por Júlia Santos

imagem: https://www.nytimes.com/2024/06/21/world/asia/south-korea-photos-gwangju-crackdown.html

O Movimento pela Democratização de Gwangju de 18 de maio, também conhecido como Massacre de Gwangju, ocorrido entre 18 e 27 de maio de 1980, foi um dos episódios mais marcantes da luta pela democracia na Coreia do Sul. Após a ascensão do general Chun Doo-hwan ao poder e a ampliação da lei marcial, milhares de cidadãos foram às ruas para reivindicar direitos democráticos, liberdade de imprensa e o fim da ditadura. Em Gwangju, a repressão militar foi particularmente brutal, resultando em mortes, torturas, estupros e desaparecimentos. Apesar da violência, a resistência da população transformou o movimento em um símbolo da luta contra o autoritarismo e contribuiu para o processo de redemocratização do país.
Esse momento histórico do país ganhou grande espaço nas representações artísticas, como na literatura, com o livro Atos Humanos (2014), de Han Kang, e no cinema, com o filme A Taxi Driver (2017), que levou essa história ao grande público ao acompanhar a trajetória do taxista Kim Man Seob e do jornalista alemão Jürgen Hinzpeter durante os acontecimentos em Gwangju. Inspirada em fatos reais, a obra busca destacar o protagonismo dos cidadãos diante da repressão e desempenha  papel importante na preservação da memória do Movimento. No entanto, a narrativa construída pelo filme também revela limitações significativas na forma como representa os sujeitos envolvidos nesse processo histórico.
Embora as mulheres tenham participado ativamente das manifestações, suas experiências são amplamente silenciadas no filme. Enquanto os personagens masculinos ocupam o centro da narrativa como heróis, trabalhadores, estudantes e agentes políticos, as personagens femininas aparecem de forma secundária, frequentemente sem nome próprio e definidas apenas por sua relação com figuras masculinas, como mães ou esposas.
Essa escolha narrativa contribui para a construção de uma memória masculinizada do Movimento pela Democratização de Gwangju de 18 de maio. Ao privilegiar histórias de solidariedade e heroísmo entre homens, o filme marginaliza a atuação política das mulheres e reforça estereótipos de gênero que as afastam do protagonismo histórico. Diversas pesquisadoras apontam que esse apagamento não ocorre apenas no cinema, mas também em parte das narrativas oficiais sobre o movimento democrático sul-coreano. Por exemplo, Kang Hyunah, especialmente no artigo “Women’s Experiences in the Gwangju Uprising: Participation and Exclusion”, pontua a importância do papel das mulheres no Movimento. Segundo a autora, as mulheres atuaram na organização da resistência, na circulação de informações, no atendimento aos feridos e na preservação da memória dos mortos (Kang, 2010), demonstrando que essa exclusão que ocorre nas narrativas hegemônicas não é um resultado da ausência de participação política, mas sim de processos de construção da memória que privilegiam experiências masculinas.
De modo semelhante, as trabalhadoras sexuais de Gwangju, que ficavam na rua conhecida como “Call Box Street” (Rhee, 2019), desempenharam um papel fundamental ao doar sangue para os feridos e ao ajudar a esconder jovens perseguidos pelos militares. Apesar dessa contribuição significativa, suas identidades e trajetórias permaneceram amplamente desconhecidas. Além disso, diversos hospitais recusaram suas doações de sangue por considerá-las mulheres envolvidas em uma profissão tida como impura, evidenciando o estigma social que enfrentavam (Rhee, 2019).
Esse apagamento das experiências femininas em processos históricos pode ser compreendido à luz das proposições de Nira Yuval-Davis em Gender and Nation, obra na qual a autora destaca a maneira com que as mulheres tendem a ocupar posições periféricas nas narrativas sobre a construção da nação, mesmo quando sua participação é fundamental para os acontecimentos políticos. Como consequência, esse apagamento também se manifesta nas representações culturais, incluindo o cinema, que frequentemente reproduz visões masculinizadas da história e limita a visibilidade da atuação feminina.
Dessa forma, embora A Taxi Driver seja uma obra relevante para a divulgação da história de Gwangju, sua representação evidencia como a memória coletiva pode reproduzir exclusões. Ao deixar em segundo plano as mulheres que participaram ativamente da resistência, o filme contribui para o silenciamento de experiências fundamentais para a compreensão do Movimento e da própria luta pela democracia na Coreia do Sul. Com isso, percebemos como as disputas que envolvem a memória de Gwangju demonstram que a identidade nacional não é uma característica fixa e estática, mas uma construção social e política. Nesse processo, definir quem é lembrado como protagonista da história também significa definir quem é reconhecido como representante da própria nação. 

Referências

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KANG, Hyun-ah. Women’s Experiences in the Gwangju Uprising: Participation and Exclusion. New Political Science, UK, v. 25, n. 2, p. 193-206, ago. 2010. Disponível em: https://www.tandfonline.com/doi/abs/10.1080/07393140307194. Acesso em: 09 jun. 2026.

LEE, Jae-eui. Gwangju diary: beyond death, beyond the darkness of the age. Los Angeles: University of California, UCLA Asian Pacific Monograph Series, 1999.

LEE, Myung-sik. The History of Democratization Movement in Korea. Seul: Korea Democracy Foundation(KDF), The May 18 Memorial Foundation, 2010.

LEWIS, Linda Sue. Laying Claim to the Memory of May: A look back at the 1980 Kwangju Uprising. Estados Unidos da América: Hwai’i Studies on Korea, 2002.

RHEE, Jooyeon. Beyond victims and heroes: The 5.18 cinema across gender boundary. Introduction: The problem of representing historical trauma in cultural productions. Korean Studies, v. 43, p. 68-95, 2019. Disponível em: https://pennstate.pure.elsevier.com/en/publications/beyond-victims-and-heroes-the-518-cinema-across-gender-boundary-i. Acesso em: 03 jun. 2026.

SHIM, David. Cinematic Representations of the Gwangju Uprising: Visualizing the “New” South Korea in A Taxi Driver. Asian Studies Review, v. 45, n. 3, p. 454-470, 26 de out. 2020.


2022/12121-6, Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP). As opiniões, hipóteses e conclusões ou recomendações expressas neste material são de responsabilidade da autora e não necessariamente refletem a visão da FAPESP. 


Sobre a autora

Júlia Santos

Mestranda em Ciências Sociais na Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP), integrante da Curadoria de Estudos Coreanos (CEÁSIA/CEA/UFPE). Se interessa por sociologia do cinema e estudos de gênero, pensando como essa questão reflete nas produções fílmicas.

Email: julia.andrade@unifesp.br