A Complexidade Humana em “O Bom Filho”, de Jeong Yu-Jeong

A Complexidade Humana em “O Bom Filho”, de Jeong Yu-Jeong

Por Mariana Mello Alves de Souza

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“O Bom Filho” (종의 기원) é um romance de suspense psicológico narrado em primeira pessoa pelo protagonista Han Yu-jin, um jovem que teve seu futuro promissor como nadador interrompido pela epilepsia. Publicado originalmente na Coreia do Sul em 2016 pela editora 은행나무 e traduzido para o português por Jae Hyung Woo e publicado no Brasil pela editora Todavia em 2019, a narrativa da autora Jeong Yu-Jeong tem início com Yu-jin acordando em meio a um mistério inquietante: ele encontra sua mãe morta na casa onde vivem, mas sua memória do ocorrido está destruída, possivelmente pela própria condição neurológica. A partir daí, a autora desenvolve um enredo complexo que alterna entre o presente e os flashbacks da infância de Yu-jin, explorando os traumas familiares, sua relação com o irmão adotivo Kim Hae-jin, as manipulações mentais e a psicopatia do personagem. Segundo Osborne (2018, p. 1)1, “este é um livro de perguntas. É também um livro de mistério, mas boa parte dele consiste em Yu-jin falando consigo mesmo, tentando descobrir o que está acontecendo”.

A construção do protagonista é destacada na obra pela sua intrincada personalidade, cuja aparente normalidade esconde um comportamento predatório e psicótico. A autora usa a fragmentação da memória e os flashbacks não só para desvendar o mistério do crime, mas para proporcionar uma análise profunda da mente perturbada de Yu-jin, tornando o livro um exercício focado na psicologia humana, especialmente nos impactos do controle opressivo materno e das relações familiares tóxicas. O leitor é levado a uma ambiguidade moral, questionando a confiabilidade da narrativa, pois Yu-jin manipula suas próprias memórias e sua versão dos fatos. Para Varma (2019, p. 1)2:

Ao mergulharmos na toca do coelho, virando as páginas sombrias de sua mente e do diário de sua mãe, que nos leva de sua infância à idade adulta, quando ele está prestes a ingressar na faculdade de direito, nos deparamos com sua ‘verdadeira natureza’.

O livro também é apreciado por público e crítica por seu ritmo intenso e sua habilidade em manter a tensão narrativa, apesar de algumas críticas quanto ao detalhamento excessivo em certas partes. É um thriller que alia suspense com drama humano, revelando os mecanismos internos de uma família marcada por complicações psicológicas e sociais, em um contexto sul-coreano contemporâneo discutido sutilmente no pano de fundo da história. A ambientação cultural, ainda que não seja o foco central da narrativa, contribui para a construção de um cenário que reforça os dilemas individuais e coletivos, permitindo ao leitor compreender como fatores sociais e familiares se entrelaçam na formação da subjetividade dos personagens.

A autora, Jeong Yu-Jeong, demonstra grande habilidade em explorar os limites entre realidade e percepção, utilizando recursos narrativos que intensificam a dúvida e a ambiguidade. O protagonista é construído de forma complexa, revelando gradualmente suas fragilidades, traumas e contradições, o que confere à obra uma dimensão psicológica que ultrapassa o mero enredo policial. Neste sentido, o romance pode ser interpretado como uma investigação não apenas de um crime, mas da própria mente humana, expondo os mecanismos da memória, da repressão e da culpa.

Além disso, a narrativa dialoga com questões universais, como a herança familiar, a pressão social e os efeitos da violência psicológica, ao mesmo tempo em que mantém o leitor em constante estado de alerta. O uso de descrições minuciosas, embora alvo de críticas por leitores e críticos literários, pode ser visto como uma estratégia literária para intensificar a atmosfera claustrofóbica e a sensação de aprisionamento que permeia a obra. Essa escolha estilística reforça a ideia de que o verdadeiro suspense não reside apenas na resolução do mistério, mas na revelação gradual das camadas emocionais e cognitivas que compõem os personagens.

Em síntese, “O Bom Filho” é uma obra que transcende o simples mistério policial para apresentar um estudo psicológico profundo, com uma escrita que prende o leitor e convida à reflexão sobre a natureza da mente, a memória e os laços familiares problemáticos. Trata-se de um romance que, ao mesmo tempo em que entretém pelo suspense, também provoca inquietação intelectual ao expor os limites da racionalidade e da moralidade em situações extremas. Desta forma, a obra de Jeong Yu-Jeong consolida-se como uma contribuição significativa para o gênero thriller psicológico contemporâneo, oferecendo ao público não apenas uma narrativa envolvente, mas também uma oportunidade de reflexão crítica sobre os dilemas humanos universais.

Referências

JEONG, Yu-Jeong. O Bom Filho. Tradução: Jae Hyung Woo. São Paulo: Todavia, 2019.

OSBORNE, J. David. The Good Son by You-Jeong Jeong. World Literature Today, 2018. Disponível em: https://www.worldliteraturetoday.org/2018/july/good-son-you-jeong-jeong. Acesso em: 24 nov. 2025.

VARMA, Anuradha. Book review: The Good Son by You Jeong Jeong. The Indian Express, 26 maio. 2019. Disponível em: https://indianexpress.com/article/lifestyle/books/book-review-good-son-you-jeong-jeong-5747877. Acesso em: 24 nov. 2025.

SOBRE A AUTORA

Mariana Mello Alves de Souza

Doutoranda em Estudos Literários pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) e integrante da Curadoria de Estudos Coreanos. Pesquisa na área de tradução literária, com foco na poesiacanto coreana clássica.

E-mail: mello.mariana@live.com.

  1. Tradução da autora. No original: “This is a book of questions. It’s a book of mystery, too, but a good portion of it consists of Yu-jin talking to himself, trying to figure out what’s going on”. ↩︎
  2. Tradução da autora. No original: “As you go down the rabbit hole, turning the dark pages of his mind and his mother’s journal, which takes us from his childhood to adulthood as he stands at the threshold of law school, we come face to face with his ‘true nature’”. ↩︎
O imaginário nuclear e da reunificação coreana em Tempest/Polaris

O imaginário nuclear e da reunificação coreana em Tempest/Polaris

por Luisa de Mesquita

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fonte: Disney/Reprodução

[este ensaio contém SPOILERS para o k-drama Tempest/Polaris]

Desde o bombardeio de Hiroshima e Nagasaki em 1945, o mundo tem vivido debaixo do medo de um possível apocalipse nuclear, encabeçado pelas maiores potências do mundo ou por atores inesperados que conseguiram desbloquear o complexo processo de produção de armamentos nucleares. Muitas das tensões durante a Guerra Fria se basearam no fato de que ambos EUA e URSS eram países nucleares, e muitos acreditavam que apenas a realidade de Destruição Mútua Assegurada (ou MAD, na sigla em inglês) impedia que os diferentes polos entrassem numa guerra nuclear (Editores da Enciclopédia Britânica, 2024). Portanto, não é de se espantar que as consequências de tal conflito tenham estimulado a imaginação de diversos artistas e contadores de história no último século. Com produções de extremo sucesso como o filme Oppenheimer e a série Chernobyl, a humanidade continua a retratar suas ansiedades e expor sua curiosidade sobre as consequências da nuclearização global.

Enquanto historicamente os soviéticos/russos aparecem como antagonistas em histórias de tragédia ou de potencial nuclear, este ensaio almeja debater brevemente o papel que a República Popular Democrática da Coreia (a chamada Coreia do Norte) tem ocupado em produções mais recentes que abordam a ameaça nuclear. A Coreia do Norte retirou-se em 2003 do TNP, o Tratado da Não-Proliferação de Armas Nucleares, sendo atualmente um dos poucos países com arsenal bélico militar confirmado, e tal fato tem sido explorado por roteiristas de grandes séries televisivas.

Em Tempest/Polaris1, k-drama exibido pelo Disney+ e que estrela Jun Jihyun como a protagonista Seo Munju e Gang Dongwon como seu guarda-costas e par romântico Paik Sanho, o problema nuclear da Coreia do Norte ocupa o plano principal da narrativa. Kim Jong-un, presidente factual da Coreia do Norte, é ficcionalizado como Kim Hansang, interpretado por Uhm Taegoo, e aparece em momentos climáticos e tensos da trama como um dos principais antagonistas, ainda que frequentemente nos bastidores. Tempest/Polaris foi ao ar entre setembro e outubro de 2025, contando com 9 episódios e nota 6,7 no IMDb, sendo distribuído globalmente pela Disney, ainda que no selo Hulu, que produziu o k-drama (Polaris: Conspiração Política, 2025).

A trama segue Munju, ex-embaixadora sul-coreana na ONU, que deixa sua carreira diplomática para acompanhar a candidatura do marido, Jang Junik, à presidência da Coreia do Sul. No entanto, Junik é assassinado durante um compromisso de campanha, e Munju começa a desvelar uma trama de conspiração por detrás da morte do marido. Ela descobre que Junik iria anunciar um plano de reunificação pacífica entre o Norte e o Sul da península coreana, e que ele tinha contato direto com Anderson, dirigente estadunidense para assuntos coreanos nos EUA. Anderson, por sua vez, suspeitava que a Coreia do Norte havia vendido um submarino nuclear para Idisha, um país fictício que sofre com invasões estadunidenses e, a série sugere, está localizado em algum lugar do Oriente Médio. Através desse submarino, a Coreia do Norte estaria diretamente conectada a um futuro bombardeio nuclear em território estadunidense.

A questão da reunificação coreana é também central para o enredo do k-drama, especialmente porque Sanho, o protagonista masculino, é um desertor da Coreia do Norte que trabalha como mercenário. Sua fascinação por Munju, que defendia a proximidade entre as Coreias em seus discursos na ONU, leva-o a buscar protegê-la das tentativas de assassinato que ela sofre quando decide, ela mesma, concorrer à presidência. No meio de uma tempestade que envolve corrupção no governo sul-coreano, animosidade entre Coreia do Sul e China, adultério e dramas familiares, Munju é a responsável por conectar os pontos de uma tentativa de provocação de guerra nuclear na península coreana.

É importante ressaltar que o k-drama coloca a frágil relação entre EUA e Coreia do Sul no centro do enredo. Frágil porque, com bases militares estadunidenses instaladas em seu território, a produção aponta para o fato de que a Coreia do Sul fica à mercê dos interesses particulares e do comprometimento com a détente nuclear estadunidenses para a manutenção de sua própria segurança. Durante o enredo, o alto escalão de dirigentes dos EUA está disposto a sacrificar a Coreia do Sul se isso significar a destruição da Coreia do Norte e de seus armamentos nucleares; o k-drama retrata até um código secreto compartilhado entre as bases militares estadunidenses para a retirada de seus membros da península em caso de futuro bombardeio nuclear.

É através da atuação corajosa de Munju e Sanho que se impede um bombardeio de mísseis nucleares norte-coreanos nos EUA, que ocasionaria a eclosão de uma guerra de proporções mundiais. Arquitetado por uma traficante de armas e espiã que almejava ganhar muito dinheiro com o início de uma guerra violenta, a grande vilã secreta do k-drama é derrotada pelos dois protagonistas e o bombardeio é impedido em conjunto com os líderes fictícios da Coreia do Norte e de Idisha, que fornecem os códigos necessários para cancelar o disparo das ogivas.

O que Tempest/Polaris demonstra é que a Coreia do Sul ainda é uma sociedade marcada de forma singular pela ansiedade nuclear e pela desconfiança de sua irmã nortenha. No entanto, o k-drama não retrata os norte-coreanos como vilões cartunescos, muito pelo contrário: a narrativa aponta para as similaridades entre os países, especialmente no que toca seus relacionamentos conturbados com os EUA. É somente com a colaboração norte-coreana que Munju consegue desarmar as bombas nucleares que estavam direcionadas para os EUA. Munju é uma figura polêmica por conta de sua posição favorável à reunificação coreana, e ela é conhecida por todo país por sua atuação na ONU, falando a favor da paz e contra os conflitos nucleares.

Dessa maneira, Tempest/Polaris procura demonstrar como é complexa a posição sul-coreana em sua localização geopolítica. O k-drama é certeiro ao evidenciar como é desigual o relacionamento entre Coreia do Sul e EUA, demonstrando como os interesses estadunidenses podem comprometer a segurança sul-coreana e destruir quaisquer laços de solidariedade que existam entre ela e a sua irmã do norte. A posição crítica em relação aos EUA não é óbvia para um país que ainda depende não apenas do poderio militar estadunidense como também de laços econômicos com a potência norte-americana. As exportações da Coreia do Sul para os EUA têm apenas crescido, e a ameaça do Presidente Trump de taxá-las em 25% no início de 2025 preocupou profundamente autoridades sul-coreanas (PODER360, 2025).

Além disso, tendo como ponto central o poderio nuclear norte-coreano, Tempest/Polaris retrata como a paranoia nuclear pode cegar dirigentes, levando-os à corrupção (acusando falsamente cidadãos de espionagem, por exemplo) ou a medidas incrivelmente drásticas. O k-drama retrata como a ansiedade nuclear ainda orienta muito das decisões políticas tomadas pela Coreia do Sul e também ao entorno dela, por Coreia do Norte, China e EUA, demonstrando que essa questão ainda é extremamente atual. O problema das armas nucleares não ficou no século XX, com os retratos caricatos de soviéticos em filmes de espionagem. Pelo contrário, a Coreia do Norte, por ser considerada um ator imprevisível, ainda causa extrema desconfiança em dirigentes pelo mundo todo.

A solução apontada pelo k-drama é uma que certamente é considerada utópica por muitos: a reunificação pacífica da península coreana. Apesar das críticas empreendidas tanto ao governo sul-coreano quanto ao estadunidense, o k-drama entende que é apenas com um convívio unificado e transparente que haverá paz duradoura na península. Mas o k-drama não hesita em apontar as dificuldades que tal empreendimento enfrenta, tanto dentro da própria Coreia do Sul, quanto pelos EUA, que têm interesse em manter seu posicionamento na região.

Tempest/Polaris se aproveita da base cultural compartilhada da ansiedade nuclear para construir um enredo tenso, politicamente complexo. Colocando a Coreia do Sul como protagonista, o enredo explora de forma bem sucedida o que a ameaça nuclear norte-coreana significa para a península, redirecionando o foco de tal tipo de narrativa, que geralmente é centrada nas consequências para Europa e EUA.

REFERÊNCIAS

EDITORES DA ENCICLOPÉDIA BRITÂNICA. Mutual assured destruction (MAD). 2024. Disponível em: https://www.britannica.com/topic/mutual-assured-destruction. Acesso em: 6 dez. 2025. 

PODER360. Coreia do Sul prepara pacote de contramedidas após tarifaço de Trump. 2025. Disponível em: https://www.poder360.com.br/poder-economia/coreia-do-sul-prepara-pacote-de-contramedidas-apos-tarifaco-de-trump/. Acesso em: 6 dez. 2025. 

POLARIS: CONSPIRAÇÃO POLÍTICA. 2025. Disponível em: https://www.imdb.com/pt/title/tt27368147/. 

SOBRE A AUTORA

Luisa de Mesquita

Doutora em Relações Internacionais pela PUC-Rio, e pesquisadora associada da Curadoria de Estudos Coreanos (CEA/UFPE) e do Laboratório Cultpop (CNPq/UFF). Sua tese de doutorado procurou entender como fandoms de k-pop são lugares de formação política e por isso mesmo ela está sempre hiperanalisando peças de cultura pop.

  1. O k-drama é exibido no Brasil com o título Polaris, mas internacionalmente é conhecido como Tempest, por isso a opção pela barra. ↩︎
O lar como nação: Gerações familiares e a construção da Coreia em “Pachinko”, de Min Jin Lee

O lar como nação: Gerações familiares e a construção da Coreia em “Pachinko”, de Min Jin Lee

por: Thaisa Viana

foto: Instituto Brasil Coreia – Rio de Janeiro

A história falhou conosco, mas não importa.

É assim que inicia Pachinko (2020), romance realista escrito por Min Jin Lee e lançado no Brasil pela editora Intrínseca. O livro acompanha a trajetória de uma família ao longo de mais de 70 anos, entrelaçando suas histórias pessoais com a história coreana nos séculos XX e XXI.

A narrativa começa em 1883, em uma pequena vila de pescadores em Yeongdo, no distrito de Busan. Um dos primeiros personagens apresentados, Hoonie, é um jovem com deficiências e filho de pescadores humildes que mantêm uma pousada para aumentar suas poucas rendas. Aos 27 anos, ele consegue um casamento arranjado com Yangjin, filha de fazendeiros pobres da mesma vila. Em 1910, mesmo ano de assinatura do tratado de anexação da Coreia ao Japão, Hoonie e Yangjin tornam-se pais de uma menina chamada Sunja, que mais tarde irá se destacar como o principal fio condutor de toda a saga familiar ao longo do romance.

A primeira parte do livro, de 1910 até 1933, acompanha a vida de Sunja nos seus primeiros anos. Ao mesmo tempo em que Sunja se descobre como mulher, ela descobre seu país e sua nação em transformação, resistindo de maneiras distintas e cotidianas à invasão japonesa na península coreana do Japão. Não apenas a vida de Sunja é afetada pelo primeiro período da colonização japonesa, mas a vida de diversos outros personagens, destacando aspectos sombrios de uma assimilação forçada e violenta. As mulheres de conforto, a violência policial, o uso de trabalhadores forçados e até as mudanças de nome e preconceitos enfrentados pelos coreanos durante a colonização são abordados de maneira sutil e marcante em elementos e personagens de uma mesma família que contornam a vida de Sunja e seus relacionamentos. 

Na segunda parte do livro, de 1933 até 1962, temas como a vida de descendentes e migrantes coreanos no Japão (os chamados de Zainichis), a discriminação, os jogos de poder e as relações familiares conturbadas são costurados no cenário internacional do final da Segunda Guerra Mundial e da Guerra da Coreia. Assim como o Japão e as Coreias, a família de Sunja se vê mais uma vez em uma posição de recomeço e resistência frente a um cenário desolador. Uma família que, assim como sua nação, persiste no tempo e na história em quaisquer circunstâncias políticas. 

O terceiro, e último, ato do romance se concentra nos anos de 1962 até 1989, desenvolvendo as relações familiares e a busca de identidade agora entre pontes aéreas dos Estados Unidos, Japão e Coreia. Assim como nas máquinas de Pachinko 一 os fliperamas usados como jogos de azar no Japão que dão nome ao romance 一,  a vida e o desenvolvimento dos países mencionados se mostra imprevisível, cabendo aos indivíduos enfrentar as mudanças, sempre em uma busca pela sobrevivência. 

A autora desenvolve Sunja desde sua infância até sua velhice como uma mulher comum, calada, pensativa, mas resiliente, ainda sonhadora e condicionada a lutar pela sua sobrevivência, independente das circunstâncias externas, em uma construção que quase se torna uma metáfora delicada para a própria nação coreana. A história da família de Sunja, com perdas, nascimentos e renascimentos, não apenas perpassa a história coreana, como também a reflete. A nação coreana se molda, se adapta, resiste e permanece firme ao longo dos mais de 4 mil anos que a constituem. A curiosidade sobre a vida e a sobrevivência de Sunja ao longo dos anos é mantida pela autora ao longo do romance como uma forma de também nos lembrar das próprias incertezas frente a história coreana. A questão “será que eles vão sobreviver?”, que permeia toda a leitura, é um lembrete não apenas das dificuldades da vida comum de um indivíduo do século XX e início do XXI, mas da própria nação sul-coreana como um todo.  

O livro torna-se um importante lembrete de que teorias e fatos históricos são produzidos e movidos por indivíduos com particularidades, famílias, interesses pessoais e necessidades urgentes da vida cotidiana. Porém, não apenas isso se mostra relevante na narrativa. A obra nos recorda os horrores da guerra, da fome e da segregação, em um convite para refletir sobre nossos lugares diante das conjunturas políticas e das situações que vão além das quatro paredes de um núcleo familiar. É um convite para perceber nossa presença diante da imprevisibilidade da história, que, por vezes, falha, mas nunca se ausenta de nossas vidas. 

Referência

LEE, Min Jin. Pachinko. Tradução de Marina Vargas. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2020. 

Sobre a autora

Thaisa da Silva Viana

Doutoranda em Relações Internacionais pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e Mestre em Relações Internacionais pela mesma instituição. Especialização em Direito Internacional em andamento pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais. Pesquisadora do LabÁSIA (UERJ), do Grupo de Estudos Asiáticos (GEA-UFMG) e integrante da Curadoria de Estudos Coreanos (CEÁSIA/CEA/UFPE). Tem experiência na área de política internacional, estudos de nacionalismo e cultura nas relações internacionais.

“Reply 1988”: o retrato das vivências cotidianas e históricas

“Reply 1988”: o retrato das vivências cotidianas e históricas

por Alanessa Nikole Carvalho da Silva

Imagem: https://bestofkorea.com/reply-1988-cast-is-thoroughly-charming/

Reply 1988”, também conhecido como “Responde 1988”, foi lançado em 2015 pelo canal tvN. Na época foi um sucesso, e mantém até hoje, mesmo após dez anos do seu lançamento, um dos maiores índices de audiência da TV fechada sul-coreana. O drama tem 20 episódios, que estão disponíveis na Netflix e no Viki.

O drama é o terceiro da sequência de “Reply” (antecedido pelo 1994 e 1997), que foi escrito por Lee Woo-jung e dirigido por Shin Won-ho. Este acompanha a vida de cinco amigos que crescem juntos na vizinhança de Ssangmun Dong, eles são: Duk-sun (Lee Hyeri), Taek (Park Bo-gum), Jung-hwan (Ryu Jun-yeol), Sun-woo (Go Kyung-pyo) e Dong Ryong (Lee Dong-whi). Com o passar dos episódios é possível ver o forte vínculo entre eles causado pelas aventuras, alegrias, medos e problemas que compartilham durante a juventude até a idade adulta.

Durante os episódios, em alguns momentos, o público é levado ao futuro de um casal adulto que surgiu daquele ciclo de amigos e cabe ao espectador descobrir quem ficou junto — resposta que é dada somente no final do K-drama, o que gera curiosidade em quem assiste, que está sempre tentando desvendar o mistério por meio das pistas.

Apesar desse relacionamento secreto ter um grande destaque na trama, um dos pontos altos do drama é observar a interação desses jovens com as suas famílias, que vivem suas próprias dificuldades, contudo, ainda assim, nunca se esquecem daquilo que é o mais importante: cuidar daqueles que amam.

Ao passar pelos dramas disponíveis no catálogos das plataformas de streaming, “Reply 1988” pode não chamar atenção inicialmente por ter pôsteres sem elementos muito chamativos ou por sua sinopse aparentemente sem tantos conflitos, entretanto, o drama emociona ao mostrar a importância da amizade e da família, principalmente em momentos de dificuldades, quando essa união é a única capaz de dar a sustentação necessária para a superação dos desafios da vida. Diante disso, a torcida pelo casal principal, seja ele qual for, torna-se algo secundário durante o andamento da narrativa.

O drama se passa em plena década de 1980, por isso, apesar do clima mais emotivo, ainda traz como pano de fundo (mesmo que às vezes de forma indireta) diversos eventos históricos vividos pela Coreia do Sul, como o final da Ditadura Militar, o início do período de democratização e a Crise dos Tigres Asiáticos, o que enriquece ainda mais a experiência do espectador.

Os diferentes contextos históricos que perpassam a narrativa, por mais que pareçam serem retratados timidamente à primeira vista, carregam consigo um teor crítico de grande pertinência ao mostrar a situação do país ao ter uma parte da sua própria identidade reprimida e substituída pela cultura, moda, música e até mesmo pelos alimentos de nações estrangeiras com grande influência no mundo.

Em diversos momentos é perceptível a necessidade das personagens de consumirem qualquer produto do exterior para se sentir participante da globalização que se mostra tão presente naquele momento, no entanto, o drama deixa claro que juntamente desse acesso a outras realidades é notável a pouca valorização das riquezas nacionais que enfatizavam os traços únicos do país.

O mais interessante é refletir que esta situação não é meramente ficcional, pois “Reply 1988” retrata o que aconteceu com a Coreia do Sul na época em que se passa a história, período em que a nação tentava se recuperar do silenciamento pessoal e social deixado por uma sequência de eventos históricos traumáticos, dentre eles a Ditadura Militar, que também é mostrada rapidamente no audiovisual ao descortinar suas marcas na vida população que precisou se reerguer dos danos deixados por tamanho autoritarismo.

A produção pode ser considerada lenta pelo tamanho dos episódios e por ter como foco mostrar o cotidiano das personagens sem pressa, afinal, o intuito é imergir o público naquele meio como se ele fizesse parte daquela vizinhança animada que realmente se parece tanto com a realidade de tantas pessoas. 

“Reply 1988” é um drama mais antigo, porém, é importante não deixar que ele caia no esquecimento porque vale cada segundo e deixa um gostinho de saudade tanto das personagens com quem nos conectamos quanto das nossas próprias memórias, que se aproximam de tantos acontecimentos ali retratados. A história retrata e critica diversos eventos históricos com grande delicadeza, além do mais, ainda provoca muitos risos e lágrimas, por isso no final é tão difícil dizer adeus a Ssangmun Dong, que conquista um espaço especial nos nossos corações.

Sobre a autora

Alanessa Nikole Carvalho da Silva – Mestranda em Teoria Literária pela Universidade Estadual do Maranhão (UEMA) e graduada em Letras/Literatura de Língua Portuguesa pela UEMA. E-mail: alanessanc@gmail.com

Resident Playbook: um K-drama sobre a crise médica na Coreia do Sul

Resident Playbook: um K-drama sobre a crise médica na Coreia do Sul

por Stefany Santos

Foto: Imagem promocional do k-drama Resident Playbook – Divulgação/Netflix

No Centro Médico Yulje (Yulje Medical Center), em Seul, quatro residentes de obstetrícia e ginecologia enfrentam os primeiros meses de suas carreiras em meio a plantões extensos, procedimentos complexos e decisões que podem colocar vidas em risco. Esta é a história retratada em Resident Playbook, série dramática sul-coreana lançada em 12 de abril de 2025 pela Total Variety Network (tvN) e disponível na Netflix. 

Estrelada por Go Youn Jung (Oh Yi Young), Shin Si Ah (Pyo Nam Kyung), Kang Yoo Seok (Um Jae il) e Han Ye Ji (Kim Sa Bi), a produção mostra o dia a dia de jovens médicos no contexto de um sistema de saúde pressionado e em transformação. Dirigido por Lee Min Soo, o K-drama, que é um spin-off do sucesso Hospital Playlist (2020), ocupou o top 10 das séries mais assistidas da Netflix, no período de lançamento, e atingiu uma média nacional de 8,1% de audiência no seu último episódio, segundo um levantamento da Nielsen Korea. 

Muito mais que uma obra de ficção, a trama mostra residentes lidando com plantões extensos e decisões complexas, realidade que vai ao encontro do contexto médico da Coreia do Sul nos últimos dois anos. Oh Yi Young se destaca como uma das principais personagens da história e, devido a uma situação traumática, acabou deixando a carreira de médica de lado antes de encerrar o seu primeiro ano como residente, porém, após cair em dívidas, não viu outra saída a não ser voltar à profissão. 

Ao lado de Pyo Nam Kyung, Um Jae il e Kim Sa Bi, ela enfrenta diversas situações em que precisava agir com urgência para atender desde gestantes até mulheres em situação de câncer terminal, mesmo não tendo a experiência necessária. Os jovens médicos, um tanto atrapalhados, ainda precisam lidar com a falta de profissionais e aprendizes em suas respectivas áreas, ginecologia e obstetrícia, uma vez que o número de residentes que se interessam por essas especialidades é cada vez menor. 

Após superar desafios, confusões, muitas broncas de seus professores e ainda se envolverem em relacionamentos amorosos, os quatro residentes conseguem finalizar o primeiro ano atuando no Centro Médico Yulje e, no fim do K-drama, ingressam no segundo ano, não só para enfrentar novas aventuras que virão pela frente, mas também para assumir o papel de veteranos que irão orientar os residentes recém-chegados. 

Crise médica na Coreia do Sul

Muito mais que um spin-off do sucesso Hospital Playlist, Resident Playbook é um retrato da crise que assola o país desde fevereiro de 2024, quando o governo anunciou a proposta de aumentar o número de admissões em faculdades de medicina em 67%, cerca de 5 mil estudantes por ano, para enfrentar a demanda crescente por profissionais de medicina (Beer; Jenne, 2025). 

Na época, o até então ministro da saúde, Cho Kyoo Hong, apontou a urgência da mudança devido ao envelhecimento acelerado da população, à falta de especialistas nas áreas de atendimento de emergência, pediatria, ginecologia e obstetrícia e à escassez de médicos em áreas mais rurais. A medida, que deveria entrar em vigor em janeiro de 2025, desagradou professores, estudantes, entidades médicas e, principalmente, os residentes, que se afastaram de seus cargos e de seus cursos para ir às ruas protestar. O impacto imediato incluiu adiamentos de cirurgias e ajustes na triagem de serviços essenciais.

De acordo com a Associação Médica Sul-Coreana (Korea Medical Association – KMA), mais de 12.000 médicos residentes entregaram cartas de demissão e cerca de 14.000 estudantes de medicina suspenderam suas atividades em hospitais universitários (Beer; Jenne, 2025). A categoria argumentou que, de modo geral, a quantidade de médicos atuantes era suficiente e que, antes da adoção de uma reforma médica, seria necessário investir em melhores condições de trabalho. O período de greve se estendeu por cerca de 18 meses, sendo encerrado em 1º de setembro deste ano, após um anúncio da Associação Sul-Coreana de Estudantes de Medicina (Lee, 2025). 

A realidade desses profissionais vai totalmente ao encontro da rotina mostrada em Resident Playbook, que, além de retratar longos plantões e a pressão sob os residentes, também mostra o sofrimento constante dos pacientes em meio a uma crise estrutural do sistema de saúde que veio crescendo na última década. Segundo a legislação sul-coreana, o limite máximo de atuação para residentes é de 80 horas semanais, porém, estudos de 2023 e 2024 apontam que muitos profissionais cumprem quase 100 horas por semana (Yoon; Kwon; Park, 2024). 

Em termos de remuneração, os salários chegam a cerca de 70 milhões de wons anuais (aproximadamente R$252 mil), valor que, segundo dados do Ministério da Saúde e Bem Estar da Coreia do Sul, é inferior ao que seria considerado adequado para jornadas dessa intensidade (Han; Chung, 2024). Embora boa parte dos profissionais tenha retornado aos seus cargos, as negociações com o governo não apontaram para uma resposta efetiva, que era esperada pela categoria. Até então, apenas foi afirmado que o aumento das vagas nas universidades aconteceria de forma gradual, com 1.509 admissões neste ano e 3.058 previstas para 2026 (Beer; Jenne, 2025). 

Referências

YOON, Joo Heung; KWON, In Ho; PARK, Hyoung Wook. The South Korean health-care system in crisis. The Lancet, Londres, v. 403, n. 10444, 2024. DOI: 10.1016/S0140-6736(24)00766-9. Disponível em: https://www.thelancet.com/journals/lancet/article/PIIS0140-6736(24)00766-9/fulltext. Acesso em: 08 nov. 2025.

LEE, Soo-Jung. Is a breakthrough finally in sight in Korea’s longest ever doctors’ strike? Korea JoongAng Daily, Seul, 17 jul. 2025. Disponível em: https://koreajoongangdaily.joins.com/news/2025-07-17/national/socialAffairs/Is-a-breakthrough-finally-in-sight-in-Koreas-longest-ever-doctors-strike/2354080. Acesso em: 08 nov. 2025.

BEER, Anna de; JENNE, Frederike A. Striking medical students paid a high price. For what? University World News, 01 out. 2025. Disponível em: https://www.universityworldnews.com/post.php?story=20250930114252183#:~:text=In%20February%202024%2C%20former%20South,from%20entering%20these%20essential%20fields. Acesso em: 08 nov. 2025.

HAN, Eui-Ryoung; CHUNG, Eun-Kyung. A qualitative study on the adoption of the new duty hour regulations among medical residents and faculty in Korea. National Library of Medicine, v. 19, n. 4, 2024. DOI: 10.1371/journal.pone.0301502. Disponível em: https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC11008864/. Acesso em: 08 nov. 2025. 

SOBRE A AUTORA

Stefany Santos – Graduanda em Comunicação Social pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), pesquisadora vinculada à Fundação de Amparo à Ciência e Tecnologia do Estado de Pernambuco (FACEPE) e integrante da Curadoria de Estudos Coreanos (CEÁSIA/CEA/UFPE). E-mail: stefany.rayanesantos@ufpe.br

“Eu, você e toda uma vida” e o estranho destino que nos conecta aos outros

“Eu, você e toda uma vida” e o estranho destino que nos conecta aos outros

por Clara Menezes

Créditos da capa: Netflix [https://occ-0-8407-2218.1.nflxso.net/dnm/api/v6/9pS1daC2n6UGc3dUogvWIPMR_OU/AAAABUdrS-n4PStA7nVfbFn4WID2K9ztTNiUeeUMwQX5o5g_8HJDY5z-QzygPojCaSAFJL3fT05zK7SVCTi2V6y3CKQ-lbxIbB_h9ZEAuxPwOp765Gd-_ejcNA9W9A.jpg?r=5df]

“Eu, você e toda uma vida” apresenta o maior conflito da trama logo no início: Cheon Sang-yeon (Park Ji-hyun) está com câncer terminal e pede à amiga de longa data, Yoo Eun-jung (Kim Go-eun), para acompanhá-la até a Suíça, onde quer realizar o procedimento de morte assistida. As duas se conheceram na infância e agora, aos 40 e poucos anos, mantêm uma relação marcada por décadas de amor, raiva e desentendimentos.

Em uma narrativa que percorre diferentes momentos da vida — a infância, a juventude e a fase adulta —, elas desafiam as fronteiras entre amor e ódio, respeito e inveja, obrigando os espectadores a questionar: o que nos conecta aos outros? Será que o amor é suficiente para sustentar uma relação? Ou o ódio também é importante nesse estranho laço que nos une? Por que parecemos orbitar perto de algumas pessoas, mesmo quando a distância parece a escolha mais saudável? Qual o valor das memórias que construímos e das escolhas que fazemos perante a chegada da morte?

Dirigido por Jo Young-min e escrito por Song Hye-jin, o drama constrói personagens complexos e frustrantes, cheios de falhas, contradições e atitudes que beiram o detestável, na mesma medida em que geram empatia e curiosidade. Sang-yeon nasceu em uma família rica que posteriormente declara falência. Ela cresceu sentindo falta de acolhimento dos pais e percebe cedo que, para ser reconhecida, precisa ser bem-sucedida. Já Eun-jung, vinda de uma família pobre, recebe amor e apoio incondicional. Essas diferentes experiências de vida moldam as personalidades e as percepções delas: enquanto Sang-yeon, movida pela inveja e pelo medo de ser incompreendida, constantemente se distancia para esconder sua vulnerabilidade, Eun-jung mantém o coração aberto e se entrega com facilidade às pessoas ao seu redor.

Durante os episódios, Sang-yeon muitas vezes toma atitudes contraditórias com a amiga. Com uma tendência a ser egoísta, seja na vida amorosa, na profissão ou até mesmo nos hobbies, ela é uma personagem que incita a raiva do público. Mas é sempre importante ter em mente que a história é narrada sob a perspectiva de Eun-jung, tornando difícil compreender as motivações e o ponto de vista de Sang-yeon.

Com um fim inevitavelmente trágico, “Eu, você e toda uma vida” traz um olhar profundo sobre os relacionamentos em uma época em que tudo parece superficial demais. Distante de um discurso dicotômico entre certo e errado, no qual o menor erro é suficiente para cortar vínculos, a série se opõe a essa aparente facilidade de criar e desfazer laços. Distanciar-se de alguém exige esforço e convicção. E, quando essa pessoa retorna à nossa vida, seja por acaso ou intencionalmente, todas as emoções também voltam. Porque somos humanos. Porque somos seres afetuosos.

Apesar de  captar a complexidade das relações, a série tropeça em algumas questões. A principal delas é o fato de que um dos distanciamentos entre Sang-yeon e Eun-jung é causado devido a um homem por quem ambas se apaixonam. A trama se alonga nesse conflito, reforçando o clichê de uma rivalidade feminina provocada por interesses amorosos. Isso, porém, pouco acrescenta à história, que teria se mantido a mesma se não fosse pela interferência de Kim Sang-hak, interpretado por Kim Gun-woo. Apesar dessa parte do roteiro, há algo que salta aos olhos: no fim, elas continuam a escolher uma à outra, apesar e por causa de tudo.

Esta crítica, entretanto, não ofusca a força de “Eu, você e toda uma vida”, que continua sendo uma narrativa intensa sobre amor, inveja e vulnerabilidade ao retratar os laços que escolhemos manter todos os dias, porque eles fazem parte de nós mesmos, com sua dor e alegria. E permanece, acima de tudo, uma história sobre as inevitáveis emoções de estar vivo neste mundo, e sobre o direito de morrer com dignidade, ao lado de quem compartilhamos os anos de nossa vida.

SOBRE A AUTORA:

Mestranda em Ciências Sociais pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), é integrante da Curadoria de Estudos Coreanos. Pesquisa na área de sociologia da literatura, com foco na obra de Han Kang. E-mail: mclaracmenezes@gmail.com.