por Stefany Santos

Foto: Imagem promocional do k-drama Resident Playbook – Divulgação/Netflix

No Centro Médico Yulje (Yulje Medical Center), em Seul, quatro residentes de obstetrícia e ginecologia enfrentam os primeiros meses de suas carreiras em meio a plantões extensos, procedimentos complexos e decisões que podem colocar vidas em risco. Esta é a história retratada em Resident Playbook, série dramática sul-coreana lançada em 12 de abril de 2025 pela Total Variety Network (tvN) e disponível na Netflix. 

Estrelada por Go Youn Jung (Oh Yi Young), Shin Si Ah (Pyo Nam Kyung), Kang Yoo Seok (Um Jae il) e Han Ye Ji (Kim Sa Bi), a produção mostra o dia a dia de jovens médicos no contexto de um sistema de saúde pressionado e em transformação. Dirigido por Lee Min Soo, o K-drama, que é um spin-off do sucesso Hospital Playlist (2020), ocupou o top 10 das séries mais assistidas da Netflix, no período de lançamento, e atingiu uma média nacional de 8,1% de audiência no seu último episódio, segundo um levantamento da Nielsen Korea. 

Muito mais que uma obra de ficção, a trama mostra residentes lidando com plantões extensos e decisões complexas, realidade que vai ao encontro do contexto médico da Coreia do Sul nos últimos dois anos. Oh Yi Young se destaca como uma das principais personagens da história e, devido a uma situação traumática, acabou deixando a carreira de médica de lado antes de encerrar o seu primeiro ano como residente, porém, após cair em dívidas, não viu outra saída a não ser voltar à profissão. 

Ao lado de Pyo Nam Kyung, Um Jae il e Kim Sa Bi, ela enfrenta diversas situações em que precisava agir com urgência para atender desde gestantes até mulheres em situação de câncer terminal, mesmo não tendo a experiência necessária. Os jovens médicos, um tanto atrapalhados, ainda precisam lidar com a falta de profissionais e aprendizes em suas respectivas áreas, ginecologia e obstetrícia, uma vez que o número de residentes que se interessam por essas especialidades é cada vez menor. 

Após superar desafios, confusões, muitas broncas de seus professores e ainda se envolverem em relacionamentos amorosos, os quatro residentes conseguem finalizar o primeiro ano atuando no Centro Médico Yulje e, no fim do K-drama, ingressam no segundo ano, não só para enfrentar novas aventuras que virão pela frente, mas também para assumir o papel de veteranos que irão orientar os residentes recém-chegados. 

Crise médica na Coreia do Sul

Muito mais que um spin-off do sucesso Hospital Playlist, Resident Playbook é um retrato da crise que assola o país desde fevereiro de 2024, quando o governo anunciou a proposta de aumentar o número de admissões em faculdades de medicina em 67%, cerca de 5 mil estudantes por ano, para enfrentar a demanda crescente por profissionais de medicina (Beer; Jenne, 2025). 

Na época, o até então ministro da saúde, Cho Kyoo Hong, apontou a urgência da mudança devido ao envelhecimento acelerado da população, à falta de especialistas nas áreas de atendimento de emergência, pediatria, ginecologia e obstetrícia e à escassez de médicos em áreas mais rurais. A medida, que deveria entrar em vigor em janeiro de 2025, desagradou professores, estudantes, entidades médicas e, principalmente, os residentes, que se afastaram de seus cargos e de seus cursos para ir às ruas protestar. O impacto imediato incluiu adiamentos de cirurgias e ajustes na triagem de serviços essenciais.

De acordo com a Associação Médica Sul-Coreana (Korea Medical Association – KMA), mais de 12.000 médicos residentes entregaram cartas de demissão e cerca de 14.000 estudantes de medicina suspenderam suas atividades em hospitais universitários (Beer; Jenne, 2025). A categoria argumentou que, de modo geral, a quantidade de médicos atuantes era suficiente e que, antes da adoção de uma reforma médica, seria necessário investir em melhores condições de trabalho. O período de greve se estendeu por cerca de 18 meses, sendo encerrado em 1º de setembro deste ano, após um anúncio da Associação Sul-Coreana de Estudantes de Medicina (Lee, 2025). 

A realidade desses profissionais vai totalmente ao encontro da rotina mostrada em Resident Playbook, que, além de retratar longos plantões e a pressão sob os residentes, também mostra o sofrimento constante dos pacientes em meio a uma crise estrutural do sistema de saúde que veio crescendo na última década. Segundo a legislação sul-coreana, o limite máximo de atuação para residentes é de 80 horas semanais, porém, estudos de 2023 e 2024 apontam que muitos profissionais cumprem quase 100 horas por semana (Yoon; Kwon; Park, 2024). 

Em termos de remuneração, os salários chegam a cerca de 70 milhões de wons anuais (aproximadamente R$252 mil), valor que, segundo dados do Ministério da Saúde e Bem Estar da Coreia do Sul, é inferior ao que seria considerado adequado para jornadas dessa intensidade (Han; Chung, 2024). Embora boa parte dos profissionais tenha retornado aos seus cargos, as negociações com o governo não apontaram para uma resposta efetiva, que era esperada pela categoria. Até então, apenas foi afirmado que o aumento das vagas nas universidades aconteceria de forma gradual, com 1.509 admissões neste ano e 3.058 previstas para 2026 (Beer; Jenne, 2025). 

Referências

YOON, Joo Heung; KWON, In Ho; PARK, Hyoung Wook. The South Korean health-care system in crisis. The Lancet, Londres, v. 403, n. 10444, 2024. DOI: 10.1016/S0140-6736(24)00766-9. Disponível em: https://www.thelancet.com/journals/lancet/article/PIIS0140-6736(24)00766-9/fulltext. Acesso em: 08 nov. 2025.

LEE, Soo-Jung. Is a breakthrough finally in sight in Korea’s longest ever doctors’ strike? Korea JoongAng Daily, Seul, 17 jul. 2025. Disponível em: https://koreajoongangdaily.joins.com/news/2025-07-17/national/socialAffairs/Is-a-breakthrough-finally-in-sight-in-Koreas-longest-ever-doctors-strike/2354080. Acesso em: 08 nov. 2025.

BEER, Anna de; JENNE, Frederike A. Striking medical students paid a high price. For what? University World News, 01 out. 2025. Disponível em: https://www.universityworldnews.com/post.php?story=20250930114252183#:~:text=In%20February%202024%2C%20former%20South,from%20entering%20these%20essential%20fields. Acesso em: 08 nov. 2025.

HAN, Eui-Ryoung; CHUNG, Eun-Kyung. A qualitative study on the adoption of the new duty hour regulations among medical residents and faculty in Korea. National Library of Medicine, v. 19, n. 4, 2024. DOI: 10.1371/journal.pone.0301502. Disponível em: https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC11008864/. Acesso em: 08 nov. 2025. 

SOBRE A AUTORA

Stefany Santos – Graduanda em Comunicação Social pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), pesquisadora vinculada à Fundação de Amparo à Ciência e Tecnologia do Estado de Pernambuco (FACEPE) e integrante da Curadoria de Estudos Coreanos (CEÁSIA/CEA/UFPE). E-mail: stefany.rayanesantos@ufpe.br