por Maria Gabriela Pedrosa
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Ho Jong-suk (허정숙), nascida Ho Jeong-ja (허정자; 許貞子), foi jornalista, escritora, feminista, militante comunista e dirigente política coreana. Reconhecida como uma das mais importantes representantes do feminismo socialista na Coreia, na época em que estava sob domínio japonês, sua trajetória atravessa alguns dos principais acontecimentos da história coreana do século XX: a ocupação japonesa (1910-1945), os movimentos de independência, a emergência do feminismo moderno nas décadas de 1920 e 1930, a reorganização do movimento comunista no Leste Asiático e a formação da República Popular Democrática da Coreia (RPDC), em 1948. Sua vida se tornou objeto de interpretações divergentes após a divisão da península coreana, sendo celebrada na RPDC como revolucionária e dirigente do Estado socialista, enquanto, durante décadas, na Coreia do Sul foi frequentemente lembrada sob a perspectiva do anticomunismo. A historiografia recente, contudo, tem procurado compreender sua trajetória em sua complexidade, enfatizando seu papel como intelectual, ativista e uma das primeiras mulheres a ocupar posições de liderança política na história moderna da Coreia.
A data de seu nascimento permanece controversa. A historiadora Shin Young-suk (apud Barraclough, 2014) indica o ano de 1902, enquanto obituários publicados tanto na RPDC quanto na Coreia do Sul registram a data de 16 de julho de 1908, diferença interpretada por Barraclough (2014) como resultado da construção posterior de sua imagem pública. Filha do advogado Ho Heon (허헌), importante defensor de nacionalistas e comunistas perseguidos pelo governo colonial japonês, Ho Jong-suk nasceu em Seul, em uma família economicamente privilegiada, originária da província de Hamgyeong. Seu pai se formou na Universidade Meiji, no Japão, dominava alemão e inglês e se tornou uma das principais figuras do nacionalismo coreano nas primeiras décadas da ocupação japonesa, exercendo forte influência sobre sua formação intelectual.
Formação intelectual e aproximação com o feminismo
Ho Jong-suk estudou inicialmente na Coreia e, posteriormente, no Japão e na China. Em Xangai, entrou em contato com estudantes e exilados coreanos ligados aos movimentos socialistas e anticoloniais, experiência decisiva para sua formação política. Ao regressar à Coreia, aproximou-se do movimento feminista e do recém-formado Partido Comunista Coreano (조선공산당) (1925-1943), passando a atuar simultaneamente em organizações de mulheres e em grupos de esquerda comprometidos com a independência nacional.
Durante a década de 1920, integrou uma geração de mulheres que passou a questionar publicamente as normas patriarcais da sociedade colonial coreana. Em uma época marcada pela forte influência do confucionismo e por rígidos padrões de comportamento feminino, Ho Jong-suk adotou cabelos curtos, utilizou roupas consideradas modernas e participou de atividades públicas ao lado de outras jovens ativistas, como Ju Se-juk e Go Myung-ja, tornando-se símbolo das chamadas New Women (Sin Yŏsŏng) (ou em tradução literal para o português, Novas mulheres), mulheres que defendiam educação, autonomia intelectual e maior participação feminina na vida pública. Segundo relatos da época, as três chegaram a brincar em riachos no centro de Seul em plena luz do dia, gesto interpretado como desafio às convenções sociais então vigentes.

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Sua atuação, entretanto, distinguia-se da de parte das chamadas New Women por articular as reivindicações femininas à crítica do capitalismo e do colonialismo japonês. Influenciada pelo pensamento socialista, Ho Jong-suk defendia que a emancipação das mulheres deveria ocorrer simultaneamente à transformação das estruturas econômicas e políticas da sociedade. Essa perspectiva se aproximava do que posteriormente seria denominado “amor vermelho” (red love), corrente do feminismo comunista que procurava redefinir as relações afetivas, o casamento e a sexualidade a partir da igualdade entre homens e mulheres, rompendo com a lógica patriarcal da família tradicional.
Jornalismo, movimento de mulheres e militância política
Além da atuação política, Ho Jong-suk se destacou como jornalista. Trabalhou no Dong-A Ilbo, um dos principais jornais da Coreia naquela época, sendo considerada uma das primeiras mulheres repórteres do periódico. Escreveu artigos sobre educação, trabalho feminino, organização das mulheres e política internacional, participando da construção de um espaço público de debate em um contexto em que a presença feminina na imprensa ainda era bastante limitada.
Também participou da fundação da Geunwoohoe (Associação Geunwoo) (근우회) em 1927, considerada a principal organização feminina de orientação nacionalista e progressista da Coreia naquele período. Paralelamente, atuou na Singanhoe (신간회), organização que reunia nacionalistas e socialistas em torno da luta contra o domínio japonês. Nessas entidades, defendeu a ampliação da educação feminina, melhores condições de trabalho para as mulheres e sua participação nas mobilizações políticas em favor da independência coreana.
Ao mesmo tempo, Ho Jong-suk se tornou conhecida por suas posições sobre casamento, sexualidade e autonomia feminina. Criticava o padrão moral que exigia castidade apenas das mulheres e defendia que elas deveriam ter liberdade para escolher seus parceiros e conduzir suas próprias vidas afetivas. Essas posições provocaram intenso debate na imprensa e despertaram críticas tanto de setores conservadores quanto de parte dos próprios militantes nacionalistas e comunistas. Sua vida privada passou a ser amplamente comentada pela imprensa colonial, evidenciando como mulheres que ocupavam posições públicas eram frequentemente julgadas por critérios diferentes daqueles aplicados aos homens. A historiografia recente interpreta esses episódios não apenas como escândalos pessoais, mas como parte das disputas em torno da redefinição do papel feminino na Coreia moderna.
Entre seus textos mais conhecidos está a reflexão na qual imagina um mundo composto apenas por mulheres. Longe de constituir uma proposta literal, o argumento utilizava uma hipótese extrema para denunciar a naturalização da dominação masculina e evidenciar como as estruturas sociais e econômicas favoreciam sistematicamente os homens. Esse tipo de escrita revela o caráter inovador de suas reflexões sobre desigualdade de gênero nas primeiras décadas do século XX.
Resistência anti-japonesa e atuação na República Popular Democrática da Coreia
Com o aumento da repressão colonial aos movimentos de esquerda, Ho Jong-suk deixou a Coreia em 1936 e se estabeleceu na China. Ali passou a integrar o Partido Revolucionário Nacional Coreano (조선민족혁명당) e, posteriormente, a Aliança para a Independência da Coreia, organizações envolvidas na resistência contra a ocupação japonesa. Sua atuação ocorreu em um ambiente transnacional, ao lado de exilados coreanos e revolucionários chineses, reforçando sua inserção nas redes comunistas do Leste Asiático.
Após a libertação da Coreia, em 1945, retornou inicialmente a Seul. Entretanto, diante da crescente polarização política e da violência dirigida contra militantes de esquerda, transferiu-se para a região norte da península, onde participou da organização do novo Estado socialista. Em 1946, tornou-se dirigente da Liga Democrática das Mulheres e, posteriormente, ocupou diversos cargos de destaque, entre eles os de ministra da Cultura (1948-1957), ministra da Justiça (1957-1959) e presidente da Suprema Corte da República Popular Democrática da Coreia (1959-1960). Diferentemente de muitos dirigentes da primeira geração revolucionária, permaneceu politicamente ativa durante décadas, sem sofrer expurgos ou afastamentos significativos.
Memória e legado
A memória de Ho Jong-suk foi profundamente marcada pela divisão da península coreana. Na República Popular Democrática da Coreia, foi incorporada à narrativa oficial como uma das principais revolucionárias da construção do Estado socialista e frequentemente apresentada como exemplo da participação feminina na política. Na Coreia do Sul, sobretudo durante o período de forte anticomunismo, sua trajetória foi reduzida, em muitos casos, à colaboração com o regime norte-coreano e à sua vida pessoal, frequentemente utilizada para desqualificar sua atuação política.
Desde o início do século XXI, entretanto, pesquisadores têm reavaliado sua trajetória sob novas perspectivas. Estudos recentes destacam sua participação na história do feminismo coreano, do jornalismo, do movimento socialista e das redes transnacionais de mulheres no Leste Asiático. Em vez de compreendê-la exclusivamente como dirigente norte-coreana ou como personagem controversa da Guerra Fria, essa historiografia procura situá-la no contexto das profundas transformações políticas, sociais e culturais vividas pela Coreia durante a primeira metade do século XX.
Ho Jong-suk faleceu em 5 de junho de 1991, em Pyongyang. Seu obituário publicado pelo Nodong Sinmun ressaltou sobretudo sua atuação como dirigente da RPDC, dedicando apenas breve referência à sua militância anterior à fundação do Estado norte-coreano.
Referências
BARRACLOUGH, Ruth. Red Love and Betrayal in the Making of North Korea: Comrade Hŏ Jŏng-suk. History Workshop Journal, p. 86-102, 2014.
BARRACLOUGH, Ruth. Red Love in Korea: Rethinking Communism, Feminism, Sexuality. In: BARRACLOUGH, Ruth; BOWEN-STRUYK, Heather; RABINOWITZ, Paula (ed.). Red Love Across the Pacific: Political and Sexual Revolutions of the Twentieth Century. New York City: Palgrave Macmillan, 2015.
KIM, Hannah. Romantic Love in Colonial Korea: Feminist Attempts at Liberation. Yonsei Journal of International Studies, 2022.
WINSTANLEY-CHESTERS, Robert. Red Love Across the Pacific: Political and Sexual Revolutions of the Twentieth Century. S/N Korean Humanities, v. 3, n. 1, p. 125-133, mar. 2017.
Sobre a autora

Maria Gabriela Pedrosa
Doutoranda em Estudos Literários na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), integrante da Curadoria de Estudos Coreanos (CEÁSIA/CEA/UFPE). Interessa-se pela relação entre os estudos literários, a intermidialidade e a memória.
E-mail: mariagpedrosa@gmail.com.