Autora: Bruna Meneghetti Inoue
Imagem: de autoria própria
Publicada pela editora HarperCollins em 2023, a graphic novel “Vozes Amarelas”, do ilustrador amarelo-brasileiro Monge Han, mobiliza uma abordagem sensível para tratar de questões centrais ao debate sobre a construção da experiência de pessoas amarelas no Brasil. A partir de suas vivências como descendente de coreanos no país, Han reúne cinco narrativas em quadrinhos que atravessam temas como memória familiar, identidade, racialização e pertencimento.
Ao abordar experiências atravessadas por memória familiar, deslocamento e racialização, a obra se insere em um debate ainda pouco visibilizado no Brasil. Segundo Komino, Yamamoto e Ichikawa (2024), com base no Censo do IBGE de 2022, apenas 0,4% da população brasileira se autodeclara amarela. Embora numericamente reduzido, esse contingente suscita questões fundamentais sobre pertencimento, identidade e sobre os modos pelos quais sujeitos amarelos se percebem e são percebidos em relação à branquitude.
A presença amarela no Brasil remonta ao século XIX, quando os primeiros chineses desembarcaram no país em navios portugueses, em um contexto marcado pela atuação colonial portuguesa em territórios como Macau. Ao longo do tempo, porém, os amarelos foram frequentemente percebidos como populações imigrantes menos desejáveis do que os imigrantes europeus, especialmente a partir da ótica de políticas eugenistas voltadas ao branqueamento da população brasileira. Durante a Era Vargas, esse imaginário foi reforçado pela circulação da teoria do “perigo amarelo”, que passou a incidir de maneira mais explícita sobre a vida das comunidades asiáticas no país.
A imagem dos povos amarelos foi historicamente construída a partir do olhar da branquitude, que os reduziu a uma série de estereótipos e representações homogeneizantes. Nesse processo, traços físicos, modos de falar, costumes e comportamentos associados a pessoas amarelas são frequentemente transformados em objeto de piada, reforçando formas de violência simbólica e apagamento identitário.
Como efeito, diferentes identidades culturais asiáticas acabam condensadas em categorias genéricas e pejorativas, como “japa”. Nas histórias “Criança Amarela” e “Criança Colorida”, Monge Han problematiza esse imaginário ao articular a experiência da racialização amarela a outras camadas, como a fetichização e as especificidades de ser uma pessoa amarela LGBTQIAPN+. Esta problemática aparece de forma explícita em um trecho de “Criança Amarela” (p. 75), no qual o narrador questiona a homogeneização imposta às crianças asiáticas:
“Com o tempo percebi que eu e outras crianças asiáticas éramos chamados do mesmo jeito: JAPA. Éramos mesmo todos iguais? Por que não tínhamos direito de ter um nome cada um?”
Komino, Yamamoto e Ichikawa (2024) chamam a atenção para a forma como a branquitude opera a manutenção de seus privilégios mobilizando, entre outros mecanismos, o imaginário da “minoria modelo”. O conceito refere-se ao estereótipo que atribui a grupos amarelos características supostamente naturais, como disciplina, inteligência, obediência, dedicação ao trabalho e sucesso. Embora, à primeira vista, essa representação possa parecer positiva, ela reduz sujeitos amarelos a traços fixos, apaga a diversidade de suas experiências e, ao estabelecer a figura de uma “minoria exemplar”, também pode ser instrumentalizada para reforçar hierarquias raciais e justificar o racismo dirigido a outros grupos racializados, como negros e indígenas.
Nesse sentido, “Vozes Amarelas” se revela uma obra importante tanto para leitores amarelos quanto para não amarelos, ao convidar à reflexão sobre a racialização amarela e sobre o lugar que essas discussões ocupam na luta antirracista no Brasil. Ao articular memória, identidade, violência simbólica e pertencimento, Monge Han produz uma narrativa que não apenas nomeia experiências frequentemente silenciadas, mas também reivindica para sujeitos amarelos um lugar de fala e de reconhecimento no debate racial brasileiro. Assim como cita Monge Han (p. 19):
“[…] espero que este trabalho ajude um pouquinho você, pessoa amarela, a se enxergar e, concordando ou não com meu ponto de vista, entender a realidade de que, se você é amarelo, você é, sim, racializado. E se entender como tal é o primeiro passo para entender melhor nosso lugar na sociedade e no nosso papel na luta antirracista, tão necessária no nosso país, bem como em nós mesmos.”
REFERÊNCIAS
KOMINO, Aline Chima; YAMAMOTO, Gabriel do Carmo; ICHIKAWA, Elisa Yoshie. QUEM PARTICIPA DO JOGO DA BRANQUITUDE? Do perigo ao privilégio amarelo. Caos, [S. l.], v. 2, n. 33, p. 175-198, 18 jun. 2024. Disponível em: https://periodicos.ufpb.br/index.php/caos/article/view/70480. Acesso em: 19 jun. 2026.
HAN, Monge. Vozes Amarelas. Rio de Janeiro: HarperCollins, 2023. 159 p.
Sobre a autora

Bruna Meneghetti Inoue
Graduada em Licenciatura em Letras pela Universidade Estadual de Campinas (2024), atualmente pesquisa o teatro coreano de danças de máscaras e também o teatro coreano contemporâneo.
E-mail: clubedecoreano@gmail.com