Em encontro com a presença do presidente Lee Jae-myung, o Ministro da Defesa Ahn Gyu-back afirmou que “a Coreia do Sul será capaz de desenvolver e construir submarinos nucleares e a própria tecnologia de lançamento de mísseis até metade dos anos de 2030”, marcando o que pode ser classificado como uma nova era na defesa sul-coreana. O sinal de confirmação para a iniciativa veio do aval concedido pelo governo dos Estados Unidos em novembro de 2025, quando o presidente Donald Trump aprovou um tratado comercial e securitário que deixava abertura para a Coreia do Sul iniciar os processos de construção dos submarinos, reprocessamento de combustível e enriquecimento de urânio. Mas, diante do cenário positivo estabelecido, quais são as consequências práticas das decisões? Quais os impactos da medida no processo de desnuclearização da península e nas relações intercoreanas?
A iniciativa de nuclearização da Coreia do Sul não é um projeto novo. Durante a década de 1970, com a administração de Park Chung-hee temendo o desenvolvimento nuclear do Norte, o governo sul-coreano tentou iniciar um programa voltado ao desenvolvimento de uma indústria nuclear mais autônoma em parceria com a França. O projeto, contudo, foi suprimido por pressão dos EUA, que condicionaram sua política de segurança à adesão da Coreia do Sul ao Tratado de Não Proliferação Nuclear (TNP) e à sua incorporação ao guarda-chuva de proteção nuclear estadunidense. A adesão da Coreia do Sul à proteção dos EUA ocasionou uma dificuldade em estabelecer maior autonomia do país frente às suas políticas nucleares e um silenciamento da questão ao longo dos anos.
Contudo, com o desenvolvimento do programa nuclear da Coreia do Norte ao longo dos anos 2000 e com as prioridades estratégicas estadunidenses voltando-se para o Oriente Médio, a Coreia do Sul via-se diante da necessidade de ampliar sua autonomia e assumir maior protagonismo na definição de sua própria segurança, sobretudo nas temáticas nucleares. É nesse contexto que se intensificaram os esforços de lobby junto aos EUA, em uma busca por maior flexibilização das restrições ao desenvolvimento de tecnologias estratégicas consideradas essenciais para ampliar sua capacidade de dissuasão diante da Coreia do Norte e dos desafios impostos pela questão nuclear. Assim como ocorreu no debate sobre a transferência do Controle Operacional em Tempo de Guerra (OPCON) para Seul, lideranças de diferentes espectros políticos empenharam-se ao longo dos anos para manter essas negociações em andamento, garantindo canais abertos para a reavaliação de uma política de defesa menos tutelada pelos EUA.
Embora os esforços tenham se voltado principalmente para o desenvolvimento da propulsão nuclear de submarinos — enquanto a produção de mísseis nucleares permanecia pouco explorada devido às circunstâncias regionais —, foi apenas em 2021 que as demandas de Seul passaram a obter resultados concretos. O relacionamento com o ex-presidente dos EUA, Joe Biden, garantiu a assinatura da Declaração de Washington, que estabeleceu um comitê de planejamento nuclear conjunto, o Grupo Consultivo Nuclear (NCG) e o envio periódico de submarinos nucleares estadunidenses à península coreana. Mesmo com a renovação do comprometimento da Coreia do Sul com o TNP na declaração e a permanência dos EUA como base das políticas de segurança sul-coreanas, o acordo destacava a eliminação de restrições impostas ao desenvolvimento de mísseis sul-coreanos e o retorno das negociações para a transferência da OPCON para a administração da Coreia do Sul. As iniciativas de maior autonomia da Coreia do Sul frente aos EUA pareciam finalmente ter dado frutos e a independência securitária da Coreia do Sul parecia garantida, com o avanço nos diálogos para a transferência do OPCON, a Coreia do Sul se via confiante para buscar o apoio para o desenvolvimento de tecnologias nucleares.
O aval de Trump para o desenvolvimento de submarinos de propulsão nuclear pela Coreia do Sul parece constituir um movimento relativamente orgânico e, em certa medida, esperado tanto por lideranças sul-coreanas quanto estadunidenses, surgindo como consequência de um esforço contínuo de Seul para consolidar e ampliar sua autonomia estratégica. Em um cenário internacional cada vez mais complexo para a liderança sistêmica dos EUA, a Coreia do Sul vê uma oportunidade de finalmente se consolidar como protagonista e responder a seus próprios anseios em relação à Coreia do Norte.
O movimento de buscar mais autonomia em temáticas de segurança por meio do uso da energia nuclear, contudo, também apresenta implicações significativas, especialmente sob a ótica das relações intercoreanas e das dinâmicas de segurança regional. A adoção de políticas mais hostis em relação ao Norte durante o governo de Yoon Suk Yeol, somada ao progressivo afastamento da Coreia do Norte dos mecanismos de diálogo intercoreano — incluindo as discussões sobre reunificação, cada vez menos presentes nas iniciativas e narrativas norte-coreanas —, contribui para um ambiente de crescente desconfiança entre os dois países. Neste contexto, o desenvolvimento de tecnologias nucleares para fins militares pela Coreia do Sul pode ser interpretado por Pyongyang como uma medida hostil. O distanciamento da Coreia do Sul em relação ao Norte, não apenas manifestado nas políticas governamentais diretas, mas também em transformações do próprio cenário político doméstico sul-coreano que têm favorecido a disseminação de narrativas que impulsionam o confronto com o Norte, soma-se ao debate sobre o desenvolvimento nuclear e pode reforçar a percepção norte-coreana de que tais iniciativas constituem uma provocação direta ao país vizinho.
Ademais, há ainda o risco de legitimação da manutenção e do fortalecimento do programa nuclear norte-coreano, uma vez que a consolidação da Coreia do Sul como uma potencial ameaça nuclear concreta, ainda que amparada por sua aliança com os EUA, pode ser utilizada pela Coreia do Norte para justificar a continuidade de sua própria estratégia nuclear. Esse cenário contribui para a perpetuação de uma península cada vez mais nuclearizada, reduzindo as perspectivas de acordos duradouros voltados à desnuclearização efetiva da região e à resolução definitiva das questões remanescentes da Guerra da Coreia.
A relação com os demais países na região e a balança de poder local também é um dos pontos a serem considerados em consequências diretas do desenvolvimento nuclear da Coreia do Sul. Com a perspectiva de uma península desnuclearizada tornando-se cada vez mais distante, as relações com a China — que projeta seu poder na região e mantém vínculos estratégicos com a Coreia do Norte como forma de preservar um equilíbrio de poder regional — e com o Japão — que também se insere no grupo de países potencialmente ameaçados por essa conjuntura e que pode passar a considerar o desenvolvimento autônomo de capacidades nucleares como instrumento de garantia de sua posição estratégica — tendem a tornar-se mais tensas e marcadas pela insegurança.
O cenário, ainda que positivo para a Coreia do Sul no curto prazo, mostra-se incerto e pouco promissor para a região. A paz e a desnuclearização da península parecem, agora, cada vez mais distantes, sendo gradualmente substituídas por projetos de segurança orientados para respostas de curto prazo.
Referências
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SINGH, Lakhvinder. S Korea’s nuclear sub made in USA: It’s complicated. Asia Times, 5 nov. 2025. Disponível em: https://asiatimes.com/2025/11/us-based-construction-of-south-koreas-n-sub-its-complicated/. Acesso em: 6 maio. 2026.
ROEHRIG, Terence. The U.S. Nuclear Umbrella over South Korea: Nuclear Weapons and Extended Deterrence. Political Science Quarterly, [S. l.], v. 132, n. 4, p. 651–684, Winter 2017. DOI: 10.1002/polq.12702. Disponível em: https://doi.org/10.1002/polq.12702. Acesso em: 3 jun. 2026.
AFP. South Korea Says It Will Build Nuclear-Powered Submarines at Home. The Defense Post, 26 maio 2026. Disponível em: https://thedefensepost.com/2026/05/26/south-korea-nuclear-powered-submarines-plan/. Acesso em: 5 jun. 2026.
Sobre a autora
Thaisa da Silva Viana
Doutoranda e Mestre em Relações Internacionais pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Especialista em Direito Internacional pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC-Minas). Pesquisadora do LabÁSIA (UERJ), no DataMundi (UERJ) e no LETA – Laboratório de Estudos Transasiáticos, da Universidade Federal do Espírito Santo. Integrante da Curadoria de Estudos Coreanos (CEÁSIA/CEA/UFPE).
A nona eleição local para a escolha de governadores e prefeitos das 17 administrações governamentais na Coreia do Sul foi realizada no dia 3 de junho de 2026. Na eleição, são escolhidos governantes para uma Cidade Especial 一 sendo a capital do país Seul 一, cidades metropolitanas, uma cidade autônoma especial (Sejong), oito províncias e duas províncias autônomas especiais. Com a fusão da administração da província de Jeolla do Sul e de Gwangju a partir de 1 de julho de 2026, agora ficam resumidas as escolhas para apenas 16 regiões administrativas.
Os resultados favoráveis ao Partido Democrático da Coreia (DPK), legenda do atual presidente Lee Jae-myung, que conquistou 12 das 16 administrações locais em disputa, mostraram-se relativamente tímidos frente à reeleição do prefeito de Seul, Oh Se-hoon, representante do conservador Partido do Poder Popular (PPP). A manutenção do controle sobre Seul, principal centro político, econômico e demográfico do país, sugere a permanência dos partidos ultraconservadores e de suas capacidades de mobilização eleitoral, apesar dos desgastes após a crise política que culminou no impeachment do ex-presidente Yoon Suk Yeol.
As falas do presidente do DPK mostram preocupação do governo frente à derrota simbólica. Jung Chung-rae, ainda que reconhecendo a vitória do DPK em números com a retomada de todas as regiões anteriormente administradas pelo PPP, inclusive em redutos historicamente mais conservadores como Busan, afirma que “o partido democrata falhou em retomar Seul”, reconhecendo a importância da vitória do PPP na região. Oh Se-hoon, por sua vez, adotou um discurso de vitória mais moderado, afirmando que “os princípios democráticos foram checados e balanceados”, em uma clara tentativa de se desvincular das narrativas antidemocráticas associadas ao histórico de seu partido.
Para além da divisão política nas urnas nos seus resultados, as eleições também foram marcadas por mobilizações e protestos populares. Em maio de 2026, um mês antes das eleições, protestos favoráveis e contrários à rede de cafeterias Starbucks ocuparam as ruas de Seul e dominaram o debate público. Na ocasião, o lançamento do “Tank Day” — campanha promocional em que a franquia oferece cafés em tamanhos maiores — coincidiu com o aniversário do Massacre de Gwangju, ocorrido em 18 de maio de 1980. Além disso, a campanha utilizou um slogan que remetia a um dos episódios de tortura mais emblemáticos da Coreia do Sul durante o período ditatorial da década de 1980. A controvérsia provocou uma forte polarização social entre grupos críticos à ditadura e demais formas de revisionismo histórico e setores mais conservadores, que chegaram a compartilhar montagens do ex-ditador sul-coreano Chun Doo-hwan em apoio à franquia de café.
Além do episódio, a escassez de cédulas eleitorais em algumas zonas de votação em Seul ocasionou protestos de mais de 35 horas no local. O presidente Lee e os dois principais partidos políticos na disputa eleitoral exigiram a apuração de responsabilidades e garantiram para a população a transparência e funcionalidade dos processos eleitorais. Apesar do esforço das autoridades, o movimento não garantiu o apaziguamento de parte dos protestantes que pediam a retirada do chefe da comissão nacional eleitoral. Em mobilizações nas redes sociais, sobretudo no YouTube, o discurso de fraude eleitoral e a convocação de novas eleições se multiplicam e colocam a democracia sul-coreana mais uma vez em destaque.
Os dois episódios são relevantes na medida em que permitem observar o atual cenário político da Coreia do Sul em âmbito social, exemplificando como a mobilização da extrema direita se perpetua no país e vem se reorganizando diante do desgaste político provocado pela tentativa de golpe de 3 de dezembro de 2024. As estratégias de mobilização e recrutamento on-line, os protestos, a associação com pautas da extrema direita estadunidense e a desconfiança em relação aos processos eleitorais parecem ter transformado a política sul-coreana, tornando-se elementos organicamente integrados ao ethos político do país.
Referências
HANKOOK ILBO. Far-right Koreans rally around Starbucks, use AI-generated dictator to promote coffee chain. The Korea Times, Seoul, 21 maio 2026. Disponível em:https://www.koreatimes.co.kr/southkorea/others/20260521/far-right-koreans-rally-around-starbucks-use-ai-generated-dictator-to-promote-coffee-chain. Acesso em: 6 jun. 2026.
RASHID, Raphael. How a Starbucks marketing stunt spiralled into mass boycotts in South Korea. The Guardian, London, 6 jun. 2026. Disponível em: https://www.theguardian.com/world/2026/jun/06/starbucks-south-korea-tank-day-promotion-blunder. Acesso em: 6 jun. 2026.
SHIM, Kyu-seok; LEE, Joyce. South Korea Lee’s ruling party sweeps local elections, but loses Seoul mayor race. Reuters, Seul, 3 jun. 2026. Disponível em: https://www.reuters.com/world/asia-pacific/south-korea-ruling-party-sweeps-most-seats-local-elections-faces-losing-seoul-2026-06-03/. Acesso em: 6 jun. 2026.
Sobre a autora
Thaisa da Silva Viana
Doutoranda e Mestre em Relações Internacionais pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Especialista em Direito Internacional pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC-Minas). Pesquisadora do LabÁSIA (UERJ), no DataMundi (UERJ) e no LETA – Laboratório de Estudos Transasiáticos, da Universidade Federal do Espírito Santo. Integrante da Curadoria de Estudos Coreanos (CEÁSIA/CEA/UFPE).
O diretor sul-coreano Park Chan-wook estreou na indústria cinematográfica, em 1992, com o filme Daleun…haega kkuneun kkum (The Moon Is…the Sun’s Dream). Suas primeiras obras não atingiram um grande alcance, sendo frequentemente deixadas de lado quando comparadas com o filme Oldboy (2003), o grande sucesso de Chan-wook, que caiu nas graças do público internacional e abriu portas para que o cinema sul-coreano conquistasse a atenção e o espaço que viriam a alcançar posteriormente (Nayak, 2026)
O longa-metragem introduziu a grande parte do público os pilares que constituem a filmografia de Park Chan-wook: thrillers, violência e humor ácido. Posteriormente, a famosa trilogia da vingança, composta por Sympathy for Mr. Vengeance, Oldboy e Lady Vengeance, se estabeleceu como uma das grandes referências do cinema, galgando ao diretor prestígio e reconhecimento.
O diretor de cinema Park Chan-wook é sinônimo do ‘cinema sul-coreano moderno’. Apesar de seus sucessos de bilheteria, de sua legião de fãs cult e do reconhecimento da crítica, Park é assombrado pelas mesmas questões que atormentam os personagens de seus filmes: a ilusão da liberdade, o custo oculto dessa liberdade e a inquietante pergunta sobre se vale a pena persegui-la (Kim, 2026, tradução nossa).
Nos anos posteriores, o diretor envolveu-se em mais produções, agora voltadas para o público internacional, dirigindo obras como Stoker (2013). No entanto, Chan-wook não se distanciou de sua assinatura tão apreciada, alcançando a aclamação do público novamente, dessa vez com a obra The Handmaiden (2016). O cineasta representou o início de uma nova etapa para a indústria cinematográfica sul-coreana. Com a introdução de um jeito alternativo de fazer cinema, com novas tramas profundas, através da sua filmografia, ele deu espaço para que outras produções tivessem a oportunidade de adentrar nas residências de um ocidente marcado por um padrão de consumo estabilizado — uma tarefa, por si só, árdua.
O sucesso foi tão notável que fez o jornal estadunidense The New York Times cunhar, em 2017, Chan-wook como “the Man Who Put Korean Cinema on the Map”, que, em tradução livre, pode ser entendido como “o homem que colocou o cinema coreano no mapa”, exemplificando o papel que o diretor exerceu na promoção das obras sul-coreanas para o mundo ocidental.
Em 2025, o diretor retornou às grandes telas com No Other Choice, uma adaptação do romance The Ax de Donald E. Westlake. O filme rapidamente foi aclamado pela crítica e pelo público por sua direção inventiva e característica, provando mais uma vez a capacidade de Park Chan-wook de contar histórias multifacetadas, repletas de nuances e que transitam entre diferentes gêneros cinematográficos.
Assim, mais de três décadas após sua estreia como diretor, Park Chan-wook demonstra que o seu estilo de fazer cinema não ficou ultrapassado. Pelo contrário, ainda permanece bastante atual e justifica os status do diretor como uma das principais referências do cinema sul-coreano e figura central na projeção internacional dessa indústria.
Referências
CHEE, Alexander. Park Chan-wook, the Man Who Put Korean Cinema on the Map. The New York Times, 2017. Disponível em: https://www.nytimes.com/2017/10/16/t-magazine/park-chan-wook.html. Acesso em: 26 jul. 2026.
BURT, Kayti. Park Chan-wook on the Long Journey to No Other Choice. Time, 2025. Disponível em: https://time.com/7333848/park-chan-wook-no-other-choice/. Acesso em: 26 jul. 2026.
KIM, Soy. Park Chan-wook: The Master of Dark Irony. Hypebeast, 2026. Disponível em: https://hypebeast.com/2026/1/park-chan-wook-no-other-choice-digital-cover-story. Acesso em: 26 jul. 2026.
Graduado em Relações Internacionais pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), integrante da Curadoria de Estudos Coreanos (CEÁSIA/CEA/UFPE). Se interessa por Economia Política Internacional e a Teoria do Sistema-Mundo com ênfase para a região da Ásia-Pacífico.
No dia 10 de junho de 2026, ocorreu uma reunião estratégica entre a União Europeia e a República da Coreia contando com a presença de representantes de ambos os lados. Dentre eles, o presidente sul-coreano, Lee Jae Myung, o presidente do Conselho Europeu, António Costa, e a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, que condenaram fortemente a cooperação militar entre a Coreia do Norte e a Rússia, classificando-a como ilegal e um dos principais fatores que têm possibilitado a continuidade da guerra em território ucraniano.
Embora a União Europeia e a Coreia do Sul tenham classificado a cooperação como ilegal, a legalidade dessa cooperação possui interpretações contrastantes. A assistência militar entre Estados constitui uma prática recorrente no sistema internacional e ocorre em diferentes conflitos contemporâneos, ainda que a cooperação entre Rússia e Coreia do Norte seja frequentemente analisada a partir das sanções impostas pelo Conselho de Segurança das Nações Unidas.
As primeiras suposições sobre a participação norte-coreana no conflito entre Rússia e Ucrânia começaram a circular no final de 2024, quando agências de comunicação ligadas a Seul passaram a noticiar o deslocamento de tropas do Norte para a zona de conflito no leste europeu em apoio a um dos principais aliados de Kim Jong Un, a Rússia de Vladimir Putin.
Em um primeiro momento, houve um conflito de informações a respeito da veracidade dessa participação direta no conflito. Mas em abril de 2025, a Agência Estatal da Coreia do Norte (KCNA) confirmou oficialmente a presença de contingentes militares em território russo na região de Kursk, que faz fronteira com a Ucrânia e foi alvo de um importante episódio do conflito, quando tropas ucranianas avançaram pela primeira vez sobre o território russo em uma escala significativa, marcando uma nova etapa da guerra.
Conforme informado pelo jornal Le Monde, em 28 de abril, a Comissão Militar Central do Partido dos Trabalhadores da Coreia confirmou através da KCNA que forças coreanas “participaram nas operações pela libertação de áreas de Kursk”, utilizando como base o acordo de defesa mútua entre Coreia do Norte e Rússia.
O tratado de defesa mútua foi assinado pelos dois países em junho de 2024, entrando em vigor em dezembro do mesmo ano, e prevê o fornecimento imediato de assistência militar um ao outro, usando “todos os meios” necessários caso sofram alguma agressão.
Devido à falta de dados oficiais, ainda é incerto quantificar com exatidão os números referentes à participação militar norte-coreana. Porém, de acordo com o The Guardian, a Coreia do Norte enviou cerca de 14.000 militares para apoiar a Rússia no conflito contra a Ucrânia. Ademais, o número de baixas atualmente estaria em torno de 6.000.
No entanto, vale destacar a investigação realizada pelo canal BBC e divulgada em maio de 2026, que utilizando imagens de satélite e fotos oficiais do novo memorial em homenagem aos soldados que morreram no conflito, inaugurado em abril em Pyongyang, aponta para um número de cerca de 2.300 baixas, menos da metade das mortes divulgadas por outros meios ocidentais, o que demonstra um desencontro de dados e abre espaço para questionamentos a respeito do número exato de baixas.
Segundo o The Guardian, a cooperação entre Rússia e Coreia do Norte vai além de contingentes militares. Pyongyang também forneceu milhões de projéteis de artilharia e um grande número de mísseis balísticos de curto alcance para a Rússia. Além disso, de acordo com a inteligência da Coreia do Sul, o país recebe em troca assistência tecnológica nos âmbitos econômico e militar de Moscou.
Essa aproximação entre os dois países cresce em um cenário em que ambos enfrentam sanções econômicas impostas pelos Estados Unidos e seus aliados. As sanções funcionam como uma maneira de pressão contra esses países, marcados por regimes que não seguem o modelo vigente de democracia liberal, característico do mundo pós-Guerra Fria.
Desde 2017, a Coreia do Norte vem enfrentando o endurecimento das sanções econômicas, principalmente como uma resposta ao desenvolvimento do seu programa nuclear. Apesar de alguns momentos de estreitamento nas relações com os Estados Unidos e a Coreia do Sul, as sanções permaneceram e não há uma previsão de mitigação.
Já a Rússia lida com a constante aplicação de sanções desde 2022, quando o conflito com a Ucrânia atingiu um novo ápice. Apesar de já sofrer com represálias desde 2014, quando anexou a região da Crimeia. No mês de junho de 2026, a União Europeia anunciou o 21º pacote de sanções contra a economia russa, sinalizando uma tendência de permanência de aplicação de sanções enquanto o conflito perdura sem um vislumbre de encerramento.
Desta forma, a declaração em conjunto realizada pelas lideranças da Coreia do Sul e da União Europeia, condenando a cooperação entre Coreia do Norte e Rússia, utiliza dois argumentos principais: a ilegalidade da cooperação e o fator da continuidade da guerra na Ucrânia.
Portanto, o isolamento econômico proporcionado pelas sanções econômicas que ambos os países enfrentam é um grande estímulo ao fortalecimento de parcerias alternativas. Assim, essa aproximação tende a crescer conforme o endurecimento das sanções, principalmente quando um dos países tem a capacidade de contornar em certo grau as dificuldades proporcionadas pelas represálias, como é o caso da Rússia.
Por outro lado, o caráter ilegal da cooperação não é uma certeza absoluta, tendo em vista que o auxílio em conjunto no esforço de guerra é uma prática bastante comum no sistema internacional, como no caso da própria Guerra da Ucrânia, na qual os países membros da OTAN cooperam financeiramente, com auxílio tecnológico e material bélico. Desta forma, a imputação desse rótulo por parte das representações sul-coreanas e europeias objetiva justificar sanções e outras represálias à Coreia do Norte como uma resposta à aproximação com a Rússia.
Referências
A OTAN está considerando um pacote de ajuda de 70 bilhões de euros para a Ucrânia. Vietnam.vn, 9 jun. 2026. Disponível em: https://www.vietnam.vn/pt/nato-can-nhac-goi-vien-tro-70-ty-euro-cho-ukraine. Acesso em: 10 jun. 2026.
ACORDO de defesa mútua entre Rússia e Coreia do Norte que prevê ‘assistência militar imediata’ em caso de guerra entra em vigor; veja. g1, 5 dez. 2024. Disponível em: https://g1.globo.com/mundo/noticia/2024/12/05/acordo-de-defesa-mutua-entre-russia-e-coreia-do-norte-entra-em-vigor.ghtml. Acesso em: 10 jun. 2026.
CHEON, Soram; ADZKIA, Aghnia. Thousands of North Koreans fought for Russia. A memorial hints at the death toll. BBC, 7 mai. 2026. Disponível em: https://www.bbc.com/news/articles/clypr5985ejo. Acesso em: 10 jun. 2026.
KIM praises North Korean soldiers who blew themselves up to evade Ukraine capture. The Guardian, 29 abr. 2026. Disponível em: https://www.theguardian.com/world/2026/apr/29/kim-north-korea-soldiers-blow-themselves-up-ukraine. Acesso em: 10 jun. 2026.
NORTH Korea ratifies landmark mutual defence treaty with Russia. Al Jazeera, 28 mai. 2025. Disponível em: https://www.aljazeera.com/news/2024/11/12/north-korea-ratifies-landmark-mutual-defence-treaty-with-russia. Acesso em: 10 jun. 2026.
PAIK, Rocio. Coreia do Norte vive ‘sucesso econômico’ apesar de sanções, reconhece jornal dos EUA. Opera Mundi, 7 mai. 2026. Disponível em: https://operamundi.uol.com.br/asia/coreia-do-norte-vive-sucesso-economico-apesar-de-sancoes-reconhece-jornal-dos-eua/. Acesso em: 10 jun. 2026.
PARK, Boram. S. Korean, EU leaders condemn illegal military cooperation between N. Korea, Russia. Yonhap News Agency, 11 jun. 2026. Disponível em: https://en.yna.co.kr/view/AEN20260610011453315?section=national/politics. Acesso em: 11 jun. 2026.
UE amplia pacote de sanções contra Rússia e instituições usadas por Moscou para gerar receita. Uol, 9 jun. 2026. Disponível em: https://economia.uol.com.br/noticias/estadao-conteudo/2026/06/09/ue-amplia-pacote-de-sancoes-contra-russia-e-instituicoes-usadas-por-moscou-para-gerar-receita.htm. Acesso em: 10 jun. 2026.
SOBRE O AUTOR
Arthur Martins Santana
Graduado em Relações Internacionais pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), integrante da Curadoria de Estudos Coreanos (CEÁSIA/CEA/UFPE). Se interessa por Economia Política Internacional e a Teoria do Sistema-Mundo com ênfase para a região da Ásia-Pacífico.
O Movimento pela Democratização de Gwangju de 18 de maio, também conhecido como Massacre de Gwangju, ocorrido entre 18 e 27 de maio de 1980, foi um dos episódios mais marcantes da luta pela democracia na Coreia do Sul. Após a ascensão do general Chun Doo-hwan ao poder e a ampliação da lei marcial, milhares de cidadãos foram às ruas para reivindicar direitos democráticos, liberdade de imprensa e o fim da ditadura. Em Gwangju, a repressão militar foi particularmente brutal, resultando em mortes, torturas, estupros e desaparecimentos. Apesar da violência, a resistência da população transformou o movimento em um símbolo da luta contra o autoritarismo e contribuiu para o processo de redemocratização do país. Esse momento histórico do país ganhou grande espaço nas representações artísticas, como na literatura, com o livro Atos Humanos (2014), de Han Kang, e no cinema, com o filme A Taxi Driver (2017), que levou essa história ao grande público ao acompanhar a trajetória do taxista Kim Man Seob e do jornalista alemão Jürgen Hinzpeter durante os acontecimentos em Gwangju. Inspirada em fatos reais, a obra busca destacar o protagonismo dos cidadãos diante da repressão e desempenha papel importante na preservação da memória do Movimento. No entanto, a narrativa construída pelo filme também revela limitações significativas na forma como representa os sujeitos envolvidos nesse processo histórico. Embora as mulheres tenham participado ativamente das manifestações, suas experiências são amplamente silenciadas no filme. Enquanto os personagens masculinos ocupam o centro da narrativa como heróis, trabalhadores, estudantes e agentes políticos, as personagens femininas aparecem de forma secundária, frequentemente sem nome próprio e definidas apenas por sua relação com figuras masculinas, como mães ou esposas. Essa escolha narrativa contribui para a construção de uma memória masculinizada do Movimento pela Democratização de Gwangju de 18 de maio. Ao privilegiar histórias de solidariedade e heroísmo entre homens, o filme marginaliza a atuação política das mulheres e reforça estereótipos de gênero que as afastam do protagonismo histórico. Diversas pesquisadoras apontam que esse apagamento não ocorre apenas no cinema, mas também em parte das narrativas oficiais sobre o movimento democrático sul-coreano. Por exemplo, Kang Hyunah, especialmente no artigo “Women’s Experiences in the Gwangju Uprising: Participation and Exclusion”, pontua a importância do papel das mulheres no Movimento. Segundo a autora, as mulheres atuaram na organização da resistência, na circulação de informações, no atendimento aos feridos e na preservação da memória dos mortos (Kang, 2010), demonstrando que essa exclusão que ocorre nas narrativas hegemônicas não é um resultado da ausência de participação política, mas sim de processos de construção da memória que privilegiam experiências masculinas. De modo semelhante, as trabalhadoras sexuais de Gwangju, que ficavam na rua conhecida como “Call Box Street” (Rhee, 2019), desempenharam um papel fundamental ao doar sangue para os feridos e ao ajudar a esconder jovens perseguidos pelos militares. Apesar dessa contribuição significativa, suas identidades e trajetórias permaneceram amplamente desconhecidas. Além disso, diversos hospitais recusaram suas doações de sangue por considerá-las mulheres envolvidas em uma profissão tida como impura, evidenciando o estigma social que enfrentavam (Rhee, 2019). Esse apagamento das experiências femininas em processos históricos pode ser compreendido à luz das proposições de Nira Yuval-Davis em Gender and Nation, obra na qual a autora destaca a maneira com que as mulheres tendem a ocupar posições periféricas nas narrativas sobre a construção da nação, mesmo quando sua participação é fundamental para os acontecimentos políticos. Como consequência, esse apagamento também se manifesta nas representações culturais, incluindo o cinema, que frequentemente reproduz visões masculinizadas da história e limita a visibilidade da atuação feminina. Dessa forma, embora A Taxi Driver seja uma obra relevante para a divulgação da história de Gwangju, sua representação evidencia como a memória coletiva pode reproduzir exclusões. Ao deixar em segundo plano as mulheres que participaram ativamente da resistência, o filme contribui para o silenciamento de experiências fundamentais para a compreensão do Movimento e da própria luta pela democracia na Coreia do Sul. Com isso, percebemos como as disputas que envolvem a memória de Gwangju demonstram que a identidade nacional não é uma característica fixa e estática, mas uma construção social e política. Nesse processo, definir quem é lembrado como protagonista da história também significa definir quem é reconhecido como representante da própria nação.
KANG, Hyun-ah. Women’s Experiences in the Gwangju Uprising: Participationand Exclusion. New Political Science, UK, v. 25, n. 2, p. 193-206, ago. 2010. Disponível em: https://www.tandfonline.com/doi/abs/10.1080/07393140307194. Acesso em: 09 jun. 2026.
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2022/12121-6, Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP). As opiniões, hipóteses e conclusões ou recomendações expressas neste material são de responsabilidade da autora e não necessariamente refletem a visão da FAPESP.
Sobre a autora
Júlia Santos
Mestranda em Ciências Sociais na Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP), integrante da Curadoria de Estudos Coreanos (CEÁSIA/CEA/UFPE). Se interessa por sociologia do cinema e estudos de gênero, pensando como essa questão reflete nas produções fílmicas.