Giovana Canez Valerão

imagem: https://www.reddit.com/r/KDRAMA/comments/1py8br8/sbs_no_tail_to_tell_couple_poster_premieres/?tl=pt-br

O K-drama De repente humana é um romance de fantasia que estreou em janeiro de 2026 na Netflix. Protagonizada por Lomon (de All of us are dead) e Kim Hye Yoon (de Adorável corredora), a produção tem 16 episódios e narra o destino de Eunho, uma raposa de nove caudas, que se envolve com o jogador de futebol Kang Si Yeol (Ezeji, 2026). 

Para além de se constituir como uma história de romance, repleta de momentos cômicos, o enredo inspira-se no folclore coreano ao incorporar não apenas a gumiho (구미호), mas também elementos xamanísticos e até mesmo a personificação da costelação “Ursa maior”, denominada “Pagun” ou “Pagunseongun” no K-drama.

Cabe destacar que, embora a raposa de nove caudas seja amplamente representada no entretenimento sul-coreano, trata-se de uma figura que surgiu inicialmente na mitologia chinesa, sob o nome de Huli Jing (Mitologia em Português, 2021), e que igualmente se manifesta no Japão, onde é conhecida como Kyuubi no Kitsune (Mitologia em Português, 2020), personagem que se popularizou na mídia ocidental através do anime Naruto.

No K-drama, a gumiho Eunho é a protagonista astuta (como qualquer raposa de nove caudas) que se vale dos seus poderes espirituais para enfeitiçar os seres humanos e ganhar dinheiro à custa de contratos com chaebols1. Ela assume a forma de uma mulher elegante que evita realizar pedidos que gerem “muita bondade” ou “muita maldade”, a fim de manter equilibrada a balança que mede suas habilidades espirituais e, assim, evitar tornar-se humana (o que para muitas gumihos seria um sonho). Além disso, demonstra uma atitude desdenhosa em relação aos humanos e tende a valorizar bens materiais. 

Ainda que essa descrição se assemelhe, em certa medida, à figura da raposa de nove caudas tradicionalmente representada na mitologia coreana, os roteiristas Park Chan-young e Jo Ah-young foram responsáveis por modernizar a personagem e torná-la mais palatável ao contexto da Coreia do Sul contemporânea, um país desenvolvido que ostenta uma cultura de luxo e enfrenta outros tipos de ameaça, como a impunidade daqueles que detêm o poder, por vezes mais alarmante do que uma figura mitológica. 

Dessa maneira, este K-drama, assim como muitos outros, faz referência à gumiho ao mesmo tempo em que ressignifica sua trajetória na mitologia tradicional coreana, chegando, inclusive, a ironizar a forma como essa figura era concebida na antiguidade. 

Se nos voltarmos ao folclore coreano, a raposa de nove caudas difere significativamente de suas contrapartes nos países vizinhos, onde é frequentemente associada a um símbolo de bom presságio, passando a representar uma criatura sedenta por carne humana na tradição coreana (Myth and Folklore Wiki, 2012). Tal representação aproxima-se de figuras recorrentes nas lendas ocidentais, como os vampiros, marcados pelo desejo incessante por sangue, e os zumbis, mortos-vivos que se alimentariam de cérebros humanos. Em contrapartida a esses equivalentes ocidentais, a gumiho se alimentaria do fígado ou do coração das suas vítimas, aspecto que a protagonista de De repente humana parece satirizar sempre que a sua identidade é revelada.

Além disso, assim como é representada no K-drama, a gumiho possuiria uma “conta de raposa” (여우구슬), utilizada para absorver poder espiritual (Ministry of Culture, Sports and Tourism, 2022). Contudo, diferentemente do folclore tradicional, esse poder não é adquirido por meio de um beijo, mas sim por grandes ações, como sacrifícios. No enredo, cultivar a espiritualidade (isto é, praticar boas ações) pode, ainda, transformar uma raposa de oito caudas, chamada carinhosamente de palmiho (팔미호), em uma raposa de nove caudas, processo que geralmente levaria séculos para se concretizar. 

Novamente desafiando a mitologia, a narrativa apresenta o desequilíbrio da balança espiritual como o fator responsável por transformar uma gumiho em humana, transformação que, na tradição, ocorreria após 1000 dias sem o consumo de carne humana.

Há também outros pequenos ajustes cômicos no K-drama. Por exemplo, em vez de viver na floresta (USC Digital Folklore Archives, 2022), a protagonista reside em uma mansão luxuosa no Monte Myohang, na Coreia do Norte, local que só pode acessar com seus poderes de comutação. Tal habilidade é perdida quando ela se torna humana e, portanto, não consegue retornar para casa, passando a viver com o protagonista masculino em um pequeno quarto na cobertura. 

De modo geral, observa-se que, assim como em grande parte dos K-dramas que mobilizam a figura da raposa de nove caudas — como My Girlfriend Is a Gumiho, no qual a personagem é libertada de uma pintura pelo protagonista, e My Roommate Is a Gumiho, em que a figura é representada por um homem que se torna colega de casa de uma estudante universitária após ela engolir acidentalmente a sua conta de raposa —, há um esforço em adaptar um elemento central do folclore coreano, tão importante para a identidade das Coreias, a um formato compatível com K-dramas de romance. Tal adaptação permite que essas narrativas sejam apreciadas tanto pelos sul-coreanos quanto pela audiência ocidental, o que ajuda a explicar o grande sucesso da produção no Brasil, onde permaneceu no Top 10 da Netflix por dias após o seu término.

Imagem: https://i.namu.wiki/i/9pDeUX8Q04C_I-i-qq3c4xpIix1EZPX7a7yg1AS9GZBomWbwdoe14Kp6Wh3J3fYy3D0ISh2vqqZFrbzgE6uULtLQOHqwRYrro1WQsrGxvBZHi0c8nBV3KAtOwCDZDL89QO-mmVlkQos3SgzHx-fZW836MIhajAP0aIVBN4spEps.webp

Imagem: https://en.wikipedia.org/wiki/My_Roommate_Is_a_Gumiho#/media/File:My_Roommate_Is_a_Gumiho.jpg

Atribuo o charme do K-drama não apenas à existência de uma gumiho narrativa, mas também ao fato de ela ser uma representante da chamada “Geração Z”, capaz de se adaptar tanto à era Joseon quanto à Seul contemporânea. 

Portanto, se você não é uma pessoa que preza pela verossimilhança entre mito e representação, esta é uma produção divertida para mergulhar no folclore coreano e, quem sabe, posteriormente aventurar-se por outros K-dramas com gumihos. Como entusiasta da mitologia coreana, espero que o sucesso dos filmes e K-dramas de fantasia se mantenha por muito tempo.

Referências

E., EZEJI. Kim Hye Yoon And “No Tail To Tell” Creators Discuss The Drama’s Theme, Inspiration, And More. Soompi, 06 jan. 2026. Disponível em:
https://www.soompi.com/article/1810195wpp/kim-hye-yoon-and-no-tail-to-tell-creators-discuss-the-dramas-theme-inspiration-and-more Acesso em: 02 mar. 2026.
HULI Jing, a raposa mística chinesa (e a Gumiho). Mitologia em português, 03 nov. 2021. Disponível em: https://www.mitologia.pt/huli-jing-a-raposa-mistica-chinesa-498826. Acesso em: 02 mar. 2026.
KITSUNE, ou a Lenda da Raposa de Nove Caudas. Mitologia em português, 13 out. 2020. Disponível em: https://www.mitologia.pt/huli-jing-a-raposa-mistica-chinesa-498826. Acesso em: 02 mar. 2026.
KUMIHO. Myth and Folklore Wiki, 20 ago. 2012. Disponível em: https://mythus.fandom.com/wiki/Kumiho. Acesso em: 02 mar. 2026.

LEE, J. Gumiho. USC Digital Folklore Archives, 17 mai. 2022. Disponível em:https://folklore.usc.edu/gumiho-2/. Acesso em: 02 mar. 2026.

WHAT is a gumiho? Korea Here & Now. Ministry of Culture, Sports and Tourism. 27 jun. 2022. Disponível em: https://www.mcst.go.kr/english/policy/kocis/newsView.jsp?pSeq=102. Acesso em: 02 mar. 2026.

Sobre a autora

Giovana Canez Valerão

Mestranda em Aquisição, Variação e Ensino na Universidade Federal de Pelotas (UFPEL), integrante da Curadoria de Estudos Coreanos (CEÁSIA/CEA/UFPE). Se interessa pela língua coreana, K-pop e K-dramas.

E-mail: givalerao14@gmail.com.

  1. Em coreano,재벌, termo que se refere a indivíduos oriundos de famílias proprietárias de conglomerados. ↩︎