Durante a Dinastia Joseon (1393-1910), o neoconfuncionismo1 se tornou a ideologia de Estado oficial. Para tanto, os cidadãos de Joseon foram obrigados a implementar os princípios neoconfucionistas no seu cotidiano, como os que estavam relacionados a lealdade e a autoridade, já que a filosofia servia como uma forma de organizar a sociedade e moldar o comportamento. Os coreanos engajavam bastante nessa natureza hierárquica e respeitosa do confucionismo, especialmente nos “Três Laços Fundamentais”, um dos principais pilares do pensamento. Os três laços são: “[…] a lealdade de um súdito ao seu líder; a veneração de uma criança aos seus pais e ancestrais; a dedicação de uma mulher ao seu marido e à sua família” (Jayasuriya, 2024, p. 11).
Com seu caráter hierárquico abraçado pela população da época, a ideologia neoconfucionista passou a desempenhar função fundamental na vida das mulheres coreanas, dado que a subordinação feminina se tornou uma de suas bases. Sob tal lógica, os papéis das mulheres na sociedade eram bastante limitados: todas deveriam ser filhas, esposas e mães e desempenhar perfeitamente as funções ligadas à vida doméstica. Embora a Coreia do Sul hoje seja um país moderno e industrializado, esta perspectiva prevalece na mentalidade dos sul-coreanos, tornando o sistema patriarcal neoconfucionista uma forte herança cultural da Dinastia Joseon, sendo um obstáculo para as mulheres sul-coreanas do tempo presente e, concomitantemente, para o movimento feminista, visto que ainda coloca as mulheres como subordinadas e inferiores aos homens.
Jayasuriya (2024, p. 14) afirma que os ideais neoconfucionistas influenciam diretamente várias situações do cotidiano das mulheres, como o modo com que elas lidam com seus corpos e sua aparência, os padrões de beleza da sociedade e a distribuição de tarefas (ainda são as mulheres as principais responsáveis pelas tarefas da casa, por exemplo). Além disso, as sul-coreanas também se tornaram alvos na esfera on-line, sofrendo diariamente com diversos tipos de ataques na internet, como a propagação de deepfakes e a própria criação da machosfera2(Jung; Moon, 2024), acontecimentos que evidenciam a condição subalterna a que essas mulheres estão expostas.
Apesar desta forma de pensamento estar internalizada na cultura sul-coreana e sua abolição ou reestruturação ser uma tarefa complexa, muitos autores como Juliana Batista e Tabitha Jayasuriya defendem que é possível uma reformulação. Visto que o neoconfucionismo é uma reinterpretação do confucionismo, as autoras partem da ideia de que é possível reinterpretar a filosofia confucionista para entender o papel feminino na filosofia “original” e, dessa maneira, entender o que é invenção do neoconfucionismo e o que não é. Em outras palavras, é necessário realizar uma reinterpretação da ideologia confucionista a fim de entender o papel da mulher na filosofia confuciana para entender o papel da mulher no neoconfucionismo e analisar se o confucionismo e o feminismo são realmente duas ideologias opostas. Segundo Jayasuriya (2024), a ideia de que as mulheres são inferiores aos homens no confucionismo é um erro de interpretação. Sob tal perspectiva, não seria a filosofia confucionista intrinsecamente misógina e sexista, mas sim a forma com que ela é interpretada, ensinada e colocada em prática pelas pessoas desde a Dinastia Joseon, a qual se reflete nos dias atuais.
Por exemplo, Hsü Daulin (1970) afirma que os neoconfucionistas interpretaram de forma errônea “Os Três Laços Fundamentais” do confucionismo ao torná-los um princípio cosmológico: a partir dessa interpretação, a lógica da hierarquia foi consagrada no lugar da reciprocidade dos relacionamentos pregada pela filosofia de Confúcio; essa interpretação errada poderia ser uma das causas da subordinação feminina, pois o homem estaria acima na hierarquia. Além disso, Jayasuriya (2024) e Batista (2017) ainda afirmam que há pontos de intersecção entre o feminismo e o confucionismo, pois o primeiro consegue aplicar as Cinco Virtudes Constantes do Confucionismo (Benevolência, Retidão, Propriedade, Sabedoria e Confiabilidade)3 com facilidade e simplicidade às suas agendas, porque “o Confucionismo é uma filosofia dedicada ao cuidado, ao respeito e à harmonia, e o feminismo é uma ideologia que busca a mesma qualidade de sociedade” (Jayasuriya, 2024, p. 32). Diante desta perspectiva, pode ser enriquecedor para as mulheres sul-coreanas se elas utilizarem o confucionismo em prol da luta mulheril. Jayasuriya (2024, p. 34) admite que não é algo tão simples a se fazer, mas ainda assim é póssivel: “com alguma melhoria na educação e maior conscientização em torno da libertação das mulheres no contexto cultural confucionista, a Coreia poderia aceitar a agenda feminista em suas estruturas sociais e políticas […]” .
É inegável que os valores neoconfucionistas contribuíram para reprimir as mulheres, da mesma forma que são utilizados como justificativa até hoje para tal repressão. Porém, como muitos estudiosos afirmam, existe a possibilidade de que a filosofia confucionista não possua raízes sexistas. Assim, seria o modo que a filosofia foi interpretada e ensinada que tornou o neoconfucionismo sexista e misógino. Nas palavras de Batista (2017), “a ausência de literatura poderosa e de apoio dos primeiros filósofos confucionistas, incluindo o próprio Confúcio, produziu um vácuo que poderia ser preenchido com interpretações negativas das mulheres”. Desta forma, utilizar pontos de convergência entre o confucionismo e o feminismo e realizar uma revisão da filosofia confuciana pode ser um caminho para que a emancipação das mulheres sul-coreanas continue florescendo.
HUANG, Xiuji. Essentials of Neo-Confucianism: eight major philosophers of the Song and Ming periods. Westport, Conn.: Greenwood Press, 1999. Disponível em: https://philpapers.org/rec/HUAEON. Acesso em: 20 fev 2026.
HSÜ, Dau-lin. The myth of the “Five Human Relations” of Confucius. Monumenta Serica, v. 29, p. 27– 37, 1970. Disponível em: dx.doi.org/10.1080/02549948.1970.11744983. Acesso em: 20 fev 2026.
JAYASURIYA, Tabitha. Can you be a feminist in South Korea? Investigating the compatibility of Confucianism and feminism in a Korean context. 2024. Tese (Doutorado em Antropologia) – University of Exeter, 2024. Disponível em: 10.13140/RG.2.2.33264.06408. Acesso em: 20 fev 2026.
JUNG, Gowoon; MOON, Minyoung. “I Am A Feminist, But . . .” Practicing Quiet Feminism in the Era of Everyday Backlash in South Korea. Gender & Society, v. 38, n. 2, p. 216-243. 2024. Disponível em: https://doi.org/10.1177/08912432241230557. Acesso em: 20 fev 2026.
Graduada em Relações Internacionais pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), integrante da Curadoria de Estudos Coreanos (CEÁSIA/CEA/UFPE). Se interessa por estudos de gênero, literatura asiática feminina e cultura coreana. E-mail: yasmim.kc@gmail.com
O neoconfucionismo é uma reinterpretação do confucionismo: ambos são um sistema de crenças que regem e organizam a sociedade. No que diz respeito à ligação desses sistemas, deixo as palavras de Huang (1999, p. xi) “A era Song-Ming tem sido apropriadamente referida como o maior período criativo da história da filosofia chinesa desde a dinastia Zhou (1122?–256 a.C.). Mas, ao contrário da época antiga, durante a qual o confucionismo era uma das escolas mais influentes entre as chamadas cem escolas, durante as dinastias Song e Ming, o neoconfucionismo foi a única força filosófica predominante a desafiar a influência gradualmente decrescente do budismo e, em certa medida, do taoísmo religioso”. Nesse sentido, o confucionismo e o neoconfucionismo nasceram e floresceram em momentos e dinastias chinesas diferentes. Segundo o autor, os filósofos neoconfucionistas tornaram a filosofia mais ortodoxa. Yao (2000, p. 97) afirma que “O verdadeiro valor do neoconfucionismo não reside apenas em seu ‘retorno’ ao confucionismo clássico, mas em sua transformação fundamental das doutrinas confucionistas, que permitiu aos neoconfucionistas construir um sistema doutrinário abrangente e complexo, contendo uma cosmologia evolucionista, uma ética humanista e uma epistemologia racionalista”. ↩︎
Machosfera, segundo Jung e Moon (2024, p. 220), é “um espaço onde as comunidades digitais propagam visões misóginas e rejeitam a masculinidade inclusiva”. ↩︎
As Cinco Virtudes Constantes do Confucionismo são benevolência (ren 仁), retidão (yi 義), prosperidade (li 礼), sabedoria (zhi 智) e confiabilidade (xin 信). Knapp (2009, p. 2253) ao citar Baihutong (um dos textos confucianos) diz: “Benevolência significa não suportar o sofrimento alheio, amar o próximo e auxiliar todos os seres vivos. Retidão significa agir corretamente. Significa acertar no julgamento. Propriedade significa praticar o bem, ou seja, compreender o caminho e aperfeiçoar o que é refinado. Sabedoria significa conhecimento. Significa ter uma compreensão especial e poder saber das coisas antes mesmo de ouvi-las. Significa não se confundir com as circunstâncias e discernir as sutilezas. Confiabilidade significa sinceridade. Significa não se deixar desviar de seu propósito”. Em outras palavras, para o confucionismo as Cinco Virtudes Constantes são os valores/virtudes necessários para viver uma vida moral. Vale ressaltar que o neoconfucionismo se baseia nos conceitos de “qi (originalmente significando ar, vapor, respiração e depois a força vital da vida, traduzido de várias maneiras como força material, energia primária, éter ou matéria), li (princípio ou razão), xin (o coração/mente) e xing (natureza ou natureza humana)” (Yao, 2000). ↩︎
[este ensaio contém SPOILERS para o k-drama Tempest/Polaris]
Desde o bombardeio de Hiroshima e Nagasaki em 1945, o mundo tem vivido debaixo do medo de um possível apocalipse nuclear, encabeçado pelas maiores potências do mundo ou por atores inesperados que conseguiram desbloquear o complexo processo de produção de armamentos nucleares. Muitas das tensões durante a Guerra Fria se basearam no fato de que ambos EUA e URSS eram países nucleares, e muitos acreditavam que apenas a realidade de Destruição Mútua Assegurada (ou MAD, na sigla em inglês) impedia que os diferentes polos entrassem numa guerra nuclear (Editores da Enciclopédia Britânica, 2024). Portanto, não é de se espantar que as consequências de tal conflito tenham estimulado a imaginação de diversos artistas e contadores de história no último século. Com produções de extremo sucesso como o filme Oppenheimer e a série Chernobyl, a humanidade continua a retratar suas ansiedades e expor sua curiosidade sobre as consequências da nuclearização global.
Enquanto historicamente os soviéticos/russos aparecem como antagonistas em histórias de tragédia ou de potencial nuclear, este ensaio almeja debater brevemente o papel que a República Popular Democrática da Coreia (a chamada Coreia do Norte) tem ocupado em produções mais recentes que abordam a ameaça nuclear. A Coreia do Norte retirou-se em 2003 do TNP, o Tratado da Não-Proliferação de Armas Nucleares, sendo atualmente um dos poucos países com arsenal bélico militar confirmado, e tal fato tem sido explorado por roteiristas de grandes séries televisivas.
Em Tempest/Polaris1, k-drama exibido pelo Disney+ e que estrela Jun Jihyun como a protagonista Seo Munju e Gang Dongwon como seu guarda-costas e par romântico Paik Sanho, o problema nuclear da Coreia do Norte ocupa o plano principal da narrativa. Kim Jong-un, presidente factual da Coreia do Norte, é ficcionalizado como Kim Hansang, interpretado por Uhm Taegoo, e aparece em momentos climáticos e tensos da trama como um dos principais antagonistas, ainda que frequentemente nos bastidores. Tempest/Polaris foi ao ar entre setembro e outubro de 2025, contando com 9 episódios e nota 6,7 no IMDb, sendo distribuído globalmente pela Disney, ainda que no selo Hulu, que produziu o k-drama (Polaris: Conspiração Política, 2025).
A trama segue Munju, ex-embaixadora sul-coreana na ONU, que deixa sua carreira diplomática para acompanhar a candidatura do marido, Jang Junik, à presidência da Coreia do Sul. No entanto, Junik é assassinado durante um compromisso de campanha, e Munju começa a desvelar uma trama de conspiração por detrás da morte do marido. Ela descobre que Junik iria anunciar um plano de reunificação pacífica entre o Norte e o Sul da península coreana, e que ele tinha contato direto com Anderson, dirigente estadunidense para assuntos coreanos nos EUA. Anderson, por sua vez, suspeitava que a Coreia do Norte havia vendido um submarino nuclear para Idisha, um país fictício que sofre com invasões estadunidenses e, a série sugere, está localizado em algum lugar do Oriente Médio. Através desse submarino, a Coreia do Norte estaria diretamente conectada a um futuro bombardeio nuclear em território estadunidense.
A questão da reunificação coreana é também central para o enredo do k-drama, especialmente porque Sanho, o protagonista masculino, é um desertor da Coreia do Norte que trabalha como mercenário. Sua fascinação por Munju, que defendia a proximidade entre as Coreias em seus discursos na ONU, leva-o a buscar protegê-la das tentativas de assassinato que ela sofre quando decide, ela mesma, concorrer à presidência. No meio de uma tempestade que envolve corrupção no governo sul-coreano, animosidade entre Coreia do Sul e China, adultério e dramas familiares, Munju é a responsável por conectar os pontos de uma tentativa de provocação de guerra nuclear na península coreana.
É importante ressaltar que o k-drama coloca a frágil relação entre EUA e Coreia do Sul no centro do enredo. Frágil porque, com bases militares estadunidenses instaladas em seu território, a produção aponta para o fato de que a Coreia do Sul fica à mercê dos interesses particulares e do comprometimento com a détente nuclear estadunidenses para a manutenção de sua própria segurança. Durante o enredo, o alto escalão de dirigentes dos EUA está disposto a sacrificar a Coreia do Sul se isso significar a destruição da Coreia do Norte e de seus armamentos nucleares; o k-drama retrata até um código secreto compartilhado entre as bases militares estadunidenses para a retirada de seus membros da península em caso de futuro bombardeio nuclear.
É através da atuação corajosa de Munju e Sanho que se impede um bombardeio de mísseis nucleares norte-coreanos nos EUA, que ocasionaria a eclosão de uma guerra de proporções mundiais. Arquitetado por uma traficante de armas e espiã que almejava ganhar muito dinheiro com o início de uma guerra violenta, a grande vilã secreta do k-drama é derrotada pelos dois protagonistas e o bombardeio é impedido em conjunto com os líderes fictícios da Coreia do Norte e de Idisha, que fornecem os códigos necessários para cancelar o disparo das ogivas.
O que Tempest/Polaris demonstra é que a Coreia do Sul ainda é uma sociedade marcada de forma singular pela ansiedade nuclear e pela desconfiança de sua irmã nortenha. No entanto, o k-drama não retrata os norte-coreanos como vilões cartunescos, muito pelo contrário: a narrativa aponta para as similaridades entre os países, especialmente no que toca seus relacionamentos conturbados com os EUA. É somente com a colaboração norte-coreana que Munju consegue desarmar as bombas nucleares que estavam direcionadas para os EUA. Munju é uma figura polêmica por conta de sua posição favorável à reunificação coreana, e ela é conhecida por todo país por sua atuação na ONU, falando a favor da paz e contra os conflitos nucleares.
Dessa maneira, Tempest/Polaris procura demonstrar como é complexa a posição sul-coreana em sua localização geopolítica. O k-drama é certeiro ao evidenciar como é desigual o relacionamento entre Coreia do Sul e EUA, demonstrando como os interesses estadunidenses podem comprometer a segurança sul-coreana e destruir quaisquer laços de solidariedade que existam entre ela e a sua irmã do norte. A posição crítica em relação aos EUA não é óbvia para um país que ainda depende não apenas do poderio militar estadunidense como também de laços econômicos com a potência norte-americana. As exportações da Coreia do Sul para os EUA têm apenas crescido, e a ameaça do Presidente Trump de taxá-las em 25% no início de 2025 preocupou profundamente autoridades sul-coreanas (PODER360, 2025).
Além disso, tendo como ponto central o poderio nuclear norte-coreano, Tempest/Polaris retrata como a paranoia nuclear pode cegar dirigentes, levando-os à corrupção (acusando falsamente cidadãos de espionagem, por exemplo) ou a medidas incrivelmente drásticas. O k-drama retrata como a ansiedade nuclear ainda orienta muito das decisões políticas tomadas pela Coreia do Sul e também ao entorno dela, por Coreia do Norte, China e EUA, demonstrando que essa questão ainda é extremamente atual. O problema das armas nucleares não ficou no século XX, com os retratos caricatos de soviéticos em filmes de espionagem. Pelo contrário, a Coreia do Norte, por ser considerada um ator imprevisível, ainda causa extrema desconfiança em dirigentes pelo mundo todo.
A solução apontada pelo k-drama é uma que certamente é considerada utópica por muitos: a reunificação pacífica da península coreana. Apesar das críticas empreendidas tanto ao governo sul-coreano quanto ao estadunidense, o k-drama entende que é apenas com um convívio unificado e transparente que haverá paz duradoura na península. Mas o k-drama não hesita em apontar as dificuldades que tal empreendimento enfrenta, tanto dentro da própria Coreia do Sul, quanto pelos EUA, que têm interesse em manter seu posicionamento na região.
Tempest/Polaris se aproveita da base cultural compartilhada da ansiedade nuclear para construir um enredo tenso, politicamente complexo. Colocando a Coreia do Sul como protagonista, o enredo explora de forma bem sucedida o que a ameaça nuclear norte-coreana significa para a península, redirecionando o foco de tal tipo de narrativa, que geralmente é centrada nas consequências para Europa e EUA.
Doutora em Relações Internacionais pela PUC-Rio, e pesquisadora associada da Curadoria de Estudos Coreanos (CEA/UFPE) e do Laboratório Cultpop (CNPq/UFF). Sua tese de doutorado procurou entender como fandoms de k-pop são lugares de formação política e por isso mesmo ela está sempre hiperanalisando peças de cultura pop.
O k-drama é exibido no Brasil com o título Polaris, mas internacionalmente é conhecido como Tempest, por isso a opção pela barra. ↩︎
por Guilherme Henrique Ferreira Povoa e Maria Clara Lima Abrão
Imagem: Estátua de uma pessoa consolando outra na Ponte Mapo (마포대교), no Rio Han, ponte com o maior registro de tentativas de suicídio em Seul. Fonte: https://www.ilpost.it/2013/01/12/dimentica-tutto/skorea-society-suicide-5/
Frequentemente celebrada pela capacidade tecnológica, índices de desenvolvimento e influência cultural global, a Coreia do Sul exporta uma narrativa de Estado bem-sucedida, mascarando diversas rupturas sociais alarmantes, muitas vezes agravadas por essa própria narrativa. Dentre as fraturas, destacam-se os altos e alarmantes índices de suicídio e as diversas tentativas de compreender quais as motivações e relações entre esses e a sociedade moderna sul-coreana: fatores econômicos, filosóficos, midiáticos e sistêmicos.
A cada quarenta minutos, falece uma pessoa na Coreia do Sul, país no qual o suicídio é a quinta causa de morte mais comum entre todas as idades, o que o torna uma epidemia a ser combatida (Raschke et al., 2022). Neste sentido, quando ponderado demograficamente, nota-se um aumento no número de suicídios entre crianças e adolescentes, o qual se relaciona com pressão acadêmica, bullying, cyberbullying, coberturas midiáticas inadequadas de outros casos de suicídioe quadros precários de saúde mental, simultâneo ao crescimento alarmante no índice de suicídio entre idosos, majoritariamente em áreas rurais, associado ao desamparo financeiro e familiar (Lee, 2023).
Historicamente, a Crise Econômica Asiática de 1997 marca o aumento expressivo da quantidade de suicídios no país — cujos índices são os maiores entre os membros da OCDE (Paik, 2025) —, sobretudo entre os anos de 2009 a 2011 (Staudt, 2025), quintuplicando o índice anual. Esse período na Coreia do Sul foi marcado por instabilidade financeira, desemprego e baixa renda, fatores diretamente relacionados a tentativas de suicídio (Raschke et al., 2022). A percepção do cenário econômico, para além da situação profissional e financeira, pode ser diretamente associada à depressão (Barrass et al., 2024, p. 12); a relação também ocorre, em crescimento linear, quando pensadas as tentativas de suicídio, devido ao aumento de custo de planos de saúde, entre outros (Lee et al., 2025)
Neste contexto, diversos elementos influenciam as altas taxas de suicídio, para além de fatores socioeconômicos, como o Confucionismo, filosofia enraizada na Ásia, em que “o fracasso não é tolerado e as pessoas hesitam em falar sobre erros ou problemas de saúde mental, todos os quais são considerados uma fraqueza”1 (Rashid, 2023a; Saeji et al., 2018 apud Staudt, 2025, p. 27, tradução nossa). Outrossim, a falta de escandalização ou a aquiescência perante o suicídio é herança, não somente da sabedoria confucionista, mas da própria história asiática, em que a morte preserva a honra em um contexto que valoriza a ideia de legado individual e familiar (Im; Park; Ratcliff, 2018).
A cobertura inadequada e/ou sensacionalista da mídia é, idem, um fator que contribui para a elevação dos índices, levando comumente a comportamentos em massa nas redes sociais (como hate trains). Sobretudo, influenciam pela natureza contagiante do suicídio — ou pelo Efeito Werther2 —, exemplificado por coberturas de famosos, como o ex-presidente da República (2003–2008), Roh Moo-hyun (1946–2009), cuja exposição, especulação e publicização foram excessivas, com mais de 26 mil reportagens on-line até 2020 (Ha; Yang, 2021). Segundo Ha e Yang (2021), como efeito de coberturas midiáticas, os índices de suicídio já apresentam elevações de 16,4% ao primeiro dia de exposição, influenciando, inclusive, o método escolhido (comumente similar ao televisionado).
Outros elementos que impactam profundamente na qualidade de vida consistem no deslocamento entre valores e moralidades tradicionais, como o hyo, em contraste à modernidade “comprimida”, dinâmica e, basicamente, neoliberal e capitalista, afetando sobretudo a população idosa. O hyo (em hangul 효), é comumente traduzido como “piedade filial” e é um dos pilares da filosofia Confuciana, embora não tenha surgido com Confúcio a ideia de assistência, cuidado aos mais velhos e respeito profundo aos ancestrais (Wang; Tian, 2023); tal valor faz-se presente inclusive em folclores coreanos antigos prévios a Confúcio, como em “História de Shim-Jong” (Ilin, 2023). Neste sentido, o dado valor fora associado à noção de “boa pessoa” e integrou a cultura e as normas sociais por gerações, não se tratando somente de uma crença, mas de uma virtude arraigada, por ser a base de todas as outras virtudes segundo Confúcio (Wang; Tian, 2023). Hyo envolve, portanto, lealdade, justiça, honra, misericórdia, respeito, educação, obediência e provento material, entre outros. Neste contexto, todavia, nota-se, com a ascensão do neoliberalismo desde os anos 1990 — e da criação de “classes inseguras” devido à precarização, queda na qualidade de vida, exploração da classe trabalhadora e perda de segurança social —, o enfraquecimento do hyo, não somente pela impossibilidade do provento material e assistência financeira dos filhos aos pais, mas pela falta de preparo e proteção social diante do envelhecimento acelerado da população, denotando a perda de importância, piedade, justiça e, sobretudo, respeito aos idosos (Staudt, 2025).
Ao analisar os elementos que influenciam o alto índice estrutural de suicídio, uma vez que perdura há décadas, percebe-se que tais fatalidades escancaram que os supostos fama, sucesso e admiração pública, utilizados na narrativa sul-coreana bem-sucedida exportada a todo vapor, não possuem força frente a uma estrutura que nega espaço para a vulnerabilidade, reforça a exploração do trabalhador, produz choques culturais entre filosofias tradicionais e a lógica neoliberal e reverbera todas as falhas, erros e falecimentos em suas mídias. Todos esses elementos produzem a desumanização do ser e reforçam a importância de pautar os altos índices de suicídio na Coreia do Sul, não somente a fim de contrastar com a narrativa de sucesso exportada e em voga domesticamente, mas com o intuito de alertar àqueles que a consomem candidamente e acreditam de forma convicta se tratar de um país paradisíaco sem fissuras sociais.
REFERÊNCIAS
BARRASS, Lucy et al. The association between socioeconomic position and depression or suicidal ideation in low and middle-income countries in Southeast Asia:a systematic review and meta-analysis. BMC Public Health, n. 24, p. 3507, 2024.
HA, Jeongmin; YANG, Hee-Seung. The Werther effect of celebrity suicides: Evidence from South Korea. PLoS ONE, v. 16, n. 4, 2021.
ILIN, Mykhailo. Filial Piety in Korean Cultural Tradition. SJ Academy, abr. 2023. Disponível em: https://sj.academy/2023/04/29/shanoblyvist-u-korejskij-kulturnij-tradycziyi/. Acesso em 13 out. 2025
IM, Jeong Soo; PARK, B. C. Ben; RATCLIFF, Kathryn Strother.Cultural Stigma Manifested in Official Suicide Death in South Korea. OMEGA – Journal of Death and Dying, v. 77, n. 4, 2018.
LEE, Yuri. Suicide Trends and Responses in Korea. In:Korean Social Trends.Statistics Korea Research Institute (KOSTAT), 2023.
METELSKI, Giuliano et al.O efeito Werther e sua relação com taxas de tentativas de suicídio: uma revisão narrativa. Research, Society and Development, v. 11, n.10, e267111032630, 2022.
PAIK, Rocio. Por que a Coreia do Sul se tornou a República do Suicídio. Opera Mundi – Especial, 2023. Disponível em: https://operamundi.uol.com.br/especial/por-que-a-coreia-do-sul-se-tornou-a-republica-do-suicidio/. Acesso em: 5 ago. 2025.
RASCHKE, Nicolas et al. Socioeconomic factors associated with suicidal behaviors in South Korea:systematic review on the current state of evidence. BMC Public Health, n. 22, art. 129, 2022. DOI: https://doi.org/10.1186/s12889-022-12498-1
STAUDT, Eileen. South Korea, Competitiveness and Suicides: A Global Political Economy Study of South Korea’s “Suicide Crisis”. University Helsinki, 2025.
WANG, Xueyin; TIAN, Xiaolei.Teaching with Filial Piety:A Study of The Filial Piety Throught of Confucionism. Trans/Form/Ação, Marília, v. 46, n. 4, p. 287-302, 2023.
SOBRE OS AUTORES
Guilherme Henrique Ferreira Povoa
Graduando em Relações Internacionais pela Universidade Federal de Uberlândia, integrante da Curadoria de Estudos Coreanos (CEÁSIA/CEA/UFPE). Possui interesse em Estudos Asiáticos com ênfase em Coreias, Segurança Internacional, Política Externa e Comércio Exterior. E-mail: guilhermeferreiradesouza135@gmail.com
Maria Clara Lima Abrão
Graduanda em Relações Internacionais pela Universidade Federal de Uberlândia, integrante da Curadoria de Estudos Coreanos (CEÁSIA/CEA/UFPE) e do Núcleo de Pesquisa em Segurança Internacional e Estudos Estratégicos (NUPSIEE-UFU). Se interessa por Estudos Asiáticos com ênfase em Coreias, Segurança Internacional, cultura e identidade. E-mail: mcl.abrao@gmail.com
No original: “failure is not tolerated and that people are hesitant to talk about mistakes or mental health issues, all of which are considered a weakness” (Rashid, 2023a; Saeji et al., 2018 apud Staudt, 2025, p. 27). ↩︎
Efeito Werther ou efeito manada é uma terminologia utilizada para o aumento de taxas de suicídio após a divulgação ampla de suicídios de celebridades e/ou personalidades midiáticas. O termo advém do protagonista da obra de Goethe, “Os sofrimentos do jovem Werther”, e levou a uma onda de suicídios na Europa após o lançamento do livro (Metelski et al, 2022). ↩︎
No Centro Médico Yulje (Yulje Medical Center), em Seul, quatro residentes de obstetrícia e ginecologia enfrentam os primeiros meses de suas carreiras em meio a plantões extensos, procedimentos complexos e decisões que podem colocar vidas em risco. Esta é a história retratada em Resident Playbook, série dramática sul-coreana lançada em 12 de abril de 2025 pela Total Variety Network (tvN) e disponível na Netflix.
Estrelada por Go Youn Jung (Oh Yi Young), Shin Si Ah (Pyo Nam Kyung), Kang Yoo Seok (Um Jae il) e Han Ye Ji (Kim Sa Bi), a produção mostra o dia a dia de jovens médicos no contexto de um sistema de saúde pressionado e em transformação. Dirigido por Lee Min Soo, o K-drama, que é um spin-off do sucesso Hospital Playlist (2020), ocupou o top 10 das séries mais assistidas da Netflix, no período de lançamento, e atingiu uma média nacional de 8,1% de audiência no seu último episódio, segundo um levantamento da Nielsen Korea.
Muito mais que uma obra de ficção, a trama mostra residentes lidando com plantões extensos e decisões complexas, realidade que vai ao encontro do contexto médico da Coreia do Sul nos últimos dois anos. Oh Yi Young se destaca como uma das principais personagens da história e, devido a uma situação traumática, acabou deixando a carreira de médica de lado antes de encerrar o seu primeiro ano como residente, porém, após cair em dívidas, não viu outra saída a não ser voltar à profissão.
Ao lado de Pyo Nam Kyung, Um Jae il e Kim Sa Bi, ela enfrenta diversas situações em que precisava agir com urgência para atender desde gestantes até mulheres em situação de câncer terminal, mesmo não tendo a experiência necessária. Os jovens médicos, um tanto atrapalhados, ainda precisam lidar com a falta de profissionais e aprendizes em suas respectivas áreas, ginecologia e obstetrícia, uma vez que o número de residentes que se interessam por essas especialidades é cada vez menor.
Após superar desafios, confusões, muitas broncas de seus professores e ainda se envolverem em relacionamentos amorosos, os quatro residentes conseguem finalizar o primeiro ano atuando no Centro Médico Yulje e, no fim do K-drama, ingressam no segundo ano, não só para enfrentar novas aventuras que virão pela frente, mas também para assumir o papel de veteranos que irão orientar os residentes recém-chegados.
Crise médica na Coreia do Sul
Muito mais que um spin-off do sucesso Hospital Playlist, Resident Playbook é um retrato da crise que assola o país desde fevereiro de 2024, quando o governo anunciou a proposta de aumentar o número de admissões em faculdades de medicina em 67%, cerca de 5 mil estudantes por ano, para enfrentar a demanda crescente por profissionais de medicina (Beer; Jenne, 2025).
Na época, o até então ministro da saúde, Cho Kyoo Hong, apontou a urgência da mudança devido ao envelhecimento acelerado da população, à falta de especialistas nas áreas de atendimento de emergência, pediatria, ginecologia e obstetrícia e à escassez de médicos em áreas mais rurais. A medida, que deveria entrar em vigor em janeiro de 2025, desagradou professores, estudantes, entidades médicas e, principalmente, os residentes, que se afastaram de seus cargos e de seus cursos para ir às ruas protestar. O impacto imediato incluiu adiamentos de cirurgias e ajustes na triagem de serviços essenciais.
De acordo com a Associação Médica Sul-Coreana (Korea Medical Association – KMA), mais de 12.000 médicos residentes entregaram cartas de demissão e cerca de 14.000 estudantes de medicina suspenderam suas atividades em hospitais universitários (Beer; Jenne, 2025). A categoria argumentou que, de modo geral, a quantidade de médicos atuantes era suficiente e que, antes da adoção de uma reforma médica, seria necessário investir em melhores condições de trabalho. O período de greve se estendeu por cerca de 18 meses, sendo encerrado em 1º de setembro deste ano, após um anúncio da Associação Sul-Coreana de Estudantes de Medicina (Lee, 2025).
A realidade desses profissionais vai totalmente ao encontro da rotina mostrada em Resident Playbook, que, além de retratar longos plantões e a pressão sob os residentes, também mostra o sofrimento constante dos pacientes em meio a uma crise estrutural do sistema de saúde que veio crescendo na última década. Segundo a legislação sul-coreana, o limite máximo de atuação para residentes é de 80 horas semanais, porém, estudos de 2023 e 2024 apontam que muitos profissionais cumprem quase 100 horas por semana (Yoon; Kwon; Park, 2024).
Em termos de remuneração, os salários chegam a cerca de 70 milhões de wons anuais (aproximadamente R$252 mil), valor que, segundo dados do Ministério da Saúde e Bem Estar da Coreia do Sul, é inferior ao que seria considerado adequado para jornadas dessa intensidade (Han; Chung, 2024). Embora boa parte dos profissionais tenha retornado aos seus cargos, as negociações com o governo não apontaram para uma resposta efetiva, que era esperada pela categoria. Até então, apenas foi afirmado que o aumento das vagas nas universidades aconteceria de forma gradual, com 1.509 admissões neste ano e 3.058 previstas para 2026 (Beer; Jenne, 2025).
HAN, Eui-Ryoung; CHUNG, Eun-Kyung. A qualitative study on the adoption of the new duty hour regulations among medical residents and faculty in Korea. National Library of Medicine, v. 19, n. 4, 2024. DOI: 10.1371/journal.pone.0301502. Disponível em: https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC11008864/. Acesso em: 08 nov. 2025.
SOBRE A AUTORA
Stefany Santos – Graduanda em Comunicação Social pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), pesquisadora vinculada à Fundação de Amparo à Ciência e Tecnologia do Estado de Pernambuco (FACEPE) e integrante da Curadoria de Estudos Coreanos (CEÁSIA/CEA/UFPE). E-mail: stefany.rayanesantos@ufpe.br.
A literatura sul-coreana e de diáspora está se tornando cada vez mais popular no Brasil. Basta fazer uma breve pesquisa para encontrar nomes que, em pouco tempo, tornaram-se referência entre os leitores: Han Kang (“A Vegetariana”), Min Jin Lee (“Pachinko”), Cho Nam-joo (“Kim Jiyoung, nascida em 1982”) e Sohn Won-pyung (“Amêndoas”)1 estão entre as mais populares. Mas, também, há os escritores que lideram o fenômeno de “literatura de cura” do mercado nacional, como Hwang Bo-reum (“Bem-vindos à Livraria Hyunam-Dong”), Kim Ho-yeon (“A inconveniente loja de conveniência”), Baek Se-hee (“Queria morrer, mas no céu não tem tteokbokki”) e muitos outros.
Há, porém, uma autora que parece ter ficado para trás da onda literária. Não por causa da qualidade de sua escrita, porque ela talvez seja uma das grandes escritoras contemporâneas da Coreia do Sul. Mas, provavelmente, porque seus livros foram traduzidos no Brasil antes das publicações sul-coreanas ganharem maior popularidade internacionalmente, porque suas obras não foram publicadas pelas grandes editoras que, muitas vezes, definem os títulos mais comentados no país, e porque seus títulos não receberam premiações internacionais que costumam chamar atenção do mercado brasileiro. A escritora é Bae Su-ah, que publicou livros como “Sukiyaki de Domingo”, pela Estação Liberdade, e “Noites e dias desconhecidos”, pela DBA Editora.
Além de um marco no mercado editorial por ter sido o primeiro título traduzido diretamente do coreano para o português, “Sukiyaki de Domingo” é um romance que critica a estrutura patriarcal e capitalista do mundo em que vivemos. Com uma narrativa não linear, na qual cada capítulo pode ser lido individualmente, a autora lança um olhar para as pessoas da classe trabalhadora que destoam de uma imagem de sucesso, mas que vivem em um cotidiano de escassez, igualmente necessário para manter as engrenagens do capitalismo funcionando. Infelizmente, é uma obra que não está mais disponível para vendas — não está na Amazon, nem no site da Estação Liberdade. Há alguns disponíveis na Estante Virtual, plataforma digital de comércio para livreiros e sebos, e, se você tiver sorte, como eu tive, pode encontrar um exemplar em alguma biblioteca.
Há também “Noites e dias desconhecidos”, que pode ser adquirido com maior facilidade. O livro tem um tom surrealista e onírico, no qual o leitor não sabe definir onde termina a realidade e onde começa o sonho. Entretanto, há uma história que guia toda a narrativa, diferentemente de “Sukiyaki de Domingo”: nela, a atriz Ayami está no seu último dia de trabalho em um teatro para pessoas cegas e inicia uma jornada por Seul. Enquanto anda pela cidade com seu ex-chefe em busca de reencontrar uma amizade antiga, conversam sobre tudo. Porém, a autora mescla os pontos de vista dos personagens e conduz os leitores por uma narrativa que troca a ordem da realidade pelo caos dos sonhos.
Bae Su-ah aposta na experimentação durante a escrita ao trazer mudanças abruptas de perspectiva, ao não se incomodar em explicar frases e expressões que (apenas) parecem ter aparecido de repente e ao recorrer a uma visão introspectiva sobre os acontecimentos que afetam os personagens. É, portanto, autoexplicativo que ela, em seu trabalho como tradutora do alemão para o coreano, tenha traduzido autores como Franz Kafka, Fernando Pessoa e, inclusive, Clarice Lispector (LTI Korea, [s.d.]).
A autora, porém, teve um difícil início de carreira na literatura, porque muitos críticos a consideravam “pouco coreana”. Diferentemente de uma escrita concisa, com temas sociais evidentes, ela escreve frases longas e foca na individualidade. “Eu não sou uma escritora que escreve em um coreano bonito e refinado. Quando comecei a escrever, não estava bem preparada e, até hoje, acho que não escrevo frases muito boas, mas ultimamente as pessoas estão menos críticas”, disse ela em entrevista ao The Guardian (Ashby, 2020). Já em conversa ao Three Wise Monkeys (Sylvian, 2014), a autora também opinou sobre a receptividade de seu trabalho na Coreia do Sul: “minha escrita pode parecer muito individualista. Os coreanos gostam de consenso emocional. Eles vivem fiéis aos seus desejos, mas, ao defender alguma causa, sempre dão importância a esse valor. O mesmo acontece na literatura”.
Com um olhar para as dores individuais do mundo contemporâneo, como a solidão, a violência e o trauma, além de constantemente focar em personagens que estão à margem da sociedade, Bae Su-ah já publicou muitos outros textos. E estes, espero que sejam descobertos pelo mercado editorial brasileiro. Entre os não traduzidos para o português estão “A Greater Music” (2016), que conta a história de uma jovem escritora coreana que, ao cair em um rio em Berlim, recorda histórias do passado, sua relação com o namorado Joachim e as experiências de mudar-se para a Alemanha; “Milena, Milena, Ecstatic” (2019), que acompanha um cineasta que recebe uma proposta de uma fundação para produzir um documentário sobre uma garota em busca da mãe que a abandonou durante a infância; e “Nowhere To Be Found” (2015), sobre uma narradora não identificada que procura um significado para a própria vida enquanto recorda memórias sobre família, relacionamentos e trabalho.
Bae Su-ah utiliza majoritariamente personagens femininas, e esta escolha é intencional, como comentou em entrevista para o The White Review:
Na maioria dos casos, tenho uma intenção clara quando escolho uma protagonista feminina. São mulheres que se recusam ou não conseguem ter seu próprio lugar na sociedade tradicional. Eu amo essas mulheres. Mulheres que não podem ter status social garantido pelo casamento, ou mulheres que se recusam a se casar para obtê-lo; mulheres que não se reprimem por causa de seus pais ou irmãos; mulheres que, como resultado de suas personalidades independentes, são solitárias e enfrentam problemas financeiros. Mulheres que seguem seu próprio caminho de acordo com sua própria teimosia e que não têm medo de fazê-lo. Tenho muito interesse nessas vidas. E, portanto, planejo escrever sobre essas mulheres também no futuro. Desejo dotá-las de um status estético por meio da minha ficção. E quero fazê-las cruzar uma certa fronteira que eu mesma não consegui cruzar porque minha bravura foi insuficiente. Desejo que elas sejam mais fortes do que eu (Smith; Bae, 2017).
Apesar da conexão com protagonistas e narradoras mulheres, a autora não se considera muito envolvida com política, nem define sua literatura como feminista, mas carrega um compromisso com a imaginação e com a observação acerca da vida. Ela trabalha, neste sentido, com o grotesco que se insere nos costumes, na sociedade e nas relações humanas (Sylvian, 2014) — e mostra como esse elemento contribui para a instabilidade emocional e a solidão presente no cotidiano.
Com uma obra literária conectada ao onírico, Bae Su-ah desafia as fronteiras entre as vidas vividas e as vidas sentidas. Talvez, em um mundo tão acelerado, o que precisamos seja uma experiência de leitura que rompe com o real e convida ao tempo da subjetividade.
Mestranda em Ciências Sociais pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) é integrante da Curadoria de Estudos Coreanos. Pesquisa na área de sociologia da literatura, com foco na obra de Han Kang. E-mail: mclaracmenezes@gmail.com.
NOTAS:
A literatura de cura foi um gênero recentemente criado pelo mercado editorial para definir histórias ambientadas em lugares aconchegantes, como livrarias, bibliotecas e cafeterias, e que trazem mensagens de conforto aos leitores. Sohn Won-pyung, autora de “Amêndoas”, é considerada um dos grandes nomes desse recente movimento literário. Mas, como ela mesma disse em entrevista ao O Globo em 2024, seu livro não tinha a intenção de curar alguém, porque foi inspirado em suas experiências pessoais. Apesar disso, ela reconhece que “O Impulso”, seu outro título, pode ser considerada uma obra do gênero. Mais informações estão no link da matéria: https://oglobo.globo.com/cultura/noticia/2024/09/13/queridinha-do-bts-autora-de-amendoas-lanca-novo-romance-na-bienal-do-livro-e-questiona-rotulo-ficcao-de-cura-nao-quero-salvar-ninguem.ghtml↩︎