por Arthur Martins Santana

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No dia 10 de junho de 2026, ocorreu uma reunião estratégica entre a União Europeia e a República da Coreia contando com a presença de representantes de ambos os lados. Dentre eles, o presidente sul-coreano, Lee Jae Myung, o presidente do Conselho Europeu, António Costa, e a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, que condenaram fortemente a cooperação militar entre a Coreia do Norte e a Rússia, classificando-a como ilegal e um dos principais fatores que têm possibilitado a continuidade da guerra em território ucraniano.

Embora a União Europeia e a Coreia do Sul tenham classificado a cooperação como ilegal, a legalidade dessa cooperação possui interpretações contrastantes. A assistência militar entre Estados constitui uma prática recorrente no sistema internacional e ocorre em diferentes conflitos contemporâneos, ainda que a cooperação entre Rússia e Coreia do Norte seja frequentemente analisada a partir das sanções impostas pelo Conselho de Segurança das Nações Unidas. 

As primeiras suposições sobre a participação norte-coreana no conflito entre Rússia e Ucrânia começaram a circular no final de 2024, quando agências de comunicação ligadas a Seul passaram a noticiar o deslocamento de tropas do Norte para a zona de conflito no leste europeu em apoio a um dos principais aliados de Kim Jong Un, a Rússia de Vladimir Putin.

Em um primeiro momento, houve um conflito de informações a respeito da veracidade dessa participação direta no conflito. Mas em abril de 2025, a Agência Estatal da Coreia do Norte (KCNA) confirmou oficialmente a presença de contingentes militares em território russo na região de Kursk, que faz fronteira com a Ucrânia e foi alvo de um importante episódio do conflito, quando tropas ucranianas avançaram pela primeira vez sobre o território russo em uma escala significativa, marcando uma nova etapa da guerra.

Fonte: Institute for the Study of War e Critical Threats Project (AEI). (https://www.dw.com/pt-br/por-que-a-ucr%C3%A2nia-invadiu-a-regi%C3%A3o-russa-de-kursk/a-69931017) 

Conforme informado pelo jornal Le Monde, em 28 de abril, a Comissão Militar Central do Partido dos Trabalhadores da Coreia confirmou através da KCNA que forças coreanas “participaram nas operações pela libertação de áreas de Kursk”, utilizando como base o acordo de defesa mútua entre Coreia do Norte e Rússia. 

O tratado de defesa mútua foi assinado pelos dois países em junho de 2024, entrando em vigor em dezembro do mesmo ano, e prevê o fornecimento imediato de assistência militar um ao outro, usando “todos os meios” necessários caso sofram alguma agressão.

Devido à falta de dados oficiais, ainda é incerto quantificar com exatidão os números referentes à participação militar norte-coreana. Porém, de acordo com o The Guardian, a Coreia do Norte enviou cerca de 14.000 militares para apoiar a Rússia no conflito contra a Ucrânia. Ademais, o número de baixas atualmente estaria em torno de 6.000.  

Fonte: Yonhap News Agency. (https://en.yna.co.kr/view/AEN20250822001052315)

No entanto, vale destacar a investigação realizada pelo canal BBC e divulgada em maio de 2026, que utilizando imagens de satélite e fotos oficiais do novo memorial em homenagem aos soldados que morreram no conflito, inaugurado em abril em Pyongyang, aponta para um número de cerca de 2.300 baixas, menos da metade das mortes divulgadas por outros meios ocidentais, o que demonstra um desencontro de dados e abre espaço para questionamentos a respeito do número exato de baixas.

Fonte: BBC. (https://www.bbc.com/news/articles/clypr5985ejo)


Segundo o The Guardian, a cooperação entre Rússia e Coreia do Norte vai além de contingentes militares. Pyongyang também forneceu milhões de projéteis de artilharia e um grande número de mísseis balísticos de curto alcance para a Rússia. Além disso, de acordo com a inteligência da Coreia do Sul, o país recebe em troca assistência tecnológica nos âmbitos econômico e militar de Moscou.

Essa aproximação entre os dois países cresce em um cenário em que ambos enfrentam sanções econômicas impostas pelos Estados Unidos e seus aliados. As sanções funcionam como uma maneira de pressão contra esses países, marcados por regimes que não seguem o modelo vigente de democracia liberal, característico do mundo pós-Guerra Fria.

Desde 2017, a Coreia do Norte vem enfrentando o endurecimento das sanções econômicas, principalmente como uma resposta ao desenvolvimento do seu programa nuclear. Apesar de alguns momentos de estreitamento nas relações com os Estados Unidos e a Coreia do Sul, as sanções permaneceram e não há uma previsão de mitigação.

Já a Rússia lida com a constante aplicação de sanções desde 2022, quando o conflito com a Ucrânia atingiu um novo ápice. Apesar de já sofrer com represálias desde 2014, quando anexou a região da Crimeia. No mês de junho de 2026, a União Europeia anunciou o 21º pacote de sanções contra a economia russa, sinalizando uma tendência de permanência de aplicação de sanções enquanto o conflito perdura sem um vislumbre de encerramento.

Desta forma, a declaração em conjunto realizada pelas lideranças da Coreia do Sul e da União Europeia, condenando a cooperação entre Coreia do Norte e Rússia, utiliza dois argumentos principais: a ilegalidade da cooperação e o fator da continuidade da guerra na Ucrânia. 

Portanto, o isolamento econômico proporcionado pelas sanções econômicas que ambos os países enfrentam é um grande estímulo ao fortalecimento de parcerias alternativas. Assim, essa aproximação tende a crescer conforme o endurecimento das sanções, principalmente quando um dos países tem a capacidade de contornar em certo grau as dificuldades proporcionadas pelas represálias, como é o caso da Rússia.

Por outro lado, o caráter ilegal da cooperação não é uma certeza absoluta, tendo em vista que o auxílio em conjunto no esforço de guerra é uma prática bastante comum no sistema internacional, como no caso da própria Guerra da Ucrânia, na qual os países membros da OTAN cooperam financeiramente, com auxílio tecnológico e material bélico. Desta forma, a imputação desse rótulo por parte das representações sul-coreanas e europeias objetiva justificar sanções e outras represálias à Coreia do Norte como uma resposta à aproximação com a Rússia.

Referências

A OTAN está considerando um pacote de ajuda de 70 bilhões de euros para a Ucrânia. Vietnam.vn, 9 jun. 2026. Disponível em: https://www.vietnam.vn/pt/nato-can-nhac-goi-vien-tro-70-ty-euro-cho-ukraine. Acesso em: 10 jun. 2026. 

ACORDO de defesa mútua entre Rússia e Coreia do Norte que prevê ‘assistência militar imediata’ em caso de guerra entra em vigor; veja. g1, 5 dez. 2024. Disponível em: https://g1.globo.com/mundo/noticia/2024/12/05/acordo-de-defesa-mutua-entre-russia-e-coreia-do-norte-entra-em-vigor.ghtml. Acesso em: 10 jun. 2026. 

CHEON, Soram; ADZKIA, Aghnia. Thousands of North Koreans fought for Russia. A memorial hints at the death toll. BBC, 7 mai. 2026. Disponível em: https://www.bbc.com/news/articles/clypr5985ejo. Acesso em: 10 jun. 2026. 

GONCHARENKO, Roman. Por que a Ucrânia invadiu a região russa de Kursk?. DW Brasil, 13 nov. 2024. Disponível em: https://www.dw.com/pt-br/por-que-a-ucr%C3%A2nia-invadiu-a-regi%C3%A3o-russa-de-kursk/a-69931017. Acesso em: 10 jun. 2026. 

KIM praises North Korean soldiers who blew themselves up to evade Ukraine capture. The Guardian, 29 abr. 2026. Disponível em: https://www.theguardian.com/world/2026/apr/29/kim-north-korea-soldiers-blow-themselves-up-ukraine. Acesso em: 10 jun. 2026. 

NORTH Korea confirms troop deployment to Russia for the first time. LeMonde, 28 mai. 2025. Disponível em: https://www.lemonde.fr/en/international/article/2025/04/28/north-korea-confirms-troop-deployment-to-russia-for-the-first-time_6740689_4.html. Acesso em: 10 jun. 2026. 

NORTH Korea ratifies landmark mutual defence treaty with Russia. Al Jazeera, 28 mai. 2025. Disponível em: https://www.aljazeera.com/news/2024/11/12/north-korea-ratifies-landmark-mutual-defence-treaty-with-russia. Acesso em: 10 jun. 2026. 

PAIK, Rocio. Coreia do Norte vive ‘sucesso econômico’ apesar de sanções, reconhece jornal dos EUA. Opera Mundi, 7 mai. 2026. Disponível em: https://operamundi.uol.com.br/asia/coreia-do-norte-vive-sucesso-economico-apesar-de-sancoes-reconhece-jornal-dos-eua/. Acesso em: 10 jun. 2026. 

PARK, Boram. S. Korean, EU leaders condemn illegal military cooperation between N. Korea, Russia. Yonhap News Agency, 11 jun. 2026. Disponível em: https://en.yna.co.kr/view/AEN20260610011453315?section=national/politics. Acesso em: 11 jun. 2026. 

SOUTH Korea says North Korean soldiers are fighting Ukraine forces. Reuters, 13 nov. 2024. Disponível em: https://www.reuters.com/world/europe/south-korea-says-north-korean-soldiers-are-fighting-ukraine-forces-2024-11-13/. Acesso em: 10 jun. 2026. 

UE amplia pacote de sanções contra Rússia e instituições usadas por Moscou para gerar receita. Uol, 9 jun. 2026. Disponível em: https://economia.uol.com.br/noticias/estadao-conteudo/2026/06/09/ue-amplia-pacote-de-sancoes-contra-russia-e-instituicoes-usadas-por-moscou-para-gerar-receita.htm. Acesso em: 10 jun. 2026. 

SOBRE O AUTOR

Arthur Martins Santana

Graduado em Relações Internacionais pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), integrante da Curadoria de Estudos Coreanos (CEÁSIA/CEA/UFPE). Se interessa por Economia Política Internacional e a Teoria do Sistema-Mundo com ênfase para a região da Ásia-Pacífico.

E-mail: santanamartins500@gmail.com