Todos os anos, a Curadoria de Estudos Coreanos promove um Ciclo de Formação Interna para seus integrantes. Dividida em duas partes (uma por semestre), cada edição convida oito professores, pesquisadores ou profissionais que atuam na área de estudos coreanos para palestrarem sobre temas de interesse.
A primeira edição do Ciclo de Formação ocorreu em um bloco com seis aulas entre fevereiro e março de 2023 e contou com a participação de nomes como Suzana Veiga, Daniela Mazur, Mauricio Dias e Krystal Urbano.
Na época, a Curadoria ainda não tinha perfil nas redes sociais, por isso não temos as artes de divulgação com os participantes desta edição do Ciclo.
A segunda edição contou com a participação de Emiliano Unzer, Luiza do Amaral, Yun Im Jung e Carol Akioka e Naira Nunesda KoreaIN no primeiro semestre (a professora Crystal Anderson também estava programada para participar do Ciclo, mas teve um imprevisto), e com a participação de André Bueno, Ester Bae e Analúcia Danilevicz (a ilustradora Ing Lee estava programada para participar do Ciclo, mas teve um imprevisto) no segundo semestre.
Em 2025, a terceira edição contou com a participação de Maurício Dias, Ing Lee, Luis Girão e Luana Geiger no primeiro semestre, e com Cristian Kim, Cônsul Honorário da República da Coreia no Paraná, Amanda de Moraes e Lucas Rubio (a professora Krystal Urbano também estava programada para participar do Ciclo, mas teve um imprevisto) no segundo semestre.
Em 2024, a Curadoria de Estudos Coreanos também começou a promover leituras coletivas de obras que julgamos essenciais para os interessados em estudar a península coreana no Brasil.
O primeiro livro lido foi “Orientalismo”, de Edward W. Said. A leitura teve nove encontros, sempre na primeira segunda-feira de cada mês – terminamos 2024 e começamos 2025 lendo Said.
Em 2025 lemos “Filhos do Céu e da Ursa”, do professor Emiliano Unzer. Foram quatro encontros, de setembro a dezembro – e em dezembro contamos com a participação do professor para falar sobre a obra e outros detalhes da história coreana.
No primeiro semestre de 2026, lemos Flores de Fogo, de Hawon Jung. Foram quatro encontros, entre março e junho, e em julho tivemos um encontro especial, como uma edição do Costuras Interculturais, com a participação da autora.
No segundo semestre de 2026, estamos lendo cinco livros de Byung-Chul Han: No Enxame, Psicopolítica, A Crise da Narração, Hiperculturalidade e A expulsão do Outro. São cinco encontros, de agosto a dezembro.
A programação para o primeiro semestre de 2027 será divulgada em momento oportuno.
É assim que inicia Pachinko (2020), romance realista escrito por Min Jin Lee e lançado no Brasil pela editora Intrínseca. O livro acompanha a trajetória de uma família ao longo de mais de 70 anos, entrelaçando suas histórias pessoais com a história coreana nos séculos XX e XXI.
A narrativa começa em 1883, em uma pequena vila de pescadores em Yeongdo, no distrito de Busan. Um dos primeiros personagens apresentados, Hoonie, é um jovem com deficiências e filho de pescadores humildes que mantêm uma pousada para aumentar suas poucas rendas. Aos 27 anos, ele consegue um casamento arranjado com Yangjin, filha de fazendeiros pobres da mesma vila. Em 1910, mesmo ano de assinatura do tratado de anexação da Coreia ao Japão, Hoonie e Yangjin tornam-se pais de uma menina chamada Sunja, que mais tarde irá se destacar como o principal fio condutor de toda a saga familiar ao longo do romance.
A primeira parte do livro, de 1910 até 1933, acompanha a vida de Sunja nos seus primeiros anos. Ao mesmo tempo em que Sunja se descobre como mulher, ela descobre seu país e sua nação em transformação, resistindo de maneiras distintas e cotidianas à invasão japonesa na península coreana do Japão. Não apenas a vida de Sunja é afetada pelo primeiro período da colonização japonesa, mas a vida de diversos outros personagens, destacando aspectos sombrios de uma assimilação forçada e violenta. As mulheres de conforto, a violência policial, o uso de trabalhadores forçados e até as mudanças de nome e preconceitos enfrentados pelos coreanos durante a colonização são abordados de maneira sutil e marcante em elementos e personagens de uma mesma família que contornam a vida de Sunja e seus relacionamentos.
Na segunda parte do livro, de 1933 até 1962, temas como a vida de descendentes e migrantes coreanos no Japão (os chamados de Zainichis), a discriminação, os jogos de poder e as relações familiares conturbadas são costurados no cenário internacional do final da Segunda Guerra Mundial e da Guerra da Coreia. Assim como o Japão e as Coreias, a família de Sunja se vê mais uma vez em uma posição de recomeço e resistência frente a um cenário desolador. Uma família que, assim como sua nação, persiste no tempo e na história em quaisquer circunstâncias políticas.
O terceiro, e último, ato do romance se concentra nos anos de 1962 até 1989, desenvolvendo as relações familiares e a busca de identidade agora entre pontes aéreas dos Estados Unidos, Japão e Coreia. Assim como nas máquinas de Pachinko 一 os fliperamas usados como jogos de azar no Japão que dão nome ao romance 一, a vida e o desenvolvimento dos países mencionados se mostra imprevisível, cabendo aos indivíduos enfrentar as mudanças, sempre em uma busca pela sobrevivência.
A autora desenvolve Sunja desde sua infância até sua velhice como uma mulher comum, calada, pensativa, mas resiliente, ainda sonhadora e condicionada a lutar pela sua sobrevivência, independente das circunstâncias externas, em uma construção que quase se torna uma metáfora delicada para a própria nação coreana. A história da família de Sunja, com perdas, nascimentos e renascimentos, não apenas perpassa a história coreana, como também a reflete. A nação coreana se molda, se adapta, resiste e permanece firme ao longo dos mais de 4 mil anos que a constituem. A curiosidade sobre a vida e a sobrevivência de Sunja ao longo dos anos é mantida pela autora ao longo do romance como uma forma de também nos lembrar das próprias incertezas frente a história coreana. A questão “será que eles vão sobreviver?”, que permeia toda a leitura, é um lembrete não apenas das dificuldades da vida comum de um indivíduo do século XX e início do XXI, mas da própria nação sul-coreana como um todo.
O livro torna-se um importante lembrete de que teorias e fatos históricos são produzidos e movidos por indivíduos com particularidades, famílias, interesses pessoais e necessidades urgentes da vida cotidiana. Porém, não apenas isso se mostra relevante na narrativa. A obra nos recorda os horrores da guerra, da fome e da segregação, em um convite para refletir sobre nossos lugares diante das conjunturas políticas e das situações que vão além das quatro paredes de um núcleo familiar. É um convite para perceber nossa presença diante da imprevisibilidade da história, que, por vezes, falha, mas nunca se ausenta de nossas vidas.
Referência
LEE, Min Jin. Pachinko. Tradução de Marina Vargas. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2020.
Sobre a autora
Thaisa da Silva Viana
Doutoranda em Relações Internacionais pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e Mestre em Relações Internacionais pela mesma instituição. Especialização em Direito Internacional em andamento pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais. Pesquisadora do LabÁSIA (UERJ), do Grupo de Estudos Asiáticos (GEA-UFMG) e integrante da Curadoria de Estudos Coreanos (CEÁSIA/CEA/UFPE). Tem experiência na área de política internacional, estudos de nacionalismo e cultura nas relações internacionais.
De acordo com o jornalista Yoon (2025), jovens sul-coreanos na faixa dos 20 anos tiveram um crescimento de renda menor que 2% por ano (em média) de 2014 a 2024. Dentre os grupos etários, este foi o menor crescimento no período analisado pelo relatório da Federação de Indústrias Coreanas. Neste sentido, o crescimento real foi de apenas 1,9% ao ano e considera o poder real de compra. Em relação a outras faixas etárias, verificou-se que o crescimento anual do grupo de pessoas de 60 anos ou mais foi de 5,1%, já o grupo relativo à faixa de 50 anos teve um crescimento de 2,2% por ano, o grupo dos 40 anos foi de 2,1% por ano e, por fim, a faixa de pessoas nos seus 30 anos obteve um crescimento de renda de 3,1% anual.
A renda real mensal para aqueles na faixa dos 20 anos cresceu de 1.76 milhões de won por pessoa em 2014 para 2.12 milhões de won em 2024, sendo o segundo menor crescimento considerando os grupos por idade. Aqueles com o menor ganho foram os idosos de 60 anos ou mais, cujo crescimento foi de 1.02 milhões em 2014 para 1.7 milhões de won em 2024. O país presenciou, recentemente, uma diminuição na taxa de emprego de pessoas na faixa dos 20 anos, o que se deu de forma paralela ao crescimento da taxa de empregos entre aqueles em idade legal para se aposentar. Como já foi noticiado anteriormente no The Korea Times em maio de 2025, há uma grande parcela de sul-coreanos idosos que recorrem a empregos de baixa remuneração após se aposentarem da sua carreira (Jun, 2025). Especificamente no setor privado, incentiva-se os trabalhadores a se aposentarem antes da idade legal de aposentadoria (60 anos) e, dessa forma, eles acabam recebendo um valor de pensão inferior ao daqueles que exerceram seu trabalho por mais tempo. O que acaba acontecendo, como nos informa a repórter Jun (2025), é um dos mais altos níveis de pobreza sênior do mundo. Sobre este ponto, uma notícia do The Korea Herald de fevereiro de 2025 trouxe que a taxa de pobreza sênior no país cresceu pelo segundo ano consecutivo em 2023, de acordo com dados divulgados pelo Ministério da Saúde e Bem Estar e pelo Instituto Nacional de Estatística neste ano; no caso, a jornalista Choi (2025) informou que a taxa relativa de pobreza entre idosos foi de 38,2%, considerando pessoas de 65 anos ou mais que vivem com menos de 50% da renda média do país. Dados recentes do Statistics Korea (Yoon, 2025) mostram que 60% dos idosos 60+ estavam trabalhando em abril de 2025, o que foi pouco abaixo dos 60.3% relacionado ao grupo de 20 a 29 anos.
Neste sentido, conforme Yoon (2025) indica, os dados da Federação mostram que a taxa de emprego não foi a causa direta do baixo crescimento para jovens sul-coreanos. De 2014 a 2024, a taxa de emprego na idade referida aumentou de 57.4% para 61%. O relatório apontou que a proporção de pessoas nos seus 20 anos trabalhando como “trabalhadores irregulares” aumentou de 32% para 43.1% nessa mesma época. Aqui, os dados se referem aos trabalhadores com contratos sem garantias de renovação; para Lee (2015 apud Kim, 2012), os trabalhadores irregulares abarcam desde pessoas com contratos de longo e curto prazo, até trabalhadores de meio período, terceirizados e outras modalidades. Isto significa que, mesmo que mais jovens estejam trabalhando em 2024 em relação a 2014, a qualidade dos seus empregos é menor.
Os trabalhadores sul-coreanos “regulares” assinam contratos que garantem o emprego até a idade de aposentadoria legal. Aqueles sem essa garantia encontram-se normalmente com menores salários e enfrentando formas de discriminação no ambiente de trabalho. De acordo com a notícia de Yoon (2025), os dados da Statistics Korea de abril de 2024 mostram que os trabalhadores irregulares ganham cerca de 66% do que ganham os trabalhadores regulares.
A professora Lee Yoonkyung (2015) entende que fatores como a desigualdade social e a desregulamentação de políticas trabalhistas desde a Crise Financeira Asiática de 1997 colaboraram para o surgimento de uma nova subclasse trabalhista insegura. No caso, Lee (2015) assim se refere devido à insegurança em que esses trabalhadores vivem: baixa remuneração, insegurança no trabalho, baixas perspectivas de promoção de cargo ou mobilidade social, além de pouca proteção social. Dentro desta categoria estariam as pessoas autônomas – 22,9% da população empregada, em dados de 2024 da OCDE (OECD, 2024) –, e pessoas que trabalham no varejo e no setor de restaurantes, ambos considerados de baixo valor agregado.
Para finalizar, o jornalista Yoon (2025) traz que os dados da Federação também mostraram que o crescimento real de renda para todos os grupos etários desde 2019 foi substancialmente menor do que nos cinco anos anteriores a 2019. O crescimento real de renda de 2019 a 2024 foi de 1,1% para jovens na casa dos 20 anos até 3% para aqueles de 60 anos ou mais.
REFERÊNCIAS
CHOI, Jeong Yoon. South Korea’s senior poverty increases for second straight year. The Korea Herald, 3 fev. 2025. Disponível em: https://www.koreaherald.com/article/10410847. Acesso em: 19 nov. 2025.
LEE, Yoonkyung. Labor after Neoliberalism: The Birth of the Insecure Class in South Korea. Globalizations, v. 12, n. 2, p. 184-202, 2015. DOI: 10.1080/14747731.2014.935087
YOON, Min Shik. 20-somethings experienced slowest income growth in past decade: report. The Korea Herald, 29 set. 2025. Disponível em: https://www.koreaherald.com/article/10585901. Acesso em 09 out. 2025.
SOBRE A AUTORA
Beatriz Santos Simões
Graduanda em Relações Internacionais pela Universidade Federal de Sergipe. Integrante do Grupo de Estudo Leste-Asiático (GELA/UFS). Integrante da Curadoria de Estudos Coreanos (CEÁSIA/CEA/UFPE).
“Reply 1988”, também conhecido como “Responde 1988”, foi lançado em 2015 pelo canal tvN. Na época foi um sucesso, e mantém até hoje, mesmo após dez anos do seu lançamento, um dos maiores índices de audiência da TV fechada sul-coreana. O drama tem 20 episódios, que estão disponíveis na Netflix e no Viki.
O drama é o terceiro da sequência de “Reply” (antecedido pelo 1994 e 1997), que foi escrito por Lee Woo-jung e dirigido por Shin Won-ho. Este acompanha a vida de cinco amigos que crescem juntos na vizinhança de Ssangmun Dong, eles são: Duk-sun (Lee Hyeri), Taek (Park Bo-gum), Jung-hwan (Ryu Jun-yeol), Sun-woo (Go Kyung-pyo) e Dong Ryong (Lee Dong-whi). Com o passar dos episódios é possível ver o forte vínculo entre eles causado pelas aventuras, alegrias, medos e problemas que compartilham durante a juventude até a idade adulta.
Durante os episódios, em alguns momentos, o público é levado ao futuro de um casal adulto que surgiu daquele ciclo de amigos e cabe ao espectador descobrir quem ficou junto — resposta que é dada somente no final do K-drama, o que gera curiosidade em quem assiste, que está sempre tentando desvendar o mistério por meio das pistas.
Apesar desse relacionamento secreto ter um grande destaque na trama, um dos pontos altos do drama é observar a interação desses jovens com as suas famílias, que vivem suas próprias dificuldades, contudo, ainda assim, nunca se esquecem daquilo que é o mais importante: cuidar daqueles que amam.
Ao passar pelos dramas disponíveis no catálogos das plataformas de streaming, “Reply 1988” pode não chamar atenção inicialmente por ter pôsteres sem elementos muito chamativos ou por sua sinopse aparentemente sem tantos conflitos, entretanto, o drama emociona ao mostrar a importância da amizade e da família, principalmente em momentos de dificuldades, quando essa união é a única capaz de dar a sustentação necessária para a superação dos desafios da vida. Diante disso, a torcida pelo casal principal, seja ele qual for, torna-se algo secundário durante o andamento da narrativa.
O drama se passa em plena década de 1980, por isso, apesar do clima mais emotivo, ainda traz como pano de fundo (mesmo que às vezes de forma indireta) diversos eventos históricos vividos pela Coreia do Sul, como o final da Ditadura Militar, o início do período de democratização e a Crise dos Tigres Asiáticos, o que enriquece ainda mais a experiência do espectador.
Os diferentes contextos históricos que perpassam a narrativa, por mais que pareçam serem retratados timidamente à primeira vista, carregam consigo um teor crítico de grande pertinência ao mostrar a situação do país ao ter uma parte da sua própria identidade reprimida e substituída pela cultura, moda, música e até mesmo pelos alimentos de nações estrangeiras com grande influência no mundo.
Em diversos momentos é perceptível a necessidade das personagens de consumirem qualquer produto do exterior para se sentir participante da globalização que se mostra tão presente naquele momento, no entanto, o drama deixa claro que juntamente desse acesso a outras realidades é notável a pouca valorização das riquezas nacionais que enfatizavam os traços únicos do país.
O mais interessante é refletir que esta situação não é meramente ficcional, pois “Reply 1988” retrata o que aconteceu com a Coreia do Sul na época em que se passa a história, período em que a nação tentava se recuperar do silenciamento pessoal e social deixado por uma sequência de eventos históricos traumáticos, dentre eles a Ditadura Militar, que também é mostrada rapidamente no audiovisual ao descortinar suas marcas na vida população que precisou se reerguer dos danos deixados por tamanho autoritarismo.
A produção pode ser considerada lenta pelo tamanho dos episódios e por ter como foco mostrar o cotidiano das personagens sem pressa, afinal, o intuito é imergir o público naquele meio como se ele fizesse parte daquela vizinhança animada que realmente se parece tanto com a realidade de tantas pessoas.
“Reply 1988” é um drama mais antigo, porém, é importante não deixar que ele caia no esquecimento porque vale cada segundo e deixa um gostinho de saudade tanto das personagens com quem nos conectamos quanto das nossas próprias memórias, que se aproximam de tantos acontecimentos ali retratados. A história retrata e critica diversos eventos históricos com grande delicadeza, além do mais, ainda provoca muitos risos e lágrimas, por isso no final é tão difícil dizer adeus a Ssangmun Dong, que conquista um espaço especial nos nossos corações.
Sobre a autora
Alanessa Nikole Carvalho da Silva – Mestranda em Teoria Literária pela Universidade Estadual do Maranhão (UEMA) e graduada em Letras/Literatura de Língua Portuguesa pela UEMA. E-mail: alanessanc@gmail.com