Precisamos (re)conhecer Bae Su-ah

Precisamos (re)conhecer Bae Su-ah

por Clara Menezes

Foto: Heike Steinweg – Frankfurter Rundschau

A literatura sul-coreana e de diáspora está se tornando cada vez mais popular no Brasil. Basta fazer uma breve pesquisa para encontrar nomes que, em pouco tempo, tornaram-se referência entre os leitores: Han Kang (“A Vegetariana”), Min Jin Lee (“Pachinko”), Cho Nam-joo (“Kim Jiyoung, nascida em 1982”) e Sohn Won-pyung (“Amêndoas”)1 estão entre as mais populares. Mas, também, há os escritores que lideram o fenômeno de “literatura de cura” do mercado nacional, como Hwang Bo-reum (“Bem-vindos à Livraria Hyunam-Dong”), Kim Ho-yeon  (“A inconveniente loja de conveniência”), Baek Se-hee (“Queria morrer, mas no céu não tem tteokbokki”) e muitos outros.

Há, porém, uma autora que parece ter ficado para trás da onda literária. Não por causa da qualidade de sua escrita, porque ela talvez seja uma das grandes escritoras contemporâneas da Coreia do Sul. Mas, provavelmente, porque seus livros foram traduzidos no Brasil antes das publicações sul-coreanas ganharem maior popularidade internacionalmente, porque suas obras não foram publicadas pelas grandes editoras que, muitas vezes, definem os títulos mais comentados no país, e porque seus títulos não receberam premiações internacionais que costumam chamar atenção do mercado brasileiro. A escritora é Bae Su-ah, que publicou livros como “Sukiyaki de Domingo”, pela Estação Liberdade, e “Noites e dias desconhecidos”, pela DBA Editora.

Além de um marco no mercado editorial por ter sido o primeiro título traduzido diretamente do coreano para o português, “Sukiyaki de Domingo” é um romance que critica a estrutura patriarcal e capitalista do mundo em que vivemos. Com uma narrativa não linear, na qual cada capítulo pode ser lido individualmente, a autora lança um olhar para as pessoas da classe trabalhadora que destoam de uma imagem de sucesso, mas que vivem em um cotidiano de escassez, igualmente necessário para manter as engrenagens do capitalismo funcionando. Infelizmente, é uma obra que não está mais disponível para vendas — não está na Amazon, nem no site da Estação Liberdade. Há alguns disponíveis na Estante Virtual, plataforma digital de comércio para livreiros e sebos, e, se você tiver sorte, como eu tive, pode encontrar um exemplar em alguma biblioteca.

Há também “Noites e dias desconhecidos”, que pode ser adquirido com maior facilidade. O livro tem um tom surrealista e onírico, no qual o leitor não sabe definir onde termina a realidade e onde começa o sonho. Entretanto, há uma história que guia toda a narrativa, diferentemente de “Sukiyaki de Domingo”: nela, a atriz Ayami está no seu último dia de trabalho em um teatro para pessoas cegas e inicia uma jornada por Seul. Enquanto anda pela cidade com seu ex-chefe em busca de reencontrar uma amizade antiga, conversam sobre tudo. Porém, a autora mescla os pontos de vista dos personagens e conduz os leitores por uma narrativa que troca a ordem da realidade pelo caos dos sonhos.

Bae Su-ah aposta na experimentação durante a escrita ao trazer mudanças abruptas de perspectiva, ao não se incomodar em explicar frases e expressões que (apenas) parecem ter aparecido de repente e ao recorrer a uma visão introspectiva sobre os acontecimentos que afetam os personagens. É, portanto, autoexplicativo que ela, em seu trabalho como tradutora do alemão para o coreano, tenha traduzido autores como Franz Kafka, Fernando Pessoa e, inclusive, Clarice Lispector (LTI Korea,  [s.d.]).

A autora, porém, teve um difícil início de carreira na literatura, porque muitos críticos a consideravam “pouco coreana”. Diferentemente de uma escrita concisa, com temas sociais evidentes, ela escreve frases longas e foca na individualidade. “Eu não sou uma escritora que escreve em um coreano bonito e refinado. Quando comecei a escrever, não estava bem preparada e, até hoje, acho que não escrevo frases muito boas, mas ultimamente as pessoas estão menos críticas”, disse ela em entrevista ao The Guardian (Ashby, 2020). Já em conversa ao Three Wise Monkeys (Sylvian, 2014), a autora também opinou sobre a receptividade de seu trabalho na Coreia do Sul: “minha escrita pode parecer muito individualista. Os coreanos gostam de consenso emocional. Eles vivem fiéis aos seus desejos, mas, ao defender alguma causa, sempre dão importância a esse valor. O mesmo acontece na literatura”.

Com um olhar para as dores individuais do mundo contemporâneo, como a solidão, a violência e o trauma, além de constantemente focar em personagens que estão à margem da sociedade, Bae Su-ah já publicou muitos outros textos. E estes, espero que sejam descobertos pelo mercado editorial brasileiro. Entre os não traduzidos para o português estão “A Greater Music” (2016), que conta a história de uma jovem escritora coreana que, ao cair em um rio em Berlim, recorda histórias do passado, sua relação com o namorado Joachim e as experiências de mudar-se para a Alemanha; “Milena, Milena, Ecstatic” (2019), que acompanha um cineasta que recebe uma proposta de uma fundação para produzir um documentário sobre uma garota em busca da mãe que a abandonou durante a infância; e “Nowhere To Be Found” (2015), sobre uma narradora não identificada que procura um significado para a própria vida enquanto recorda memórias sobre família, relacionamentos e trabalho.

Bae Su-ah utiliza majoritariamente personagens femininas, e esta escolha é intencional, como comentou em entrevista para o The White Review: 

Na maioria dos casos, tenho uma intenção clara quando escolho uma protagonista feminina. São mulheres que se recusam ou não conseguem ter seu próprio lugar na sociedade tradicional. Eu amo essas mulheres. Mulheres que não podem ter status social garantido pelo casamento, ou mulheres que se recusam a se casar para obtê-lo; mulheres que não se reprimem por causa de seus pais ou irmãos; mulheres que, como resultado de suas personalidades independentes, são solitárias e enfrentam problemas financeiros. Mulheres que seguem seu próprio caminho de acordo com sua própria teimosia e que não têm medo de fazê-lo. Tenho muito interesse nessas vidas. E, portanto, planejo escrever sobre essas mulheres também no futuro. Desejo dotá-las de um status estético por meio da minha ficção. E quero fazê-las cruzar uma certa fronteira que eu mesma não consegui cruzar porque minha bravura foi insuficiente. Desejo que elas sejam mais fortes do que eu (Smith; Bae, 2017).

Apesar da conexão com protagonistas e narradoras mulheres, a autora não se considera muito envolvida com política, nem define sua literatura como feminista, mas carrega um compromisso com a imaginação e com a observação acerca da vida. Ela trabalha, neste sentido, com o grotesco que se insere nos costumes, na sociedade e nas relações humanas (Sylvian, 2014) — e mostra como esse elemento contribui para a instabilidade emocional e a solidão presente no cotidiano.

Com uma obra literária conectada ao onírico, Bae Su-ah desafia as fronteiras entre as vidas vividas e as vidas sentidas. Talvez, em um mundo tão acelerado, o que precisamos seja uma experiência de leitura que rompe com o real e convida ao tempo da subjetividade.

REFERÊNCIAS

ASHBY, Chloe. Bae Suah: ‘I was practising my typing and wrote my first story by accident’. The Guardian, Londres, 27 jan. 2025. Disponível em: https://www.theguardian.com/books/2020/jan/27/bae-suah-i-was-practising-my-typing-and-wrote-my-first-story-by-accident. Acesso em: 15 out. 2025.

BAEK, Sehee. Queria morrer, mas no céu não tem tteokbokki. São Paulo: Intrínseca, 2023.

BAE, Su-ah. A greater music. Nova Iorque: Open Letter, 2016.

BAE Su-ah (배수아) | Digital Library of Korean Literature. LTI Korea, [s.d.]. Disponível em: https://library.ltikorea.or.kr/writer/200064. Acesso em: 15 out. 2025.

BAE, Su-ah. Milena, Milena, Ecstatic. Norwich: UEA Publishing Project, 2018.

BAE, Su-ah. Nowhere to be found. Seattle: Amazon Crossing, 2015.

BAE, Su-ah. Sukiyaki de domingo. São Paulo: Estação Liberdade, 2014.

BAE, Su-ah. Noites e dias desconhecidos. São Paulo: DBA Literatura, 2021.

CHO, Nam-Joo. Kim Jiyoung, nascida em 1982. São Paulo: Intrínseca, 2020.

HAN, Kang. A vegetariana. São Paulo: Todavia, 2018.

HWANG, Bo-reum. Bem-vindos à Livraria Hyunam-dong. São Paulo: Intrínseca, 2023.

KIM, Ho-yeon. A inconveniente loja de conveniência. São Paulo: Intrínseca, 2024.

LEE, Min Jin. Pachinko. São Paulo: Intrínseca, 2018.

SMITH, Deborah; BAE, Su-ah. Interview with Bae Suah. The White Review, Londres, mar. 2017. Disponível em: https://www.thewhitereview.org/feature/interview-bae-suah/. Acesso em: 15 out. 2025.

SOHN, Won-Pyung. Amêndoas. São Paulo: Intrínseca, 2021.
SYLVAN, Gabriel. Writing Against the Establishment’s Grain – A conversation with Bae Su-ah. The Three Wise Monkeys, Seul, 13 dez. 2014. Disponível em: http://thethreewisemonkeys.com/2014/12/13/writing-against-the-establishments-grain-a-conversation-with-bae-su-ah/. Acesso em: 15 out. 2025.

SOBRE A AUTORA:

Mestranda em Ciências Sociais pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) é integrante da Curadoria de Estudos Coreanos. Pesquisa na área de sociologia da literatura, com foco na obra de Han Kang. E-mail: mclaracmenezes@gmail.com.

NOTAS:

  1. A literatura de cura foi um gênero recentemente criado pelo mercado editorial para definir histórias ambientadas em lugares aconchegantes, como livrarias, bibliotecas e cafeterias, e que trazem mensagens de conforto aos leitores. Sohn Won-pyung, autora de “Amêndoas”, é considerada um dos grandes nomes desse recente movimento literário. Mas, como ela mesma disse em entrevista ao O Globo em 2024, seu livro não tinha a intenção de curar alguém, porque foi inspirado em suas experiências pessoais. Apesar disso, ela reconhece que “O Impulso”, seu outro título, pode ser considerada uma obra do gênero. Mais informações estão no link da matéria: https://oglobo.globo.com/cultura/noticia/2024/09/13/queridinha-do-bts-autora-de-amendoas-lanca-novo-romance-na-bienal-do-livro-e-questiona-rotulo-ficcao-de-cura-nao-quero-salvar-ninguem.ghtml ↩︎
A necessidade de lembrar em “Memórias de um Freixo”

A necessidade de lembrar em “Memórias de um Freixo”

por Larissa Brito

Foto: https://m.media-amazon.com/images/I/81yEBWhr8kL._SY425_.jpg

“O incidente foi tão horrível que adotei como protagonista uma árvore em vez de uma pessoa”, afirma Yong-Tak Choi, autor do romance “Memórias de um Freixo” (2013) que serviu de base para a readaptação em forma de História em Quadrinhos de mesmo nome do autor Kun-woong Park (2021). O autor da HQ sentiu a necessidade de retomar a obra de Yong-Tak Choi como uma forma de lembrar a sociedade dos horrores do Massacre das Ligas Bodo e talvez, de certa forma, fazer justiça. 

A estrutura da HQ é composta de 10 capítulos que abordam o conteúdo do livro e, ao final, o autor traz um apêndice com reflexões sobre o papel da memória e da História escritas por ele, pelo autor do romance original e por estudiosos da área.

Qual seria o limite da violência humana e do assassinato de milhares de pessoas para “proteger o país”? Esta pergunta nos traz ao contexto da Guerra da Coreia, conflito após a fratura da península impulsionada pelas potências vencedoras da Segunda Guerra Mundial. Com a polarização política, a Coreia do Sul adotou uma perspectiva ideológica capitalista e estritamente anticomunista. Com o estabelecimento da República da Coreia em 1948, o governo criou as Ligas Bodo, organização formada por membros “convertidos” do comunismo que juraram lealdade ao país e no passado já tinham participado de grupos comunistas (Choi, 2011, p. 293), além deles, muitos fazendeiros que não tinham ligação com o comunismo também se inscreveram para preencher as vagas. O horror se inicia quando o governo sul-coreano promove uma chacina com as pessoas dessas ligas, acusando-as de serem a favor da ideologia comunista, o que poderia ajudar o exército norte-coreano. Oficialmente 4.934 civis foram mortos, mas em estudos independentes este número chega até 200 mil. 

Essas pessoas eram mortas e jogadas em uma vala num vale, de forma escondida e cruelmente organizada, os corpos ficavam lá, apenas servindo de base para mais corpos posteriores. O governo sul-coreano escondeu o caso, sendo considerado um grande tabu. Mas as famílias dessas pessoas não, muitas chegaram a ir até o local dos corpos para procurar por seus entes queridos em meio aos corpos em decomposição. Além disso, as famílias ainda sofreram diversos preconceitos, sendo taxadas de “famílias comunistas” por terem relação com as pessoas mortas das ligas. Apenas nos anos 2000, a Comissão da Verdade e da Reconciliação investigou e trouxe a verdade à tona, afirmando que os civis realmente foram vítimas das organizações do governo. 

“Memórias de um Freixo” em História em Quadrinhos é um livro pesado, que traz uma história difícil de ler, mas que se mostra extremamente necessária para entender a história sul-coreana. O autor opta por utilizar apenas as cores preto e branco em seus desenhos, dando um toque sombrio a sua história. Além disso, as feições das pessoas desenhadas conseguem transmitir a dor e a agonia da morte vista de perto, os olhos arregalados, as bocas abertas, os pedidos por misericórdia. A escolha pela narrativa e pelas falas e pensamentos do freixo também são importantes, retirando a humanidade da história para refletir a falta dela nas próprias ações dos militares. A história é narrada pelo freixo, árvore do vale onde o massacre aconteceu, de forma bastante fria, onde ele parece se divertir com o horror à sua frente. Em alguns momentos, o autor substitui o desenho das pessoas com desenhos de vacas, trazendo uma crítica para a forma como eles foram tratados e também uma memória do próprio autor, que viu um dia uma notícia sobre inúmeros porcos e gado sendo abatidos e enterrados:

Os animais que choravam, olhando para os humanos, me fez suspeitar e questionar os seres humanos em um nível fundamental. E me lembrei de cenas familiares. Eram as fotos do Massacre das Ligas Bodo de 65 anos atrás, reveladas pelos EUA (Park, 2021, p. 296).

Imagem divulgada pelos Estados Unidos. 
Fonte:https://c8.alamy.com/comp/PPKXEE/bodo-league-massacre-at-daejon-south-korea-1950-PPKXEE.jpg

O autor destaca em sua obra os animais se alimentando dos corpos, que também viram adubo para as árvores do vale, demonstrando a desumanização do ocorrido como uma crítica própria. As cenas grotescas, de cadáveres em decomposição com vermes se alimentando, torna a história mais real, impacta mais, e o autor desejava impactar. O tradutor Jae Hyung Woo afirma que precisou pausar a tradução diversas vezes, esta era uma história de seu país que ele não conhecia. Portanto, podemos concluir que muitas vezes a história oficial esconde histórias humanas em favor de projetos políticos. Logo, apenas a inquietação e a rememoração conseguem trazer esse passado e a justiça de volta aos debates de hoje. O horror vivido e as vidas perdidas incomodam, as imagens só vem corroborar e reverberar esse desconforto.

Referências

PARK, Kun-Woong. Memórias de um Freixo. Tradução: Jae Hyung Woo. São Paulo: Conrad Editora, 2021. 

Sobre a autora

Maria Larissa de Brito é mestranda em História pela Universidade Federal de Campina Grande, integrante da Curadoria de Estudos Coreanos (CEÁSIA/CEA/UFPE). Se interessa por Estudos Coreanos e pela relação entre audiovisuais e o contexto sul-coreano. E-mail: britolarissa925@gmail.com

Na Hye-sok (1896-1948)

Na Hye-sok (1896-1948)

por Larissa Mikaley de Farias, Eduarda Christine Souza Pucci

Nascida em 28 de abril de 1896 em Suwon (수원), capital da província de Gyeonggi (경기도), Na Hye-sok (나혜석) foi uma feminista, escritora, pintora, poetisa, educadora e jornalista coreana que viveu durante a Dinastia Joseon1 (1392-1910) e a Colonização Japonesa (1910-1945). Sob o pseudônimo Jeongwol (정월), destacou-se como uma das figuras proeminentes pelo início do movimento emancipatório das mulheres na Península Coreana, que, junto de outras mulheres, lançou ideias para um grupo e pensamentos mais estruturados posteriormente. Sua atuação multifacetada e sendo a primeira pintora2 e escritora de estilo ocidental da Coreia, marcou a história cultural e social do país durante o período colonial japonês.

    Na nasceu um ano após o fim da Guerra Sino-Japonesa de 1894-1895. Foi uma criança de família rica, seu pai Na Gi-jeong (羅基貞) era um importante oficial que serviu no governo coreano e no governo japonês no período colonial, o que lhe garantiu uma boa educação, já que naquela época, era raro que uma mulher coreana cursasse o ensino superior. Experimentou várias mudanças sociais e políticas durante sua vida, o que a levou a se envolver em movimentos feministas e nos debates culturais de seu tempo.

    Na Hye-sok formou-se na Escola Primária Samil em Suwon e na Escola de Meninas Jinmyeong em Seul. Na tinha a reputação de ser uma aluna excepcionalmente brilhante e também era conhecida por seus talentos artísticos. Imediatamente após a formatura, aos dezessete anos, Na ingressou na Tokyo Women’s College of Arts para se especializar em pintura a óleo ocidental, incentivada por seu irmão mais velho, Kyöng-sök, formado em uma faculdade técnica japonesa. Ela também estudou na Kyun Sin Girls’ School e posteriormente na Universidade de Waseda, no Japão, onde teve contato com correntes de pensamento mais modernas e ocidentais, se graduando em 1918 no curso de Pintura Ocidental, na Faculdade de Belas Artes Femininas de Tóquio, além disso um tempo depois, também estudou em, Paris (1927-1928), em uma viagem que fez pela europa com seu marido, o que influenciou profundamente seu pensamento e estilo artístico.  

    Na viveu a maior parte da sua vida durante o período da colonização da Coreia (1910-1945). Este período foi marcado pela repressão cultural, social e política, é também nessa época que o movimento feminista coreano começa a ganhar ascensão, em resposta ao autoritarismo e à opressão imposta pelo exército colonial japonês. Esse movimento é visto em Tóquio no início da década de 1910, que foi palco de um aumento nas atividades públicas das mulheres, coincidindo com a nova era política de Taishö (1912-1926), sendo caracterizado pela agitação democrática e pelo crescente ativismo radical dos intelectuais japoneses. 

    Diante desse crescimento do movimento feminista, Na fica ligada à luta das mulheres, buscando sobretudo a independência nacional e a liberdade individual, a exemplo do Movimento de 1º de março em 19193, em que ela participa e acaba sendo presa sob a acusação de conspiração. Na ficou presa por seis meses e foi libertada  por não haver provas suficientes. Em 1920, Hye-sok fundou a revista literária P-yeho e depois a revista feminina Shinyoja, a nova mulher4. Ela escreveu diversos artigos sobre a condição das mulheres coreanas. Entre os temas, o uso do Hanbok foi um dos que ela abordou, propondo melhorar as roupas tradicionais para melhorar a higiene íntima, a saúde, o conforto e a autoimagem das mulheres.

    Na começou a ensinar arte na Chongsin Girls’ School em Seul e se destacou em diversas áreas, como escritora, poeta e artista visual. Sua obra literária abordava questões de gênero, sexualidade e as dificuldades que as mulheres enfrentavam na sociedade coreana. Sua literatura tinha uma forte carga crítica em relação ao patriarcado e às expectativas sociais de seu tempo. Na foi uma das primeiras mulheres a questionar abertamente as instituições matrimoniais tradicionais, e seus escritos muitas vezes tratavam da busca pela liberdade pessoal e da ruptura com os papéis de gênero impostos pela sociedade. Sua obra literária e suas pinturas refletiam não só uma visão de liberdade que era transgressora para os padrões de sua época, como também revelavam uma ruptura desses padrões e imposições. 

     Sua vida foi marcada por vários eventos pessoais, profissionais e acadêmicos. Dentre eles se contra o seu relacionamento com Choe Sung-gu (1892-1916), um estudante da Universidade de Keio e editor da revista Hakchigwang5. Choe escreveu sobre temas como a vida das mulheres coreanas e a necessidade de autorreforma dos estudantes coreanos. O relacionamento dos dois foi amplamente divulgado entre os estudantes coreanos. O pai de Na, Na Ki-hwan, não aceitava o relacionamento, pois ia de encontro aos valores confucionistas. Choe era de uma classe social diferente da de Na [aristocracia coreana – yangban] e possuía ideias radicalizadas.  Por isso,  tentou forçá-la a aceitar um casamento arranjado, ameaçando deserdá-la, mas ela recusa publicamente o casamento e defende o direito ao amor livre. Em seguida, ela tenta obter um cargo de professora a fim de buscar autonomia financeira e evitar o casamento arranjado. Após um ano lecionando sem vínculo empregatício, ela retornou a Tóquio para continuar seus estudos. No entanto, a morte de Choe, em 1916, devido à tuberculose6, causou-lhe um colapso mental, interrompendo temporariamente os seus estudos, formando-se, finalmente, em 1918. 

     Em 1920, Na Hye-sök se casa com Kim U-yöng (1886-1957) por meio de um casamento arranjado. O casamento foi marcado por conflitos entre os papéis tradicionais socialmente impostos e seus anseios artísticos e intelectuais. Ela se casa, mas coloca quatro condições para este casamento ao seu futuro marido: amá-la para sempre, deixá-la continuar a pintar, assegurar-lhe que viveriam longe da sua sogra e erguer um monumento sobre o túmulo do seu primeiro amor. Eram condições extremamente incomuns e estranhas na época, visto que o único papel da mulher era cuidar do lar e dos familiares do marido, sem ocupações fora disso. 

    Após o casamento, ela continuou a desenhar e escrever com assiduidade e paixão .Sua primeira exposição individual, apresentando setenta pinturas a óleo, ocorreu em 1921. Essa exposição foi um grande sucesso, marcando a primeira vez na Coreia que uma artista mulher realizou uma exposição individual de arte, no primeiro dia da exposição, mais de 5.000 pessoas foram ver suas obras 

    Em junho de 1927, graças a um privilégio concedido pelo Ministério das Relações Exteriores do Japão, ela e o marido vão para  a Europa. A viagem, planejada para algumas semanas, durará vários anos. Na decidiu ficar em Paris para estudar e seu marido foi em missão diplomática para Berlim (para o Japão) sem ela. Em 1929, enquanto navegava para a América, suas pinturas foram apresentadas na Exposição de Ciências de Tóquio, onde ela ganhou um prêmio. Depois de viajar para os Estados Unidos, a Itália e a Espanha, ela retornou ao Japão (1930) para organizar uma nova exposição individual no Suwon Buddhist Mission Hall, composta por suas obras produzidas durante suas viagens.

     No entanto, ao retornar, seu marido pediu o divórcio, após 10 anos de casamento. Na foi acusada de adultério por seu marido, que alegava que ela o havia traído quando ela ainda estava em Paris. Na Hye-seok teve que concordar com o divórcio para evitar um possível processo por adultério. Ela perdeu a custódia dos filhos e  foi expulsa de casa, sendo proibida de ver seus quatro filhos. Como o divórcio era visto como uma desonra para a sociedade, sua família a rejeitou. 

     Mais tarde, em 1934, após o divórcio, ela publicou um polêmico ensaio intitulado Minha Declaração de Divórcio. Nele, Na Hye-seok admitiu seu caso e discutiu abertamente sobre seus desejos sexuais, algo extremamente ousado para a época. Ela criticou o duplo padrão da sociedade coreana, que enquanto condenava a sexualidade feminina tolerava a infidelidade masculina. Essa postura radical foi considerada inaceitável, causando um grande escândalo para ela. Apesar de seu marido, Kim Woo-young, também manter um relacionamento extraconjugal, apenas ela foi alvo de punição social na Coreia; o adultério era criminalizado apenas para mulheres. Até então, seus problemas conjugais não haviam afetado sua carreira artística, já que em 1933, sua pintura ganhou o prêmio especial na 10ª Exposição de Shenzhen. No entanto, após a publicação do ensaio, ela teve consequências devastadoras: Na Hye-seok foi severamente criticada, transformando-se no símbolo da “mulher imoral”. Sua última exposição, em 1935, fracassou. Seu prestígio social e carreira desmoronaram dramaticamente, 

    Na Hye-seok lutou para manter sua carreira artística, mas as condições adversas em que se encontrava, marcadas pela rejeição social e pela pobreza, tornaram essa persistência impossível. Sem recursos e abandonada até mesmo pela família, ela passou a vagar sem rumo, refugiando-se temporariamente em templos budistas. Apesar de buscar consolo nesses espaços, sua saúde física e mental continuou a deteriorar-se, enquanto ela se mantinha apenas pela frágil esperança de reencontrar os filhos. Seus últimos anos de vida permanecem envoltos em obscuridade. Em 1948, ela foi internada sob um pseudônimo em um hospital de caridade em Seul, onde morreu sozinha no dia 10 de dezembro daquele mesmo ano, sem que sua verdadeira identidade fosse reconhecida.Abaixo estão listadas algumas das obras de Na Hye-sok:

Obras Literárias7

Contos

  • Kyonghui (경희, 1918) – Primeiro conto feminista coreano, sobre uma mulher que rejeita o casamento arranjado.
  • Wŏnhan (1926) – a tragédia de uma esposa tradicionalista lutando contra a promiscuidade sexual do marido

Ensaios e artigos 

  • Mulheres ideais (1914) – primeiro ensaio, escrito aos 18 anos.
  • On Trial Cohabitation (실험 결혼론), publicado em 1930.
  • Confissões de uma Divorciada (이혼녀의 고백, 1934) – Resposta aos ataques públicos.
  • Sobre a Vida Sexual de Mulheres Solteiras (독신여자정조론), publicado em 1935.

Poemas e Poesias

  • Nora (노라, 1921) – Poema inspirado em Doll’s house de 1879 do norueguês Henrik Ibsen, que se tornou um marco do teatro feminista. 
  • Sa (사 Areia,  1921) – poema publicado na Revista Pyeheo.
  • Naenmul (냇물 Riacho, 1921) – poema publicado na Revista Pyeheo.
  • Mãe e Filha (어머니와 딸), publicado em 1937, foi inspirado pela tensão entre uma mãe e uma filha antiquadas, com uma educação moderna, que ela havia observado enquanto se hospedava em uma pensão pouco antes de seu divórcio.

Livros

  • Bitterness of the Inner Quarters (1921);

Pinturas:

Autorretrato (자화상). 1928. Óleo sobre tela. 

 

Peônias em Hwaryeongjeon (화령전 작약). 1935. Óleo sobre tela.

Ponte Seonjukgyo, . Óleo sobre madeira.

Dancers, 1927-1928.  

Lago Seoho em Suwon (수원 서호), 1935. Óleo sobre madeira.

Carriage, 1948. 

Scene of Paris (1927-28). Óleo sobre a madeira.

Hwaseong Fortress Gate in Suwan. 

 Na Hye-seok viveu uma trajetória marcada pela resistência e pelo sofrimento, tornando-se um triste reflexo da intolerância de sua sociedade. Sua obra e militância desafiaram o patriarcado e o colonialismo na Coreia do início do século XX, posicionando-a como uma pioneira do feminismo coreano. Em um contexto de dupla opressão sob domínio japonês e normas sociais rígidas, sua voz destacou-se não apenas na luta pelos direitos das mulheres, mas também na busca pela liberdade nacional. Rompeu estereótipos de feminilidade submissa através de sua arte e escrita, expondo desejos e dilemas femininos com uma coragem rara para sua época. No entanto, seu legado foi por décadas apagado pelo estigma de “mulher infiel”, que ofuscou suas contribuições intelectuais e artísticas. Somente nos anos 1970, com a redescoberta de seus escritos, seu verdadeiro valor começou a ser reconhecido.

   Ela demonstrou que as mulheres são seres complexos, dotados de talento, ambição e voz própria. Hoje, sua figura permanece essencial para entender o feminismo coreano, servindo como inspiração para gerações que continuam a lutar por igualdade e liberdade. Sua história é um testemunho do custo de desafiar convenções e do poder duradouro da resistência.

Referências 

CRISI, Emilio. Revolução anarquista na Coreia: a Comuna de Shimin (1929-1932). Tradução de Guilherme Wagner. 25 jun. 2012. Disponível em: https://itha-iath.org/wp-content/uploads/2024/01/emilio-crisi-revoluc3a7c3a3o-anarquista-na-coreia.pdf. Acesso em: 02 dez. 2024.

KIM, Yung-Hee. Creating New Paradigms of Womanhood in Modern Korean Literature: Na Hye-Sŏk’s ‘Kyŏnghŭi.’ Korean Studies, v. 26, n. 1, p. 1–60, 2002. Disponível em: http://www.jstor.org/stable/23719324. Acesso em: 30 nov. 2024.

KIM, Yung-Hee. Women’s Issues in 1920s Korea. Korean Culture, v. 15, n. 2, p. 27-33, 1994. Disponível em: https://web.archive.org/web/20110708103216/http://eng.buddhapia.com/_Service/_ContentView/ETC_CONTENT_2.ASP?PK=0000594132&danrak_no=&clss_cd=0002134733&top_menu_cd=0000000808. Acesso em: 15 de abril de 2025.

LITERATURE TRANSLATION INSTITUTE OF KOREA. Na Hye-seok. Disponível em: https://library.ltikorea.or.kr/writer/201690. Acesso em: 05 dez. 2024.

MYONG-SUN, Kim et al. Questioning Minds: Short Stories by Modern Korean Women Writers. University of Hawaii Press, 2009. 

KBS WORLD. Na Hye-seok, an artist and women’s rights activist. 14 abr. 2011. Disponível em:https://world.kbs.co.kr/service/contents_view.htm?lang=e&menu_cate=history&id=&board_seq=60139&page=27&board_code=. Acesso em: 01 dez. 2024.

THE ACADEMY OK KOREAN STUDIES. A Coreia no Mundo. [S.d]. Disponível em: https://www.aks.ac.kr/ikorea/upload/intl/korean/UserFiles/Korea_in_the_World_por.pdf 

TRANSFORMANDO.COM.VC. Estudar na Coreia do Sul: sistema de ensino e curiosidades. 28 abr. 2023. Disponível em: https://transformando.com.vc/estudar-na-coreia-do-sul-sistema-de-ensino-e-curiosidades/ . Acesso em: 10 fev. 2025.

MINISTRY OF EDUCATION OF KOREA. Education system. [S. l.], 2023. Disponível em: https://english.moe.go.kr/sub/infoRenewal.do. Acesso em: 1 abr. 2025.

KIM, Dohyeon. Na Hye-seok, artiste coréenne et militante féministe. ifeminist, 2019. Traduit et adapté par [shv], 2024. Disponível em: https://histoire-vesinet.org/na-hye-seok.htm.  Acesso em: 21 abril. 2025 .

KIM, Dohyeon. Na Hye-seok. ifeminist, 27 jan. 2021. Disponível em: https://ifeminist.org/seok.html. Acesso em: 21 abr. 2025.

ARRIAGA ROJAS, Mariana A. Recordando a Na Hye-sok, una artista y activista talentosa coreana. Korea.net, 25 maio 2021. Disponível em: https://spanish.korea.net/NewsFocus/HonoraryReporters/view?articleId=198777. Acesso em:21 abr. 2025.

Notas

  1. “A dinastia Joseon (1392-1910) governou a península da Coreia durante mais de 500 anos e foi estabelecida por Yi Seong-gye, mais tarde conhecido como Rei Taejo, general do fim da dinastia Goryeo (918-1392). A capital deste período era Hanyang, atual Seul. Os líderes da dinastia Joseon estimularam a difusão dos ideais e das doutrinas confucionistas na sociedade. A ética e os rituais confucionistas eram ensinados em casa e nas escolas, e os funcionários públicos eram selecionados através de concursos baseados em provas sobre o Confucionismo. As inovações culturais durante o início do período de Joseon tiveram seu auge durante a época do Rei Sejong, o Grande (neto do Rei Taejo, 1418-1450), mais conhecido como o inventor do hangul, o alfabeto coreano. Durante essa dinastia, o país foi devastado por inúmeras invasões japonesas (1592-1598) e, em seguida, pelas manchurianas (1627-1637). No entanto, na segunda metade da dinastia, Joseon consolidou o território correspondente à atual Coreia e atingiu o ápice da cultura clássica coreana, do comércio, da ciência, da literatura e da tecnologia. Na passagem para o século XX, a Coreia enfrentou inúmeros desafios externos, oriundos de enfrentamento entre potências internacionais e também devido à Ocupação Japonesa que começa formalmente a partir de 1910. O legado do período de Joseon é substancial, já que é a base da sociedade coreana contemporânea, da formação das normas culturais, do modo de viver, do sistema jurídico, da relação entre diferentes gerações, assim como da atitude social sobre os assuntos atuais” (The Academy of Korean Studies, s/d, p. 4-5). Disponível em: https://www.aks.ac.kr/ikorea/upload/intl/korean/UserFiles/Korea_in_the_World_por.pdf  ↩︎
  2.  ver informações em: https://www.koreatimes.co.kr/lifestyle/books/20210811/book-review-modern-girl-anthology-series-features-koreas-early-modern-feminists ↩︎
  3. De acordo com Crisi (2024, p. 4), “[…] o Primeiro de Março de 1919, ocorrido no contexto de uma proclamação de independência e de insurreições anticoloniais em todo o país. Contando com a participação de diversas organizações anarquistas, o Movimento da Independência de Samil (como ficaram conhecidas as primeiras manifestações de 1° de março) foi brutalmente reprimido pelo exército da ocupação japonesa. O saldo foi de 7.500 mortos e 16 mil feridos”. Disponível em: https://itha-iath.org/wp-content/uploads/2024/01/emilio-crisi-revoluc3a7c3a3o-anarquista-na-coreia.pdf. ↩︎
  4. KIM, Yung-Hee. Women’s Issues in 1920s Korea. Korean Culture, v. 15, n. 2, p. 27-33, 1994. Disponível em: https://web.archive.org/web/20110708103216/http://eng.buddhapia.com/_Service/_ContentView/ETC_CONTENT_2.ASP?PK=0000594132&danrak_no=&clss_cd=0002134733&top_menu_cd=0000000808  ↩︎
  5.  Informações retiradas do site: https://koreasowls.fr/portraits-dhistoire-na-hye-sok/. Acesso em: 16 de abril de 2025. ↩︎
  6. KIM, Yung-Hee. Creating New Paradigms of Womanhood in Modern Korean Literature: Na Hye-Sŏk’s” Kyŏnghŭi”. Korean Studies, p. 1-60, 2002. Disponível em:https://web.archive.org/web/20121105171531/http://www.highbeam.com/doc/1G1-97821483.html.Acesso em: 16 de abril de 2025 ↩︎
  7. Informações retiradas dos sites: https://klwave.or.kr/klw/directories/201690/authorsView.do. / https://www.degruyterbrill.com/document/doi/10.1515/9780824837587-005/html?lang=en↩︎