As mulheres coreanas e o patriarcado neoconfucionista: como uma revisão do confucionismo poderia ajudar na emancipação feminina?

As mulheres coreanas e o patriarcado neoconfucionista: como uma revisão do confucionismo poderia ajudar na emancipação feminina?

por: Yasmim Coutinho

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Durante a Dinastia Joseon (1393-1910), o neoconfuncionismo1 se tornou a ideologia de Estado oficial. Para tanto, os cidadãos de Joseon foram obrigados a implementar os princípios neoconfucionistas no seu cotidiano, como os que estavam relacionados a lealdade e a autoridade, já que a filosofia servia como uma forma de organizar a sociedade e moldar o comportamento. Os coreanos engajavam bastante nessa natureza hierárquica e respeitosa do confucionismo, especialmente nos “Três Laços Fundamentais”, um dos principais pilares do pensamento. Os três laços são: “[…] a lealdade de um súdito ao seu líder; a veneração de uma criança aos seus pais e ancestrais; a dedicação de uma mulher ao seu marido e à sua família” (Jayasuriya, 2024, p. 11).

Com seu caráter hierárquico abraçado pela população da época, a ideologia neoconfucionista passou a desempenhar função fundamental na vida das mulheres coreanas, dado que a subordinação feminina se tornou uma de suas bases. Sob tal lógica, os papéis das mulheres na sociedade eram bastante limitados: todas deveriam ser filhas, esposas e mães e desempenhar perfeitamente as funções ligadas à vida doméstica. Embora a Coreia do Sul hoje seja um país moderno e industrializado, esta perspectiva prevalece na mentalidade dos sul-coreanos, tornando o sistema patriarcal neoconfucionista uma forte herança cultural da Dinastia Joseon, sendo um obstáculo para as mulheres sul-coreanas do tempo presente e, concomitantemente, para o movimento feminista, visto que ainda coloca as mulheres como subordinadas e inferiores aos homens. 

Jayasuriya (2024, p. 14) afirma que os ideais neoconfucionistas influenciam diretamente várias situações do cotidiano das mulheres, como o modo com que elas lidam com seus corpos e sua aparência, os padrões de beleza da sociedade e a distribuição de tarefas (ainda são as mulheres as principais responsáveis pelas tarefas da casa, por exemplo). Além disso, as sul-coreanas também se tornaram alvos na esfera on-line, sofrendo diariamente com diversos tipos de ataques na internet, como a propagação de deepfakes e a própria criação da machosfera2 (Jung; Moon, 2024), acontecimentos que evidenciam a condição subalterna a que essas mulheres estão expostas.

Apesar desta forma de pensamento estar internalizada na cultura sul-coreana e sua abolição ou reestruturação ser uma tarefa complexa, muitos autores como Juliana Batista e Tabitha Jayasuriya defendem que é possível uma reformulação. Visto que o neoconfucionismo é uma reinterpretação do confucionismo, as autoras partem da ideia de que é possível reinterpretar a filosofia confucionista para entender o papel feminino na filosofia “original” e, dessa maneira, entender o que é invenção do neoconfucionismo e o que não é. Em outras palavras, é necessário realizar uma reinterpretação da ideologia confucionista a fim de entender o papel da mulher na filosofia confuciana para entender o papel da mulher no neoconfucionismo e analisar se o confucionismo e o feminismo são realmente duas ideologias opostas. Segundo Jayasuriya (2024), a ideia de que as mulheres são inferiores aos homens no confucionismo é um erro de interpretação. Sob tal perspectiva, não seria a filosofia confucionista intrinsecamente misógina e sexista, mas sim a forma com que ela é interpretada, ensinada e colocada em prática pelas pessoas desde a Dinastia Joseon, a qual se reflete nos dias atuais.

Por exemplo, Hsü Daulin (1970) afirma que os neoconfucionistas interpretaram de forma errônea “Os Três Laços Fundamentais” do confucionismo ao torná-los um princípio cosmológico: a partir dessa interpretação, a lógica da hierarquia foi consagrada no lugar da reciprocidade dos relacionamentos pregada pela filosofia de Confúcio; essa interpretação errada poderia ser uma das causas da subordinação feminina, pois o homem estaria acima na hierarquia. Além disso, Jayasuriya (2024) e Batista (2017) ainda afirmam que há pontos de intersecção entre o feminismo e o confucionismo, pois o primeiro consegue aplicar as Cinco Virtudes Constantes do Confucionismo (Benevolência, Retidão, Propriedade, Sabedoria e Confiabilidade)3 com facilidade e simplicidade às suas agendas, porque “o Confucionismo é uma filosofia dedicada ao cuidado, ao respeito e à harmonia, e o feminismo é uma ideologia que busca a mesma qualidade de sociedade” (Jayasuriya, 2024, p. 32). Diante desta perspectiva, pode ser enriquecedor para as mulheres sul-coreanas se elas utilizarem o confucionismo em prol da luta mulheril. Jayasuriya (2024, p. 34) admite que não é algo tão simples a se fazer, mas ainda assim é póssivel: “com alguma melhoria na educação e maior conscientização em torno da libertação das mulheres no contexto cultural confucionista, a Coreia poderia aceitar a agenda feminista em suas estruturas sociais e políticas […]” . 

É inegável que os valores neoconfucionistas contribuíram para reprimir as mulheres, da mesma forma que são utilizados como justificativa até hoje para tal repressão. Porém, como muitos estudiosos afirmam, existe a possibilidade de que a filosofia confucionista não possua raízes sexistas. Assim, seria o modo que a filosofia foi interpretada e ensinada que tornou o neoconfucionismo sexista e misógino. Nas palavras de Batista (2017), “a ausência de literatura poderosa e de apoio dos primeiros filósofos confucionistas, incluindo o próprio Confúcio, produziu um vácuo que poderia ser preenchido com interpretações negativas das mulheres”. Desta forma, utilizar pontos de convergência entre o confucionismo e o feminismo e realizar uma revisão da filosofia confuciana pode ser um caminho para que a emancipação das mulheres sul-coreanas continue florescendo.

REFERÊNCIAS

BATISTA, Juliana. The Confucianism-Feminism Conflict: Why a New Understanding is Necessary.  Schwarzman Scholars, 2017. Disponível em: https://www.schwarzmanscholars.org/events-and-news/confucianism-feminism-conflict-new-understanding-necessary/. Acesso em: 20 fev 2026.

HUANG, Xiuji. Essentials of Neo-Confucianism: eight major philosophers of the Song and Ming periods. Westport, Conn.: Greenwood Press, 1999. Disponível em: https://philpapers.org/rec/HUAEON. Acesso em: 20 fev 2026.

HSÜ, Dau-lin. The myth of the “Five Human Relations” of Confucius. Monumenta Serica, v. 29, p. 27– 37, 1970. Disponível em: dx.doi.org/10.1080/02549948.1970.11744983. Acesso em: 20 fev 2026.

JAYASURIYA, Tabitha. Can you be a feminist in South Korea? Investigating the compatibility of Confucianism and feminism in a Korean context. 2024. Tese (Doutorado em Antropologia) – University of Exeter, 2024. Disponível em: 10.13140/RG.2.2.33264.06408. Acesso em: 20 fev 2026.

JUNG, Gowoon; MOON, Minyoung. “I Am A Feminist, But . . .” Practicing Quiet Feminism in the Era of Everyday Backlash in South Korea. Gender & Society, v. 38, n. 2, p. 216-243. 2024. Disponível em: https://doi.org/10.1177/08912432241230557. Acesso em: 20 fev 2026.

YAO, Xinzhong. An Introduction to Confucianism. Cambridge University Press, 2000. Disponível em: https://www.cambridge.org/core/books/an-introduction-to-confucianism/23905CF8F1A2EAF0160AF18B1D8A8DD5. Acesso em: 20 fev 2026.

SOBRE A AUTORA

Yasmim Kettermann Coutinho

Graduada em Relações Internacionais pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), integrante da Curadoria de Estudos Coreanos (CEÁSIA/CEA/UFPE). Se interessa por estudos de gênero, literatura asiática feminina e cultura coreana. E-mail: yasmim.kc@gmail.com

  1. O neoconfucionismo é uma reinterpretação do confucionismo: ambos são um sistema de crenças que regem e organizam a sociedade. No que diz respeito à ligação desses sistemas, deixo as palavras de Huang (1999, p. xi) “A era Song-Ming tem sido apropriadamente referida como o maior período criativo da história da filosofia chinesa desde a dinastia Zhou (1122?–256 a.C.). Mas, ao contrário da época antiga, durante a qual o confucionismo era uma das escolas mais influentes entre as chamadas cem escolas, durante as dinastias Song e Ming, o neoconfucionismo foi a única força filosófica predominante a desafiar a influência gradualmente decrescente do budismo e, em certa medida, do taoísmo religioso”. Nesse sentido, o confucionismo e o neoconfucionismo nasceram e floresceram em momentos e dinastias chinesas diferentes. Segundo o autor, os filósofos neoconfucionistas tornaram a filosofia mais ortodoxa. Yao (2000, p. 97) afirma que “O verdadeiro valor do neoconfucionismo não reside apenas em seu ‘retorno’ ao confucionismo clássico, mas em sua transformação fundamental das doutrinas confucionistas, que permitiu aos neoconfucionistas construir um sistema doutrinário abrangente e complexo, contendo uma cosmologia evolucionista, uma ética humanista e uma epistemologia racionalista”. ↩︎
  2. Machosfera, segundo Jung e Moon (2024, p. 220), é “um espaço onde as comunidades digitais propagam visões misóginas e rejeitam a masculinidade inclusiva”. ↩︎
  3. As Cinco Virtudes Constantes do Confucionismo são benevolência (ren 仁), retidão (yi 義), prosperidade (li 礼), sabedoria (zhi 智) e confiabilidade (xin 信). Knapp (2009, p. 2253) ao citar Baihutong (um dos textos confucianos) diz: “Benevolência significa não suportar o sofrimento alheio, amar o próximo e auxiliar todos os seres vivos. Retidão significa agir corretamente. Significa acertar no julgamento. Propriedade significa praticar o bem, ou seja, compreender o caminho e aperfeiçoar o que é refinado. Sabedoria significa conhecimento. Significa ter uma compreensão especial e poder saber das coisas antes mesmo de ouvi-las. Significa não se confundir com as circunstâncias e discernir as sutilezas. Confiabilidade significa sinceridade. Significa não se deixar desviar de seu propósito”. Em outras palavras, para o confucionismo as Cinco Virtudes Constantes são os valores/virtudes necessários para viver uma vida moral. Vale ressaltar que o neoconfucionismo se baseia nos conceitos de “qi (originalmente significando ar, vapor, respiração e depois a força vital da vida, traduzido de várias maneiras como força material, energia primária, éter ou matéria), li (princípio ou razão), xin (o coração/mente) e xing (natureza ou natureza humana)” (Yao, 2000). ↩︎
O imaginário nuclear e da reunificação coreana em Tempest/Polaris

O imaginário nuclear e da reunificação coreana em Tempest/Polaris

por Luisa de Mesquita

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fonte: Disney/Reprodução

[este ensaio contém SPOILERS para o k-drama Tempest/Polaris]

Desde o bombardeio de Hiroshima e Nagasaki em 1945, o mundo tem vivido debaixo do medo de um possível apocalipse nuclear, encabeçado pelas maiores potências do mundo ou por atores inesperados que conseguiram desbloquear o complexo processo de produção de armamentos nucleares. Muitas das tensões durante a Guerra Fria se basearam no fato de que ambos EUA e URSS eram países nucleares, e muitos acreditavam que apenas a realidade de Destruição Mútua Assegurada (ou MAD, na sigla em inglês) impedia que os diferentes polos entrassem numa guerra nuclear (Editores da Enciclopédia Britânica, 2024). Portanto, não é de se espantar que as consequências de tal conflito tenham estimulado a imaginação de diversos artistas e contadores de história no último século. Com produções de extremo sucesso como o filme Oppenheimer e a série Chernobyl, a humanidade continua a retratar suas ansiedades e expor sua curiosidade sobre as consequências da nuclearização global.

Enquanto historicamente os soviéticos/russos aparecem como antagonistas em histórias de tragédia ou de potencial nuclear, este ensaio almeja debater brevemente o papel que a República Popular Democrática da Coreia (a chamada Coreia do Norte) tem ocupado em produções mais recentes que abordam a ameaça nuclear. A Coreia do Norte retirou-se em 2003 do TNP, o Tratado da Não-Proliferação de Armas Nucleares, sendo atualmente um dos poucos países com arsenal bélico militar confirmado, e tal fato tem sido explorado por roteiristas de grandes séries televisivas.

Em Tempest/Polaris1, k-drama exibido pelo Disney+ e que estrela Jun Jihyun como a protagonista Seo Munju e Gang Dongwon como seu guarda-costas e par romântico Paik Sanho, o problema nuclear da Coreia do Norte ocupa o plano principal da narrativa. Kim Jong-un, presidente factual da Coreia do Norte, é ficcionalizado como Kim Hansang, interpretado por Uhm Taegoo, e aparece em momentos climáticos e tensos da trama como um dos principais antagonistas, ainda que frequentemente nos bastidores. Tempest/Polaris foi ao ar entre setembro e outubro de 2025, contando com 9 episódios e nota 6,7 no IMDb, sendo distribuído globalmente pela Disney, ainda que no selo Hulu, que produziu o k-drama (Polaris: Conspiração Política, 2025).

A trama segue Munju, ex-embaixadora sul-coreana na ONU, que deixa sua carreira diplomática para acompanhar a candidatura do marido, Jang Junik, à presidência da Coreia do Sul. No entanto, Junik é assassinado durante um compromisso de campanha, e Munju começa a desvelar uma trama de conspiração por detrás da morte do marido. Ela descobre que Junik iria anunciar um plano de reunificação pacífica entre o Norte e o Sul da península coreana, e que ele tinha contato direto com Anderson, dirigente estadunidense para assuntos coreanos nos EUA. Anderson, por sua vez, suspeitava que a Coreia do Norte havia vendido um submarino nuclear para Idisha, um país fictício que sofre com invasões estadunidenses e, a série sugere, está localizado em algum lugar do Oriente Médio. Através desse submarino, a Coreia do Norte estaria diretamente conectada a um futuro bombardeio nuclear em território estadunidense.

A questão da reunificação coreana é também central para o enredo do k-drama, especialmente porque Sanho, o protagonista masculino, é um desertor da Coreia do Norte que trabalha como mercenário. Sua fascinação por Munju, que defendia a proximidade entre as Coreias em seus discursos na ONU, leva-o a buscar protegê-la das tentativas de assassinato que ela sofre quando decide, ela mesma, concorrer à presidência. No meio de uma tempestade que envolve corrupção no governo sul-coreano, animosidade entre Coreia do Sul e China, adultério e dramas familiares, Munju é a responsável por conectar os pontos de uma tentativa de provocação de guerra nuclear na península coreana.

É importante ressaltar que o k-drama coloca a frágil relação entre EUA e Coreia do Sul no centro do enredo. Frágil porque, com bases militares estadunidenses instaladas em seu território, a produção aponta para o fato de que a Coreia do Sul fica à mercê dos interesses particulares e do comprometimento com a détente nuclear estadunidenses para a manutenção de sua própria segurança. Durante o enredo, o alto escalão de dirigentes dos EUA está disposto a sacrificar a Coreia do Sul se isso significar a destruição da Coreia do Norte e de seus armamentos nucleares; o k-drama retrata até um código secreto compartilhado entre as bases militares estadunidenses para a retirada de seus membros da península em caso de futuro bombardeio nuclear.

É através da atuação corajosa de Munju e Sanho que se impede um bombardeio de mísseis nucleares norte-coreanos nos EUA, que ocasionaria a eclosão de uma guerra de proporções mundiais. Arquitetado por uma traficante de armas e espiã que almejava ganhar muito dinheiro com o início de uma guerra violenta, a grande vilã secreta do k-drama é derrotada pelos dois protagonistas e o bombardeio é impedido em conjunto com os líderes fictícios da Coreia do Norte e de Idisha, que fornecem os códigos necessários para cancelar o disparo das ogivas.

O que Tempest/Polaris demonstra é que a Coreia do Sul ainda é uma sociedade marcada de forma singular pela ansiedade nuclear e pela desconfiança de sua irmã nortenha. No entanto, o k-drama não retrata os norte-coreanos como vilões cartunescos, muito pelo contrário: a narrativa aponta para as similaridades entre os países, especialmente no que toca seus relacionamentos conturbados com os EUA. É somente com a colaboração norte-coreana que Munju consegue desarmar as bombas nucleares que estavam direcionadas para os EUA. Munju é uma figura polêmica por conta de sua posição favorável à reunificação coreana, e ela é conhecida por todo país por sua atuação na ONU, falando a favor da paz e contra os conflitos nucleares.

Dessa maneira, Tempest/Polaris procura demonstrar como é complexa a posição sul-coreana em sua localização geopolítica. O k-drama é certeiro ao evidenciar como é desigual o relacionamento entre Coreia do Sul e EUA, demonstrando como os interesses estadunidenses podem comprometer a segurança sul-coreana e destruir quaisquer laços de solidariedade que existam entre ela e a sua irmã do norte. A posição crítica em relação aos EUA não é óbvia para um país que ainda depende não apenas do poderio militar estadunidense como também de laços econômicos com a potência norte-americana. As exportações da Coreia do Sul para os EUA têm apenas crescido, e a ameaça do Presidente Trump de taxá-las em 25% no início de 2025 preocupou profundamente autoridades sul-coreanas (PODER360, 2025).

Além disso, tendo como ponto central o poderio nuclear norte-coreano, Tempest/Polaris retrata como a paranoia nuclear pode cegar dirigentes, levando-os à corrupção (acusando falsamente cidadãos de espionagem, por exemplo) ou a medidas incrivelmente drásticas. O k-drama retrata como a ansiedade nuclear ainda orienta muito das decisões políticas tomadas pela Coreia do Sul e também ao entorno dela, por Coreia do Norte, China e EUA, demonstrando que essa questão ainda é extremamente atual. O problema das armas nucleares não ficou no século XX, com os retratos caricatos de soviéticos em filmes de espionagem. Pelo contrário, a Coreia do Norte, por ser considerada um ator imprevisível, ainda causa extrema desconfiança em dirigentes pelo mundo todo.

A solução apontada pelo k-drama é uma que certamente é considerada utópica por muitos: a reunificação pacífica da península coreana. Apesar das críticas empreendidas tanto ao governo sul-coreano quanto ao estadunidense, o k-drama entende que é apenas com um convívio unificado e transparente que haverá paz duradoura na península. Mas o k-drama não hesita em apontar as dificuldades que tal empreendimento enfrenta, tanto dentro da própria Coreia do Sul, quanto pelos EUA, que têm interesse em manter seu posicionamento na região.

Tempest/Polaris se aproveita da base cultural compartilhada da ansiedade nuclear para construir um enredo tenso, politicamente complexo. Colocando a Coreia do Sul como protagonista, o enredo explora de forma bem sucedida o que a ameaça nuclear norte-coreana significa para a península, redirecionando o foco de tal tipo de narrativa, que geralmente é centrada nas consequências para Europa e EUA.

REFERÊNCIAS

EDITORES DA ENCICLOPÉDIA BRITÂNICA. Mutual assured destruction (MAD). 2024. Disponível em: https://www.britannica.com/topic/mutual-assured-destruction. Acesso em: 6 dez. 2025. 

PODER360. Coreia do Sul prepara pacote de contramedidas após tarifaço de Trump. 2025. Disponível em: https://www.poder360.com.br/poder-economia/coreia-do-sul-prepara-pacote-de-contramedidas-apos-tarifaco-de-trump/. Acesso em: 6 dez. 2025. 

POLARIS: CONSPIRAÇÃO POLÍTICA. 2025. Disponível em: https://www.imdb.com/pt/title/tt27368147/. 

SOBRE A AUTORA

Luisa de Mesquita

Doutora em Relações Internacionais pela PUC-Rio, e pesquisadora associada da Curadoria de Estudos Coreanos (CEA/UFPE) e do Laboratório Cultpop (CNPq/UFF). Sua tese de doutorado procurou entender como fandoms de k-pop são lugares de formação política e por isso mesmo ela está sempre hiperanalisando peças de cultura pop.

  1. O k-drama é exibido no Brasil com o título Polaris, mas internacionalmente é conhecido como Tempest, por isso a opção pela barra. ↩︎
POR QUE A COREIA DO SUL POSSUI NÍVEIS ALARMANTES DE SUICÍDIO?

POR QUE A COREIA DO SUL POSSUI NÍVEIS ALARMANTES DE SUICÍDIO?

por Guilherme Henrique Ferreira Povoa e Maria Clara Lima Abrão

Imagem: Estátua de uma pessoa consolando outra na Ponte Mapo (마포대교), no Rio Han, ponte com o maior registro de tentativas de suicídio em Seul. Fonte: https://www.ilpost.it/2013/01/12/dimentica-tutto/skorea-society-suicide-5/

Frequentemente celebrada pela capacidade tecnológica, índices de desenvolvimento e influência cultural global, a Coreia do Sul exporta uma narrativa de Estado bem-sucedida, mascarando diversas rupturas sociais alarmantes, muitas vezes agravadas por essa própria narrativa. Dentre as fraturas, destacam-se os altos e alarmantes índices de suicídio e as diversas tentativas de compreender quais as motivações e relações entre esses e a sociedade moderna sul-coreana: fatores econômicos, filosóficos, midiáticos e sistêmicos.

A cada quarenta minutos, falece uma pessoa na Coreia do Sul, país no qual o suicídio é a quinta causa de morte mais comum entre todas as idades, o que o torna uma epidemia a ser combatida (Raschke et al., 2022). Neste sentido, quando ponderado demograficamente, nota-se um aumento no número de suicídios entre crianças e adolescentes, o qual se relaciona com pressão acadêmica, bullying, cyberbullying, coberturas midiáticas inadequadas de outros casos de suicídio e quadros precários de saúde mental, simultâneo ao crescimento alarmante no índice de suicídio entre idosos, majoritariamente em áreas rurais, associado ao desamparo financeiro e familiar (Lee, 2023).

Historicamente, a Crise Econômica Asiática de 1997 marca o aumento expressivo da quantidade de suicídios no país — cujos índices são os maiores entre os membros da OCDE (Paik, 2025) —, sobretudo entre os anos de 2009 a 2011 (Staudt, 2025), quintuplicando o índice anual. Esse período na Coreia do Sul foi marcado por instabilidade financeira, desemprego e baixa renda, fatores diretamente relacionados a tentativas de suicídio (Raschke et al., 2022). A percepção do cenário econômico, para além da situação profissional e financeira, pode ser diretamente associada à depressão (Barrass et al., 2024, p. 12); a relação também ocorre, em crescimento linear, quando pensadas as tentativas de suicídio, devido ao aumento de custo de planos de saúde, entre outros (Lee et al., 2025)

Neste contexto, diversos elementos influenciam as altas taxas de suicídio, para além de fatores socioeconômicos, como o Confucionismo, filosofia enraizada na Ásia, em que “o fracasso não é tolerado e as pessoas hesitam em falar sobre erros ou problemas de saúde mental, todos os quais são considerados uma fraqueza”1 (Rashid, 2023a; Saeji et al., 2018 apud Staudt, 2025, p. 27, tradução nossa). Outrossim, a falta de escandalização ou a aquiescência perante o suicídio é herança, não somente da sabedoria confucionista, mas da própria história asiática, em que a morte preserva a honra em um contexto que valoriza a ideia de legado individual e familiar (Im; Park; Ratcliff, 2018).  

A cobertura inadequada e/ou sensacionalista da mídia é, idem, um fator que contribui para a elevação dos índices, levando comumente a comportamentos em massa nas redes sociais (como hate trains). Sobretudo, influenciam pela natureza contagiante do suicídio — ou pelo Efeito Werther2 —, exemplificado por coberturas de famosos, como o ex-presidente da República (2003–2008), Roh Moo-hyun (1946–2009), cuja exposição, especulação e publicização foram excessivas, com mais de 26 mil reportagens on-line até 2020 (Ha; Yang, 2021). Segundo Ha e Yang (2021), como efeito de coberturas midiáticas, os índices de suicídio já apresentam elevações de 16,4% ao primeiro dia de exposição, influenciando, inclusive, o método escolhido (comumente similar ao televisionado).

Outros elementos que impactam profundamente na qualidade de vida consistem no deslocamento entre valores e moralidades tradicionais, como o hyo, em contraste à modernidade “comprimida”, dinâmica e, basicamente, neoliberal e capitalista, afetando sobretudo a população idosa. O hyo (em hangul 효), é comumente traduzido como “piedade filial” e é um dos pilares da filosofia Confuciana, embora não tenha surgido com Confúcio a ideia de assistência, cuidado aos mais velhos e respeito profundo aos ancestrais (Wang; Tian, 2023); tal valor faz-se presente inclusive em folclores coreanos antigos prévios a Confúcio, como em “História de Shim-Jong” (Ilin, 2023). Neste sentido, o dado valor fora associado à noção de “boa pessoa” e integrou a cultura e as normas sociais por gerações, não se tratando somente de uma crença, mas de uma virtude arraigada, por ser a base de todas as outras virtudes segundo Confúcio (Wang; Tian, 2023). Hyo envolve, portanto, lealdade, justiça, honra, misericórdia, respeito, educação, obediência e provento material, entre outros. Neste contexto, todavia, nota-se, com a ascensão do neoliberalismo desde os anos 1990 — e da criação de “classes inseguras” devido à precarização, queda na qualidade de vida, exploração da classe trabalhadora e perda de segurança social —, o enfraquecimento do hyo, não somente pela impossibilidade do provento material e assistência financeira dos filhos aos pais, mas pela falta de preparo e proteção social diante do envelhecimento acelerado da população, denotando a perda de importância, piedade, justiça e, sobretudo, respeito aos idosos (Staudt, 2025).

Ao analisar os elementos que influenciam o alto índice estrutural de suicídio, uma vez que perdura há décadas, percebe-se que tais fatalidades escancaram que os supostos fama, sucesso e admiração pública, utilizados na narrativa sul-coreana bem-sucedida exportada a todo vapor, não possuem força frente a uma estrutura que nega espaço para a vulnerabilidade, reforça a exploração do trabalhador, produz choques culturais entre filosofias tradicionais e a lógica neoliberal e reverbera todas as falhas, erros e falecimentos em suas mídias. Todos esses elementos produzem a desumanização do ser e reforçam a importância de pautar os altos índices de suicídio na Coreia do Sul, não somente a fim de contrastar com a narrativa de sucesso exportada e em voga domesticamente, mas com o intuito de alertar àqueles que a consomem candidamente e acreditam de forma convicta se tratar de um país paradisíaco sem fissuras sociais.

REFERÊNCIAS

BARRASS, Lucy et al. The association between socioeconomic position and depression or suicidal ideation in low and middle-income countries in Southeast Asia: a systematic review and meta-analysis. BMC Public Health, n. 24, p. 3507, 2024. 

HA, Jeongmin; YANG, Hee-Seung. The Werther effect of celebrity suicides: Evidence from South Korea. PLoS ONE, v. 16, n. 4, 2021.

ILIN, Mykhailo. Filial Piety in Korean Cultural Tradition. SJ Academy, abr. 2023. Disponível em: https://sj.academy/2023/04/29/shanoblyvist-u-korejskij-kulturnij-tradycziyi/. Acesso em 13 out. 2025

IM, Jeong Soo; PARK, B. C. Ben; RATCLIFF, Kathryn Strother. Cultural Stigma Manifested in Official Suicide Death in South Korea. OMEGA – Journal of Death and Dying, v. 77, n. 4, 2018. 

LEE, Yuri. Suicide Trends and Responses in Korea. In: Korean Social Trends. Statistics Korea Research Institute (KOSTAT), 2023.

METELSKI, Giuliano et al. O  efeito  Werther  e  sua  relação  com  taxas  de  tentativas  de  suicídio:  uma  revisão narrativa. Research, Society and Development, v. 11, n.10, e267111032630, 2022.

PAIK, Rocio. Por que a Coreia do Sul se tornou a República do Suicídio. Opera Mundi – Especial, 2023. Disponível em: https://operamundi.uol.com.br/especial/por-que-a-coreia-do-sul-se-tornou-a-republica-do-suicidio/. Acesso em: 5 ago. 2025.

RASCHKE, Nicolas et al. Socioeconomic factors associated with suicidal behaviors in South Korea: systematic review on the current state of evidence. BMC Public Health, n. 22, art. 129, 2022. DOI: https://doi.org/10.1186/s12889-022-12498-1

STAUDT, Eileen. South Korea, Competitiveness and Suicides: A Global Political Economy Study of South Korea’s “Suicide Crisis”. University Helsinki, 2025.

WANG, Xueyin; TIAN, Xiaolei. Teaching with Filial Piety: A Study of The Filial Piety Throught of Confucionism. Trans/Form/Ação, Marília, v. 46, n. 4, p. 287-302, 2023.

SOBRE OS AUTORES

Guilherme Henrique Ferreira Povoa

Graduando em Relações Internacionais pela Universidade Federal de Uberlândia, integrante da Curadoria de Estudos Coreanos (CEÁSIA/CEA/UFPE). Possui interesse em Estudos Asiáticos com ênfase em Coreias, Segurança Internacional, Política Externa e Comércio Exterior. E-mail: guilhermeferreiradesouza135@gmail.com

Maria Clara Lima Abrão

Graduanda em Relações Internacionais pela Universidade Federal de Uberlândia, integrante da Curadoria de Estudos Coreanos (CEÁSIA/CEA/UFPE) e do Núcleo de Pesquisa em Segurança Internacional e Estudos Estratégicos (NUPSIEE-UFU). Se interessa por Estudos Asiáticos com ênfase em Coreias, Segurança Internacional, cultura e identidade. E-mail: mcl.abrao@gmail.com

  1. No original: “failure is not tolerated and that people are hesitant to talk about mistakes or mental health issues, all of which are considered a weakness” (Rashid, 2023a; Saeji et al., 2018 apud Staudt, 2025, p. 27). ↩︎
  2. Efeito Werther ou efeito manada é uma terminologia utilizada para o aumento de taxas de suicídio após a divulgação ampla de suicídios de celebridades e/ou personalidades midiáticas. O termo advém do protagonista da obra de Goethe, “Os sofrimentos do jovem Werther”, e levou a uma onda de suicídios na Europa após o lançamento do livro (Metelski et al, 2022). ↩︎
A desigualdade de gênero entre salários e pensões

A desigualdade de gênero entre salários e pensões

por: Beatriz Santos Simões

Imagem: The Korea Times. Publicado em 19 jun. 2025. Disponível em: https://www.koreatimes.co.kr/economy/others/20250619/koreas-gender-pay-gap-is-the-worlds-worst-will-transparency-fix-it.

Não é novidade que a Coreia do Sul é o país membro da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) com a maior disparidade salarial entre gêneros. Para a OCDE, essa disparidade é definida e calculada a partir da diferença entre os rendimentos médios de homens e mulheres, em relação aos rendimentos médios dos homens (OECD, Gender Wage Gap).

Fórmula do Cálculo da Disparidade de Gênero segundo a OCDE

O presente artigo de opinião busca abordar a persistência nos dias de hoje da desigualdade salarial entre homens e mulheres em território sul-coreano, algo que desencadeia em uma desigualdade de gênero nos recebimentos de pensão na velhice. Há, então, uma necessidade de melhor recolhimento de dados e publicização desses, em relação às rendas de homens e mulheres, assim como um olhar conectado para melhor desenvolvimento de políticas públicas efetivas. Nesse sentido, pelos dados obtidos pela Organização até 2023, a Coreia do Sul configura uma disparidade salarial de 29,3%, a maior dentre seus membros e mais que o dobro da média geral dos membros de 11,3% (OECD, Gender Wage Gap). Isso quer dizer que as mulheres sul-coreanas recebem cerca de 29,3% menos em termos de salários que seus colegas homens. De acordo com o The Korea Times (Lee, 2025), para cada 1 milhão de wons recebidos por um homem, uma mulher recebe 707.000 wons.

Esses dados mostram um tímido avanço em relação ao ano de 2022, quando a diferença estava em 31,2% (Lee, 2024). Porém, a falta de dados governamentais e enquadramentos estatísticos claramente definidos dificultam o rastreamento das causas profundas dessa disparidade (Lee, 2025). Dessa forma, como foi reportado pela jornalista Lee (2025), o deputado Shin Changsik (do Reconstruindo a Coreia, um pequeno partido liberal) propôs no dia 18 de março uma emenda para a introdução de um sistema de transparência de informações sobre gênero e remuneração. O plano exigiria que as empresas com mais de 300 funcionários tornassem públicos seus dados relacionados aos seus empregos, categorizando-os por gênero, cargo e função, tempo de serviço e situação empregatícia (regular, temporário, afins). O projeto ainda previa que o Ministério do Trabalho divulgasse relatórios nos quais avaliaria a disparidade salarial com base em gênero, levando em consideração cargo e posição, e formulasse planos anuais de combate a essa diferença que seriam submetidos à Assembleia Nacional. O argumento de defesa dessa proposta afirma que é difícil para as mulheres perceberem que seu salário é menor que o de seus colegas homens, já que não há dados específicos disponíveis, e, quando percebem essa disparidade, não conseguem provar que é uma discriminação.

Infelizmente, a jornalista Lee também nos conta sobre a resistência a esse tipo de medida pela Associação Coreana de Empresas Listada (Korea Listed Companies Association – KLCA), pois estaria indo contra o propósito da Lei de Mercados de Capitais. Um representante da instituição afirmou que essa lei tem como objetivo melhorar a eficiência do mercado através da proteção dos investidores, então, a divulgação de dados deve ser restringida a fatores vinculados à tomada de decisões financeiras (governança corporativa, fatores de risco e desempenho financeiro). Contudo, o deputado Shin rebate essas alegações, com o argumento de que a divulgação das informações pretendidas contribui para um padrão básico de ESG (Environmental, Social, and Governance) nos mercados. Afinal, para o deputado, o que prejudica a reputação das corporações – principalmente entre investidores estrangeiros – é a própria disparidade salarial entre gêneros, e não a divulgação desses dados.

O título da notícia da jornalista Lee (A disparidade salarial entre gêneros na Coreia é a pior do mundo. A transparência resolverá isso?) nos faz questionar até onde a publicização desses dados pode ser capaz de alterar o quadro de desigualdade salarial no país. Para deixar claro, não estamos questionando a necessidade desses dados serem devidamente coletados, categorizados e tornados públicos, pois são essenciais para que se planejem e executem políticas públicas mais eficazes. A reflexão aqui proposta é a de acrescentarmos algo a se pensar no quadro de desigualdade de gênero sul-coreano, no caso, como a diferença entre homens e mulheres na sua trajetória no mercado de trabalho vai além dos salários. 

Como nos informa a professora Lee Yoonkyung (2015), 54% das mulheres, em relação a 46% dos homens, ocupam os chamados trabalhos contingentes, isto é, empregos de contratos temporários e/ou de meio período, os quais podem ser considerados inseguros devido à facilidade com que as pessoas são contratadas e demitidas e aos baixos salários em relação aos trabalhos regulares. Além disso, 61,9% das mulheres trabalhadoras estariam em empregos precários (Lee, 2015), e quando se adiciona o fator de status de relacionamento, mulheres casadas que trabalham ocupam 66,3% de empregos irregulares, enquanto homens casados ocupam 36,2% (Lee, 2015).

Ou seja, as políticas de divergência salarial por gênero precisam considerar não só a diferença salarial no exercício da mesma função por homens e mulheres, mas também o fato de que muitas mulheres estão ocupando trabalhos irregulares. Isso se dá muitas vezes, como é possível averiguar através do relatório Rejuvenating Korea (OECD, 2019), devido à cultura de ausentar-se do mercado nos anos em que as mulheres – que decidem ser mães – engravidam e criam seus filhos na primeira infância e, posteriormente, não conseguem empregos regulares. Dessa forma, jovens e idosos de 60+ anos configuraram como os mais prováveis em trabalhar em empregos precários, mas, considerando-se a mesma faixa etária, a disparidade de gênero é mais acentuada para trabalhadores dos 35 aos 60 anos, o que para a professora Lee (2011) confirma a noção de que mulheres trabalhadoras casadas dificilmente conseguem empregos regulares. 

E como isso afeta a vida no processo de envelhecimento? A partir de dados da OCDE (2022), considerando a experiência de diversos países, os níveis de pobreza são maiores entre as mulheres com 75+ do que entre os homens. Isso se deve a alguns fatores, como homens terem historicamente um número de empregos maior e a expectativa de vida feminina ser maior. Assim, muitas mulheres acabam dependendo de pensões públicas, das pensões de seus parceiros e de pensões por morte de um parente. Em termos de consequência dos ganhos no mercado de trabalho, espera-se que mulheres que contribuíram menos – seja por não trabalharem de forma contínua ou por não poderem contribuir por baixos ganhos – tenham sua pensão pelo menos um pouco menor; como metade do cálculo da NPS é de rendimentos gerais, o impacto por gênero tem alguma atenuação (OECD, 2022). Para a OCDE, com uma melhoria histórica na ocupação de empregos por mulheres e a conquista de direitos previdenciários, há uma expectativa por maior diminuição da diferença de rendimentos nas pensões entre homens e mulheres.

Contudo, a partir de dados coletados pela Statistics Korea e da OCDE em 2013, Lee e Yeung (2020) apontam que:

– Apenas 37,6% da população sul-coreana de 65 anos ou mais recebe os benefícios da pensão nacional;

– A porcentagem de mulheres acobertadas pelas pensões por idade era de apenas 30,8%, em relação a 69,2% dos homens, com uma alta taxa de pobreza entre as mulheres;

– Adultos sul-coreanos mais velhos afirmam que apenas 16% da sua renda vem de pensão e segurança social.

Em síntese, este artigo buscou discutir a disparidade de ganhos entre gêneros, na Coreia do Sul, inicialmente apontando a persistência da questão no país e a necessidade de dados apropriadamente coletados e publicizados. Em seguida, tentou-se ampliar a discussão para uma reflexão acerca da desigualdade de gênero na velhice, um desenvolvimento da desigualdade que existia desde sempre – pelos papéis de gênero, pela dificuldade em exercer trabalhos regulares e devidamente remunerados e pela menor contribuição ao sistema de pensões. Por fim, o objetivo geral consistiu em conectar mais de uma faceta da disparidade de ganhos, indicando a questão como algo que se manifesta para além do período trabalhado e que seria interessante ter um amplo olhar na elaboração de políticas públicas. 

REFERÊNCIAS

LEE, Jaeeun. South Korean workers’ average annual salary hit high of $48,922 in 2022, nearing OECD average, but women earn only 68.8 percent of what men do. The Korea Herald, 23 maio. 2024. Disponível em: https://www.koreaherald.com/article/3400350. Acesso em 25 jun. 2025.

LEE, Yeonjin, YEUNG, Wei-Jun Jean. The Country that Never Retires: The Gendered Pathways to Retirement in South Korea. The Journals of Gerontology: Series B, 2020. DOI:10.1093/geronb/gbaa016.

LEE, Yoonkyung. Labor after Neoliberalism: The Bierth of the Insecure Class in South Korea. Globalizations, v. 12, n. 2, p. 184-202, 2015. DOI: 10.1080/14747731.2014.935087

LEE, Yeonwoo. Korea’s gender pay gap is the world’s worst. Will transparency fix it? The Korea Times, 19 jun. 2025. Disponível em: https://www.koreatimes.co.kr/economy/others/20250619/koreas-gender-pay-gap-is-the-worlds-worst-will-transparency-fix-it. Acesso em 25 jun. 2025.

OECD. Gender Wage Gap. [202-]. Disponível em: https://www.oecd.org/en/data/indicators/gender-wage-gap.html. Acesso em 25 jun. 2025.

OECD. Rejuvenating Korea: Policies for a Changing Society. Paris: OECD Publishing, 2019. DOI: https://doi.org/10.1787/c5eed747-en. Acesso em 27 jun. 2025.

SOBRE A AUTORA

Beatriz Santos Simões

Graduanda em Relações Internacionais pela Universidade Federal de Sergipe. Integrante do Grupo de Estudo Leste-Asiático (GELA/UFS). Integrante da Curadoria de Estudos Coreanos (CEÁSIA/CEA/UFPE).

E-mail: biassimoes12@gmail.com


A ALTA TAXA DE EMPREGO ENTRE OS IDOSOS NA COREIA DO SUL MASCARA A BAIXA QUALIDADE DESSES TRABALHOS

A ALTA TAXA DE EMPREGO ENTRE OS IDOSOS NA COREIA DO SUL MASCARA A BAIXA QUALIDADE DESSES TRABALHOS

Notícia: The Korea Times

Tradução: Beatriz Santos Simões

Fotografia: The Korea Times. Link: https://www.koreatimes.co.kr/southkorea/society/20250527/south-koreas-high-senior-employment-rate-masks-low-job-quality

Conforme conta o jornal on-line The Korea Times (em maio de 2025), sul-coreanos sêniores estão recorrendo a empregos de baixos salários devido a uma desconexão com suas funções iniciais. A autora da notícia, repórter Jun (2025), relata a situação de um homem de 65 anos, o senhor Kim, que se aposentou três anos atrás de uma função no setor de contabilidade em uma empresa de porte médio. Recentemente, o senhor está empregado como estoquista em um supermercado de bairro e com dificuldades em conseguir outro emprego.

O senhor Kim acreditava que, por ter trabalho 30 anos na área de administração financeira, seu conhecimento garantiria outro emprego similar após aposentar-se. Porém, as empresas, de uma forma geral, não mostram interesse em contratar pessoas mais velhas, e essa parcela da população acaba muitas vezes limitada a empregos de segurança ou limpeza mal pagos. Nesse sentido, para Kim, empregos em armazéns e gerenciamento de inventário seriam posições relativamente melhores.

O senhor Kim assim declarou: “Pensei que eu poderia fazer bom uso da minha experiência, mas a realidade foi diferente. Agora eu carrego caixas durante quatro horas por dia por um salário-mínimo. Não tenho escolha porque minha pensão não é o bastante para pagar as contas”.

De acordo com o relatório OECD Reviews of Pension Systems: Korea da OCDE1 (2022), a maioria dos trabalhadores na Coreia do Sul se aposenta relativamente cedo, o que acontece devido à cultura de empresas privadas em estabelecer idades limites para uma aposentadoria obrigatória. Por lei, é prevista a possibilidade de aposentadoria a partir de 60 anos, porém, muitos estabelecimentos incentivam seus funcionários a aposentarem antes dessa idade limite através de acordos, devido ao sistema de promoção salarial com base na senioridade. Outro fator que influencia esse tipo de política é a competitividade, pois pessoas mais velhas muitas vezes não recebem treinamentos para acompanharem o avanço tecnológico (OECD, 2022).

As aposentadorias do setor privado são cobertas pelo Sistema Nacional de Pensão (National Pension Scheme – NPS). Os ganhos dos aposentados desse sistema são calculados da seguinte forma: metade do valor é baseado nos ganhos individuais e a outra metade é baseada na média dos ganhos de todos os que contribuem (OECD, 2022). Dessa forma, aqueles que contribuíram por menos tempo, como é o caso dos que se aposentam mais cedo ou não podem contribuir regularmente por questões financeiras, recebem um valor menor. Para o setor público, professores particulares, militares e trabalhadores do correio, outros sistemas de pensões são aplicados (OECD, 2022).

A Coreia do Sul é um caso particular por ter altas taxas de pobreza e de emprego na faixa de idosos, estando entre as maiores do mundo, afirma a repórter Jun (2025). De acordo com o relatório Pensions at a Glance 2023, publicado pela OCDE em 2024, a taxa de pobreza dentre os sul-coreanos mais velhos alcançou 40,4% – a maior entre os países da OCDE, cuja média é de apenas 14,2%. Por outro lado, a taxa de empregos dentre as pessoas de 65 anos ou mais também é uma das maiores. O Gabinete de Orçamento da Assembleia Nacional (National Assembly Budget Office – NABO) relatou que a contratação deste grupo etário estaria nos 37,3% em 2023.

Como afirma Jun (2025), esses dados refletem a baixa qualidade dos empregos disponíveis para adultos mais velhos, não só em termos de baixo salário, mas também de baixo status. Ainda, o relatório mais recente da NABO mostrou que muitos desses seniores trabalham em funções irregulares em pequenos negócios, atuando em funções de baixa qualificação. Dentre os assalariados de 65 anos ou mais, 61,2% estão em funções não fixas e 49,4% estão empregados em pequenas empresas com menos de 10 funcionários. Em termos de tipo de emprego, trabalhos simples são cerca de 35,4%, enquanto operadores de máquinas constam como 15%.

Dessa forma, Jun (2025) aponta que o declínio da qualidade do trabalho leva a uma queda nos salários em relação ao que ganhavam antes de se aposentarem. Segundo o relatório mencionado acima, a média de salário para trabalhadores com quase 60 anos, antes da aposentadoria, era de 3.5mi wons (cerca de 2.550 dólares). Contudo, essa quantia diminui para 2.8mi wons para aqueles na faixa dos 60 anos que estão voltando para o mercado de trabalho após aposentarem, sendo assim uma baixa de 20,5% na sua renda. Essa deterioração nos salários e nas condições de trabalho é atribuída a desconexão entre a expertise acumulada desses trabalhadores e a sua nova função.

Dentre os assalariados mais velhos, dos que se empregaram novamente após a aposentadoria, 53,2% afirmaram que seu trabalho atual é “nem um pouco” ou “apenas um pouco” relacionado a suas ocupações anteriores. Esse relatório apela para que os formuladores de políticas desenvolvam medidas que apoiem os idosos deslocados de sua função inicial, de forma a permanecerem ativos economicamente. O relatório, segundo Jun (2025), teria apontado que “a população mais velha da Coreia [do Sul] mostra uma forte vontade de continuar trabalhando mesmo após a aposentadoria. […]. Ajudar essa população a permanecer em seus campos iniciais ou relacionados possivelmente exercerá um papel chave na diminuição da desigualdade de renda na idade avançada e fará melhor uso das suas habilidades acumuladas e experiência”.

A Coreia do Sul enfrenta um rápido envelhecimento populacional, com a diminuição do número de pessoas em idade de trabalho, devido à constante diminuição da taxa de natalidade, assim como um aumento do número de pessoas idosas. Espera-se que, no ano de 2060, tenha-se uma relação de três pessoas com 65+ para cada uma pessoa jovem de menos de 20 anos (OECD, 2022). A pressão sobre os sistemas de pensão, principalmente no NPS, é prevista como insustentável ao longo prazo.

Com as eleições deste ano, 2025, os candidatos se dirigiram a essa questão durante as campanhas (Lee, 2025). Após uma primeira reforma estrutural, que aumentou a contribuição de 9% para 13%, os jovens mostram frustração por terem que contribuir mais, mas ao mesmo tempo receber menos futuramente (Lee, 2025). A partir dessa crise demográfica sul-coreana, é possível se questionar até que ponto todo o sistema de produção do país, que envolve o regime trabalhista, os esquemas de aposentadoria e a desigualdade de gênero, se sustentará .

REFERÊNCIAS

JUN, Ji Hye. Korea’s high senior employment rate masks low job quality. The Korea Times, 27 maio. 2025. Disponível em: https://www.koreatimes.co.kr/southkorea/society/20250527/south-koreas-high-senior-employment-rate-masks-low-job-quality. Acesso em: 12 de jun. 2025.

LEE, Yeonwoo. Targeting young voters, pension reform emerges as major policy issue. The Korea Times, 19 maio 2025. https://www.koreatimes.co.kr/economy/20250519/targeting-young-voters-pension-reform-emerges-as-major-policy-issue-in-south-korea. Acesso em: 25 jun. 2025.

OECD. OECD Reviews of Pension Systems: Korea. OECD Reviews of Pension Systems. Paris: OECD Publishing, 2022. DOI: https://doi.org/10.1787/2f1643f9-en. Acesso: em 25 jun. 2025.

SOBRE A AUTORA

Beatriz Santos Simões é graduanda em Relações Internacionais pela Universidade Federal de Sergipe. Integrante do Grupo de Estudo Leste-Asiático (GELA/UFS). Integrante da Curadoria de Estudos Coreanos (CEÁSIA/CEA/UFPE).

E-mail: biassimoes12@gmail.com

  1. Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico, uma organização internacional fundada em 1961. ↩︎