O lar como nação: Gerações familiares e a construção da Coreia em “Pachinko”, de Min Jin Lee

O lar como nação: Gerações familiares e a construção da Coreia em “Pachinko”, de Min Jin Lee

por: Thaisa Viana

foto: Instituto Brasil Coreia – Rio de Janeiro

A história falhou conosco, mas não importa.

É assim que inicia Pachinko (2020), romance realista escrito por Min Jin Lee e lançado no Brasil pela editora Intrínseca. O livro acompanha a trajetória de uma família ao longo de mais de 70 anos, entrelaçando suas histórias pessoais com a história coreana nos séculos XX e XXI.

A narrativa começa em 1883, em uma pequena vila de pescadores em Yeongdo, no distrito de Busan. Um dos primeiros personagens apresentados, Hoonie, é um jovem com deficiências e filho de pescadores humildes que mantêm uma pousada para aumentar suas poucas rendas. Aos 27 anos, ele consegue um casamento arranjado com Yangjin, filha de fazendeiros pobres da mesma vila. Em 1910, mesmo ano de assinatura do tratado de anexação da Coreia ao Japão, Hoonie e Yangjin tornam-se pais de uma menina chamada Sunja, que mais tarde irá se destacar como o principal fio condutor de toda a saga familiar ao longo do romance.

A primeira parte do livro, de 1910 até 1933, acompanha a vida de Sunja nos seus primeiros anos. Ao mesmo tempo em que Sunja se descobre como mulher, ela descobre seu país e sua nação em transformação, resistindo de maneiras distintas e cotidianas à invasão japonesa na península coreana do Japão. Não apenas a vida de Sunja é afetada pelo primeiro período da colonização japonesa, mas a vida de diversos outros personagens, destacando aspectos sombrios de uma assimilação forçada e violenta. As mulheres de conforto, a violência policial, o uso de trabalhadores forçados e até as mudanças de nome e preconceitos enfrentados pelos coreanos durante a colonização são abordados de maneira sutil e marcante em elementos e personagens de uma mesma família que contornam a vida de Sunja e seus relacionamentos. 

Na segunda parte do livro, de 1933 até 1962, temas como a vida de descendentes e migrantes coreanos no Japão (os chamados de Zainichis), a discriminação, os jogos de poder e as relações familiares conturbadas são costurados no cenário internacional do final da Segunda Guerra Mundial e da Guerra da Coreia. Assim como o Japão e as Coreias, a família de Sunja se vê mais uma vez em uma posição de recomeço e resistência frente a um cenário desolador. Uma família que, assim como sua nação, persiste no tempo e na história em quaisquer circunstâncias políticas. 

O terceiro, e último, ato do romance se concentra nos anos de 1962 até 1989, desenvolvendo as relações familiares e a busca de identidade agora entre pontes aéreas dos Estados Unidos, Japão e Coreia. Assim como nas máquinas de Pachinko 一 os fliperamas usados como jogos de azar no Japão que dão nome ao romance 一,  a vida e o desenvolvimento dos países mencionados se mostra imprevisível, cabendo aos indivíduos enfrentar as mudanças, sempre em uma busca pela sobrevivência. 

A autora desenvolve Sunja desde sua infância até sua velhice como uma mulher comum, calada, pensativa, mas resiliente, ainda sonhadora e condicionada a lutar pela sua sobrevivência, independente das circunstâncias externas, em uma construção que quase se torna uma metáfora delicada para a própria nação coreana. A história da família de Sunja, com perdas, nascimentos e renascimentos, não apenas perpassa a história coreana, como também a reflete. A nação coreana se molda, se adapta, resiste e permanece firme ao longo dos mais de 4 mil anos que a constituem. A curiosidade sobre a vida e a sobrevivência de Sunja ao longo dos anos é mantida pela autora ao longo do romance como uma forma de também nos lembrar das próprias incertezas frente a história coreana. A questão “será que eles vão sobreviver?”, que permeia toda a leitura, é um lembrete não apenas das dificuldades da vida comum de um indivíduo do século XX e início do XXI, mas da própria nação sul-coreana como um todo.  

O livro torna-se um importante lembrete de que teorias e fatos históricos são produzidos e movidos por indivíduos com particularidades, famílias, interesses pessoais e necessidades urgentes da vida cotidiana. Porém, não apenas isso se mostra relevante na narrativa. A obra nos recorda os horrores da guerra, da fome e da segregação, em um convite para refletir sobre nossos lugares diante das conjunturas políticas e das situações que vão além das quatro paredes de um núcleo familiar. É um convite para perceber nossa presença diante da imprevisibilidade da história, que, por vezes, falha, mas nunca se ausenta de nossas vidas. 

Referência

LEE, Min Jin. Pachinko. Tradução de Marina Vargas. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2020. 

Sobre a autora

Thaisa da Silva Viana

Doutoranda em Relações Internacionais pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e Mestre em Relações Internacionais pela mesma instituição. Especialização em Direito Internacional em andamento pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais. Pesquisadora do LabÁSIA (UERJ), do Grupo de Estudos Asiáticos (GEA-UFMG) e integrante da Curadoria de Estudos Coreanos (CEÁSIA/CEA/UFPE). Tem experiência na área de política internacional, estudos de nacionalismo e cultura nas relações internacionais.

“Reply 1988”: o retrato das vivências cotidianas e históricas

“Reply 1988”: o retrato das vivências cotidianas e históricas

por Alanessa Nikole Carvalho da Silva

Imagem: https://bestofkorea.com/reply-1988-cast-is-thoroughly-charming/

Reply 1988”, também conhecido como “Responde 1988”, foi lançado em 2015 pelo canal tvN. Na época foi um sucesso, e mantém até hoje, mesmo após dez anos do seu lançamento, um dos maiores índices de audiência da TV fechada sul-coreana. O drama tem 20 episódios, que estão disponíveis na Netflix e no Viki.

O drama é o terceiro da sequência de “Reply” (antecedido pelo 1994 e 1997), que foi escrito por Lee Woo-jung e dirigido por Shin Won-ho. Este acompanha a vida de cinco amigos que crescem juntos na vizinhança de Ssangmun Dong, eles são: Duk-sun (Lee Hyeri), Taek (Park Bo-gum), Jung-hwan (Ryu Jun-yeol), Sun-woo (Go Kyung-pyo) e Dong Ryong (Lee Dong-whi). Com o passar dos episódios é possível ver o forte vínculo entre eles causado pelas aventuras, alegrias, medos e problemas que compartilham durante a juventude até a idade adulta.

Durante os episódios, em alguns momentos, o público é levado ao futuro de um casal adulto que surgiu daquele ciclo de amigos e cabe ao espectador descobrir quem ficou junto — resposta que é dada somente no final do K-drama, o que gera curiosidade em quem assiste, que está sempre tentando desvendar o mistério por meio das pistas.

Apesar desse relacionamento secreto ter um grande destaque na trama, um dos pontos altos do drama é observar a interação desses jovens com as suas famílias, que vivem suas próprias dificuldades, contudo, ainda assim, nunca se esquecem daquilo que é o mais importante: cuidar daqueles que amam.

Ao passar pelos dramas disponíveis no catálogos das plataformas de streaming, “Reply 1988” pode não chamar atenção inicialmente por ter pôsteres sem elementos muito chamativos ou por sua sinopse aparentemente sem tantos conflitos, entretanto, o drama emociona ao mostrar a importância da amizade e da família, principalmente em momentos de dificuldades, quando essa união é a única capaz de dar a sustentação necessária para a superação dos desafios da vida. Diante disso, a torcida pelo casal principal, seja ele qual for, torna-se algo secundário durante o andamento da narrativa.

O drama se passa em plena década de 1980, por isso, apesar do clima mais emotivo, ainda traz como pano de fundo (mesmo que às vezes de forma indireta) diversos eventos históricos vividos pela Coreia do Sul, como o final da Ditadura Militar, o início do período de democratização e a Crise dos Tigres Asiáticos, o que enriquece ainda mais a experiência do espectador.

Os diferentes contextos históricos que perpassam a narrativa, por mais que pareçam serem retratados timidamente à primeira vista, carregam consigo um teor crítico de grande pertinência ao mostrar a situação do país ao ter uma parte da sua própria identidade reprimida e substituída pela cultura, moda, música e até mesmo pelos alimentos de nações estrangeiras com grande influência no mundo.

Em diversos momentos é perceptível a necessidade das personagens de consumirem qualquer produto do exterior para se sentir participante da globalização que se mostra tão presente naquele momento, no entanto, o drama deixa claro que juntamente desse acesso a outras realidades é notável a pouca valorização das riquezas nacionais que enfatizavam os traços únicos do país.

O mais interessante é refletir que esta situação não é meramente ficcional, pois “Reply 1988” retrata o que aconteceu com a Coreia do Sul na época em que se passa a história, período em que a nação tentava se recuperar do silenciamento pessoal e social deixado por uma sequência de eventos históricos traumáticos, dentre eles a Ditadura Militar, que também é mostrada rapidamente no audiovisual ao descortinar suas marcas na vida população que precisou se reerguer dos danos deixados por tamanho autoritarismo.

A produção pode ser considerada lenta pelo tamanho dos episódios e por ter como foco mostrar o cotidiano das personagens sem pressa, afinal, o intuito é imergir o público naquele meio como se ele fizesse parte daquela vizinhança animada que realmente se parece tanto com a realidade de tantas pessoas. 

“Reply 1988” é um drama mais antigo, porém, é importante não deixar que ele caia no esquecimento porque vale cada segundo e deixa um gostinho de saudade tanto das personagens com quem nos conectamos quanto das nossas próprias memórias, que se aproximam de tantos acontecimentos ali retratados. A história retrata e critica diversos eventos históricos com grande delicadeza, além do mais, ainda provoca muitos risos e lágrimas, por isso no final é tão difícil dizer adeus a Ssangmun Dong, que conquista um espaço especial nos nossos corações.

Sobre a autora

Alanessa Nikole Carvalho da Silva – Mestranda em Teoria Literária pela Universidade Estadual do Maranhão (UEMA) e graduada em Letras/Literatura de Língua Portuguesa pela UEMA. E-mail: alanessanc@gmail.com

Resident Playbook: um K-drama sobre a crise médica na Coreia do Sul

Resident Playbook: um K-drama sobre a crise médica na Coreia do Sul

por Stefany Santos

Foto: Imagem promocional do k-drama Resident Playbook – Divulgação/Netflix

No Centro Médico Yulje (Yulje Medical Center), em Seul, quatro residentes de obstetrícia e ginecologia enfrentam os primeiros meses de suas carreiras em meio a plantões extensos, procedimentos complexos e decisões que podem colocar vidas em risco. Esta é a história retratada em Resident Playbook, série dramática sul-coreana lançada em 12 de abril de 2025 pela Total Variety Network (tvN) e disponível na Netflix. 

Estrelada por Go Youn Jung (Oh Yi Young), Shin Si Ah (Pyo Nam Kyung), Kang Yoo Seok (Um Jae il) e Han Ye Ji (Kim Sa Bi), a produção mostra o dia a dia de jovens médicos no contexto de um sistema de saúde pressionado e em transformação. Dirigido por Lee Min Soo, o K-drama, que é um spin-off do sucesso Hospital Playlist (2020), ocupou o top 10 das séries mais assistidas da Netflix, no período de lançamento, e atingiu uma média nacional de 8,1% de audiência no seu último episódio, segundo um levantamento da Nielsen Korea. 

Muito mais que uma obra de ficção, a trama mostra residentes lidando com plantões extensos e decisões complexas, realidade que vai ao encontro do contexto médico da Coreia do Sul nos últimos dois anos. Oh Yi Young se destaca como uma das principais personagens da história e, devido a uma situação traumática, acabou deixando a carreira de médica de lado antes de encerrar o seu primeiro ano como residente, porém, após cair em dívidas, não viu outra saída a não ser voltar à profissão. 

Ao lado de Pyo Nam Kyung, Um Jae il e Kim Sa Bi, ela enfrenta diversas situações em que precisava agir com urgência para atender desde gestantes até mulheres em situação de câncer terminal, mesmo não tendo a experiência necessária. Os jovens médicos, um tanto atrapalhados, ainda precisam lidar com a falta de profissionais e aprendizes em suas respectivas áreas, ginecologia e obstetrícia, uma vez que o número de residentes que se interessam por essas especialidades é cada vez menor. 

Após superar desafios, confusões, muitas broncas de seus professores e ainda se envolverem em relacionamentos amorosos, os quatro residentes conseguem finalizar o primeiro ano atuando no Centro Médico Yulje e, no fim do K-drama, ingressam no segundo ano, não só para enfrentar novas aventuras que virão pela frente, mas também para assumir o papel de veteranos que irão orientar os residentes recém-chegados. 

Crise médica na Coreia do Sul

Muito mais que um spin-off do sucesso Hospital Playlist, Resident Playbook é um retrato da crise que assola o país desde fevereiro de 2024, quando o governo anunciou a proposta de aumentar o número de admissões em faculdades de medicina em 67%, cerca de 5 mil estudantes por ano, para enfrentar a demanda crescente por profissionais de medicina (Beer; Jenne, 2025). 

Na época, o até então ministro da saúde, Cho Kyoo Hong, apontou a urgência da mudança devido ao envelhecimento acelerado da população, à falta de especialistas nas áreas de atendimento de emergência, pediatria, ginecologia e obstetrícia e à escassez de médicos em áreas mais rurais. A medida, que deveria entrar em vigor em janeiro de 2025, desagradou professores, estudantes, entidades médicas e, principalmente, os residentes, que se afastaram de seus cargos e de seus cursos para ir às ruas protestar. O impacto imediato incluiu adiamentos de cirurgias e ajustes na triagem de serviços essenciais.

De acordo com a Associação Médica Sul-Coreana (Korea Medical Association – KMA), mais de 12.000 médicos residentes entregaram cartas de demissão e cerca de 14.000 estudantes de medicina suspenderam suas atividades em hospitais universitários (Beer; Jenne, 2025). A categoria argumentou que, de modo geral, a quantidade de médicos atuantes era suficiente e que, antes da adoção de uma reforma médica, seria necessário investir em melhores condições de trabalho. O período de greve se estendeu por cerca de 18 meses, sendo encerrado em 1º de setembro deste ano, após um anúncio da Associação Sul-Coreana de Estudantes de Medicina (Lee, 2025). 

A realidade desses profissionais vai totalmente ao encontro da rotina mostrada em Resident Playbook, que, além de retratar longos plantões e a pressão sob os residentes, também mostra o sofrimento constante dos pacientes em meio a uma crise estrutural do sistema de saúde que veio crescendo na última década. Segundo a legislação sul-coreana, o limite máximo de atuação para residentes é de 80 horas semanais, porém, estudos de 2023 e 2024 apontam que muitos profissionais cumprem quase 100 horas por semana (Yoon; Kwon; Park, 2024). 

Em termos de remuneração, os salários chegam a cerca de 70 milhões de wons anuais (aproximadamente R$252 mil), valor que, segundo dados do Ministério da Saúde e Bem Estar da Coreia do Sul, é inferior ao que seria considerado adequado para jornadas dessa intensidade (Han; Chung, 2024). Embora boa parte dos profissionais tenha retornado aos seus cargos, as negociações com o governo não apontaram para uma resposta efetiva, que era esperada pela categoria. Até então, apenas foi afirmado que o aumento das vagas nas universidades aconteceria de forma gradual, com 1.509 admissões neste ano e 3.058 previstas para 2026 (Beer; Jenne, 2025). 

Referências

YOON, Joo Heung; KWON, In Ho; PARK, Hyoung Wook. The South Korean health-care system in crisis. The Lancet, Londres, v. 403, n. 10444, 2024. DOI: 10.1016/S0140-6736(24)00766-9. Disponível em: https://www.thelancet.com/journals/lancet/article/PIIS0140-6736(24)00766-9/fulltext. Acesso em: 08 nov. 2025.

LEE, Soo-Jung. Is a breakthrough finally in sight in Korea’s longest ever doctors’ strike? Korea JoongAng Daily, Seul, 17 jul. 2025. Disponível em: https://koreajoongangdaily.joins.com/news/2025-07-17/national/socialAffairs/Is-a-breakthrough-finally-in-sight-in-Koreas-longest-ever-doctors-strike/2354080. Acesso em: 08 nov. 2025.

BEER, Anna de; JENNE, Frederike A. Striking medical students paid a high price. For what? University World News, 01 out. 2025. Disponível em: https://www.universityworldnews.com/post.php?story=20250930114252183#:~:text=In%20February%202024%2C%20former%20South,from%20entering%20these%20essential%20fields. Acesso em: 08 nov. 2025.

HAN, Eui-Ryoung; CHUNG, Eun-Kyung. A qualitative study on the adoption of the new duty hour regulations among medical residents and faculty in Korea. National Library of Medicine, v. 19, n. 4, 2024. DOI: 10.1371/journal.pone.0301502. Disponível em: https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC11008864/. Acesso em: 08 nov. 2025. 

SOBRE A AUTORA

Stefany Santos – Graduanda em Comunicação Social pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), pesquisadora vinculada à Fundação de Amparo à Ciência e Tecnologia do Estado de Pernambuco (FACEPE) e integrante da Curadoria de Estudos Coreanos (CEÁSIA/CEA/UFPE). E-mail: stefany.rayanesantos@ufpe.br

“Eu, você e toda uma vida” e o estranho destino que nos conecta aos outros

“Eu, você e toda uma vida” e o estranho destino que nos conecta aos outros

por Clara Menezes

Créditos da capa: Netflix [https://occ-0-8407-2218.1.nflxso.net/dnm/api/v6/9pS1daC2n6UGc3dUogvWIPMR_OU/AAAABUdrS-n4PStA7nVfbFn4WID2K9ztTNiUeeUMwQX5o5g_8HJDY5z-QzygPojCaSAFJL3fT05zK7SVCTi2V6y3CKQ-lbxIbB_h9ZEAuxPwOp765Gd-_ejcNA9W9A.jpg?r=5df]

“Eu, você e toda uma vida” apresenta o maior conflito da trama logo no início: Cheon Sang-yeon (Park Ji-hyun) está com câncer terminal e pede à amiga de longa data, Yoo Eun-jung (Kim Go-eun), para acompanhá-la até a Suíça, onde quer realizar o procedimento de morte assistida. As duas se conheceram na infância e agora, aos 40 e poucos anos, mantêm uma relação marcada por décadas de amor, raiva e desentendimentos.

Em uma narrativa que percorre diferentes momentos da vida — a infância, a juventude e a fase adulta —, elas desafiam as fronteiras entre amor e ódio, respeito e inveja, obrigando os espectadores a questionar: o que nos conecta aos outros? Será que o amor é suficiente para sustentar uma relação? Ou o ódio também é importante nesse estranho laço que nos une? Por que parecemos orbitar perto de algumas pessoas, mesmo quando a distância parece a escolha mais saudável? Qual o valor das memórias que construímos e das escolhas que fazemos perante a chegada da morte?

Dirigido por Jo Young-min e escrito por Song Hye-jin, o drama constrói personagens complexos e frustrantes, cheios de falhas, contradições e atitudes que beiram o detestável, na mesma medida em que geram empatia e curiosidade. Sang-yeon nasceu em uma família rica que posteriormente declara falência. Ela cresceu sentindo falta de acolhimento dos pais e percebe cedo que, para ser reconhecida, precisa ser bem-sucedida. Já Eun-jung, vinda de uma família pobre, recebe amor e apoio incondicional. Essas diferentes experiências de vida moldam as personalidades e as percepções delas: enquanto Sang-yeon, movida pela inveja e pelo medo de ser incompreendida, constantemente se distancia para esconder sua vulnerabilidade, Eun-jung mantém o coração aberto e se entrega com facilidade às pessoas ao seu redor.

Durante os episódios, Sang-yeon muitas vezes toma atitudes contraditórias com a amiga. Com uma tendência a ser egoísta, seja na vida amorosa, na profissão ou até mesmo nos hobbies, ela é uma personagem que incita a raiva do público. Mas é sempre importante ter em mente que a história é narrada sob a perspectiva de Eun-jung, tornando difícil compreender as motivações e o ponto de vista de Sang-yeon.

Com um fim inevitavelmente trágico, “Eu, você e toda uma vida” traz um olhar profundo sobre os relacionamentos em uma época em que tudo parece superficial demais. Distante de um discurso dicotômico entre certo e errado, no qual o menor erro é suficiente para cortar vínculos, a série se opõe a essa aparente facilidade de criar e desfazer laços. Distanciar-se de alguém exige esforço e convicção. E, quando essa pessoa retorna à nossa vida, seja por acaso ou intencionalmente, todas as emoções também voltam. Porque somos humanos. Porque somos seres afetuosos.

Apesar de  captar a complexidade das relações, a série tropeça em algumas questões. A principal delas é o fato de que um dos distanciamentos entre Sang-yeon e Eun-jung é causado devido a um homem por quem ambas se apaixonam. A trama se alonga nesse conflito, reforçando o clichê de uma rivalidade feminina provocada por interesses amorosos. Isso, porém, pouco acrescenta à história, que teria se mantido a mesma se não fosse pela interferência de Kim Sang-hak, interpretado por Kim Gun-woo. Apesar dessa parte do roteiro, há algo que salta aos olhos: no fim, elas continuam a escolher uma à outra, apesar e por causa de tudo.

Esta crítica, entretanto, não ofusca a força de “Eu, você e toda uma vida”, que continua sendo uma narrativa intensa sobre amor, inveja e vulnerabilidade ao retratar os laços que escolhemos manter todos os dias, porque eles fazem parte de nós mesmos, com sua dor e alegria. E permanece, acima de tudo, uma história sobre as inevitáveis emoções de estar vivo neste mundo, e sobre o direito de morrer com dignidade, ao lado de quem compartilhamos os anos de nossa vida.

SOBRE A AUTORA:

Mestranda em Ciências Sociais pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), é integrante da Curadoria de Estudos Coreanos. Pesquisa na área de sociologia da literatura, com foco na obra de Han Kang. E-mail: mclaracmenezes@gmail.com.

Precisamos (re)conhecer Bae Su-ah

Precisamos (re)conhecer Bae Su-ah

por Clara Menezes

Foto: Heike Steinweg – Frankfurter Rundschau

A literatura sul-coreana e de diáspora está se tornando cada vez mais popular no Brasil. Basta fazer uma breve pesquisa para encontrar nomes que, em pouco tempo, tornaram-se referência entre os leitores: Han Kang (“A Vegetariana”), Min Jin Lee (“Pachinko”), Cho Nam-joo (“Kim Jiyoung, nascida em 1982”) e Sohn Won-pyung (“Amêndoas”)1 estão entre as mais populares. Mas, também, há os escritores que lideram o fenômeno de “literatura de cura” do mercado nacional, como Hwang Bo-reum (“Bem-vindos à Livraria Hyunam-Dong”), Kim Ho-yeon  (“A inconveniente loja de conveniência”), Baek Se-hee (“Queria morrer, mas no céu não tem tteokbokki”) e muitos outros.

Há, porém, uma autora que parece ter ficado para trás da onda literária. Não por causa da qualidade de sua escrita, porque ela talvez seja uma das grandes escritoras contemporâneas da Coreia do Sul. Mas, provavelmente, porque seus livros foram traduzidos no Brasil antes das publicações sul-coreanas ganharem maior popularidade internacionalmente, porque suas obras não foram publicadas pelas grandes editoras que, muitas vezes, definem os títulos mais comentados no país, e porque seus títulos não receberam premiações internacionais que costumam chamar atenção do mercado brasileiro. A escritora é Bae Su-ah, que publicou livros como “Sukiyaki de Domingo”, pela Estação Liberdade, e “Noites e dias desconhecidos”, pela DBA Editora.

Além de um marco no mercado editorial por ter sido o primeiro título traduzido diretamente do coreano para o português, “Sukiyaki de Domingo” é um romance que critica a estrutura patriarcal e capitalista do mundo em que vivemos. Com uma narrativa não linear, na qual cada capítulo pode ser lido individualmente, a autora lança um olhar para as pessoas da classe trabalhadora que destoam de uma imagem de sucesso, mas que vivem em um cotidiano de escassez, igualmente necessário para manter as engrenagens do capitalismo funcionando. Infelizmente, é uma obra que não está mais disponível para vendas — não está na Amazon, nem no site da Estação Liberdade. Há alguns disponíveis na Estante Virtual, plataforma digital de comércio para livreiros e sebos, e, se você tiver sorte, como eu tive, pode encontrar um exemplar em alguma biblioteca.

Há também “Noites e dias desconhecidos”, que pode ser adquirido com maior facilidade. O livro tem um tom surrealista e onírico, no qual o leitor não sabe definir onde termina a realidade e onde começa o sonho. Entretanto, há uma história que guia toda a narrativa, diferentemente de “Sukiyaki de Domingo”: nela, a atriz Ayami está no seu último dia de trabalho em um teatro para pessoas cegas e inicia uma jornada por Seul. Enquanto anda pela cidade com seu ex-chefe em busca de reencontrar uma amizade antiga, conversam sobre tudo. Porém, a autora mescla os pontos de vista dos personagens e conduz os leitores por uma narrativa que troca a ordem da realidade pelo caos dos sonhos.

Bae Su-ah aposta na experimentação durante a escrita ao trazer mudanças abruptas de perspectiva, ao não se incomodar em explicar frases e expressões que (apenas) parecem ter aparecido de repente e ao recorrer a uma visão introspectiva sobre os acontecimentos que afetam os personagens. É, portanto, autoexplicativo que ela, em seu trabalho como tradutora do alemão para o coreano, tenha traduzido autores como Franz Kafka, Fernando Pessoa e, inclusive, Clarice Lispector (LTI Korea,  [s.d.]).

A autora, porém, teve um difícil início de carreira na literatura, porque muitos críticos a consideravam “pouco coreana”. Diferentemente de uma escrita concisa, com temas sociais evidentes, ela escreve frases longas e foca na individualidade. “Eu não sou uma escritora que escreve em um coreano bonito e refinado. Quando comecei a escrever, não estava bem preparada e, até hoje, acho que não escrevo frases muito boas, mas ultimamente as pessoas estão menos críticas”, disse ela em entrevista ao The Guardian (Ashby, 2020). Já em conversa ao Three Wise Monkeys (Sylvian, 2014), a autora também opinou sobre a receptividade de seu trabalho na Coreia do Sul: “minha escrita pode parecer muito individualista. Os coreanos gostam de consenso emocional. Eles vivem fiéis aos seus desejos, mas, ao defender alguma causa, sempre dão importância a esse valor. O mesmo acontece na literatura”.

Com um olhar para as dores individuais do mundo contemporâneo, como a solidão, a violência e o trauma, além de constantemente focar em personagens que estão à margem da sociedade, Bae Su-ah já publicou muitos outros textos. E estes, espero que sejam descobertos pelo mercado editorial brasileiro. Entre os não traduzidos para o português estão “A Greater Music” (2016), que conta a história de uma jovem escritora coreana que, ao cair em um rio em Berlim, recorda histórias do passado, sua relação com o namorado Joachim e as experiências de mudar-se para a Alemanha; “Milena, Milena, Ecstatic” (2019), que acompanha um cineasta que recebe uma proposta de uma fundação para produzir um documentário sobre uma garota em busca da mãe que a abandonou durante a infância; e “Nowhere To Be Found” (2015), sobre uma narradora não identificada que procura um significado para a própria vida enquanto recorda memórias sobre família, relacionamentos e trabalho.

Bae Su-ah utiliza majoritariamente personagens femininas, e esta escolha é intencional, como comentou em entrevista para o The White Review: 

Na maioria dos casos, tenho uma intenção clara quando escolho uma protagonista feminina. São mulheres que se recusam ou não conseguem ter seu próprio lugar na sociedade tradicional. Eu amo essas mulheres. Mulheres que não podem ter status social garantido pelo casamento, ou mulheres que se recusam a se casar para obtê-lo; mulheres que não se reprimem por causa de seus pais ou irmãos; mulheres que, como resultado de suas personalidades independentes, são solitárias e enfrentam problemas financeiros. Mulheres que seguem seu próprio caminho de acordo com sua própria teimosia e que não têm medo de fazê-lo. Tenho muito interesse nessas vidas. E, portanto, planejo escrever sobre essas mulheres também no futuro. Desejo dotá-las de um status estético por meio da minha ficção. E quero fazê-las cruzar uma certa fronteira que eu mesma não consegui cruzar porque minha bravura foi insuficiente. Desejo que elas sejam mais fortes do que eu (Smith; Bae, 2017).

Apesar da conexão com protagonistas e narradoras mulheres, a autora não se considera muito envolvida com política, nem define sua literatura como feminista, mas carrega um compromisso com a imaginação e com a observação acerca da vida. Ela trabalha, neste sentido, com o grotesco que se insere nos costumes, na sociedade e nas relações humanas (Sylvian, 2014) — e mostra como esse elemento contribui para a instabilidade emocional e a solidão presente no cotidiano.

Com uma obra literária conectada ao onírico, Bae Su-ah desafia as fronteiras entre as vidas vividas e as vidas sentidas. Talvez, em um mundo tão acelerado, o que precisamos seja uma experiência de leitura que rompe com o real e convida ao tempo da subjetividade.

REFERÊNCIAS

ASHBY, Chloe. Bae Suah: ‘I was practising my typing and wrote my first story by accident’. The Guardian, Londres, 27 jan. 2025. Disponível em: https://www.theguardian.com/books/2020/jan/27/bae-suah-i-was-practising-my-typing-and-wrote-my-first-story-by-accident. Acesso em: 15 out. 2025.

BAEK, Sehee. Queria morrer, mas no céu não tem tteokbokki. São Paulo: Intrínseca, 2023.

BAE, Su-ah. A greater music. Nova Iorque: Open Letter, 2016.

BAE Su-ah (배수아) | Digital Library of Korean Literature. LTI Korea, [s.d.]. Disponível em: https://library.ltikorea.or.kr/writer/200064. Acesso em: 15 out. 2025.

BAE, Su-ah. Milena, Milena, Ecstatic. Norwich: UEA Publishing Project, 2018.

BAE, Su-ah. Nowhere to be found. Seattle: Amazon Crossing, 2015.

BAE, Su-ah. Sukiyaki de domingo. São Paulo: Estação Liberdade, 2014.

BAE, Su-ah. Noites e dias desconhecidos. São Paulo: DBA Literatura, 2021.

CHO, Nam-Joo. Kim Jiyoung, nascida em 1982. São Paulo: Intrínseca, 2020.

HAN, Kang. A vegetariana. São Paulo: Todavia, 2018.

HWANG, Bo-reum. Bem-vindos à Livraria Hyunam-dong. São Paulo: Intrínseca, 2023.

KIM, Ho-yeon. A inconveniente loja de conveniência. São Paulo: Intrínseca, 2024.

LEE, Min Jin. Pachinko. São Paulo: Intrínseca, 2018.

SMITH, Deborah; BAE, Su-ah. Interview with Bae Suah. The White Review, Londres, mar. 2017. Disponível em: https://www.thewhitereview.org/feature/interview-bae-suah/. Acesso em: 15 out. 2025.

SOHN, Won-Pyung. Amêndoas. São Paulo: Intrínseca, 2021.
SYLVAN, Gabriel. Writing Against the Establishment’s Grain – A conversation with Bae Su-ah. The Three Wise Monkeys, Seul, 13 dez. 2014. Disponível em: http://thethreewisemonkeys.com/2014/12/13/writing-against-the-establishments-grain-a-conversation-with-bae-su-ah/. Acesso em: 15 out. 2025.

SOBRE A AUTORA:

Mestranda em Ciências Sociais pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) é integrante da Curadoria de Estudos Coreanos. Pesquisa na área de sociologia da literatura, com foco na obra de Han Kang. E-mail: mclaracmenezes@gmail.com.

NOTAS:

  1. A literatura de cura foi um gênero recentemente criado pelo mercado editorial para definir histórias ambientadas em lugares aconchegantes, como livrarias, bibliotecas e cafeterias, e que trazem mensagens de conforto aos leitores. Sohn Won-pyung, autora de “Amêndoas”, é considerada um dos grandes nomes desse recente movimento literário. Mas, como ela mesma disse em entrevista ao O Globo em 2024, seu livro não tinha a intenção de curar alguém, porque foi inspirado em suas experiências pessoais. Apesar disso, ela reconhece que “O Impulso”, seu outro título, pode ser considerada uma obra do gênero. Mais informações estão no link da matéria: https://oglobo.globo.com/cultura/noticia/2024/09/13/queridinha-do-bts-autora-de-amendoas-lanca-novo-romance-na-bienal-do-livro-e-questiona-rotulo-ficcao-de-cura-nao-quero-salvar-ninguem.ghtml ↩︎
A necessidade de lembrar em “Memórias de um Freixo”

A necessidade de lembrar em “Memórias de um Freixo”

por Larissa Brito

Foto: https://m.media-amazon.com/images/I/81yEBWhr8kL._SY425_.jpg

“O incidente foi tão horrível que adotei como protagonista uma árvore em vez de uma pessoa”, afirma Yong-Tak Choi, autor do romance “Memórias de um Freixo” (2013) que serviu de base para a readaptação em forma de História em Quadrinhos de mesmo nome do autor Kun-woong Park (2021). O autor da HQ sentiu a necessidade de retomar a obra de Yong-Tak Choi como uma forma de lembrar a sociedade dos horrores do Massacre das Ligas Bodo e talvez, de certa forma, fazer justiça. 

A estrutura da HQ é composta de 10 capítulos que abordam o conteúdo do livro e, ao final, o autor traz um apêndice com reflexões sobre o papel da memória e da História escritas por ele, pelo autor do romance original e por estudiosos da área.

Qual seria o limite da violência humana e do assassinato de milhares de pessoas para “proteger o país”? Esta pergunta nos traz ao contexto da Guerra da Coreia, conflito após a fratura da península impulsionada pelas potências vencedoras da Segunda Guerra Mundial. Com a polarização política, a Coreia do Sul adotou uma perspectiva ideológica capitalista e estritamente anticomunista. Com o estabelecimento da República da Coreia em 1948, o governo criou as Ligas Bodo, organização formada por membros “convertidos” do comunismo que juraram lealdade ao país e no passado já tinham participado de grupos comunistas (Choi, 2011, p. 293), além deles, muitos fazendeiros que não tinham ligação com o comunismo também se inscreveram para preencher as vagas. O horror se inicia quando o governo sul-coreano promove uma chacina com as pessoas dessas ligas, acusando-as de serem a favor da ideologia comunista, o que poderia ajudar o exército norte-coreano. Oficialmente 4.934 civis foram mortos, mas em estudos independentes este número chega até 200 mil. 

Essas pessoas eram mortas e jogadas em uma vala num vale, de forma escondida e cruelmente organizada, os corpos ficavam lá, apenas servindo de base para mais corpos posteriores. O governo sul-coreano escondeu o caso, sendo considerado um grande tabu. Mas as famílias dessas pessoas não, muitas chegaram a ir até o local dos corpos para procurar por seus entes queridos em meio aos corpos em decomposição. Além disso, as famílias ainda sofreram diversos preconceitos, sendo taxadas de “famílias comunistas” por terem relação com as pessoas mortas das ligas. Apenas nos anos 2000, a Comissão da Verdade e da Reconciliação investigou e trouxe a verdade à tona, afirmando que os civis realmente foram vítimas das organizações do governo. 

“Memórias de um Freixo” em História em Quadrinhos é um livro pesado, que traz uma história difícil de ler, mas que se mostra extremamente necessária para entender a história sul-coreana. O autor opta por utilizar apenas as cores preto e branco em seus desenhos, dando um toque sombrio a sua história. Além disso, as feições das pessoas desenhadas conseguem transmitir a dor e a agonia da morte vista de perto, os olhos arregalados, as bocas abertas, os pedidos por misericórdia. A escolha pela narrativa e pelas falas e pensamentos do freixo também são importantes, retirando a humanidade da história para refletir a falta dela nas próprias ações dos militares. A história é narrada pelo freixo, árvore do vale onde o massacre aconteceu, de forma bastante fria, onde ele parece se divertir com o horror à sua frente. Em alguns momentos, o autor substitui o desenho das pessoas com desenhos de vacas, trazendo uma crítica para a forma como eles foram tratados e também uma memória do próprio autor, que viu um dia uma notícia sobre inúmeros porcos e gado sendo abatidos e enterrados:

Os animais que choravam, olhando para os humanos, me fez suspeitar e questionar os seres humanos em um nível fundamental. E me lembrei de cenas familiares. Eram as fotos do Massacre das Ligas Bodo de 65 anos atrás, reveladas pelos EUA (Park, 2021, p. 296).

Imagem divulgada pelos Estados Unidos. 
Fonte:https://c8.alamy.com/comp/PPKXEE/bodo-league-massacre-at-daejon-south-korea-1950-PPKXEE.jpg

O autor destaca em sua obra os animais se alimentando dos corpos, que também viram adubo para as árvores do vale, demonstrando a desumanização do ocorrido como uma crítica própria. As cenas grotescas, de cadáveres em decomposição com vermes se alimentando, torna a história mais real, impacta mais, e o autor desejava impactar. O tradutor Jae Hyung Woo afirma que precisou pausar a tradução diversas vezes, esta era uma história de seu país que ele não conhecia. Portanto, podemos concluir que muitas vezes a história oficial esconde histórias humanas em favor de projetos políticos. Logo, apenas a inquietação e a rememoração conseguem trazer esse passado e a justiça de volta aos debates de hoje. O horror vivido e as vidas perdidas incomodam, as imagens só vem corroborar e reverberar esse desconforto.

Referências

PARK, Kun-Woong. Memórias de um Freixo. Tradução: Jae Hyung Woo. São Paulo: Conrad Editora, 2021. 

Sobre a autora

Maria Larissa de Brito é mestranda em História pela Universidade Federal de Campina Grande, integrante da Curadoria de Estudos Coreanos (CEÁSIA/CEA/UFPE). Se interessa por Estudos Coreanos e pela relação entre audiovisuais e o contexto sul-coreano. E-mail: britolarissa925@gmail.com