“O Bom Filho” (종의 기원) é um romance de suspense psicológico narrado em primeira pessoa pelo protagonista Han Yu-jin, um jovem que teve seu futuro promissor como nadador interrompido pela epilepsia. Publicado originalmente na Coreia do Sul em 2016 pela editora 은행나무 e traduzido para o português por Jae Hyung Woo e publicado no Brasil pela editora Todavia em 2019, a narrativa da autora Jeong Yu-Jeong tem início com Yu-jin acordando em meio a um mistério inquietante: ele encontra sua mãe morta na casa onde vivem, mas sua memória do ocorrido está destruída, possivelmente pela própria condição neurológica. A partir daí, a autora desenvolve um enredo complexo que alterna entre o presente e os flashbacks da infância de Yu-jin, explorando os traumas familiares, sua relação com o irmão adotivo Kim Hae-jin, as manipulações mentais e a psicopatia do personagem. Segundo Osborne (2018, p. 1)1, “este é um livro de perguntas. É também um livro de mistério, mas boa parte dele consiste em Yu-jin falando consigo mesmo, tentando descobrir o que está acontecendo”.
A construção do protagonista é destacada na obra pela sua intrincada personalidade, cuja aparente normalidade esconde um comportamento predatório e psicótico. A autora usa a fragmentação da memória e os flashbacks não só para desvendar o mistério do crime, mas para proporcionar uma análise profunda da mente perturbada de Yu-jin, tornando o livro um exercício focado na psicologia humana, especialmente nos impactos do controle opressivo materno e das relações familiares tóxicas. O leitor é levado a uma ambiguidade moral, questionando a confiabilidade da narrativa, pois Yu-jin manipula suas próprias memórias e sua versão dos fatos. Para Varma (2019, p. 1)2:
Ao mergulharmos na toca do coelho, virando as páginas sombrias de sua mente e do diário de sua mãe, que nos leva de sua infância à idade adulta, quando ele está prestes a ingressar na faculdade de direito, nos deparamos com sua ‘verdadeira natureza’.
O livro também é apreciado por público e crítica por seu ritmo intenso e sua habilidade em manter a tensão narrativa, apesar de algumas críticas quanto ao detalhamento excessivo em certas partes. É um thriller que alia suspense com drama humano, revelando os mecanismos internos de uma família marcada por complicações psicológicas e sociais, em um contexto sul-coreano contemporâneo discutido sutilmente no pano de fundo da história. A ambientação cultural, ainda que não seja o foco central da narrativa, contribui para a construção de um cenário que reforça os dilemas individuais e coletivos, permitindo ao leitor compreender como fatores sociais e familiares se entrelaçam na formação da subjetividade dos personagens.
A autora, Jeong Yu-Jeong, demonstra grande habilidade em explorar os limites entre realidade e percepção, utilizando recursos narrativos que intensificam a dúvida e a ambiguidade. O protagonista é construído de forma complexa, revelando gradualmente suas fragilidades, traumas e contradições, o que confere à obra uma dimensão psicológica que ultrapassa o mero enredo policial. Neste sentido, o romance pode ser interpretado como uma investigação não apenas de um crime, mas da própria mente humana, expondo os mecanismos da memória, da repressão e da culpa.
Além disso, a narrativa dialoga com questões universais, como a herança familiar, a pressão social e os efeitos da violência psicológica, ao mesmo tempo em que mantém o leitor em constante estado de alerta. O uso de descrições minuciosas, embora alvo de críticas por leitores e críticos literários, pode ser visto como uma estratégia literária para intensificar a atmosfera claustrofóbica e a sensação de aprisionamento que permeia a obra. Essa escolha estilística reforça a ideia de que o verdadeiro suspense não reside apenas na resolução do mistério, mas na revelação gradual das camadas emocionais e cognitivas que compõem os personagens.
Em síntese, “O Bom Filho” é uma obra que transcende o simples mistério policial para apresentar um estudo psicológico profundo, com uma escrita que prende o leitor e convida à reflexão sobre a natureza da mente, a memória e os laços familiares problemáticos. Trata-se de um romance que, ao mesmo tempo em que entretém pelo suspense, também provoca inquietação intelectual ao expor os limites da racionalidade e da moralidade em situações extremas. Desta forma, a obra de Jeong Yu-Jeong consolida-se como uma contribuição significativa para o gênero thriller psicológico contemporâneo, oferecendo ao público não apenas uma narrativa envolvente, mas também uma oportunidade de reflexão crítica sobre os dilemas humanos universais.
Referências
JEONG, Yu-Jeong. O Bom Filho. Tradução: Jae Hyung Woo. São Paulo: Todavia, 2019.
OSBORNE, J. David. The Good Son by You-Jeong Jeong. World Literature Today, 2018. Disponível em: https://www.worldliteraturetoday.org/2018/july/good-son-you-jeong-jeong. Acesso em: 24 nov. 2025.
VARMA, Anuradha. Book review: The Good Son by You Jeong Jeong. The Indian Express, 26 maio. 2019. Disponível em: https://indianexpress.com/article/lifestyle/books/book-review-good-son-you-jeong-jeong-5747877. Acesso em: 24 nov. 2025.
SOBRE A AUTORA
Mariana Mello Alves de Souza
Doutoranda em Estudos Literários pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) e integrante da Curadoria de Estudos Coreanos. Pesquisa na área de tradução literária, com foco na poesiacanto coreana clássica.
E-mail: mello.mariana@live.com.
Tradução da autora. No original: “This is a book of questions. It’s a book of mystery, too, but a good portion of it consists of Yu-jin talking to himself, trying to figure out what’s going on”. ↩︎
Tradução da autora. No original: “As you go down the rabbit hole, turning the dark pages of his mind and his mother’s journal, which takes us from his childhood to adulthood as he stands at the threshold of law school, we come face to face with his ‘true nature’”. ↩︎
A produção cinematográfica sul-coreana contemporânea frequentemente revisita o passado dinástico para reinterpretar a identidade nacional. Neste contexto, o filme A Frozen Flower (Ssanghwajeom, 2008), dirigido por Yu Ha, destaca-se não apenas como um drama histórico, mas como um exercício de tradução visual das Goryeo Gayo (Canções de Goryeo).
As Goryeo Gayo, uma coleção de poemas e canções folclóricas da Dinastia Goryeo, representam um dos corpus mais famosos e intrigantes da história da literatura coreana clássica. Estas canções, oriundas da tradição oral e posteriormente registradas durante a Dinastia Joseon em compilações como o Akhak Gwebeom1 (cânone Musical), destacam-se pela sua franqueza emocional e temática vulgar. Tais obras capturam a essência humana sem os filtros moralizantes posteriores, abordando o amor, a separação e o prazer com uma crueza linguística única (Lee, 2003). O filme não utiliza as canções Ssanghwajeom e Gasiri meramente como trilha sonora diegética (que faz parte da cena), mas estrutura seu roteiro como uma interpretação visual e simbólica de suas letras.
Ambientada no final da Dinastia Goryeo, um período de subjugação política ao Império Yuan e crise de identidade nacional, a trama desenvolve-se em torno de um triângulo amoroso trágico. O Rei, impossibilitado de gerar um herdeiro e sob pressão política, solicita ao seu amante e chefe da Guarda Real, Hong-rim, que engravide a Rainha. O que inicia como um cumprimento de dever transforma-se em uma paixão avassaladora entre a Rainha e o guarda, desencadeando uma série de eventos marcados por ciúme, traição e vingança, culminando na dissolução sangrenta da corte.
A canção que intitula o filme, Ssanghwajeom (“A Loja de Dumplings”), introduz a tensão erótica e a inevitabilidade do escândalo. Historicamente censurada por seu conteúdo explícito, a canção narra encontros (ou abusos) sexuais em locais inusitados. No filme, o eu lírico encontra correspondência em Hong-rim, o chefe da guarda real, que se torna o sujeito passivo “tomado” pelas figuras de poder (o Rei e a Rainha), transformando a corte num palco de rumores.
Um dos pontos mais sofisticados da obra é a incorporação da pluralidade de leituras do termo “ssanghwa”. O filme não escolhe uma única tradução, mas representa visualmente algumas das hipóteses de tradução. A interpretação tradicionalmente mais aceita para os dois primeiros versos da canção — “Ssanghwajeome ssanghwa sareo gasseonneunde / Hoehoeabi nae sonmogeul jwieotseumnida” — seria: “Vou à loja turca (ou árabe), compro um pãozinho (dumpling) / Um velho turco me segura/toma pela mão” (Lee, 1981, 2003). Desta forma, é possível interpretar que o ssanghwa na canção é um tipo de mandu feito por comerciantes estrangeiros da época. No longa, esse “bolinho” aparece em cena quando a Rainha oferece mandu de arroz a Hong-rim como forma de confessar seu amor, dizendo que é uma tradição de sua terra natal, simbolizando a aceitação do afeto proibido e a corrupção da identidade nacional pelos costumes estrangeiros. Outra leitura possível é do ssanghwa como referência ao Ssanghwatang, um tipo de chá medicinal de madressilva que Hong-rim serve a ambos os monarcas, reforçando sua posição de subserviência e cuidado.
Uma discussão mais recente sobre a palavra ssanghwa na canção foi feita pelo professor Park Deok-yu, do Departamento de Educação em Língua Coreana da Universidade Inha, em seu estudo “A Study on the Rhyme and Syntactic Structure of <Ssanghwajeom>” (2001). Baseando-se no Dicionário Sino-Coreano de 1989, o professor aponta que o termo 霜花 shuāng huā (“flor de gelo” ou “flor de geada”) designa um “trabalho fino em forma de gelo” (細工). Consequentemente, ele conclui que ssanghwa refere-se a um artesanato delicado ou joia, e que Ssanghwajeom seria, portanto, uma “loja de artesanato” ou loja de joias de comerciantes estrangeiros, e não uma loja de mandu.
Sendo assim, esta última é a interpretação que melhor dialoga com o título internacional do filme (A Frozen Flower), e com a tragédia dos personagens, desafiando a tradicional interpretação relacionada à culinária. Isso valida a importância narrativa do colar de Yuan no filme. A joia, que a Rainha trouxe consigo e perde em um ataque, é reposta secretamente por Hong-rim (porém, ela diz ao rei ter ganhado uma nova joia parecida trazida por seu irmão), e torna-se a materialização física desse ssanghwa (artesanato delicado). Outra interpretação para o título do filme seria “flor congelada” e poderia remeter à cena final do filme em que a imagem da pintura feita pelo rei, retratando-o com seu amante, é congelada na tela, simbolizando o amor entre ele e Hong-rim como uma flor que nunca desabrochou.
Já a canção Gasiri (“Você vai?”), em contraste com a promiscuidade e assédio de Ssanghwajeom, estrutura o arco dramático do Rei repleto de um profundo sentimentalismo. O monarca encarna o eu lírico que observa a partida emocional de seu amado, paralisado pelo dilema expresso na letra: o medo de que, ao tentar deter o amante à força, este nunca mais retorne. A violência do Rei — incluindo a castração de Hong-rim — deve ser lida sob a ótica desta canção. Não é apenas uma punição, mas uma tentativa desesperada de impedir a “partida” física do guarda para a Rainha, visando, através do impedimento de concretizar o desejo sexual, restaurar uma lealdade de “coração”. O Rei suplica pelo retorno do amante até o último instante, pois para ele a posse física é inútil sem o afeto, assim como o próprio reino deixa de importar perante a perda de seu grande amor.
A Frozen Flower opera como uma tradução visual que transcende a adaptação literal. Ao personificar as vozes líricas das Goryeo Gayo em seus protagonistas, o diretor Yu Ha resgata a humanidade crua e impulsiva (o desejo, o ciúme, a transgressão, a corrupção) que a ética e a hierarquia confucionistas tentaram suprimir na sociedade coreana. O filme encena essa vitória da emoção sobre a regra, provando que o legado mais duradouro da literatura coreana reside na coragem de sentir e expressar.
REFERÊNCIAS
A FROZEN Flower. Direção: Yoo Ha. Produção: Opus Pictures. Intérpretes: Jo In-sung; Joo Jin-mo; Song Ji-hyo e outros. Seul: Showbox, 2008. 1 filme (133 min), son., color.
A FROZEN Flower. In: Wikipedia: the free encyclopedia. [S.l.], 2025. Disponível em: https://en.wikipedia.org/wiki/A_Frozen_Flower. Acesso em: 8 dez. 2025.
ACADEMY OF KOREAN STUDIES. Akhak Gwebeom (악학궤범). Encyclopedia of Korean Culture. s.d. Disponível em:https://encykorea.aks.ac.kr/Article/E0034481. Acesso em: 30 jan 2026.
Bacharela em Letras Português e Coreano na Universidade de São Paulo, idealizadora e co-fundadora do podcast e portal de notícias Sarangbang. Integrante da Curadoria de Estudos Coreanos (CEÁSIA/CEA/UFPE). Se interessa por literatura coreana.
E-mail: denisenobre@sarangbang.com.br
O Akhak Gwebeom (악학궤범 / 樂學軌範) é um tratado fundamental sobre música tradicional coreana compilado em 1493, durante o reinado do Rei Seongjong na Dinastia Joseon. A obra funciona como um manual abrangente que documenta a teoria musical, os instrumentos da época, as coreografias das danças e os arranjos para rituais e banquetes da corte. Sua importância para o estudo da literatura coreana clássica reside no fato de que o tratado revisou e corrigiu erros de tratados anteriores e preservou as letras de diversas canções populares, inclusive da Dinastia Goryeo. Embora algumas letras tenham sido censuradas pelos magistrados confucionistas que compilaram a obra, o cânone, composto por 9 volumes e 3 livros, foi recuperado mesmo após diversas guerras e permanece como importante documento da música tradicional coreana (Academy of Korean Studies, s.d.). ↩︎
Durante a Dinastia Joseon (1393-1910), o neoconfuncionismo1 se tornou a ideologia de Estado oficial. Para tanto, os cidadãos de Joseon foram obrigados a implementar os princípios neoconfucionistas no seu cotidiano, como os que estavam relacionados a lealdade e a autoridade, já que a filosofia servia como uma forma de organizar a sociedade e moldar o comportamento. Os coreanos engajavam bastante nessa natureza hierárquica e respeitosa do confucionismo, especialmente nos “Três Laços Fundamentais”, um dos principais pilares do pensamento. Os três laços são: “[…] a lealdade de um súdito ao seu líder; a veneração de uma criança aos seus pais e ancestrais; a dedicação de uma mulher ao seu marido e à sua família” (Jayasuriya, 2024, p. 11).
Com seu caráter hierárquico abraçado pela população da época, a ideologia neoconfucionista passou a desempenhar função fundamental na vida das mulheres coreanas, dado que a subordinação feminina se tornou uma de suas bases. Sob tal lógica, os papéis das mulheres na sociedade eram bastante limitados: todas deveriam ser filhas, esposas e mães e desempenhar perfeitamente as funções ligadas à vida doméstica. Embora a Coreia do Sul hoje seja um país moderno e industrializado, esta perspectiva prevalece na mentalidade dos sul-coreanos, tornando o sistema patriarcal neoconfucionista uma forte herança cultural da Dinastia Joseon, sendo um obstáculo para as mulheres sul-coreanas do tempo presente e, concomitantemente, para o movimento feminista, visto que ainda coloca as mulheres como subordinadas e inferiores aos homens.
Jayasuriya (2024, p. 14) afirma que os ideais neoconfucionistas influenciam diretamente várias situações do cotidiano das mulheres, como o modo com que elas lidam com seus corpos e sua aparência, os padrões de beleza da sociedade e a distribuição de tarefas (ainda são as mulheres as principais responsáveis pelas tarefas da casa, por exemplo). Além disso, as sul-coreanas também se tornaram alvos na esfera on-line, sofrendo diariamente com diversos tipos de ataques na internet, como a propagação de deepfakes e a própria criação da machosfera2(Jung; Moon, 2024), acontecimentos que evidenciam a condição subalterna a que essas mulheres estão expostas.
Apesar desta forma de pensamento estar internalizada na cultura sul-coreana e sua abolição ou reestruturação ser uma tarefa complexa, muitos autores como Juliana Batista e Tabitha Jayasuriya defendem que é possível uma reformulação. Visto que o neoconfucionismo é uma reinterpretação do confucionismo, as autoras partem da ideia de que é possível reinterpretar a filosofia confucionista para entender o papel feminino na filosofia “original” e, dessa maneira, entender o que é invenção do neoconfucionismo e o que não é. Em outras palavras, é necessário realizar uma reinterpretação da ideologia confucionista a fim de entender o papel da mulher na filosofia confuciana para entender o papel da mulher no neoconfucionismo e analisar se o confucionismo e o feminismo são realmente duas ideologias opostas. Segundo Jayasuriya (2024), a ideia de que as mulheres são inferiores aos homens no confucionismo é um erro de interpretação. Sob tal perspectiva, não seria a filosofia confucionista intrinsecamente misógina e sexista, mas sim a forma com que ela é interpretada, ensinada e colocada em prática pelas pessoas desde a Dinastia Joseon, a qual se reflete nos dias atuais.
Por exemplo, Hsü Daulin (1970) afirma que os neoconfucionistas interpretaram de forma errônea “Os Três Laços Fundamentais” do confucionismo ao torná-los um princípio cosmológico: a partir dessa interpretação, a lógica da hierarquia foi consagrada no lugar da reciprocidade dos relacionamentos pregada pela filosofia de Confúcio; essa interpretação errada poderia ser uma das causas da subordinação feminina, pois o homem estaria acima na hierarquia. Além disso, Jayasuriya (2024) e Batista (2017) ainda afirmam que há pontos de intersecção entre o feminismo e o confucionismo, pois o primeiro consegue aplicar as Cinco Virtudes Constantes do Confucionismo (Benevolência, Retidão, Propriedade, Sabedoria e Confiabilidade)3 com facilidade e simplicidade às suas agendas, porque “o Confucionismo é uma filosofia dedicada ao cuidado, ao respeito e à harmonia, e o feminismo é uma ideologia que busca a mesma qualidade de sociedade” (Jayasuriya, 2024, p. 32). Diante desta perspectiva, pode ser enriquecedor para as mulheres sul-coreanas se elas utilizarem o confucionismo em prol da luta mulheril. Jayasuriya (2024, p. 34) admite que não é algo tão simples a se fazer, mas ainda assim é póssivel: “com alguma melhoria na educação e maior conscientização em torno da libertação das mulheres no contexto cultural confucionista, a Coreia poderia aceitar a agenda feminista em suas estruturas sociais e políticas […]” .
É inegável que os valores neoconfucionistas contribuíram para reprimir as mulheres, da mesma forma que são utilizados como justificativa até hoje para tal repressão. Porém, como muitos estudiosos afirmam, existe a possibilidade de que a filosofia confucionista não possua raízes sexistas. Assim, seria o modo que a filosofia foi interpretada e ensinada que tornou o neoconfucionismo sexista e misógino. Nas palavras de Batista (2017), “a ausência de literatura poderosa e de apoio dos primeiros filósofos confucionistas, incluindo o próprio Confúcio, produziu um vácuo que poderia ser preenchido com interpretações negativas das mulheres”. Desta forma, utilizar pontos de convergência entre o confucionismo e o feminismo e realizar uma revisão da filosofia confuciana pode ser um caminho para que a emancipação das mulheres sul-coreanas continue florescendo.
HUANG, Xiuji. Essentials of Neo-Confucianism: eight major philosophers of the Song and Ming periods. Westport, Conn.: Greenwood Press, 1999. Disponível em: https://philpapers.org/rec/HUAEON. Acesso em: 20 fev 2026.
HSÜ, Dau-lin. The myth of the “Five Human Relations” of Confucius. Monumenta Serica, v. 29, p. 27– 37, 1970. Disponível em: dx.doi.org/10.1080/02549948.1970.11744983. Acesso em: 20 fev 2026.
JAYASURIYA, Tabitha. Can you be a feminist in South Korea? Investigating the compatibility of Confucianism and feminism in a Korean context. 2024. Tese (Doutorado em Antropologia) – University of Exeter, 2024. Disponível em: 10.13140/RG.2.2.33264.06408. Acesso em: 20 fev 2026.
JUNG, Gowoon; MOON, Minyoung. “I Am A Feminist, But . . .” Practicing Quiet Feminism in the Era of Everyday Backlash in South Korea. Gender & Society, v. 38, n. 2, p. 216-243. 2024. Disponível em: https://doi.org/10.1177/08912432241230557. Acesso em: 20 fev 2026.
Graduada em Relações Internacionais pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), integrante da Curadoria de Estudos Coreanos (CEÁSIA/CEA/UFPE). Se interessa por estudos de gênero, literatura asiática feminina e cultura coreana. E-mail: yasmim.kc@gmail.com
O neoconfucionismo é uma reinterpretação do confucionismo: ambos são um sistema de crenças que regem e organizam a sociedade. No que diz respeito à ligação desses sistemas, deixo as palavras de Huang (1999, p. xi) “A era Song-Ming tem sido apropriadamente referida como o maior período criativo da história da filosofia chinesa desde a dinastia Zhou (1122?–256 a.C.). Mas, ao contrário da época antiga, durante a qual o confucionismo era uma das escolas mais influentes entre as chamadas cem escolas, durante as dinastias Song e Ming, o neoconfucionismo foi a única força filosófica predominante a desafiar a influência gradualmente decrescente do budismo e, em certa medida, do taoísmo religioso”. Nesse sentido, o confucionismo e o neoconfucionismo nasceram e floresceram em momentos e dinastias chinesas diferentes. Segundo o autor, os filósofos neoconfucionistas tornaram a filosofia mais ortodoxa. Yao (2000, p. 97) afirma que “O verdadeiro valor do neoconfucionismo não reside apenas em seu ‘retorno’ ao confucionismo clássico, mas em sua transformação fundamental das doutrinas confucionistas, que permitiu aos neoconfucionistas construir um sistema doutrinário abrangente e complexo, contendo uma cosmologia evolucionista, uma ética humanista e uma epistemologia racionalista”. ↩︎
Machosfera, segundo Jung e Moon (2024, p. 220), é “um espaço onde as comunidades digitais propagam visões misóginas e rejeitam a masculinidade inclusiva”. ↩︎
As Cinco Virtudes Constantes do Confucionismo são benevolência (ren 仁), retidão (yi 義), prosperidade (li 礼), sabedoria (zhi 智) e confiabilidade (xin 信). Knapp (2009, p. 2253) ao citar Baihutong (um dos textos confucianos) diz: “Benevolência significa não suportar o sofrimento alheio, amar o próximo e auxiliar todos os seres vivos. Retidão significa agir corretamente. Significa acertar no julgamento. Propriedade significa praticar o bem, ou seja, compreender o caminho e aperfeiçoar o que é refinado. Sabedoria significa conhecimento. Significa ter uma compreensão especial e poder saber das coisas antes mesmo de ouvi-las. Significa não se confundir com as circunstâncias e discernir as sutilezas. Confiabilidade significa sinceridade. Significa não se deixar desviar de seu propósito”. Em outras palavras, para o confucionismo as Cinco Virtudes Constantes são os valores/virtudes necessários para viver uma vida moral. Vale ressaltar que o neoconfucionismo se baseia nos conceitos de “qi (originalmente significando ar, vapor, respiração e depois a força vital da vida, traduzido de várias maneiras como força material, energia primária, éter ou matéria), li (princípio ou razão), xin (o coração/mente) e xing (natureza ou natureza humana)” (Yao, 2000). ↩︎
[este ensaio contém SPOILERS para o k-drama Tempest/Polaris]
Desde o bombardeio de Hiroshima e Nagasaki em 1945, o mundo tem vivido debaixo do medo de um possível apocalipse nuclear, encabeçado pelas maiores potências do mundo ou por atores inesperados que conseguiram desbloquear o complexo processo de produção de armamentos nucleares. Muitas das tensões durante a Guerra Fria se basearam no fato de que ambos EUA e URSS eram países nucleares, e muitos acreditavam que apenas a realidade de Destruição Mútua Assegurada (ou MAD, na sigla em inglês) impedia que os diferentes polos entrassem numa guerra nuclear (Editores da Enciclopédia Britânica, 2024). Portanto, não é de se espantar que as consequências de tal conflito tenham estimulado a imaginação de diversos artistas e contadores de história no último século. Com produções de extremo sucesso como o filme Oppenheimer e a série Chernobyl, a humanidade continua a retratar suas ansiedades e expor sua curiosidade sobre as consequências da nuclearização global.
Enquanto historicamente os soviéticos/russos aparecem como antagonistas em histórias de tragédia ou de potencial nuclear, este ensaio almeja debater brevemente o papel que a República Popular Democrática da Coreia (a chamada Coreia do Norte) tem ocupado em produções mais recentes que abordam a ameaça nuclear. A Coreia do Norte retirou-se em 2003 do TNP, o Tratado da Não-Proliferação de Armas Nucleares, sendo atualmente um dos poucos países com arsenal bélico militar confirmado, e tal fato tem sido explorado por roteiristas de grandes séries televisivas.
Em Tempest/Polaris1, k-drama exibido pelo Disney+ e que estrela Jun Jihyun como a protagonista Seo Munju e Gang Dongwon como seu guarda-costas e par romântico Paik Sanho, o problema nuclear da Coreia do Norte ocupa o plano principal da narrativa. Kim Jong-un, presidente factual da Coreia do Norte, é ficcionalizado como Kim Hansang, interpretado por Uhm Taegoo, e aparece em momentos climáticos e tensos da trama como um dos principais antagonistas, ainda que frequentemente nos bastidores. Tempest/Polaris foi ao ar entre setembro e outubro de 2025, contando com 9 episódios e nota 6,7 no IMDb, sendo distribuído globalmente pela Disney, ainda que no selo Hulu, que produziu o k-drama (Polaris: Conspiração Política, 2025).
A trama segue Munju, ex-embaixadora sul-coreana na ONU, que deixa sua carreira diplomática para acompanhar a candidatura do marido, Jang Junik, à presidência da Coreia do Sul. No entanto, Junik é assassinado durante um compromisso de campanha, e Munju começa a desvelar uma trama de conspiração por detrás da morte do marido. Ela descobre que Junik iria anunciar um plano de reunificação pacífica entre o Norte e o Sul da península coreana, e que ele tinha contato direto com Anderson, dirigente estadunidense para assuntos coreanos nos EUA. Anderson, por sua vez, suspeitava que a Coreia do Norte havia vendido um submarino nuclear para Idisha, um país fictício que sofre com invasões estadunidenses e, a série sugere, está localizado em algum lugar do Oriente Médio. Através desse submarino, a Coreia do Norte estaria diretamente conectada a um futuro bombardeio nuclear em território estadunidense.
A questão da reunificação coreana é também central para o enredo do k-drama, especialmente porque Sanho, o protagonista masculino, é um desertor da Coreia do Norte que trabalha como mercenário. Sua fascinação por Munju, que defendia a proximidade entre as Coreias em seus discursos na ONU, leva-o a buscar protegê-la das tentativas de assassinato que ela sofre quando decide, ela mesma, concorrer à presidência. No meio de uma tempestade que envolve corrupção no governo sul-coreano, animosidade entre Coreia do Sul e China, adultério e dramas familiares, Munju é a responsável por conectar os pontos de uma tentativa de provocação de guerra nuclear na península coreana.
É importante ressaltar que o k-drama coloca a frágil relação entre EUA e Coreia do Sul no centro do enredo. Frágil porque, com bases militares estadunidenses instaladas em seu território, a produção aponta para o fato de que a Coreia do Sul fica à mercê dos interesses particulares e do comprometimento com a détente nuclear estadunidenses para a manutenção de sua própria segurança. Durante o enredo, o alto escalão de dirigentes dos EUA está disposto a sacrificar a Coreia do Sul se isso significar a destruição da Coreia do Norte e de seus armamentos nucleares; o k-drama retrata até um código secreto compartilhado entre as bases militares estadunidenses para a retirada de seus membros da península em caso de futuro bombardeio nuclear.
É através da atuação corajosa de Munju e Sanho que se impede um bombardeio de mísseis nucleares norte-coreanos nos EUA, que ocasionaria a eclosão de uma guerra de proporções mundiais. Arquitetado por uma traficante de armas e espiã que almejava ganhar muito dinheiro com o início de uma guerra violenta, a grande vilã secreta do k-drama é derrotada pelos dois protagonistas e o bombardeio é impedido em conjunto com os líderes fictícios da Coreia do Norte e de Idisha, que fornecem os códigos necessários para cancelar o disparo das ogivas.
O que Tempest/Polaris demonstra é que a Coreia do Sul ainda é uma sociedade marcada de forma singular pela ansiedade nuclear e pela desconfiança de sua irmã nortenha. No entanto, o k-drama não retrata os norte-coreanos como vilões cartunescos, muito pelo contrário: a narrativa aponta para as similaridades entre os países, especialmente no que toca seus relacionamentos conturbados com os EUA. É somente com a colaboração norte-coreana que Munju consegue desarmar as bombas nucleares que estavam direcionadas para os EUA. Munju é uma figura polêmica por conta de sua posição favorável à reunificação coreana, e ela é conhecida por todo país por sua atuação na ONU, falando a favor da paz e contra os conflitos nucleares.
Dessa maneira, Tempest/Polaris procura demonstrar como é complexa a posição sul-coreana em sua localização geopolítica. O k-drama é certeiro ao evidenciar como é desigual o relacionamento entre Coreia do Sul e EUA, demonstrando como os interesses estadunidenses podem comprometer a segurança sul-coreana e destruir quaisquer laços de solidariedade que existam entre ela e a sua irmã do norte. A posição crítica em relação aos EUA não é óbvia para um país que ainda depende não apenas do poderio militar estadunidense como também de laços econômicos com a potência norte-americana. As exportações da Coreia do Sul para os EUA têm apenas crescido, e a ameaça do Presidente Trump de taxá-las em 25% no início de 2025 preocupou profundamente autoridades sul-coreanas (PODER360, 2025).
Além disso, tendo como ponto central o poderio nuclear norte-coreano, Tempest/Polaris retrata como a paranoia nuclear pode cegar dirigentes, levando-os à corrupção (acusando falsamente cidadãos de espionagem, por exemplo) ou a medidas incrivelmente drásticas. O k-drama retrata como a ansiedade nuclear ainda orienta muito das decisões políticas tomadas pela Coreia do Sul e também ao entorno dela, por Coreia do Norte, China e EUA, demonstrando que essa questão ainda é extremamente atual. O problema das armas nucleares não ficou no século XX, com os retratos caricatos de soviéticos em filmes de espionagem. Pelo contrário, a Coreia do Norte, por ser considerada um ator imprevisível, ainda causa extrema desconfiança em dirigentes pelo mundo todo.
A solução apontada pelo k-drama é uma que certamente é considerada utópica por muitos: a reunificação pacífica da península coreana. Apesar das críticas empreendidas tanto ao governo sul-coreano quanto ao estadunidense, o k-drama entende que é apenas com um convívio unificado e transparente que haverá paz duradoura na península. Mas o k-drama não hesita em apontar as dificuldades que tal empreendimento enfrenta, tanto dentro da própria Coreia do Sul, quanto pelos EUA, que têm interesse em manter seu posicionamento na região.
Tempest/Polaris se aproveita da base cultural compartilhada da ansiedade nuclear para construir um enredo tenso, politicamente complexo. Colocando a Coreia do Sul como protagonista, o enredo explora de forma bem sucedida o que a ameaça nuclear norte-coreana significa para a península, redirecionando o foco de tal tipo de narrativa, que geralmente é centrada nas consequências para Europa e EUA.
Doutora em Relações Internacionais pela PUC-Rio, e pesquisadora associada da Curadoria de Estudos Coreanos (CEA/UFPE) e do Laboratório Cultpop (CNPq/UFF). Sua tese de doutorado procurou entender como fandoms de k-pop são lugares de formação política e por isso mesmo ela está sempre hiperanalisando peças de cultura pop.
O k-drama é exibido no Brasil com o título Polaris, mas internacionalmente é conhecido como Tempest, por isso a opção pela barra. ↩︎
por Guilherme Henrique Ferreira Povoa e Maria Clara Lima Abrão
Imagem: Estátua de uma pessoa consolando outra na Ponte Mapo (마포대교), no Rio Han, ponte com o maior registro de tentativas de suicídio em Seul. Fonte: https://www.ilpost.it/2013/01/12/dimentica-tutto/skorea-society-suicide-5/
Frequentemente celebrada pela capacidade tecnológica, índices de desenvolvimento e influência cultural global, a Coreia do Sul exporta uma narrativa de Estado bem-sucedida, mascarando diversas rupturas sociais alarmantes, muitas vezes agravadas por essa própria narrativa. Dentre as fraturas, destacam-se os altos e alarmantes índices de suicídio e as diversas tentativas de compreender quais as motivações e relações entre esses e a sociedade moderna sul-coreana: fatores econômicos, filosóficos, midiáticos e sistêmicos.
A cada quarenta minutos, falece uma pessoa na Coreia do Sul, país no qual o suicídio é a quinta causa de morte mais comum entre todas as idades, o que o torna uma epidemia a ser combatida (Raschke et al., 2022). Neste sentido, quando ponderado demograficamente, nota-se um aumento no número de suicídios entre crianças e adolescentes, o qual se relaciona com pressão acadêmica, bullying, cyberbullying, coberturas midiáticas inadequadas de outros casos de suicídioe quadros precários de saúde mental, simultâneo ao crescimento alarmante no índice de suicídio entre idosos, majoritariamente em áreas rurais, associado ao desamparo financeiro e familiar (Lee, 2023).
Historicamente, a Crise Econômica Asiática de 1997 marca o aumento expressivo da quantidade de suicídios no país — cujos índices são os maiores entre os membros da OCDE (Paik, 2025) —, sobretudo entre os anos de 2009 a 2011 (Staudt, 2025), quintuplicando o índice anual. Esse período na Coreia do Sul foi marcado por instabilidade financeira, desemprego e baixa renda, fatores diretamente relacionados a tentativas de suicídio (Raschke et al., 2022). A percepção do cenário econômico, para além da situação profissional e financeira, pode ser diretamente associada à depressão (Barrass et al., 2024, p. 12); a relação também ocorre, em crescimento linear, quando pensadas as tentativas de suicídio, devido ao aumento de custo de planos de saúde, entre outros (Lee et al., 2025)
Neste contexto, diversos elementos influenciam as altas taxas de suicídio, para além de fatores socioeconômicos, como o Confucionismo, filosofia enraizada na Ásia, em que “o fracasso não é tolerado e as pessoas hesitam em falar sobre erros ou problemas de saúde mental, todos os quais são considerados uma fraqueza”1 (Rashid, 2023a; Saeji et al., 2018 apud Staudt, 2025, p. 27, tradução nossa). Outrossim, a falta de escandalização ou a aquiescência perante o suicídio é herança, não somente da sabedoria confucionista, mas da própria história asiática, em que a morte preserva a honra em um contexto que valoriza a ideia de legado individual e familiar (Im; Park; Ratcliff, 2018).
A cobertura inadequada e/ou sensacionalista da mídia é, idem, um fator que contribui para a elevação dos índices, levando comumente a comportamentos em massa nas redes sociais (como hate trains). Sobretudo, influenciam pela natureza contagiante do suicídio — ou pelo Efeito Werther2 —, exemplificado por coberturas de famosos, como o ex-presidente da República (2003–2008), Roh Moo-hyun (1946–2009), cuja exposição, especulação e publicização foram excessivas, com mais de 26 mil reportagens on-line até 2020 (Ha; Yang, 2021). Segundo Ha e Yang (2021), como efeito de coberturas midiáticas, os índices de suicídio já apresentam elevações de 16,4% ao primeiro dia de exposição, influenciando, inclusive, o método escolhido (comumente similar ao televisionado).
Outros elementos que impactam profundamente na qualidade de vida consistem no deslocamento entre valores e moralidades tradicionais, como o hyo, em contraste à modernidade “comprimida”, dinâmica e, basicamente, neoliberal e capitalista, afetando sobretudo a população idosa. O hyo (em hangul 효), é comumente traduzido como “piedade filial” e é um dos pilares da filosofia Confuciana, embora não tenha surgido com Confúcio a ideia de assistência, cuidado aos mais velhos e respeito profundo aos ancestrais (Wang; Tian, 2023); tal valor faz-se presente inclusive em folclores coreanos antigos prévios a Confúcio, como em “História de Shim-Jong” (Ilin, 2023). Neste sentido, o dado valor fora associado à noção de “boa pessoa” e integrou a cultura e as normas sociais por gerações, não se tratando somente de uma crença, mas de uma virtude arraigada, por ser a base de todas as outras virtudes segundo Confúcio (Wang; Tian, 2023). Hyo envolve, portanto, lealdade, justiça, honra, misericórdia, respeito, educação, obediência e provento material, entre outros. Neste contexto, todavia, nota-se, com a ascensão do neoliberalismo desde os anos 1990 — e da criação de “classes inseguras” devido à precarização, queda na qualidade de vida, exploração da classe trabalhadora e perda de segurança social —, o enfraquecimento do hyo, não somente pela impossibilidade do provento material e assistência financeira dos filhos aos pais, mas pela falta de preparo e proteção social diante do envelhecimento acelerado da população, denotando a perda de importância, piedade, justiça e, sobretudo, respeito aos idosos (Staudt, 2025).
Ao analisar os elementos que influenciam o alto índice estrutural de suicídio, uma vez que perdura há décadas, percebe-se que tais fatalidades escancaram que os supostos fama, sucesso e admiração pública, utilizados na narrativa sul-coreana bem-sucedida exportada a todo vapor, não possuem força frente a uma estrutura que nega espaço para a vulnerabilidade, reforça a exploração do trabalhador, produz choques culturais entre filosofias tradicionais e a lógica neoliberal e reverbera todas as falhas, erros e falecimentos em suas mídias. Todos esses elementos produzem a desumanização do ser e reforçam a importância de pautar os altos índices de suicídio na Coreia do Sul, não somente a fim de contrastar com a narrativa de sucesso exportada e em voga domesticamente, mas com o intuito de alertar àqueles que a consomem candidamente e acreditam de forma convicta se tratar de um país paradisíaco sem fissuras sociais.
REFERÊNCIAS
BARRASS, Lucy et al. The association between socioeconomic position and depression or suicidal ideation in low and middle-income countries in Southeast Asia:a systematic review and meta-analysis. BMC Public Health, n. 24, p. 3507, 2024.
HA, Jeongmin; YANG, Hee-Seung. The Werther effect of celebrity suicides: Evidence from South Korea. PLoS ONE, v. 16, n. 4, 2021.
ILIN, Mykhailo. Filial Piety in Korean Cultural Tradition. SJ Academy, abr. 2023. Disponível em: https://sj.academy/2023/04/29/shanoblyvist-u-korejskij-kulturnij-tradycziyi/. Acesso em 13 out. 2025
IM, Jeong Soo; PARK, B. C. Ben; RATCLIFF, Kathryn Strother.Cultural Stigma Manifested in Official Suicide Death in South Korea. OMEGA – Journal of Death and Dying, v. 77, n. 4, 2018.
LEE, Yuri. Suicide Trends and Responses in Korea. In:Korean Social Trends.Statistics Korea Research Institute (KOSTAT), 2023.
METELSKI, Giuliano et al.O efeito Werther e sua relação com taxas de tentativas de suicídio: uma revisão narrativa. Research, Society and Development, v. 11, n.10, e267111032630, 2022.
PAIK, Rocio. Por que a Coreia do Sul se tornou a República do Suicídio. Opera Mundi – Especial, 2023. Disponível em: https://operamundi.uol.com.br/especial/por-que-a-coreia-do-sul-se-tornou-a-republica-do-suicidio/. Acesso em: 5 ago. 2025.
RASCHKE, Nicolas et al. Socioeconomic factors associated with suicidal behaviors in South Korea:systematic review on the current state of evidence. BMC Public Health, n. 22, art. 129, 2022. DOI: https://doi.org/10.1186/s12889-022-12498-1
STAUDT, Eileen. South Korea, Competitiveness and Suicides: A Global Political Economy Study of South Korea’s “Suicide Crisis”. University Helsinki, 2025.
WANG, Xueyin; TIAN, Xiaolei.Teaching with Filial Piety:A Study of The Filial Piety Throught of Confucionism. Trans/Form/Ação, Marília, v. 46, n. 4, p. 287-302, 2023.
SOBRE OS AUTORES
Guilherme Henrique Ferreira Povoa
Graduando em Relações Internacionais pela Universidade Federal de Uberlândia, integrante da Curadoria de Estudos Coreanos (CEÁSIA/CEA/UFPE). Possui interesse em Estudos Asiáticos com ênfase em Coreias, Segurança Internacional, Política Externa e Comércio Exterior. E-mail: guilhermeferreiradesouza135@gmail.com
Maria Clara Lima Abrão
Graduanda em Relações Internacionais pela Universidade Federal de Uberlândia, integrante da Curadoria de Estudos Coreanos (CEÁSIA/CEA/UFPE) e do Núcleo de Pesquisa em Segurança Internacional e Estudos Estratégicos (NUPSIEE-UFU). Se interessa por Estudos Asiáticos com ênfase em Coreias, Segurança Internacional, cultura e identidade. E-mail: mcl.abrao@gmail.com
No original: “failure is not tolerated and that people are hesitant to talk about mistakes or mental health issues, all of which are considered a weakness” (Rashid, 2023a; Saeji et al., 2018 apud Staudt, 2025, p. 27). ↩︎
Efeito Werther ou efeito manada é uma terminologia utilizada para o aumento de taxas de suicídio após a divulgação ampla de suicídios de celebridades e/ou personalidades midiáticas. O termo advém do protagonista da obra de Goethe, “Os sofrimentos do jovem Werther”, e levou a uma onda de suicídios na Europa após o lançamento do livro (Metelski et al, 2022). ↩︎