Por Clara Menezes
Imagem: HyeYoung / Divulgação https://images.squarespace-cdn.com/content/v1/63823b87e6e91161136430ee/de5e5401-bdc7-489a-b537-2dbad8d582fa/Bora+Chung.jpg
“Coelho maldito” (2024), de Bora Chung, reúne dez contos que utilizam o grotesco para narrar os horrores da sociedade capitalista e patriarcal. Uma das escritoras mais proeminentes da Coreia do Sul, ela mescla terror, ficção científica e fantasia para contar histórias de personagens que enfrentam violências cotidianas e que estranham suas condições em um mundo onde a brutalidade predomina, sobretudo contra as mulheres.
Finalista do Prêmio Internacional Man Booker de 2022, importante premiação da literatura contemporânea que reconhece as melhores obras traduzidas para a língua inglesa, a obra atravessa uma série de gêneros e assuntos. Mas este texto se propõe a discorrer sobre três deles: “A cabeça”, “Dedos gélidos” e “Menorreia”, porque compartilham temáticas comuns, como o horror e o olhar para os problemas femininos.
“A cabeça” conta a história de uma mulher aterrorizada por uma cabeça em seu vaso sanitário e que a chama de mãe. A figura nasceu dos excrementos, do lixo e de tudo o que foi jogado na privada e, mesmo sendo ignorada pela pessoa que a criou, continua a aparecer constantemente na tentativa de chamar sua atenção. A protagonista, porém, começa a sofrer com problemas de saúde por causa desses encontros no banheiro. Quando decide se casar e se tornar mãe, a situação parece ficar sob controle, até que a cabeça retorna para clamar o lugar que é seu.
Em “Dedos gélidos”, uma mulher chamada professora Lee sofre um acidente de carro e não se lembra do que aconteceu. Enquanto uma voz fina fala com ela, a protagonista tenta recuperar suas memórias. Entretanto, os diálogos somente aprofundam a confusão à medida que a voz revela informações, mas também as modifica. É no decorrer dessa desordem que a mulher descobre sua relação com a professora Choi, que provavelmente morreu após enfrentar o término de um casamento difícil.
Já “Menorreia” narra a jornada de uma mulher que descobre estar grávida devido ao uso excessivo de anticoncepcionais. Ela não sabia dos efeitos colaterais do contraceptivo, porque nenhum médico a avisou, e agora precisa encontrar um pai para o filho nascer saudável. Ao sair do emprego para iniciar essa busca, passa a enfrentar os julgamentos da maternidade solo enquanto vivencia uma série de encontros fracassados com potenciais maridos.
Nesses três contos, Bora Chung descreve um horror comum em narrativas do gênero escritas principalmente por mulheres: o das experiências em uma sociedade patriarcal. Este é um tema prolífero em estudos que relacionam gênero e literatura — presente há muitas décadas no meio acadêmico, mas cujo debate se tornou mais proeminente após a popularização da crítica feminista e a criação do termo “gótico feminino” pela acadêmica estadunidense Ellen Moers (1976).
Cinco décadas depois dessa classificação, ainda há um debate extenso sobre a necessidade de existir um subgênero do horror criado por mulheres e como pensar essa categoria na contemporaneidade (Wallace; Smith, 2009; Brabon; Genz, 2007; Whitney, 2016). Mas, independentemente dessas discussões, fato é que existe uma extensa tradição de autoras que utilizam o gênero como um recurso para denunciar a condição da mulher em uma sociedade que constantemente a violenta.
O corpo da mulher em Bora Chung
O que Bora Chung faz é trazer para a literatura de horror sul-coreana temas que já se consagraram em outros gêneros da literatura mundial. Nos contos citados, a autora utiliza o corpo feminino para retratá-lo como um alvo de opressão e de violência.
Em “A cabeça”, o monstro é uma massa uniforme, a filha não reconhecida da protagonista. Nascida de excrementos, a figura monstruosa exige atenção materna, mas não recebe porque sua mãe não a reconhece como filha. Como Cohen (1996) explicita, o monstro é esse ser que representa algo além de si; que incorpora o medo, a ansiedade e a fantasia de uma sociedade; que nunca desaparece por completo; e que desafia os limites do possível. Ele é esse outro, que obriga as pessoas a notarem sua existência.
“Os monstros são nossos filhos. Eles podem ser empurrados para as margens da geografia e do discurso, escondidos nas margens do mundo e nos recônditos proibidos de nossa mente, mas sempre retornam” (Cohen, 1996, p. 20, tradução nossa). Como representado na história, o monstro seria — de fato — a filha “de sangue” da protagonista, mas não é considerada como tal. É uma figura que impede a personagem de esquecer a maternidade que não quis exercer. E, quando ela finalmente decide ser mãe, aquela massa monstruosa não desaparece, permanecendo sempre ali, desafiando a vida pacífica da família.
Já em “Dedos gélidos”, não fica claro logo no início se a personagem principal está morta ou não. Tudo o que se sabe é que ela sofreu um acidente de carro e, quando dedos gélidos a tocam, passa a buscar respostas para sua falta de memória. Aos poucos, fragmentos dessas lembranças se revelam ao leitor. Ela parecia ter a “vida ganha”, com um bom emprego e um parceiro amoroso aparentemente gentil. Porém, em um diálogo com uma voz estranha, descobre que estava em um relacionamento muito pior do que os outros imaginavam.
Não há um final fechado para os acontecimentos: ela foi morta por seu parceiro ou se suicidou? Ela morreu de fato ou ainda está naquele limiar entre a vida e a morte? Independentemente da resposta, a protagonista simboliza uma realidade comum de mulheres que enfrentam o medo dentro do próprio lar e que são vítimas de um algoz que antes parecia confiável.
O corpo feminino aparece neste conto não como o criador de um monstro, e sim como um símbolo da fragilidade de uma vida. Entretanto, a mulher não é simplesmente uma vítima, porque, à medida que a narrativa se desenrola, o público conhece a subjetividade da protagonista para além da violência — uma característica típica da literatura gótica feminina contemporânea (Whitney, 2016). Mas, ainda assim, ela sofre brutalidades e subverte as fantasias de um mundo que parecia ter avançado muito em relação aos direitos femininos.
“Menorreia” também usa o corpo da mulher como lembrete físico das violências enfrentadas no cotidiano. A personagem desse conto engravidou devido ao uso excessivo de anticoncepcionais e precisa encontrar um marido para que seu filho tenha um pai. Se nenhum homem assumir a paternidade, o bebê nascerá com diversos problemas.
A crítica desse texto é evidente: mostra os preconceitos enfrentados por mães solo e também pelos filhos dessas mulheres, escancarando a ironia de suas realidades. O corpo feminino, aqui, revela as contradições de uma sociedade que obriga as mulheres a serem mães enquanto os homens podem escolher não serem pais.
O terror como denúncia da condição feminina
Em diferentes entrevistas, Bora Chung explica que suas narrativas partem de experiências pessoais ou de histórias reais que leu sobre a vida na Coreia do Sul. São textos ficcionais criados a partir de sua incompreensão acerca de situações que não deveriam acontecer com ninguém (Chung, 2023).
Entretanto, ela não percebe suas personagens femininas como subversivas. Todas estão, na verdade, apenas lidando com situações absurdas e tentando entender como sair disso (Chung, 2023). “É por isso que parecem subversivas, suponho. Porque, de um ponto de vista patriarcal, as mulheres não têm, e não deveriam ter, a capacidade de pensar, sentir e buscar respostas por conta própria. Porque o patriarcado é um sistema de ilusões”, afirma ela em entrevista (2023).
“Menorreia”, por exemplo, nasceu de uma dessas experiências que as mulheres enfrentam no cotidiano. Aos 28 anos, Bora Chung teve um cisto no ovário, mas sua própria mãe disse para não ir ao médico, porque ela não era casada. “Se você está viva e seus órgãos funcionam, então você deve cuidar deles. Deveria ser muito simples. Mas, como a questão da gravidez está ligada a isso, a sociedade acaba atribuindo todo tipo de significado estranho aos seus órgãos”, disse em entrevista à NPR (2022).
“Eu queria falar sobre uma mulher que tem um bebê sozinha. E na Coreia do Sul existe um estigma absurdo e o bebê é discriminado desde o momento em que nasce. A certidão de nascimento precisa indicar se os pais são casados ou não”, continua durante a conversa à emissora de rádio.
As histórias de Bora Chung, sobretudo as presentes em Coelho maldito (2024), trazem um olhar fantástico para o real no intuito de expor o absurdo presente no dia a dia das mulheres. Por meio de narrativas que reconfiguram o cotidiano, ela revela o terror e a monstruosidade do patriarcado que cerceia a liberdade das mulheres, mas que, apesar de sua violência, não consegue impedi-las de buscar outros modos de vida fora desse sistema.
REFERÊNCIAS
BRABON, Benjamin A.; GENZ, Stéphanie (ed.). Postfeminist Gothic: Critical Interventions in Contemporary Culture. Hampshire: Palgrave Macmillan, 2007.
CHUNG, Bora. Bora Chung on her collection of short stories ‘Cursed Bunny’. Entrevista concedida a Ayesha Rascoe. NPR, 2022. Disponível em: https://www.npr.org/2022/12/11/1142119424/bora-chung-on-her-collection-of-short-stories-cursed-bunny. Acesso em 03 mai. 2026.
CHUNG, Bora. A Conversation with Bora Chung. Entrevista concedida a Adam Sudewo. Adam Sudewo, 2023. Disponível em: https://medium.com/@adamsudewo4/a-conversation-with-bora-chung-61c73c5597d8. Acesso em: 3 mai. 2026.
CHUNG, Bora. Coelho maldito. São Paulo: Alfaguara, 2024.
COHEN, Jeffrey Jerome. Monster Culture (Seven Theses). In: COHEN, Jeffrey Jerome (ed.). Monster Theory: Reading Culture. Minneapolis: University of Minnesota Press, 1996.
MOERS, Ellen. Literary Women: The Great Writers. Oxford: Oxford University Press, 1976.
WALLACE, Diana; SMITH, Andrew (ed.). The Female Gothic: News Directions. Hampshire: Palgrave Macmillan, 2009.
WHITNEY, Sarah E. Splattered Ink: Postfeminist Gothic Fiction and Gendered Violence. Illinois: Urbana: University of Illinois Press, 2007.
SOBRE A AUTORA

Clara Menezes
Mestranda em Ciências Sociais pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e integrante da Curadoria de Estudos Coreanos. Pesquisa na área de sociologia da literatura, com foco na obra de Han Kang.
E-mail: mclaracmenezes@gmail.com.