alves de Souza

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“O Bom Filho” (종의 기원) é um romance de suspense psicológico narrado em primeira pessoa pelo protagonista Han Yu-jin, um jovem que teve seu futuro promissor como nadador interrompido pela epilepsia. Publicado originalmente na Coreia do Sul em 2016 pela editora 은행나무 e traduzido para o português por Jae Hyung Woo e publicado no Brasil pela editora Todavia em 2019, a narrativa da autora Jeong Yu-Jeong tem início com Yu-jin acordando em meio a um mistério inquietante: ele encontra sua mãe morta na casa onde vivem, mas sua memória do ocorrido está destruída, possivelmente pela própria condição neurológica. A partir daí, a autora desenvolve um enredo complexo que alterna entre o presente e os flashbacks da infância de Yu-jin, explorando os traumas familiares, sua relação com o irmão adotivo Kim Hae-jin, as manipulações mentais e a psicopatia do personagem. Segundo Osborne (2018, p. 1)1, “este é um livro de perguntas. É também um livro de mistério, mas boa parte dele consiste em Yu-jin falando consigo mesmo, tentando descobrir o que está acontecendo”.

A construção do protagonista é destacada na obra pela sua intrincada personalidade, cuja aparente normalidade esconde um comportamento predatório e psicótico. A autora usa a fragmentação da memória e os flashbacks não só para desvendar o mistério do crime, mas para proporcionar uma análise profunda da mente perturbada de Yu-jin, tornando o livro um exercício focado na psicologia humana, especialmente nos impactos do controle opressivo materno e das relações familiares tóxicas. O leitor é levado a uma ambiguidade moral, questionando a confiabilidade da narrativa, pois Yu-jin manipula suas próprias memórias e sua versão dos fatos. Para Varma (2019, p. 1)2:

Ao mergulharmos na toca do coelho, virando as páginas sombrias de sua mente e do diário de sua mãe, que nos leva de sua infância à idade adulta, quando ele está prestes a ingressar na faculdade de direito, nos deparamos com sua ‘verdadeira natureza’.

O livro também é apreciado por público e crítica por seu ritmo intenso e sua habilidade em manter a tensão narrativa, apesar de algumas críticas quanto ao detalhamento excessivo em certas partes. É um thriller que alia suspense com drama humano, revelando os mecanismos internos de uma família marcada por complicações psicológicas e sociais, em um contexto sul-coreano contemporâneo discutido sutilmente no pano de fundo da história. A ambientação cultural, ainda que não seja o foco central da narrativa, contribui para a construção de um cenário que reforça os dilemas individuais e coletivos, permitindo ao leitor compreender como fatores sociais e familiares se entrelaçam na formação da subjetividade dos personagens.

A autora, Jeong Yu-Jeong, demonstra grande habilidade em explorar os limites entre realidade e percepção, utilizando recursos narrativos que intensificam a dúvida e a ambiguidade. O protagonista é construído de forma complexa, revelando gradualmente suas fragilidades, traumas e contradições, o que confere à obra uma dimensão psicológica que ultrapassa o mero enredo policial. Neste sentido, o romance pode ser interpretado como uma investigação não apenas de um crime, mas da própria mente humana, expondo os mecanismos da memória, da repressão e da culpa.

Além disso, a narrativa dialoga com questões universais, como a herança familiar, a pressão social e os efeitos da violência psicológica, ao mesmo tempo em que mantém o leitor em constante estado de alerta. O uso de descrições minuciosas, embora alvo de críticas por leitores e críticos literários, pode ser visto como uma estratégia literária para intensificar a atmosfera claustrofóbica e a sensação de aprisionamento que permeia a obra. Essa escolha estilística reforça a ideia de que o verdadeiro suspense não reside apenas na resolução do mistério, mas na revelação gradual das camadas emocionais e cognitivas que compõem os personagens.

Em síntese, “O Bom Filho” é uma obra que transcende o simples mistério policial para apresentar um estudo psicológico profundo, com uma escrita que prende o leitor e convida à reflexão sobre a natureza da mente, a memória e os laços familiares problemáticos. Trata-se de um romance que, ao mesmo tempo em que entretém pelo suspense, também provoca inquietação intelectual ao expor os limites da racionalidade e da moralidade em situações extremas. Desta forma, a obra de Jeong Yu-Jeong consolida-se como uma contribuição significativa para o gênero thriller psicológico contemporâneo, oferecendo ao público não apenas uma narrativa envolvente, mas também uma oportunidade de reflexão crítica sobre os dilemas humanos universais.

Referências

JEONG, Yu-Jeong. O Bom Filho. Tradução: Jae Hyung Woo. São Paulo: Todavia, 2019.

OSBORNE, J. David. The Good Son by You-Jeong Jeong. World Literature Today, 2018. Disponível em: https://www.worldliteraturetoday.org/2018/july/good-son-you-jeong-jeong. Acesso em: 24 nov. 2025.

VARMA, Anuradha. Book review: The Good Son by You Jeong Jeong. The Indian Express, 26 maio. 2019. Disponível em: https://indianexpress.com/article/lifestyle/books/book-review-good-son-you-jeong-jeong-5747877. Acesso em: 24 nov. 2025.

SOBRE A AUTORA

Mariana Mello Alves de Souza

Doutoranda em Estudos Literários pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) e integrante da Curadoria de Estudos Coreanos. Pesquisa na área de tradução literária, com foco na poesiacanto coreana clássica.

E-mail: mello.mariana@live.com.

  1. Tradução da autora. No original: “This is a book of questions. It’s a book of mystery, too, but a good portion of it consists of Yu-jin talking to himself, trying to figure out what’s going on”. ↩︎
  2. Tradução da autora. No original: “As you go down the rabbit hole, turning the dark pages of his mind and his mother’s journal, which takes us from his childhood to adulthood as he stands at the threshold of law school, we come face to face with his ‘true nature’”. ↩︎