por: Thaisa Viana
Fonte: Reuters e The Guardian
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A nona eleição local para a escolha de governadores e prefeitos das 17 administrações governamentais na Coreia do Sul foi realizada no dia 3 de junho de 2026. Na eleição, são escolhidos governantes para uma Cidade Especial 一 sendo a capital do país Seul 一, cidades metropolitanas, uma cidade autônoma especial (Sejong), oito províncias e duas províncias autônomas especiais. Com a fusão da administração da província de Jeolla do Sul e de Gwangju a partir de 1 de julho de 2026, agora ficam resumidas as escolhas para apenas 16 regiões administrativas.
Os resultados favoráveis ao Partido Democrático da Coreia (DPK), legenda do atual presidente Lee Jae-myung, que conquistou 12 das 16 administrações locais em disputa, mostraram-se relativamente tímidos frente à reeleição do prefeito de Seul, Oh Se-hoon, representante do conservador Partido do Poder Popular (PPP). A manutenção do controle sobre Seul, principal centro político, econômico e demográfico do país, sugere a permanência dos partidos ultraconservadores e de suas capacidades de mobilização eleitoral, apesar dos desgastes após a crise política que culminou no impeachment do ex-presidente Yoon Suk Yeol.
As falas do presidente do DPK mostram preocupação do governo frente à derrota simbólica. Jung Chung-rae, ainda que reconhecendo a vitória do DPK em números com a retomada de todas as regiões anteriormente administradas pelo PPP, inclusive em redutos historicamente mais conservadores como Busan, afirma que “o partido democrata falhou em retomar Seul”, reconhecendo a importância da vitória do PPP na região. Oh Se-hoon, por sua vez, adotou um discurso de vitória mais moderado, afirmando que “os princípios democráticos foram checados e balanceados”, em uma clara tentativa de se desvincular das narrativas antidemocráticas associadas ao histórico de seu partido.
Para além da divisão política nas urnas nos seus resultados, as eleições também foram marcadas por mobilizações e protestos populares. Em maio de 2026, um mês antes das eleições, protestos favoráveis e contrários à rede de cafeterias Starbucks ocuparam as ruas de Seul e dominaram o debate público. Na ocasião, o lançamento do “Tank Day” — campanha promocional em que a franquia oferece cafés em tamanhos maiores — coincidiu com o aniversário do Massacre de Gwangju, ocorrido em 18 de maio de 1980. Além disso, a campanha utilizou um slogan que remetia a um dos episódios de tortura mais emblemáticos da Coreia do Sul durante o período ditatorial da década de 1980. A controvérsia provocou uma forte polarização social entre grupos críticos à ditadura e demais formas de revisionismo histórico e setores mais conservadores, que chegaram a compartilhar montagens do ex-ditador sul-coreano Chun Doo-hwan em apoio à franquia de café.
Além do episódio, a escassez de cédulas eleitorais em algumas zonas de votação em Seul ocasionou protestos de mais de 35 horas no local. O presidente Lee e os dois principais partidos políticos na disputa eleitoral exigiram a apuração de responsabilidades e garantiram para a população a transparência e funcionalidade dos processos eleitorais. Apesar do esforço das autoridades, o movimento não garantiu o apaziguamento de parte dos protestantes que pediam a retirada do chefe da comissão nacional eleitoral. Em mobilizações nas redes sociais, sobretudo no YouTube, o discurso de fraude eleitoral e a convocação de novas eleições se multiplicam e colocam a democracia sul-coreana mais uma vez em destaque.
Os dois episódios são relevantes na medida em que permitem observar o atual cenário político da Coreia do Sul em âmbito social, exemplificando como a mobilização da extrema direita se perpetua no país e vem se reorganizando diante do desgaste político provocado pela tentativa de golpe de 3 de dezembro de 2024. As estratégias de mobilização e recrutamento on-line, os protestos, a associação com pautas da extrema direita estadunidense e a desconfiança em relação aos processos eleitorais parecem ter transformado a política sul-coreana, tornando-se elementos organicamente integrados ao ethos político do país.
Referências
HANKOOK ILBO. Far-right Koreans rally around Starbucks, use AI-generated dictator to promote coffee chain. The Korea Times, Seoul, 21 maio 2026. Disponível em:https://www.koreatimes.co.kr/southkorea/others/20260521/far-right-koreans-rally-around-starbucks-use-ai-generated-dictator-to-promote-coffee-chain. Acesso em: 6 jun. 2026.
KIM, Heejin. South Korean protesters keep calling for re-run of election after ballot shortage. Reuters, Seoul, 6 jun. 2026. Disponível em: https://www.reuters.com/world/asia-pacific/south-korean-protesters-keep-calling-re-run-election-after-ballot-shortage-2026-06-06/. Acesso em: 6 jun. 2026
RASHID, Raphael. How a Starbucks marketing stunt spiralled into mass boycotts in South Korea. The Guardian, London, 6 jun. 2026. Disponível em: https://www.theguardian.com/world/2026/jun/06/starbucks-south-korea-tank-day-promotion-blunder. Acesso em: 6 jun. 2026.
SHIM, Kyu-seok; LEE, Joyce. South Korea Lee’s ruling party sweeps local elections, but loses Seoul mayor race. Reuters, Seul, 3 jun. 2026. Disponível em: https://www.reuters.com/world/asia-pacific/south-korea-ruling-party-sweeps-most-seats-local-elections-faces-losing-seoul-2026-06-03/. Acesso em: 6 jun. 2026.
Sobre a autora

Thaisa da Silva Viana
Doutoranda e Mestre em Relações Internacionais pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Especialista em Direito Internacional pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC-Minas). Pesquisadora do LabÁSIA (UERJ), no DataMundi (UERJ) e no LETA – Laboratório de Estudos Transasiáticos, da Universidade Federal do Espírito Santo. Integrante da Curadoria de Estudos Coreanos (CEÁSIA/CEA/UFPE).
Email: thaisa.viana298@gmail.com.