Não é novidade que a Coreia do Sul é o país membro da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) com a maior disparidade salarial entre gêneros. Para a OCDE, essa disparidade é definida e calculada a partir da diferença entre os rendimentos médios de homens e mulheres, em relação aos rendimentos médios dos homens (OECD, Gender Wage Gap).
Fórmula do Cálculo da Disparidade de Gênero segundo a OCDE
O presente artigo de opinião busca abordar a persistência nos dias de hoje da desigualdade salarial entre homens e mulheres em território sul-coreano, algo que desencadeia em uma desigualdade de gênero nos recebimentos de pensão na velhice. Há, então, uma necessidade de melhor recolhimento de dados e publicização desses, em relação às rendas de homens e mulheres, assim como um olhar conectado para melhor desenvolvimento de políticas públicas efetivas. Nesse sentido, pelos dados obtidos pela Organização até 2023, a Coreia do Sul configura uma disparidade salarial de 29,3%, a maior dentre seus membros e mais que o dobro da média geral dos membros de 11,3% (OECD, Gender Wage Gap). Isso quer dizer que as mulheres sul-coreanas recebem cerca de 29,3% menos em termos de salários que seus colegas homens. De acordo com o The Korea Times (Lee, 2025), para cada 1 milhão de wons recebidos por um homem, uma mulher recebe 707.000 wons.
Esses dados mostram um tímido avanço em relação ao ano de 2022, quando a diferença estava em 31,2% (Lee, 2024). Porém, a falta de dados governamentais e enquadramentos estatísticos claramente definidos dificultam o rastreamento das causas profundas dessa disparidade (Lee, 2025). Dessa forma, como foi reportado pela jornalista Lee (2025), o deputado Shin Changsik (do Reconstruindo a Coreia, um pequeno partido liberal) propôs no dia 18 de março uma emenda para a introdução de um sistema de transparência de informações sobre gênero e remuneração. O plano exigiria que as empresas com mais de 300 funcionários tornassem públicos seus dados relacionados aos seus empregos, categorizando-os por gênero, cargo e função, tempo de serviço e situação empregatícia (regular, temporário, afins). O projeto ainda previa que o Ministério do Trabalho divulgasse relatórios nos quais avaliaria a disparidade salarial com base em gênero, levando em consideração cargo e posição, e formulasse planos anuais de combate a essa diferença que seriam submetidos à Assembleia Nacional. O argumento de defesa dessa proposta afirma que é difícil para as mulheres perceberem que seu salário é menor que o de seus colegas homens, já que não há dados específicos disponíveis, e, quando percebem essa disparidade, não conseguem provar que é uma discriminação.
Infelizmente, a jornalista Lee também nos conta sobre a resistência a esse tipo de medida pela Associação Coreana de Empresas Listada (Korea Listed Companies Association – KLCA), pois estaria indo contra o propósito da Lei de Mercados de Capitais. Um representante da instituição afirmou que essa lei tem como objetivo melhorar a eficiência do mercado através da proteção dos investidores, então, a divulgação de dados deve ser restringida a fatores vinculados à tomada de decisões financeiras (governança corporativa, fatores de risco e desempenho financeiro). Contudo, o deputado Shin rebate essas alegações, com o argumento de que a divulgação das informações pretendidas contribui para um padrão básico de ESG (Environmental, Social, and Governance) nos mercados. Afinal, para o deputado, o que prejudica a reputação das corporações – principalmente entre investidores estrangeiros – é a própria disparidade salarial entre gêneros, e não a divulgação desses dados.
O título da notícia da jornalista Lee (A disparidade salarial entre gêneros na Coreia é a pior do mundo. A transparência resolverá isso?) nos faz questionar até onde a publicização desses dados pode ser capaz de alterar o quadro de desigualdade salarial no país. Para deixar claro, não estamos questionando a necessidade desses dados serem devidamente coletados, categorizados e tornados públicos, pois são essenciais para que se planejem e executem políticas públicas mais eficazes. A reflexão aqui proposta é a de acrescentarmos algo a se pensar no quadro de desigualdade de gênero sul-coreano, no caso, como a diferença entre homens e mulheres na sua trajetória no mercado de trabalho vai além dos salários.
Como nos informa a professora Lee Yoonkyung (2015), 54% das mulheres, em relação a 46% dos homens, ocupam os chamados trabalhos contingentes, isto é, empregos de contratos temporários e/ou de meio período, os quais podem ser considerados inseguros devido à facilidade com que as pessoas são contratadas e demitidas e aos baixos salários em relação aos trabalhos regulares. Além disso, 61,9% das mulheres trabalhadoras estariam em empregos precários (Lee, 2015), e quando se adiciona o fator de status de relacionamento, mulheres casadas que trabalham ocupam 66,3% de empregos irregulares, enquanto homens casados ocupam 36,2% (Lee, 2015).
Ou seja, as políticas de divergência salarial por gênero precisam considerar não só a diferença salarial no exercício da mesma função por homens e mulheres, mas também o fato de que muitas mulheres estão ocupando trabalhos irregulares. Isso se dá muitas vezes, como é possível averiguar através do relatório Rejuvenating Korea (OECD, 2019), devido à cultura de ausentar-se do mercado nos anos em que as mulheres – que decidem ser mães – engravidam e criam seus filhos na primeira infância e, posteriormente, não conseguem empregos regulares. Dessa forma, jovens e idosos de 60+ anos configuraram como os mais prováveis em trabalhar em empregos precários, mas, considerando-se a mesma faixa etária, a disparidade de gênero é mais acentuada para trabalhadores dos 35 aos 60 anos, o que para a professora Lee (2011) confirma a noção de que mulheres trabalhadoras casadas dificilmente conseguem empregos regulares.
E como isso afeta a vida no processo de envelhecimento? A partir de dados da OCDE (2022), considerando a experiência de diversos países, os níveis de pobreza são maiores entre as mulheres com 75+ do que entre os homens. Isso se deve a alguns fatores, como homens terem historicamente um número de empregos maior e a expectativa de vida feminina ser maior. Assim, muitas mulheres acabam dependendo de pensões públicas, das pensões de seus parceiros e de pensões por morte de um parente. Em termos de consequência dos ganhos no mercado de trabalho, espera-se que mulheres que contribuíram menos – seja por não trabalharem de forma contínua ou por não poderem contribuir por baixos ganhos – tenham sua pensão pelo menos um pouco menor; como metade do cálculo da NPS é de rendimentos gerais, o impacto por gênero tem alguma atenuação (OECD, 2022). Para a OCDE, com uma melhoria histórica na ocupação de empregos por mulheres e a conquista de direitos previdenciários, há uma expectativa por maior diminuição da diferença de rendimentos nas pensões entre homens e mulheres.
Contudo, a partir de dados coletados pela Statistics Korea e da OCDE em 2013, Lee e Yeung (2020) apontam que:
– Apenas 37,6% da população sul-coreana de 65 anos ou mais recebe os benefícios da pensão nacional;
– A porcentagem de mulheres acobertadas pelas pensões por idade era de apenas 30,8%, em relação a 69,2% dos homens, com uma alta taxa de pobreza entre as mulheres;
– Adultos sul-coreanos mais velhos afirmam que apenas 16% da sua renda vem de pensão e segurança social.
Em síntese, este artigo buscou discutir a disparidade de ganhos entre gêneros, na Coreia do Sul, inicialmente apontando a persistência da questão no país e a necessidade de dados apropriadamente coletados e publicizados. Em seguida, tentou-se ampliar a discussão para uma reflexão acerca da desigualdade de gênero na velhice, um desenvolvimento da desigualdade que existia desde sempre – pelos papéis de gênero, pela dificuldade em exercer trabalhos regulares e devidamente remunerados e pela menor contribuição ao sistema de pensões. Por fim, o objetivo geral consistiu em conectar mais de uma faceta da disparidade de ganhos, indicando a questão como algo que se manifesta para além do período trabalhado e que seria interessante ter um amplo olhar na elaboração de políticas públicas.
REFERÊNCIAS
LEE, Jaeeun. South Korean workers’ average annual salary hit high of $48,922 in 2022, nearing OECD average, but women earn only 68.8 percent of what men do. The Korea Herald, 23 maio. 2024. Disponível em:https://www.koreaherald.com/article/3400350. Acesso em 25 jun. 2025.
LEE, Yeonjin, YEUNG, Wei-Jun Jean. The Country that Never Retires: The Gendered Pathways to Retirement in South Korea.The Journals of Gerontology: Series B, 2020. DOI:10.1093/geronb/gbaa016.
LEE, Yoonkyung. Labor after Neoliberalism: The Bierth of the Insecure Class in South Korea. Globalizations, v. 12, n. 2, p. 184-202, 2015. DOI: 10.1080/14747731.2014.935087
OECD. Rejuvenating Korea: Policies for a Changing Society. Paris: OECD Publishing, 2019. DOI: https://doi.org/10.1787/c5eed747-en. Acesso em 27 jun. 2025.
SOBRE A AUTORA
Beatriz Santos Simões
Graduanda em Relações Internacionais pela Universidade Federal de Sergipe. Integrante do Grupo de Estudo Leste-Asiático (GELA/UFS). Integrante da Curadoria de Estudos Coreanos (CEÁSIA/CEA/UFPE).
Fotografia: The Korea Times. Link: https://www.koreatimes.co.kr/southkorea/society/20250527/south-koreas-high-senior-employment-rate-masks-low-job-quality
Conforme conta o jornal on-line The Korea Times (em maio de 2025), sul-coreanos sêniores estão recorrendo a empregos de baixos salários devido a uma desconexão com suas funções iniciais. A autora da notícia, repórter Jun (2025), relata a situação de um homem de 65 anos, o senhor Kim, que se aposentou três anos atrás de uma função no setor de contabilidade em uma empresa de porte médio. Recentemente, o senhor está empregado como estoquista em um supermercado de bairro e com dificuldades em conseguir outro emprego.
O senhor Kim acreditava que, por ter trabalho 30 anos na área de administração financeira, seu conhecimento garantiria outro emprego similar após aposentar-se. Porém, as empresas, de uma forma geral, não mostram interesse em contratar pessoas mais velhas, e essa parcela da população acaba muitas vezes limitada a empregos de segurança ou limpeza mal pagos. Nesse sentido, para Kim, empregos em armazéns e gerenciamento de inventário seriam posições relativamente melhores.
O senhor Kim assim declarou: “Pensei que eu poderia fazer bom uso da minha experiência, mas a realidade foi diferente. Agora eu carrego caixas durante quatro horas por dia por um salário-mínimo. Não tenho escolha porque minha pensão não é o bastante para pagar as contas”.
De acordo com o relatório OECD Reviews of Pension Systems: Korea da OCDE1 (2022), a maioria dos trabalhadores na Coreia do Sul se aposenta relativamente cedo, o que acontece devido à cultura de empresas privadas em estabelecer idades limites para uma aposentadoria obrigatória. Por lei, é prevista a possibilidade de aposentadoria a partir de 60 anos, porém, muitos estabelecimentos incentivam seus funcionários a aposentarem antes dessa idade limite através de acordos, devido ao sistema de promoção salarial com base na senioridade. Outro fator que influencia esse tipo de política é a competitividade, pois pessoas mais velhas muitas vezes não recebem treinamentos para acompanharem o avanço tecnológico (OECD, 2022).
As aposentadorias do setor privado são cobertas pelo Sistema Nacional de Pensão (National Pension Scheme – NPS). Os ganhos dos aposentados desse sistema são calculados da seguinte forma: metade do valor é baseado nos ganhos individuais e a outra metade é baseada na média dos ganhos de todos os que contribuem (OECD, 2022). Dessa forma, aqueles que contribuíram por menos tempo, como é o caso dos que se aposentam mais cedo ou não podem contribuir regularmente por questões financeiras, recebem um valor menor. Para o setor público, professores particulares, militares e trabalhadores do correio, outros sistemas de pensões são aplicados (OECD, 2022).
A Coreia do Sul é um caso particular por ter altas taxas de pobreza e de emprego na faixa de idosos, estando entre as maiores do mundo, afirma a repórter Jun (2025). De acordo com o relatório Pensions at a Glance 2023, publicado pela OCDE em 2024, a taxa de pobreza dentre os sul-coreanos mais velhos alcançou 40,4% – a maior entre os países da OCDE, cuja média é de apenas 14,2%. Por outro lado, a taxa de empregos dentre as pessoas de 65 anos ou mais também é uma das maiores. O Gabinete de Orçamento da Assembleia Nacional (National Assembly Budget Office – NABO) relatou que a contratação deste grupo etário estaria nos 37,3% em 2023.
Como afirma Jun (2025), esses dados refletem a baixa qualidade dos empregos disponíveis para adultos mais velhos, não só em termos de baixo salário, mas também de baixo status. Ainda, o relatório mais recente da NABO mostrou que muitos desses seniores trabalham em funções irregulares em pequenos negócios, atuando em funções de baixa qualificação. Dentre os assalariados de 65 anos ou mais, 61,2% estão em funções não fixas e 49,4% estão empregados em pequenas empresas com menos de 10 funcionários. Em termos de tipo de emprego, trabalhos simples são cerca de 35,4%, enquanto operadores de máquinas constam como 15%.
Dessa forma, Jun (2025) aponta que o declínio da qualidade do trabalho leva a uma queda nos salários em relação ao que ganhavam antes de se aposentarem. Segundo o relatório mencionado acima, a média de salário para trabalhadores com quase 60 anos, antes da aposentadoria, era de 3.5mi wons (cerca de 2.550 dólares). Contudo, essa quantia diminui para 2.8mi wons para aqueles na faixa dos 60 anos que estão voltando para o mercado de trabalho após aposentarem, sendo assim uma baixa de 20,5% na sua renda. Essa deterioração nos salários e nas condições de trabalho é atribuída a desconexão entre a expertise acumulada desses trabalhadores e a sua nova função.
Dentre os assalariados mais velhos, dos que se empregaram novamente após a aposentadoria, 53,2% afirmaram que seu trabalho atual é “nem um pouco” ou “apenas um pouco” relacionado a suas ocupações anteriores. Esse relatório apela para que os formuladores de políticas desenvolvam medidas que apoiem os idosos deslocados de sua função inicial, de forma a permanecerem ativos economicamente. O relatório, segundo Jun (2025), teria apontado que “a população mais velha da Coreia [do Sul] mostra uma forte vontade de continuar trabalhando mesmo após a aposentadoria. […]. Ajudar essa população a permanecer em seus campos iniciais ou relacionados possivelmente exercerá um papel chave na diminuição da desigualdade de renda na idade avançada e fará melhor uso das suas habilidades acumuladas e experiência”.
A Coreia do Sul enfrenta um rápido envelhecimento populacional, com a diminuição do número de pessoas em idade de trabalho, devido à constante diminuição da taxa de natalidade, assim como um aumento do número de pessoas idosas. Espera-se que, no ano de 2060, tenha-se uma relação de três pessoas com 65+ para cada uma pessoa jovem de menos de 20 anos (OECD, 2022). A pressão sobre os sistemas de pensão, principalmente no NPS, é prevista como insustentável ao longo prazo.
Com as eleições deste ano, 2025, os candidatos se dirigiram a essa questão durante as campanhas (Lee, 2025). Após uma primeira reforma estrutural, que aumentou a contribuição de 9% para 13%, os jovens mostram frustração por terem que contribuir mais, mas ao mesmo tempo receber menos futuramente (Lee, 2025). A partir dessa crise demográfica sul-coreana, é possível se questionar até que ponto todo o sistema de produção do país, que envolve o regime trabalhista, os esquemas de aposentadoria e a desigualdade de gênero, se sustentará .
OECD. OECD Reviews of Pension Systems: Korea. OECD Reviews of Pension Systems. Paris: OECD Publishing, 2022. DOI: https://doi.org/10.1787/2f1643f9-en. Acesso: em 25 jun. 2025.
SOBRE A AUTORA
Beatriz Santos Simões é graduanda em Relações Internacionais pela Universidade Federal de Sergipe. Integrante do Grupo de Estudo Leste-Asiático (GELA/UFS). Integrante da Curadoria de Estudos Coreanos (CEÁSIA/CEA/UFPE).
E-mail: biassimoes12@gmail.com
Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico, uma organização internacional fundada em 1961. ↩︎
Todos os anos, a Curadoria de Estudos Coreanos promove um Ciclo de Formação Interna para seus integrantes. Dividida em duas partes (uma por semestre), cada edição convida oito professores, pesquisadores ou profissionais que atuam na área de estudos coreanos para palestrarem sobre temas de interesse.
A primeira edição do Ciclo de Formação ocorreu em um bloco com seis aulas entre fevereiro e março de 2023 e contou com a participação de nomes como Suzana Veiga, Daniela Mazur, Mauricio Dias e Krystal Urbano.
Na época, a Curadoria ainda não tinha perfil nas redes sociais, por isso não temos as artes de divulgação com os participantes desta edição do Ciclo.
A segunda edição contou com a participação de Emiliano Unzer, Luiza do Amaral, Yun Im Jung e Carol Akioka e Naira Nunesda KoreaIN no primeiro semestre (a professora Crystal Anderson também estava programada para participar do Ciclo, mas teve um imprevisto), e com a participação de André Bueno, Ester Bae e Analúcia Danilevicz (a ilustradora Ing Lee estava programada para participar do Ciclo, mas teve um imprevisto) no segundo semestre.
Em 2025, a terceira edição contou com a participação de Maurício Dias, Ing Lee, Luis Girão e Luana Geiger no primeiro semestre, e com Cristian Kim, Cônsul Honorário da República da Coreia no Paraná, Amanda de Moraes e Lucas Rubio (a professora Krystal Urbano também estava programada para participar do Ciclo, mas teve um imprevisto) no segundo semestre.
Em 2024, a Curadoria de Estudos Coreanos também começou a promover leituras coletivas de obras que julgamos essenciais para os interessados em estudar a península coreana no Brasil.
O primeiro livro lido foi “Orientalismo”, de Edward W. Said. A leitura teve nove encontros, sempre na primeira segunda-feira de cada mês – terminamos 2024 e começamos 2025 lendo Said.
Em 2025 lemos “Filhos do Céu e da Ursa”, do professor Emiliano Unzer. Foram quatro encontros, de setembro a dezembro – e em dezembro contamos com a participação do professor para falar sobre a obra e outros detalhes da história coreana.
Em 2026 iremos ler Flores de Fogo, de Hawon Jung. O cronograma de leitura será publicado em breve.
A programação para o segundo semestre de 2026 será divulgada em momento oportuno.
É assim que inicia Pachinko (2020), romance realista escrito por Min Jin Lee e lançado no Brasil pela editora Intrínseca. O livro acompanha a trajetória de uma família ao longo de mais de 70 anos, entrelaçando suas histórias pessoais com a história coreana nos séculos XX e XXI.
A narrativa começa em 1883, em uma pequena vila de pescadores em Yeongdo, no distrito de Busan. Um dos primeiros personagens apresentados, Hoonie, é um jovem com deficiências e filho de pescadores humildes que mantêm uma pousada para aumentar suas poucas rendas. Aos 27 anos, ele consegue um casamento arranjado com Yangjin, filha de fazendeiros pobres da mesma vila. Em 1910, mesmo ano de assinatura do tratado de anexação da Coreia ao Japão, Hoonie e Yangjin tornam-se pais de uma menina chamada Sunja, que mais tarde irá se destacar como o principal fio condutor de toda a saga familiar ao longo do romance.
A primeira parte do livro, de 1910 até 1933, acompanha a vida de Sunja nos seus primeiros anos. Ao mesmo tempo em que Sunja se descobre como mulher, ela descobre seu país e sua nação em transformação, resistindo de maneiras distintas e cotidianas à invasão japonesa na península coreana do Japão. Não apenas a vida de Sunja é afetada pelo primeiro período da colonização japonesa, mas a vida de diversos outros personagens, destacando aspectos sombrios de uma assimilação forçada e violenta. As mulheres de conforto, a violência policial, o uso de trabalhadores forçados e até as mudanças de nome e preconceitos enfrentados pelos coreanos durante a colonização são abordados de maneira sutil e marcante em elementos e personagens de uma mesma família que contornam a vida de Sunja e seus relacionamentos.
Na segunda parte do livro, de 1933 até 1962, temas como a vida de descendentes e migrantes coreanos no Japão (os chamados de Zainichis), a discriminação, os jogos de poder e as relações familiares conturbadas são costurados no cenário internacional do final da Segunda Guerra Mundial e da Guerra da Coreia. Assim como o Japão e as Coreias, a família de Sunja se vê mais uma vez em uma posição de recomeço e resistência frente a um cenário desolador. Uma família que, assim como sua nação, persiste no tempo e na história em quaisquer circunstâncias políticas.
O terceiro, e último, ato do romance se concentra nos anos de 1962 até 1989, desenvolvendo as relações familiares e a busca de identidade agora entre pontes aéreas dos Estados Unidos, Japão e Coreia. Assim como nas máquinas de Pachinko 一 os fliperamas usados como jogos de azar no Japão que dão nome ao romance 一, a vida e o desenvolvimento dos países mencionados se mostra imprevisível, cabendo aos indivíduos enfrentar as mudanças, sempre em uma busca pela sobrevivência.
A autora desenvolve Sunja desde sua infância até sua velhice como uma mulher comum, calada, pensativa, mas resiliente, ainda sonhadora e condicionada a lutar pela sua sobrevivência, independente das circunstâncias externas, em uma construção que quase se torna uma metáfora delicada para a própria nação coreana. A história da família de Sunja, com perdas, nascimentos e renascimentos, não apenas perpassa a história coreana, como também a reflete. A nação coreana se molda, se adapta, resiste e permanece firme ao longo dos mais de 4 mil anos que a constituem. A curiosidade sobre a vida e a sobrevivência de Sunja ao longo dos anos é mantida pela autora ao longo do romance como uma forma de também nos lembrar das próprias incertezas frente a história coreana. A questão “será que eles vão sobreviver?”, que permeia toda a leitura, é um lembrete não apenas das dificuldades da vida comum de um indivíduo do século XX e início do XXI, mas da própria nação sul-coreana como um todo.
O livro torna-se um importante lembrete de que teorias e fatos históricos são produzidos e movidos por indivíduos com particularidades, famílias, interesses pessoais e necessidades urgentes da vida cotidiana. Porém, não apenas isso se mostra relevante na narrativa. A obra nos recorda os horrores da guerra, da fome e da segregação, em um convite para refletir sobre nossos lugares diante das conjunturas políticas e das situações que vão além das quatro paredes de um núcleo familiar. É um convite para perceber nossa presença diante da imprevisibilidade da história, que, por vezes, falha, mas nunca se ausenta de nossas vidas.
Referência
LEE, Min Jin. Pachinko. Tradução de Marina Vargas. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2020.
Sobre a autora
Thaisa da Silva Viana
Doutoranda em Relações Internacionais pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e Mestre em Relações Internacionais pela mesma instituição. Especialização em Direito Internacional em andamento pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais. Pesquisadora do LabÁSIA (UERJ), do Grupo de Estudos Asiáticos (GEA-UFMG) e integrante da Curadoria de Estudos Coreanos (CEÁSIA/CEA/UFPE). Tem experiência na área de política internacional, estudos de nacionalismo e cultura nas relações internacionais.