por Guilherme Henrique Ferreira Povoa e Maria Clara Lima Abrão
Imagem: Estátua de uma pessoa consolando outra na Ponte Mapo (마포대교), no Rio Han, ponte com o maior registro de tentativas de suicídio em Seul. Fonte: https://www.ilpost.it/2013/01/12/dimentica-tutto/skorea-society-suicide-5/
Frequentemente celebrada pela capacidade tecnológica, índices de desenvolvimento e influência cultural global, a Coreia do Sul exporta uma narrativa de Estado bem-sucedida, mascarando diversas rupturas sociais alarmantes, muitas vezes agravadas por essa própria narrativa. Dentre as fraturas, destacam-se os altos e alarmantes índices de suicídio e as diversas tentativas de compreender quais as motivações e relações entre esses e a sociedade moderna sul-coreana: fatores econômicos, filosóficos, midiáticos e sistêmicos.
A cada quarenta minutos, falece uma pessoa na Coreia do Sul, país no qual o suicídio é a quinta causa de morte mais comum entre todas as idades, o que o torna uma epidemia a ser combatida (Raschke et al., 2022). Neste sentido, quando ponderado demograficamente, nota-se um aumento no número de suicídios entre crianças e adolescentes, o qual se relaciona com pressão acadêmica, bullying, cyberbullying, coberturas midiáticas inadequadas de outros casos de suicídioe quadros precários de saúde mental, simultâneo ao crescimento alarmante no índice de suicídio entre idosos, majoritariamente em áreas rurais, associado ao desamparo financeiro e familiar (Lee, 2023).
Historicamente, a Crise Econômica Asiática de 1997 marca o aumento expressivo da quantidade de suicídios no país — cujos índices são os maiores entre os membros da OCDE (Paik, 2025) —, sobretudo entre os anos de 2009 a 2011 (Staudt, 2025), quintuplicando o índice anual. Esse período na Coreia do Sul foi marcado por instabilidade financeira, desemprego e baixa renda, fatores diretamente relacionados a tentativas de suicídio (Raschke et al., 2022). A percepção do cenário econômico, para além da situação profissional e financeira, pode ser diretamente associada à depressão (Barrass et al., 2024, p. 12); a relação também ocorre, em crescimento linear, quando pensadas as tentativas de suicídio, devido ao aumento de custo de planos de saúde, entre outros (Lee et al., 2025)
Neste contexto, diversos elementos influenciam as altas taxas de suicídio, para além de fatores socioeconômicos, como o Confucionismo, filosofia enraizada na Ásia, em que “o fracasso não é tolerado e as pessoas hesitam em falar sobre erros ou problemas de saúde mental, todos os quais são considerados uma fraqueza”1 (Rashid, 2023a; Saeji et al., 2018 apud Staudt, 2025, p. 27, tradução nossa). Outrossim, a falta de escandalização ou a aquiescência perante o suicídio é herança, não somente da sabedoria confucionista, mas da própria história asiática, em que a morte preserva a honra em um contexto que valoriza a ideia de legado individual e familiar (Im; Park; Ratcliff, 2018).
A cobertura inadequada e/ou sensacionalista da mídia é, idem, um fator que contribui para a elevação dos índices, levando comumente a comportamentos em massa nas redes sociais (como hate trains). Sobretudo, influenciam pela natureza contagiante do suicídio — ou pelo Efeito Werther2 —, exemplificado por coberturas de famosos, como o ex-presidente da República (2003–2008), Roh Moo-hyun (1946–2009), cuja exposição, especulação e publicização foram excessivas, com mais de 26 mil reportagens on-line até 2020 (Ha; Yang, 2021). Segundo Ha e Yang (2021), como efeito de coberturas midiáticas, os índices de suicídio já apresentam elevações de 16,4% ao primeiro dia de exposição, influenciando, inclusive, o método escolhido (comumente similar ao televisionado).
Outros elementos que impactam profundamente na qualidade de vida consistem no deslocamento entre valores e moralidades tradicionais, como o hyo, em contraste à modernidade “comprimida”, dinâmica e, basicamente, neoliberal e capitalista, afetando sobretudo a população idosa. O hyo (em hangul 효), é comumente traduzido como “piedade filial” e é um dos pilares da filosofia Confuciana, embora não tenha surgido com Confúcio a ideia de assistência, cuidado aos mais velhos e respeito profundo aos ancestrais (Wang; Tian, 2023); tal valor faz-se presente inclusive em folclores coreanos antigos prévios a Confúcio, como em “História de Shim-Jong” (Ilin, 2023). Neste sentido, o dado valor fora associado à noção de “boa pessoa” e integrou a cultura e as normas sociais por gerações, não se tratando somente de uma crença, mas de uma virtude arraigada, por ser a base de todas as outras virtudes segundo Confúcio (Wang; Tian, 2023). Hyo envolve, portanto, lealdade, justiça, honra, misericórdia, respeito, educação, obediência e provento material, entre outros. Neste contexto, todavia, nota-se, com a ascensão do neoliberalismo desde os anos 1990 — e da criação de “classes inseguras” devido à precarização, queda na qualidade de vida, exploração da classe trabalhadora e perda de segurança social —, o enfraquecimento do hyo, não somente pela impossibilidade do provento material e assistência financeira dos filhos aos pais, mas pela falta de preparo e proteção social diante do envelhecimento acelerado da população, denotando a perda de importância, piedade, justiça e, sobretudo, respeito aos idosos (Staudt, 2025).
Ao analisar os elementos que influenciam o alto índice estrutural de suicídio, uma vez que perdura há décadas, percebe-se que tais fatalidades escancaram que os supostos fama, sucesso e admiração pública, utilizados na narrativa sul-coreana bem-sucedida exportada a todo vapor, não possuem força frente a uma estrutura que nega espaço para a vulnerabilidade, reforça a exploração do trabalhador, produz choques culturais entre filosofias tradicionais e a lógica neoliberal e reverbera todas as falhas, erros e falecimentos em suas mídias. Todos esses elementos produzem a desumanização do ser e reforçam a importância de pautar os altos índices de suicídio na Coreia do Sul, não somente a fim de contrastar com a narrativa de sucesso exportada e em voga domesticamente, mas com o intuito de alertar àqueles que a consomem candidamente e acreditam de forma convicta se tratar de um país paradisíaco sem fissuras sociais.
REFERÊNCIAS
BARRASS, Lucy et al. The association between socioeconomic position and depression or suicidal ideation in low and middle-income countries in Southeast Asia:a systematic review and meta-analysis. BMC Public Health, n. 24, p. 3507, 2024.
HA, Jeongmin; YANG, Hee-Seung. The Werther effect of celebrity suicides: Evidence from South Korea. PLoS ONE, v. 16, n. 4, 2021.
ILIN, Mykhailo. Filial Piety in Korean Cultural Tradition. SJ Academy, abr. 2023. Disponível em: https://sj.academy/2023/04/29/shanoblyvist-u-korejskij-kulturnij-tradycziyi/. Acesso em 13 out. 2025
IM, Jeong Soo; PARK, B. C. Ben; RATCLIFF, Kathryn Strother.Cultural Stigma Manifested in Official Suicide Death in South Korea. OMEGA – Journal of Death and Dying, v. 77, n. 4, 2018.
LEE, Yuri. Suicide Trends and Responses in Korea. In:Korean Social Trends.Statistics Korea Research Institute (KOSTAT), 2023.
METELSKI, Giuliano et al.O efeito Werther e sua relação com taxas de tentativas de suicídio: uma revisão narrativa. Research, Society and Development, v. 11, n.10, e267111032630, 2022.
PAIK, Rocio. Por que a Coreia do Sul se tornou a República do Suicídio. Opera Mundi – Especial, 2023. Disponível em: https://operamundi.uol.com.br/especial/por-que-a-coreia-do-sul-se-tornou-a-republica-do-suicidio/. Acesso em: 5 ago. 2025.
RASCHKE, Nicolas et al. Socioeconomic factors associated with suicidal behaviors in South Korea:systematic review on the current state of evidence. BMC Public Health, n. 22, art. 129, 2022. DOI: https://doi.org/10.1186/s12889-022-12498-1
STAUDT, Eileen. South Korea, Competitiveness and Suicides: A Global Political Economy Study of South Korea’s “Suicide Crisis”. University Helsinki, 2025.
WANG, Xueyin; TIAN, Xiaolei.Teaching with Filial Piety:A Study of The Filial Piety Throught of Confucionism. Trans/Form/Ação, Marília, v. 46, n. 4, p. 287-302, 2023.
SOBRE OS AUTORES
Guilherme Henrique Ferreira Povoa
Graduando em Relações Internacionais pela Universidade Federal de Uberlândia, integrante da Curadoria de Estudos Coreanos (CEÁSIA/CEA/UFPE). Possui interesse em Estudos Asiáticos com ênfase em Coreias, Segurança Internacional, Política Externa e Comércio Exterior. E-mail: guilhermeferreiradesouza135@gmail.com
Maria Clara Lima Abrão
Graduanda em Relações Internacionais pela Universidade Federal de Uberlândia, integrante da Curadoria de Estudos Coreanos (CEÁSIA/CEA/UFPE) e do Núcleo de Pesquisa em Segurança Internacional e Estudos Estratégicos (NUPSIEE-UFU). Se interessa por Estudos Asiáticos com ênfase em Coreias, Segurança Internacional, cultura e identidade. E-mail: mcl.abrao@gmail.com
No original: “failure is not tolerated and that people are hesitant to talk about mistakes or mental health issues, all of which are considered a weakness” (Rashid, 2023a; Saeji et al., 2018 apud Staudt, 2025, p. 27). ↩︎
Efeito Werther ou efeito manada é uma terminologia utilizada para o aumento de taxas de suicídio após a divulgação ampla de suicídios de celebridades e/ou personalidades midiáticas. O termo advém do protagonista da obra de Goethe, “Os sofrimentos do jovem Werther”, e levou a uma onda de suicídios na Europa após o lançamento do livro (Metelski et al, 2022). ↩︎
Não é novidade que a Coreia do Sul é o país membro da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) com a maior disparidade salarial entre gêneros. Para a OCDE, essa disparidade é definida e calculada a partir da diferença entre os rendimentos médios de homens e mulheres, em relação aos rendimentos médios dos homens (OECD, Gender Wage Gap).
Fórmula do Cálculo da Disparidade de Gênero segundo a OCDE
O presente artigo de opinião busca abordar a persistência nos dias de hoje da desigualdade salarial entre homens e mulheres em território sul-coreano, algo que desencadeia em uma desigualdade de gênero nos recebimentos de pensão na velhice. Há, então, uma necessidade de melhor recolhimento de dados e publicização desses, em relação às rendas de homens e mulheres, assim como um olhar conectado para melhor desenvolvimento de políticas públicas efetivas. Nesse sentido, pelos dados obtidos pela Organização até 2023, a Coreia do Sul configura uma disparidade salarial de 29,3%, a maior dentre seus membros e mais que o dobro da média geral dos membros de 11,3% (OECD, Gender Wage Gap). Isso quer dizer que as mulheres sul-coreanas recebem cerca de 29,3% menos em termos de salários que seus colegas homens. De acordo com o The Korea Times (Lee, 2025), para cada 1 milhão de wons recebidos por um homem, uma mulher recebe 707.000 wons.
Esses dados mostram um tímido avanço em relação ao ano de 2022, quando a diferença estava em 31,2% (Lee, 2024). Porém, a falta de dados governamentais e enquadramentos estatísticos claramente definidos dificultam o rastreamento das causas profundas dessa disparidade (Lee, 2025). Dessa forma, como foi reportado pela jornalista Lee (2025), o deputado Shin Changsik (do Reconstruindo a Coreia, um pequeno partido liberal) propôs no dia 18 de março uma emenda para a introdução de um sistema de transparência de informações sobre gênero e remuneração. O plano exigiria que as empresas com mais de 300 funcionários tornassem públicos seus dados relacionados aos seus empregos, categorizando-os por gênero, cargo e função, tempo de serviço e situação empregatícia (regular, temporário, afins). O projeto ainda previa que o Ministério do Trabalho divulgasse relatórios nos quais avaliaria a disparidade salarial com base em gênero, levando em consideração cargo e posição, e formulasse planos anuais de combate a essa diferença que seriam submetidos à Assembleia Nacional. O argumento de defesa dessa proposta afirma que é difícil para as mulheres perceberem que seu salário é menor que o de seus colegas homens, já que não há dados específicos disponíveis, e, quando percebem essa disparidade, não conseguem provar que é uma discriminação.
Infelizmente, a jornalista Lee também nos conta sobre a resistência a esse tipo de medida pela Associação Coreana de Empresas Listada (Korea Listed Companies Association – KLCA), pois estaria indo contra o propósito da Lei de Mercados de Capitais. Um representante da instituição afirmou que essa lei tem como objetivo melhorar a eficiência do mercado através da proteção dos investidores, então, a divulgação de dados deve ser restringida a fatores vinculados à tomada de decisões financeiras (governança corporativa, fatores de risco e desempenho financeiro). Contudo, o deputado Shin rebate essas alegações, com o argumento de que a divulgação das informações pretendidas contribui para um padrão básico de ESG (Environmental, Social, and Governance) nos mercados. Afinal, para o deputado, o que prejudica a reputação das corporações – principalmente entre investidores estrangeiros – é a própria disparidade salarial entre gêneros, e não a divulgação desses dados.
O título da notícia da jornalista Lee (A disparidade salarial entre gêneros na Coreia é a pior do mundo. A transparência resolverá isso?) nos faz questionar até onde a publicização desses dados pode ser capaz de alterar o quadro de desigualdade salarial no país. Para deixar claro, não estamos questionando a necessidade desses dados serem devidamente coletados, categorizados e tornados públicos, pois são essenciais para que se planejem e executem políticas públicas mais eficazes. A reflexão aqui proposta é a de acrescentarmos algo a se pensar no quadro de desigualdade de gênero sul-coreano, no caso, como a diferença entre homens e mulheres na sua trajetória no mercado de trabalho vai além dos salários.
Como nos informa a professora Lee Yoonkyung (2015), 54% das mulheres, em relação a 46% dos homens, ocupam os chamados trabalhos contingentes, isto é, empregos de contratos temporários e/ou de meio período, os quais podem ser considerados inseguros devido à facilidade com que as pessoas são contratadas e demitidas e aos baixos salários em relação aos trabalhos regulares. Além disso, 61,9% das mulheres trabalhadoras estariam em empregos precários (Lee, 2015), e quando se adiciona o fator de status de relacionamento, mulheres casadas que trabalham ocupam 66,3% de empregos irregulares, enquanto homens casados ocupam 36,2% (Lee, 2015).
Ou seja, as políticas de divergência salarial por gênero precisam considerar não só a diferença salarial no exercício da mesma função por homens e mulheres, mas também o fato de que muitas mulheres estão ocupando trabalhos irregulares. Isso se dá muitas vezes, como é possível averiguar através do relatório Rejuvenating Korea (OECD, 2019), devido à cultura de ausentar-se do mercado nos anos em que as mulheres – que decidem ser mães – engravidam e criam seus filhos na primeira infância e, posteriormente, não conseguem empregos regulares. Dessa forma, jovens e idosos de 60+ anos configuraram como os mais prováveis em trabalhar em empregos precários, mas, considerando-se a mesma faixa etária, a disparidade de gênero é mais acentuada para trabalhadores dos 35 aos 60 anos, o que para a professora Lee (2011) confirma a noção de que mulheres trabalhadoras casadas dificilmente conseguem empregos regulares.
E como isso afeta a vida no processo de envelhecimento? A partir de dados da OCDE (2022), considerando a experiência de diversos países, os níveis de pobreza são maiores entre as mulheres com 75+ do que entre os homens. Isso se deve a alguns fatores, como homens terem historicamente um número de empregos maior e a expectativa de vida feminina ser maior. Assim, muitas mulheres acabam dependendo de pensões públicas, das pensões de seus parceiros e de pensões por morte de um parente. Em termos de consequência dos ganhos no mercado de trabalho, espera-se que mulheres que contribuíram menos – seja por não trabalharem de forma contínua ou por não poderem contribuir por baixos ganhos – tenham sua pensão pelo menos um pouco menor; como metade do cálculo da NPS é de rendimentos gerais, o impacto por gênero tem alguma atenuação (OECD, 2022). Para a OCDE, com uma melhoria histórica na ocupação de empregos por mulheres e a conquista de direitos previdenciários, há uma expectativa por maior diminuição da diferença de rendimentos nas pensões entre homens e mulheres.
Contudo, a partir de dados coletados pela Statistics Korea e da OCDE em 2013, Lee e Yeung (2020) apontam que:
– Apenas 37,6% da população sul-coreana de 65 anos ou mais recebe os benefícios da pensão nacional;
– A porcentagem de mulheres acobertadas pelas pensões por idade era de apenas 30,8%, em relação a 69,2% dos homens, com uma alta taxa de pobreza entre as mulheres;
– Adultos sul-coreanos mais velhos afirmam que apenas 16% da sua renda vem de pensão e segurança social.
Em síntese, este artigo buscou discutir a disparidade de ganhos entre gêneros, na Coreia do Sul, inicialmente apontando a persistência da questão no país e a necessidade de dados apropriadamente coletados e publicizados. Em seguida, tentou-se ampliar a discussão para uma reflexão acerca da desigualdade de gênero na velhice, um desenvolvimento da desigualdade que existia desde sempre – pelos papéis de gênero, pela dificuldade em exercer trabalhos regulares e devidamente remunerados e pela menor contribuição ao sistema de pensões. Por fim, o objetivo geral consistiu em conectar mais de uma faceta da disparidade de ganhos, indicando a questão como algo que se manifesta para além do período trabalhado e que seria interessante ter um amplo olhar na elaboração de políticas públicas.
REFERÊNCIAS
LEE, Jaeeun. South Korean workers’ average annual salary hit high of $48,922 in 2022, nearing OECD average, but women earn only 68.8 percent of what men do. The Korea Herald, 23 maio. 2024. Disponível em:https://www.koreaherald.com/article/3400350. Acesso em 25 jun. 2025.
LEE, Yeonjin, YEUNG, Wei-Jun Jean. The Country that Never Retires: The Gendered Pathways to Retirement in South Korea.The Journals of Gerontology: Series B, 2020. DOI:10.1093/geronb/gbaa016.
LEE, Yoonkyung. Labor after Neoliberalism: The Bierth of the Insecure Class in South Korea. Globalizations, v. 12, n. 2, p. 184-202, 2015. DOI: 10.1080/14747731.2014.935087
OECD. Rejuvenating Korea: Policies for a Changing Society. Paris: OECD Publishing, 2019. DOI: https://doi.org/10.1787/c5eed747-en. Acesso em 27 jun. 2025.
SOBRE A AUTORA
Beatriz Santos Simões
Graduanda em Relações Internacionais pela Universidade Federal de Sergipe. Integrante do Grupo de Estudo Leste-Asiático (GELA/UFS). Integrante da Curadoria de Estudos Coreanos (CEÁSIA/CEA/UFPE).
É assim que inicia Pachinko (2020), romance realista escrito por Min Jin Lee e lançado no Brasil pela editora Intrínseca. O livro acompanha a trajetória de uma família ao longo de mais de 70 anos, entrelaçando suas histórias pessoais com a história coreana nos séculos XX e XXI.
A narrativa começa em 1883, em uma pequena vila de pescadores em Yeongdo, no distrito de Busan. Um dos primeiros personagens apresentados, Hoonie, é um jovem com deficiências e filho de pescadores humildes que mantêm uma pousada para aumentar suas poucas rendas. Aos 27 anos, ele consegue um casamento arranjado com Yangjin, filha de fazendeiros pobres da mesma vila. Em 1910, mesmo ano de assinatura do tratado de anexação da Coreia ao Japão, Hoonie e Yangjin tornam-se pais de uma menina chamada Sunja, que mais tarde irá se destacar como o principal fio condutor de toda a saga familiar ao longo do romance.
A primeira parte do livro, de 1910 até 1933, acompanha a vida de Sunja nos seus primeiros anos. Ao mesmo tempo em que Sunja se descobre como mulher, ela descobre seu país e sua nação em transformação, resistindo de maneiras distintas e cotidianas à invasão japonesa na península coreana do Japão. Não apenas a vida de Sunja é afetada pelo primeiro período da colonização japonesa, mas a vida de diversos outros personagens, destacando aspectos sombrios de uma assimilação forçada e violenta. As mulheres de conforto, a violência policial, o uso de trabalhadores forçados e até as mudanças de nome e preconceitos enfrentados pelos coreanos durante a colonização são abordados de maneira sutil e marcante em elementos e personagens de uma mesma família que contornam a vida de Sunja e seus relacionamentos.
Na segunda parte do livro, de 1933 até 1962, temas como a vida de descendentes e migrantes coreanos no Japão (os chamados de Zainichis), a discriminação, os jogos de poder e as relações familiares conturbadas são costurados no cenário internacional do final da Segunda Guerra Mundial e da Guerra da Coreia. Assim como o Japão e as Coreias, a família de Sunja se vê mais uma vez em uma posição de recomeço e resistência frente a um cenário desolador. Uma família que, assim como sua nação, persiste no tempo e na história em quaisquer circunstâncias políticas.
O terceiro, e último, ato do romance se concentra nos anos de 1962 até 1989, desenvolvendo as relações familiares e a busca de identidade agora entre pontes aéreas dos Estados Unidos, Japão e Coreia. Assim como nas máquinas de Pachinko 一 os fliperamas usados como jogos de azar no Japão que dão nome ao romance 一, a vida e o desenvolvimento dos países mencionados se mostra imprevisível, cabendo aos indivíduos enfrentar as mudanças, sempre em uma busca pela sobrevivência.
A autora desenvolve Sunja desde sua infância até sua velhice como uma mulher comum, calada, pensativa, mas resiliente, ainda sonhadora e condicionada a lutar pela sua sobrevivência, independente das circunstâncias externas, em uma construção que quase se torna uma metáfora delicada para a própria nação coreana. A história da família de Sunja, com perdas, nascimentos e renascimentos, não apenas perpassa a história coreana, como também a reflete. A nação coreana se molda, se adapta, resiste e permanece firme ao longo dos mais de 4 mil anos que a constituem. A curiosidade sobre a vida e a sobrevivência de Sunja ao longo dos anos é mantida pela autora ao longo do romance como uma forma de também nos lembrar das próprias incertezas frente a história coreana. A questão “será que eles vão sobreviver?”, que permeia toda a leitura, é um lembrete não apenas das dificuldades da vida comum de um indivíduo do século XX e início do XXI, mas da própria nação sul-coreana como um todo.
O livro torna-se um importante lembrete de que teorias e fatos históricos são produzidos e movidos por indivíduos com particularidades, famílias, interesses pessoais e necessidades urgentes da vida cotidiana. Porém, não apenas isso se mostra relevante na narrativa. A obra nos recorda os horrores da guerra, da fome e da segregação, em um convite para refletir sobre nossos lugares diante das conjunturas políticas e das situações que vão além das quatro paredes de um núcleo familiar. É um convite para perceber nossa presença diante da imprevisibilidade da história, que, por vezes, falha, mas nunca se ausenta de nossas vidas.
Referência
LEE, Min Jin. Pachinko. Tradução de Marina Vargas. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2020.
Sobre a autora
Thaisa da Silva Viana
Doutoranda em Relações Internacionais pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e Mestre em Relações Internacionais pela mesma instituição. Especialização em Direito Internacional em andamento pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais. Pesquisadora do LabÁSIA (UERJ), do Grupo de Estudos Asiáticos (GEA-UFMG) e integrante da Curadoria de Estudos Coreanos (CEÁSIA/CEA/UFPE). Tem experiência na área de política internacional, estudos de nacionalismo e cultura nas relações internacionais.
“Reply 1988”, também conhecido como “Responde 1988”, foi lançado em 2015 pelo canal tvN. Na época foi um sucesso, e mantém até hoje, mesmo após dez anos do seu lançamento, um dos maiores índices de audiência da TV fechada sul-coreana. O drama tem 20 episódios, que estão disponíveis na Netflix e no Viki.
O drama é o terceiro da sequência de “Reply” (antecedido pelo 1994 e 1997), que foi escrito por Lee Woo-jung e dirigido por Shin Won-ho. Este acompanha a vida de cinco amigos que crescem juntos na vizinhança de Ssangmun Dong, eles são: Duk-sun (Lee Hyeri), Taek (Park Bo-gum), Jung-hwan (Ryu Jun-yeol), Sun-woo (Go Kyung-pyo) e Dong Ryong (Lee Dong-whi). Com o passar dos episódios é possível ver o forte vínculo entre eles causado pelas aventuras, alegrias, medos e problemas que compartilham durante a juventude até a idade adulta.
Durante os episódios, em alguns momentos, o público é levado ao futuro de um casal adulto que surgiu daquele ciclo de amigos e cabe ao espectador descobrir quem ficou junto — resposta que é dada somente no final do K-drama, o que gera curiosidade em quem assiste, que está sempre tentando desvendar o mistério por meio das pistas.
Apesar desse relacionamento secreto ter um grande destaque na trama, um dos pontos altos do drama é observar a interação desses jovens com as suas famílias, que vivem suas próprias dificuldades, contudo, ainda assim, nunca se esquecem daquilo que é o mais importante: cuidar daqueles que amam.
Ao passar pelos dramas disponíveis no catálogos das plataformas de streaming, “Reply 1988” pode não chamar atenção inicialmente por ter pôsteres sem elementos muito chamativos ou por sua sinopse aparentemente sem tantos conflitos, entretanto, o drama emociona ao mostrar a importância da amizade e da família, principalmente em momentos de dificuldades, quando essa união é a única capaz de dar a sustentação necessária para a superação dos desafios da vida. Diante disso, a torcida pelo casal principal, seja ele qual for, torna-se algo secundário durante o andamento da narrativa.
O drama se passa em plena década de 1980, por isso, apesar do clima mais emotivo, ainda traz como pano de fundo (mesmo que às vezes de forma indireta) diversos eventos históricos vividos pela Coreia do Sul, como o final da Ditadura Militar, o início do período de democratização e a Crise dos Tigres Asiáticos, o que enriquece ainda mais a experiência do espectador.
Os diferentes contextos históricos que perpassam a narrativa, por mais que pareçam serem retratados timidamente à primeira vista, carregam consigo um teor crítico de grande pertinência ao mostrar a situação do país ao ter uma parte da sua própria identidade reprimida e substituída pela cultura, moda, música e até mesmo pelos alimentos de nações estrangeiras com grande influência no mundo.
Em diversos momentos é perceptível a necessidade das personagens de consumirem qualquer produto do exterior para se sentir participante da globalização que se mostra tão presente naquele momento, no entanto, o drama deixa claro que juntamente desse acesso a outras realidades é notável a pouca valorização das riquezas nacionais que enfatizavam os traços únicos do país.
O mais interessante é refletir que esta situação não é meramente ficcional, pois “Reply 1988” retrata o que aconteceu com a Coreia do Sul na época em que se passa a história, período em que a nação tentava se recuperar do silenciamento pessoal e social deixado por uma sequência de eventos históricos traumáticos, dentre eles a Ditadura Militar, que também é mostrada rapidamente no audiovisual ao descortinar suas marcas na vida população que precisou se reerguer dos danos deixados por tamanho autoritarismo.
A produção pode ser considerada lenta pelo tamanho dos episódios e por ter como foco mostrar o cotidiano das personagens sem pressa, afinal, o intuito é imergir o público naquele meio como se ele fizesse parte daquela vizinhança animada que realmente se parece tanto com a realidade de tantas pessoas.
“Reply 1988” é um drama mais antigo, porém, é importante não deixar que ele caia no esquecimento porque vale cada segundo e deixa um gostinho de saudade tanto das personagens com quem nos conectamos quanto das nossas próprias memórias, que se aproximam de tantos acontecimentos ali retratados. A história retrata e critica diversos eventos históricos com grande delicadeza, além do mais, ainda provoca muitos risos e lágrimas, por isso no final é tão difícil dizer adeus a Ssangmun Dong, que conquista um espaço especial nos nossos corações.
Sobre a autora
Alanessa Nikole Carvalho da Silva – Mestranda em Teoria Literária pela Universidade Estadual do Maranhão (UEMA) e graduada em Letras/Literatura de Língua Portuguesa pela UEMA. E-mail: alanessanc@gmail.com
No Centro Médico Yulje (Yulje Medical Center), em Seul, quatro residentes de obstetrícia e ginecologia enfrentam os primeiros meses de suas carreiras em meio a plantões extensos, procedimentos complexos e decisões que podem colocar vidas em risco. Esta é a história retratada em Resident Playbook, série dramática sul-coreana lançada em 12 de abril de 2025 pela Total Variety Network (tvN) e disponível na Netflix.
Estrelada por Go Youn Jung (Oh Yi Young), Shin Si Ah (Pyo Nam Kyung), Kang Yoo Seok (Um Jae il) e Han Ye Ji (Kim Sa Bi), a produção mostra o dia a dia de jovens médicos no contexto de um sistema de saúde pressionado e em transformação. Dirigido por Lee Min Soo, o K-drama, que é um spin-off do sucesso Hospital Playlist (2020), ocupou o top 10 das séries mais assistidas da Netflix, no período de lançamento, e atingiu uma média nacional de 8,1% de audiência no seu último episódio, segundo um levantamento da Nielsen Korea.
Muito mais que uma obra de ficção, a trama mostra residentes lidando com plantões extensos e decisões complexas, realidade que vai ao encontro do contexto médico da Coreia do Sul nos últimos dois anos. Oh Yi Young se destaca como uma das principais personagens da história e, devido a uma situação traumática, acabou deixando a carreira de médica de lado antes de encerrar o seu primeiro ano como residente, porém, após cair em dívidas, não viu outra saída a não ser voltar à profissão.
Ao lado de Pyo Nam Kyung, Um Jae il e Kim Sa Bi, ela enfrenta diversas situações em que precisava agir com urgência para atender desde gestantes até mulheres em situação de câncer terminal, mesmo não tendo a experiência necessária. Os jovens médicos, um tanto atrapalhados, ainda precisam lidar com a falta de profissionais e aprendizes em suas respectivas áreas, ginecologia e obstetrícia, uma vez que o número de residentes que se interessam por essas especialidades é cada vez menor.
Após superar desafios, confusões, muitas broncas de seus professores e ainda se envolverem em relacionamentos amorosos, os quatro residentes conseguem finalizar o primeiro ano atuando no Centro Médico Yulje e, no fim do K-drama, ingressam no segundo ano, não só para enfrentar novas aventuras que virão pela frente, mas também para assumir o papel de veteranos que irão orientar os residentes recém-chegados.
Crise médica na Coreia do Sul
Muito mais que um spin-off do sucesso Hospital Playlist, Resident Playbook é um retrato da crise que assola o país desde fevereiro de 2024, quando o governo anunciou a proposta de aumentar o número de admissões em faculdades de medicina em 67%, cerca de 5 mil estudantes por ano, para enfrentar a demanda crescente por profissionais de medicina (Beer; Jenne, 2025).
Na época, o até então ministro da saúde, Cho Kyoo Hong, apontou a urgência da mudança devido ao envelhecimento acelerado da população, à falta de especialistas nas áreas de atendimento de emergência, pediatria, ginecologia e obstetrícia e à escassez de médicos em áreas mais rurais. A medida, que deveria entrar em vigor em janeiro de 2025, desagradou professores, estudantes, entidades médicas e, principalmente, os residentes, que se afastaram de seus cargos e de seus cursos para ir às ruas protestar. O impacto imediato incluiu adiamentos de cirurgias e ajustes na triagem de serviços essenciais.
De acordo com a Associação Médica Sul-Coreana (Korea Medical Association – KMA), mais de 12.000 médicos residentes entregaram cartas de demissão e cerca de 14.000 estudantes de medicina suspenderam suas atividades em hospitais universitários (Beer; Jenne, 2025). A categoria argumentou que, de modo geral, a quantidade de médicos atuantes era suficiente e que, antes da adoção de uma reforma médica, seria necessário investir em melhores condições de trabalho. O período de greve se estendeu por cerca de 18 meses, sendo encerrado em 1º de setembro deste ano, após um anúncio da Associação Sul-Coreana de Estudantes de Medicina (Lee, 2025).
A realidade desses profissionais vai totalmente ao encontro da rotina mostrada em Resident Playbook, que, além de retratar longos plantões e a pressão sob os residentes, também mostra o sofrimento constante dos pacientes em meio a uma crise estrutural do sistema de saúde que veio crescendo na última década. Segundo a legislação sul-coreana, o limite máximo de atuação para residentes é de 80 horas semanais, porém, estudos de 2023 e 2024 apontam que muitos profissionais cumprem quase 100 horas por semana (Yoon; Kwon; Park, 2024).
Em termos de remuneração, os salários chegam a cerca de 70 milhões de wons anuais (aproximadamente R$252 mil), valor que, segundo dados do Ministério da Saúde e Bem Estar da Coreia do Sul, é inferior ao que seria considerado adequado para jornadas dessa intensidade (Han; Chung, 2024). Embora boa parte dos profissionais tenha retornado aos seus cargos, as negociações com o governo não apontaram para uma resposta efetiva, que era esperada pela categoria. Até então, apenas foi afirmado que o aumento das vagas nas universidades aconteceria de forma gradual, com 1.509 admissões neste ano e 3.058 previstas para 2026 (Beer; Jenne, 2025).
HAN, Eui-Ryoung; CHUNG, Eun-Kyung. A qualitative study on the adoption of the new duty hour regulations among medical residents and faculty in Korea. National Library of Medicine, v. 19, n. 4, 2024. DOI: 10.1371/journal.pone.0301502. Disponível em: https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC11008864/. Acesso em: 08 nov. 2025.
SOBRE A AUTORA
Stefany Santos – Graduanda em Comunicação Social pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), pesquisadora vinculada à Fundação de Amparo à Ciência e Tecnologia do Estado de Pernambuco (FACEPE) e integrante da Curadoria de Estudos Coreanos (CEÁSIA/CEA/UFPE). E-mail: stefany.rayanesantos@ufpe.br.
“Eu, você e toda uma vida” apresenta o maior conflito da trama logo no início: Cheon Sang-yeon (Park Ji-hyun) está com câncer terminal e pede à amiga de longa data, Yoo Eun-jung (Kim Go-eun), para acompanhá-la até a Suíça, onde quer realizar o procedimento de morte assistida. As duas se conheceram na infância e agora, aos 40 e poucos anos, mantêm uma relação marcada por décadas de amor, raiva e desentendimentos.
Em uma narrativa que percorre diferentes momentos da vida — a infância, a juventude e a fase adulta —, elas desafiam as fronteiras entre amor e ódio, respeito e inveja, obrigando os espectadores a questionar: o que nos conecta aos outros? Será que o amor é suficiente para sustentar uma relação? Ou o ódio também é importante nesse estranho laço que nos une? Por que parecemos orbitar perto de algumas pessoas, mesmo quando a distância parece a escolha mais saudável? Qual o valor das memórias que construímos e das escolhas que fazemos perante a chegada da morte?
Dirigido por Jo Young-min e escrito por Song Hye-jin, o drama constrói personagens complexos e frustrantes, cheios de falhas, contradições e atitudes que beiram o detestável, na mesma medida em que geram empatia e curiosidade. Sang-yeon nasceu em uma família rica que posteriormente declara falência. Ela cresceu sentindo falta de acolhimento dos pais e percebe cedo que, para ser reconhecida, precisa ser bem-sucedida. Já Eun-jung, vinda de uma família pobre, recebe amor e apoio incondicional. Essas diferentes experiências de vida moldam as personalidades e as percepções delas: enquanto Sang-yeon, movida pela inveja e pelo medo de ser incompreendida, constantemente se distancia para esconder sua vulnerabilidade, Eun-jung mantém o coração aberto e se entrega com facilidade às pessoas ao seu redor.
Durante os episódios, Sang-yeon muitas vezes toma atitudes contraditórias com a amiga. Com uma tendência a ser egoísta, seja na vida amorosa, na profissão ou até mesmo nos hobbies, ela é uma personagem que incita a raiva do público. Mas é sempre importante ter em mente que a história é narrada sob a perspectiva de Eun-jung, tornando difícil compreender as motivações e o ponto de vista de Sang-yeon.
Com um fim inevitavelmente trágico, “Eu, você e toda uma vida” traz um olhar profundo sobre os relacionamentos em uma época em que tudo parece superficial demais. Distante de um discurso dicotômico entre certo e errado, no qual o menor erro é suficiente para cortar vínculos, a série se opõe a essa aparente facilidade de criar e desfazer laços. Distanciar-se de alguém exige esforço e convicção. E, quando essa pessoa retorna à nossa vida, seja por acaso ou intencionalmente, todas as emoções também voltam. Porque somos humanos. Porque somos seres afetuosos.
Apesar de captar a complexidade das relações, a série tropeça em algumas questões. A principal delas é o fato de que um dos distanciamentos entre Sang-yeon e Eun-jung é causado devido a um homem por quem ambas se apaixonam. A trama se alonga nesse conflito, reforçando o clichê de uma rivalidade feminina provocada por interesses amorosos. Isso, porém, pouco acrescenta à história, que teria se mantido a mesma se não fosse pela interferência de Kim Sang-hak, interpretado por Kim Gun-woo. Apesar dessa parte do roteiro, há algo que salta aos olhos: no fim, elas continuam a escolher uma à outra, apesar e por causa de tudo.
Esta crítica, entretanto, não ofusca a força de “Eu, você e toda uma vida”, que continua sendo uma narrativa intensa sobre amor, inveja e vulnerabilidade ao retratar os laços que escolhemos manter todos os dias, porque eles fazem parte de nós mesmos, com sua dor e alegria. E permanece, acima de tudo, uma história sobre as inevitáveis emoções de estar vivo neste mundo, e sobre o direito de morrer com dignidade, ao lado de quem compartilhamos os anos de nossa vida.
SOBRE A AUTORA:
Mestranda em Ciências Sociais pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), é integrante da Curadoria de Estudos Coreanos. Pesquisa na área de sociologia da literatura, com foco na obra de Han Kang. E-mail: mclaracmenezes@gmail.com.